F) CÜMLE ÖGELERİNDE EKSİLTİ
2. Nesne Eksiltili Cümleler
Ao chegarmos neste último capítulo (o menor em tamanho e maior em coragem de todos os capítulos desta tese), finalmente abordamos o terceiro eixo de exploração proposto por este trabalho: a produção colaborativa de uma obra de videoarte inspirada pelo conceito do sublime nanotecnológico. O método usado para descrever o processo de produção desse video é o etnográfico: neste capítulo relatarei, em primeira pessoa, o contexto e as diversas etapas da colaboração artística entre mim e a artista Juliana Mundim, situando nossa experiência dentro da estética conectiva (GABLIK, 1992) e da estética relacional (BOURRIAUD, 2008).
A arte colaborativa é uma modalidade de criação conjunta que busca transcender as fronteiras da subjetividade individual em busca de uma intersubjetividade compartilhada entre a dupla ou time de autores. Ao contrário da arte individual, que privilegia a expressão da identidade pessoal do artista através de sua obra, a arte colaborativa privilegia a sobreposição entre diferentes perspectivas individuais. A atitude colaborativa exige a formação de um consenso entre os participantes, para que o que é comum se sobreponha às diferenças de cada um.
Quanto mais diferença existir entre as capacidades, talentos e posições dos criadores, maior a originalidade de seu produto final: é o que nos afirma a estética conectiva de Suzi Gablik (1992). Segundo a autora, a arte contemporânea é sobretudo a esfera de uma interatividade social, profundamente intersubjetiva. Há que se romper com o mito do isolamento criativo, estereotipado na 'genialidade' artística, para que "a arte possa ser a corporificação de uma união pessoal" (GREEN, 2001: 120). A estética conectiva, materializada através da arte colaborativa, apaga as fronteiras entre as expressões particulares e a separação individual entre 'eu' e 'outro'.
Essa fusão entre subjetividades individuais no processo de colaboração artística dá origem ao que Charles Green (2001: 186) chama de 'terceira mão': "a dupla identidade criada através da colaboração artística pode ser descrita como uma extensão fantasma
da vontade conjunta dos artistas [...] um apêndice fantasma ou uma terceira mão". A terceira mão não pertence a um terceiro artista, mas sim representa um território de expressão compartilhada por ambos os artistas simultaneamente. Esse território comum ultrapassa as subjetividades individuais e permite que a intersubjetividade se apresente como força conjunta e autônoma.
Se a arte moderna foi marcada pelo individualismo exacerbado da criação autoral, a arte contemporânea acontece, ao invés, em 'interstícios sociais' próprios à estética relacional de Nicolas Bourriaud (2008):
A estética relacional não constitui uma teoria da arte, já que isto
implicaria o enunciado de uma origem e de um destino, senão de uma teoria da forma. A que chamamos forma? A uma unidade coerente, uma estrutura (entidade autônoma de dependências internas) que apresenta as características de um mundo: a obra de arte não é a única; é só um subgrupo da totalidade das formas existentes. Na tradição filosófica materialista (...), os átomos caem no vazio, ligeiramente em diagonal. Se um desses átomos se desvia de sua trajetória, "provoca um encontro com o átomo vizinho e de encontro em encontro, uma série de colisões e o nascimento de um mundo". Assim nascem as formas, a partir do "desvio" e do encontro aleatório entre dois elementos até então paralelos. Para criar um mundo, esse encontro deve ser duradouro: os elementos que o constituem devem unir-se em uma forma (...) A forma é definida como um encontro duradouro" (BOURRIAUD, 2008: 19).
A arte contemporânea é um encontro que persiste. No caso da arte colaborativa este encontro se dá entre subjetividades; muito embora reúna espacialidades, temporalidades, enfim: materialidades. O encontro intersubjetivo se articula na materialidade do espaço-tempo. É assim que nosso encontro - Renata Lemos (pesquisadora) e Juliana Mundim (artista) - tem na materialidade não apenas seu suporte mas também seu objeto.
Contudo, esta materialidade não é aqui entendida em seu sentido corriqueiro. A materialidade com a qual estamos lidando nessa tese reside na intersecção entre matéria primeira e matéria segunda: a individuação. A materialidade que é o objeto de um nano sublime tem raízes imateriais. Criar uma representação visual para o sublime nanotecnológico, que por definição pertence à dimensão "da sublimidade, produzida
pela contemplação estética num total abandono do eu" (ALMEIDA, 2009:245), é um exercício intersubjetivo que pertence ao âmbito da estética relacional e conectiva.
Desde que surgiu a ideia de explorar o conceito de sublime nanotecnológico como o tema desta tese, surgiu também o impulso de trilhar as veredas da arte como um método de conhecer o desconhecido; de tornar visível o invisível – um impulso que, em si mesmo, pertence à própria dinâmica da nanoconvergência: o desbravamento da fronteira entre material e imaterial. Começamos o exercício de pensar o nanotecnológico no primeiro capítulo, descrevendo conquistas científicas que nos trazem dados mensuráveis sobre as condições físicas da nanoescala e de suas propriedades e possibilidades, as quais são as causas sensíveis da experiência de um sublime nanotecnológico.
A partir dessas possibilidades, passamos então à exploração das suas implicações filosóficas, elaborando a composição teórica de um sublime nanotecnológico. Dentre as muitas definições aqui propostas ao nano sublime, talvez a que corresponda melhor ao consenso estético que aconteceu entre nós, o qual tornou possível uma poética relacional entre nós duas, foi pensar esse nano sublime em termos da transimanência que possibilita a continuidade do infinito existente em nós mesmos e no mundo ao nosso redor. Lidar com a profundidade da transimanência presente nessa continuidade foi o nosso maior desafio ao tentar traduzir visualmente essa ideia.
Em meio às muitas questões que pautaram nossa colaboração, nos perguntávamos: como tornar imagem a não-imagem do 'infinito que existe em nós mesmos'? Como representar a matéria que é em si mesma representação? Como transmitir o recado de que a sublimidade nanotecnológica não reside em uma 'dimensão' material, em um 'mundo' em nanoescala, mas sim como 'parte constitutiva de nós mesmos e do mundo em que vivemos'?
Em outubro e novembro, após a artista Juliana Mundim ter aceitado o convite para criar uma narrativa visual sobre o sublime nanotecnológico, nosso diálogo colaborativo começou a acontecer através de uma série de emails. Começamos escolhendo o infinito e
a alquimia como referências estéticas e pontos de partida simbólicos. À medida que o texto de cada capítulo da tese ia ficando pronto, era enviado como subsídio teórico para a artista. Dentre as imagens que trocávamos, experimentando com diversas simbologias, estava a imagem do ouroboros:
Figura 26: Ouroboros
Da mesma forma, nas nossas muitas conversas sobre a relação entre a alquimia e a nanotecnologia, havia sempre a referência à ideia de unidade e totalidade que está implícita à imagem do ouroboros. Chegamos então a um consenso em relação à utilização do ouroboros como imagem simbólica pertencente ao imaginário visual que estávamos desenvolvendo.
No dia 09 de novembro, Juliana respondeu com a ideia de remixar o video i remember
the world, parte de seu projeto online Pocket Films for Travelers42. No email enviado
nesse dia, Juliana sugere, em resposta ao capítulo sobre o sublime nanotecnológico: "acho que podemos usar imagens [do vídeo i remember the world] porque tem muita
42 http://pocketfilmsfortravelers.com/
referência ao universal, ao átomo, a coisas que estão e não estão... e acho que também ao sublime". Passamos então a um diálogo sobre o paralelo entre a visualidade do video i
remember the world, que traz elementos estéticos fortemente relacionados com o
conceito de infinito e com a tensão entre unidade e multiplicidade, e a estética de um sublime nanotecnológico.
O video i remember the world é marcado pelo forte contraste das imagens em preto e branco de paisagens que 'correm' com grande velocidade entre o humano e a tecnologia; da geometria natural de relâmpagos como retas que se movem como rizomas entre céu e terra infinitos, contrapondo-se à geometria tecnológica de pontos de luz artificial; do movimento humano que se dá entre as grades do transporte urbano e a liberdade das ondas do mar; das formas e dos corpos que 'derretem' em círculos e rodas; espaços e partículas; tramas matemáticas que unem organicidades a inorganicidades; ruídos, desvios, continuidades e polaridades; ambas infinitas.
Nossa colaboração se deu na forma de uma fusão entre as referências estéticas do video
i remember the world e as referências teóricas do conceito de sublime nanotecnológico
apresentado nesta tese. Nas palavras da própria Juliana Mundim:
"A Renata me propôs uma especie de ilustração em forma de vídeo para o trabalho. Eu achei o conceito belíssimo. Conversamos diversas vezes sobre os conceitos de sua tese e em como ela pensava o medieval, o nanotecnológico e o sublime. Li capítulos de sua tese e isso me ajudou a entender nossas conversas. A partir disso foram criadas as imagens. Me lembro de uma música que dizia que as coisas modernas sempre existiram e que estavam dentro de uma caverna esperando pelo momento certo para sair. De alguma forma eu percebo a nanotecnologia como algo que sempre esteve aí, invisível, esperando pra se tornar 'palpável'. Me parece natural que o microscópico se torne aparente e 'manuseável'. Penso na nanotecnologia como a ciência dos detalhes, os detalhes mais sutis que fazem a diferença das coisas enormes e mais óbvias. Acho que o invisível está no visível e vice versa. Pensando desta forma, não existem muitas fronteiras entre os dois, um é continuação do
outro, ou um está dentro do outro. Dessa maneira as imagens puderam ser trabalhadas de forma mais livre, sem uma rigidez, tentando libertar-se do clichê da tecnologia onde coisas e imagens são produzidas por computadores ou laboratórios. A nanotecnologia, me parece, provém de todas as coisas, assim como todo o resto. Desse modo, o vídeo foi concebido a partir da ideia que o nano é praticamente onipresente e chega a ser quase religioso. O sublime está presente semeando tudo como uma oração de fundo ou um mantra. Este aspecto quase religioso do 'nanosublime' foi o foco principal para a criação do video. A cadência da vida, o zoom in and out do macro e micro, o átomo pulsante, o tempo ao contrário ou em fast foward e a coexistência universal, aqui foram representadas por imagens sobrepostas, onde uma leva a outra e outra, de maneira entrelaçada e rítmica. A trilha sonora também foi feita deste modo, com uma união de ruídos e músicas sobrepostas – o ruído do sublime é o ruído de todas as coisas"