O docente de Administração vê-se dentro de um dilema, à medida que desconhece as fundamentações teóricas da docência do Ensino Superior, onde seu currículo escolar não contempla disciplinas direcionadas. Lacombe e Heilborn (2003) consideram a habilidade técnica do administrador que consiste na compreensão e domínio de determinado tipo de atividade.
Isaia (2006 p.69), ainda sobre a formação docente, acrescenta que “não se pode esquecer de que a docência integra tanto o saber e o saber-fazer próprios a uma profissão específica quanto o modo de ajudar o aluno a construí-los, considerando sua dimensão formativa”, o que claramente envolve conhecimento especializado, habilidade analítica dentro da especialidade e facilidade no uso das técnicas e do instrumental da disciplina. Demonstra claramente uma fusão instrumental das habilidades do administrador e formação acadêmica do professor. Freire (1987) já disseminava a idéia de que no professor prevalecia um processo de educação bancária, onde o aluno era mero receptor do seu conhecimento indiscutível e onde o processo de aprendizagem dar-se-ia de duas formas distintas: uma de forma mecanizada em que o aluno torna-se mero receptor de informações e busca memorizá- la e repetir corretamente as habilidades estabelecidas, outra de forma significativa onde o aluno é conduzido a estabelecer uma relação com seus conhecimentos, sua história de vida, dando-lhe um lugar dentro de um todo mais amplo”.
Krishnmurti (1999 apud LEITÃO; JUNIOR, 2006, p. 20), sobre o ensino de Administração, coloca que o “modo como se ensina é como se aprende, até porque todo conhecimento se funda no passado e é acumulativo, operando como um centro que influencia o pensar de todas as coisas”.
Já Couvre (1982), sobre o mesmo assunto, considera o administrador-técnico aquele que está fora da área burocrática e atende mais a tarefas técnicas e não a relações humanas. Ao conceituar racionalidade instrumental, Oliveira e Lima (2003, p. 12) ressaltam que: “está associada ao conjunto de crenças e valores que rege a sociedade moderna, direcionando-a exclusivamente para o cálculo”. Existe desta forma uma necessidade de tangibilizar e quantificar conhecimento, expressados pelo próprio modelo das organizações, do início do
século XX preocupadas, excessivamente, em produzir bens e melhorar a eficiência de seu processo produtivo, com o intuito clássico de gerar certezas financeiras.
As organizações utilizavam-se deste caráter instrumental em busca de uma estruturação de seus meios normativos e produtivos, cujo desenvolvimento organizacional era baseado no crescimento de suas estruturas hierárquicas e na institucionalização de seus procedimentos. Este "modus operandi", característico das organizações racionais instrumentais, obteve seu ápice a partir do Taylorismo e consequentemente com o Fordismo, os quais acabaram por nomear esse modelo de pensamento prevalecente, no início do conhecimento administrativo enquanto cientificidade e praticamente definindo o profissional atuante até metade de século, e, por fim, serviram de base e modelo para os profissionais da Administração com tais características. Nicolini (2003, p. 50) adverte sobre esta tendência instrumetalizadora predominante no ensino de Administração:
As escolas de Administração são como organizações industriais. A partir de um padrão de produção, determinado por características da escola e por necessidades locais, elas definem sua maneira de realizar a tarefa de formar administradores, escolhem os trabalhadores mais adequados a essa tarefa e selecionam, de acordo com sua credibilidade e prestígio, a matéria-prima. Em outras palavras, uma proposta de currículo pleno, um bom corpo docente e bons estudantes, consequentemente seriam suficientes para formar bons administradores.
Nesta condição mecanicista e instrumentalista, Nicolini (2003) visualiza e correlaciona criticamnte a estrutura dos cursos de Administração como se fossem uma “linha de produção do Administrador” limitadora e insuficiente para sua formação.
Figura 3.1 – A Estrutura mecanicista do Ensino de Administração Fonte: Adaptado de Nicolini (2003).
A dissociação do contexto histórico das teorias administrativas e da forma como a Administração é ensinada, não pode ser levada em consideração, pois, existem elementos definitivos para justificar o prevalecimento desta forma.
Guerreiro Ramos (1981, p. 27), sobre as raízes da burocratização do conhecimento e sobre uma época em que a instrumentalização era tida como padrão para sustentação da classe dominante, reflete:
Max Weber viveu num contexto histórico em que a racionalidade formal, ou funcional, substituía amplamente a racionalidade substantiva, como o principal critério para a ordenação dos negócios políticos e sociais. Tomou como certa essa substituição e recusou-se a erigir a ciência social sobre a noção da racionalidade substantiva.
A simplicidade utópica do ensinar e aprender vem se mostrando um processo de dicotomia enraizada, durante anos nas Instituições de Ensino Superior, as quais ainda tentam dividir tais processos sobre o prisma de uma racionalidade instrumentalizada, que, quando colocadas em sala de aula, podem gerar incertezas, dúvidas e traumas para aqueles que estão compartilhando desta sociabilidade. Como se pode definir e afirmar quem está ensinando e quem está aprendendo, uma vez que esta relação não mais pode ser fragmentada e dividida? Fica estabelecido que durante esta caminhada o professor seja, sim, detentor e responsável por todo o conhecimento e conteúdo que deve ser ensinado, com o aluno desempenhando apenas um papel coadjuvante de mero receptor das informações transmitidas pelo professor.
Esta postura racionalista de pensar a educação no ensino superior caracteriza-se por duas fases bem distintas, que se pode chamar de seleção e exposição. Ao professor cabe a responsabilidade de selecionar o conteúdo, além de organizá-lo e sistematizá-lo didaticamente para assim facilitar o aprendizado do aluno. A partir daí, o professor torna-se isento de qualquer responsabilidade, pois o aluno que memoriza as informações nos remete diretamente a um processo ultrapassado, conteudista e mecanicista de aprendizagem, em que é estabelecida uma relação de repasse de conhecimento, sem um real comprometimento com o processo de educação. Esta relação não se limita ao campo do ensino superior, ela acentua-se à medida que se parte do princípio de que, nesta nova fase da educação, o ser humano é responsável pela busca do conhecimento.
A proposta inicial sobre este trabalho não é somente delinear as áreas de atuação dentro das atividades do docente de Administração, mas sim promover a discussão sobre o que realmente prevalece na sua atuação como professor e como administrador, por um lado
influenciado pela enraização de uma racionalidade instrumentalizada que teve início com os modelos administrativos.
A racionalidade instrumental está associada ao conjunto de crenças e valores que transcende o cálculo. Oliveira e Lima (2003), dentro desta perspectiva o professor, tem a necessidade de rastrear a substantividade, uma vez que ele desenvolve suas atividades buscando a auto-realização. Deste ponto de vista a atuação do professor é considerada substantiva, mas ao se levar em consideração o tecnicismo necessário para aplicação em sua formação, ele se depara com um processo de instrumentalização já que a “arte de ensinar” integra valores e técnicas.
Serva (1997, p. 27), a partir de trabalhos de Guerreiro Ramos (1981) e Hábermas (1987), define a ação racional instrumental como “ação baseada no cálculo, orientada para o alcance de metas técnicas ou de finalidades ligadas a interesses econômicos ou de poder social, a partir da maximização de dos recursos disponíveis” em uma referência estritamente direcionada a uma dimensão racionalista. A continuação deste pensamento perpassa a constituição do cálculo como projeção dos atos humanos pelas metas de natureza técnica, maximização de recursos através da eficiência e eficácia, sem um questionamento ético prevalecente da substantividade e sem diferenciamento dos recursos, sejam eles humanos ou de qualquer outra espécie, bastando unicamente o alcance dos resultados que são considerados vitoriosos, em que o desempenho tem caráter individualista, característico do Taylorismo, em virtude da utilidade e rentabilidade.