A partir da apresentação conceitual realizada na seção anterior será colocado a seguir o posi- cionamento do Brasil com relação aos principais pressupostos culturais que distinguem as culturas das nações. Nesse sentido, será apontado, com base nas conceituações dos autores citados acima, como o Brasil se posiciona com relação aos seguintes aspectos: importância e distribuição do poder, importância atribuída ao grupo versus ao indivíduo, relacionamento com a natureza e com as incertezas do ambiente, importância das pessoas versus do negócio e a orientação que se possui com relação ao tempo.
O Brasil pode ser compreendido segundo Hofstede (1997, 2001) e House et al (2004), como um país em que a desigualdade de poder entre os indivíduos é grande. Ela se expressa no ele- vado grau de hierarquização da sociedade colocando indivíduos com menos poder em uma relação de dependência dos mais poderosos. A desigualdade de poder é esperada na sociedade e centraliza o poder nas mãos de poucos. Cria-se a partir daí uma situação em que o tipo de superior esperado nas relações sociais e profissionais é um tipo autocrata benevolente, um indivíduo que mais se assemelha a um “bom pai”. Nesse sentido, uma dose grande de autori- dade, poder e status é colocada nessa figura que possui também diversos privilégios e regras exclusivas. Essa distância existente entre superior e subordinado revela, por outro lado, su- bordinados passivos que esperam que lhes seja dito o que fazer.
Hofstede (1997, 2001) e House et al (2004) também apontam o Brasil como um país em que predomina a tendência ao coletivismo. A necessidade de pertencimento a grupos é forte, os grupos possuem a função de proteger o indivíduo e o indivíduo deve a eles sua lealdade. Por isso, os conflitos são evitados e a harmonia perseguida. O relacionamento entre empregado e empregador é percebido como um vínculo “de família”, motivo pelo qual as contratações e
promoções são realizadas, por vezes, levando-se em consideração o grupo ao qual o indivíduo pertence. Há, nesse sentido, uma grande distinção entre o grupo a que se pertence e o grupo dos outros. Por isso, as relações entre as pessoas devem ser de caráter pessoal e de confiança, principalmente para realização de negócios. A importância das relações é tão grande que aca- ba, por vezes, prevalecendo sobre as tarefas.
No Brasil, segundo os mesmos autores acima, é alta a necessidade de evitar incertezas. Estas são vistas como ameaças que devem ser combatidas. Para isso, há grande necessidade de re- gras e procedimentos como garantia de maior grau de controle e previsibilidade nas ações e situações. Os indivíduos são motivados pela segurança e pelo senso de pertencimento, possu- em a necessidade estar sempre ocupados e possuem uma pressão interna para o trabalhar duro. A grande quantidade de regras e procedimentos que visam aumentar o grau de controle e pre- visibilidade nas ações e situações acaba por atuar como algo inibidor de inovações.
O Brasil encontra-se nos estudos de Hofstede (1997, 2001) em uma posição intermediária entre valores femininos e masculinos, mas apresenta leve predominância de características típicas da feminilidade (Urdan e Urdan, 2001; Alcadipani e Crubellate, 2003). Neste caso os valores dominantes são os de cuidado com o próximo e as pessoas, os relacionamentos com o próximo e com os superiores constituem elementos importantes. Espera-se que os indivíduos sejam modestos, solidários e não agressivos. Os gestores atuam utilizando muito a intuição e buscando o consenso. O foco dessas culturas está mais na igualdade entre indivíduos, na soli- dariedade e na qualidade de vida do que nos resultados do negócio. Elementos como a asser- tividade, a agressividade, a competição, a ambição e a preocupação com resultados e perfor- mance estariam em segundo plano. Nesse sentido, a orientação à performance no Brasil tam- bém tenderia a ser baixa (Javidan, 2004). A cultura nacional tenderia a valorizar mais os rela- cionamentos familiares e sociais, a lealdade, o senso de pertencimento, a senioridade e a expe- riência, a harmonia com o ambiente, a cooperação entre os indivíduos, a tradição e a simpatia e a comunicação ambígua e sutil (alto contexto) valorizando mais aquilo que se é do que aqui- lo que se faz. A abordagem com relação ao tempo é policrônica e o senso de urgência é redu- zido. A assertividade tende a ser socialmente inaceitável e a motivação pelo dinheiro inapro- priada.
Kabasal e Bodur (2004) investigam a dimensão que denominaram orientação humana e suge- rem que o Brasil é um dos países com menor orientação humana de acordo com as definições
que fizeram da dimensão. Isso significa que, na concepção desses autores, no Brasil os inte- resses próprios são muito importantes assim como a valorização do prazer, do conforto, do poder e das possessões materiais. Essas últimas constituem fortes motivadores dos indivíduos. Há falta de apoio e suporte aos outros e espera-se que as pessoas resolvam seus problemas pessoais por conta própria. Nas organizações que atuam no Brasil, as relações seriam formais, o controle social feito por meio de regras burocráticas, o foco principal seria a responsabilida- de social e os indivíduos dariam preferência à realização do trabalho de maneira individual e não em grupo.
A orientação para o longo prazo seria outro traço do Brasil segundo Hosftede (1997, 2001). Esta constitui uma dimensão que remete por um lado às questões materiais como a tendência à persistência e tenacidade dos indivíduos na perseguição de suas metas e cuidados com as- pectos materiais e investimentos. Por outro lado, essa concepção de orientação a longo prazo sugere uma cultura fortemente hierarquizada em que os relacionamentos são ordenados pelo status que se possui, mas que ao mesmo tempo possui um senso de respeito dos indivíduos uns pelos outros.
Ashkanasy (2004), no entanto, também trabalha com a idéia de orientação ao futuro e sugere que o Brasil se encontra em uma posição intermediária com relação a esse elemento, mas que tende à baixa orientação ao futuro. De acordo com a conceituação de orientação ao futuro que desenvolveu, o Brasil seria uma nação com propensão a gastar e não a poupar, cujas organiza- ções possuem uma orientação estratégica de curto prazo, com indivíduos menos motivados intrinsecamente e que valorizam o sucesso e ganhos imediatos. As lideranças no Brasil atuari- am preponderantemente na repetição e reprodução de rotinas de trabalho.
Em suma, o Brasil pode ser compreendido como um país com uma cultura nacional de eleva- da distância de poder, com comportamentos mais coletivistas do que individualistas e com alta tendência a evitar incerteza. Há leve predominância de atitudes características de socieda- des femininas com baixa orientação à performance. O Brasil é orientado ao longo prazo pelas conceituações de Hofstede (1997, 2001), mas possui baixa orientação ao futuro de acordo com as definições de Ashkanasy (2004). A orientação humana é baixa (Kabasal e Bodur, 2004), a abordagem com relação ao tempo é policrônica e a linguagem é de alto contexto.