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5.1 Fêmeas

A influência da gestação no comportamento neofóbico das fêmeas

De uma forma geral, pudemos observar que as fêmeas no período gestacional se mostraram mais receptivas aos itens alimentares não familiares, independente da qualidade gustativa dos mesmos. Houve diferença significativa tanto no consumo de itens (U = 468,5; Z = -5,473; P < 0,001) (Figura 1), quanto na latência para o consumo do primeiro item (U = 376,5; Z = -6,145; P < 0,001) (Figura 2).

Figura 1: Mediana e desvio interquartílico da quantidade de itens consumidos em relação à gestação.

Figura 2: Mediana e desvio interquartílico da latência para o consumo do primeiro item, independente da qualidade gustativa, em relação à gestação.

A qualidade gustativa e o comportamento de neofobia em fêmeas de C. jacchus

As fêmeas, independentemente de estarem ou não em período gestacional responderam melhor aos alimentos doces, apresentando uma latência menor para o consumo do primeiro item (U = 549,000; Z = -4,653; P < 0,001) (Figura 3), e consumindo uma maior quantidade de itens doces do que de itens salgados (U = 689,500; Z = -3,665; P < 0,001) (Figura 4).

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Figura 3: Mediana e desvio interquartílico da latência para o consumo do primeiro item apresentado em relação à qualidade gustativa deste item (doce ou não doce).

Figura 4: Mediana e desvio interquartílico da quantidade de itens consumidos por fêmeas em relação à qualidade gustativa do alimento.

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Gestação x qualidade gustativa

Com o objetivo de verificar se a qualidade gustativa poderia influenciar diferencialmente fêmeas grávidas e não grávidas, analisamos mais detalhadamente o comportamento das fêmeas, e foi possível observar que para cada alimento especificamente (doce ou não doce) a média dos itens consumidos foi maior para as fêmeas no período de gestação para ambos respectivamente (alimento doce: U = 102,00; Z = -5,246; P < 0,001; alimento não doce: U = 60,00; Z = -3,939; P < 0,001) (Figura 5), bem como a latência para o consumo do primeiro item foi menor do que a apresentada pelas fêmeas não grávidas (alimento doce: U = 108,00; Z = -5,109; P < 0,001; alimento não doce: U = 74,500; Z = - 3,509; P<0,001) (Figura 6).

Figura 5: Média e intervalo de confiança (95%) para os itens consumidos doces e não doces em relação à gestação.

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Figura 6: Média e intervalo de confiança (95%) para a latência em segundos para o consumo do primeiro item.

5.2 Filhotes

A experiência intra-uterina e a neofobia alimentar de filhotes após o nascimento

Houve diferença significativa entre os comportamentos referentes à latência para o consumo do primeiro item (U = 876,000; Z = -2,427; P = 0,015) (Figura 7), quantidade de itens consumidos (U = 895,500; Z = -2,302; P = 0,021) (Figura 8) e também nas aproximações em relação ao comedouro (U = 862,000; Z = -2,530; P = 0,011) (Figura 9), para filhotes cuja mãe tivera contato com o item apresentado em relação aos cuja mãe não teve este contato. Os comportamentos exploratórios não apresentaram diferenças significativas.

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Figura 7: Mediana e desvio interquartílico da latência para o consumo do primeiro item em relação à experiência intra-uterina (consumo do item pela mãe durante o período gestacional).

Figura 8: Mediana e desvio interquartílico da quantidade de itens consumidos por filhotes em relação ao consumo prévio da mãe destes mesmos itens durante o período gestacional.

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Figura 9: Mediana e desvio interquartílico da quantidade de aproximações do filhote em relação ao consumo prévio do item pela mãe durante o período gestacional.

Neofobia alimentar e o sexo dos filhotes

Verificamos que os filhotes do sexo feminino expressam menos comportamentos neofóbicos do que os do sexo masculino, apresentando uma latência menor para o consumo do primeiro item apresentado (U = 1346,500; Z = -2,230; P = 0,02) (Figura 10), consumindo mais itens (U = 895,500; Z = -3,127; P = 0,002) (Figura 11) e se aproximando mais vezes do alimento apresentado (U = 862,000; Z = -2,530; P = 0,01) (Figura 12).

Figura 10: Mediana e desvio interquartílico da latência para o consumo do primeiro item relacionado ao sexo do filhote.

Figura 11: Mediana e desvio interquartílico da quantidade de itens consumidos em relação ao sexo do filhote.

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Figura 12: Mediana e desvio interquartílico da quantidade de aproximações do alimento apresentado em relação ao sexo do filhote.

6. DISCUSSÃO

Vários estudos sugerem que animais onívoros, em especial primatas, apresentam preferência para alimentos doces, não demonstrando neofobia àqueles que contenham alto teor de açúcar (Johnson 2007, Laska 2000, 2001). Em macaco aranha, por exemplo, Laska (2000) verificou que quando oferecidos itens alimentares variados, houve preferência aos de alto valor energético, em especial aos que contenham maior quantidade de carboidratos. Além disso, outros primatas também parecem utilizar a qualidade gustativa doce como critério para a seleção de sua dieta (Laska 1999). Nossos resultados parecem apoiar essa hipótese. A partir das categorias comportamentais observadas, o alimento doce, parece realmente não despertar tantos comportamentos neofóbicos nas fêmeas quanto o alimento salgado, sendo mais rapidamente aceito. As fêmeas apresentadas aos itens doces tiveram um tempo de latência menor para o consumo do primeiro item, e também ingeriram uma maior quantidade de itens do que as expostas ao item salgado. Esse fato parece estar de acordo com a teoria de que a qualidade gustativa doce seria uma pista confiável de palatabilidade e de menores riscos, já que grande parte dos itens que possuem essa característica podem ser considerados alimentos em potencial. Além disso, a aceitação de itens não familiares mais energéticos pode ser benéfica ao diminuir a chance do risco de inanição (Krebs & Davies 1996).

Nossa pesquisa sugere que, além disso, o período de gestação exerce influência no comportamento de neofobia alimentar, tanto para os itens doces quanto para os itens salgados. Fêmeas grávidas se mostraram mais receptivas para as duas categorias alimentares quando comparadas às fora deste período, porém o alimento doce foi mais facilmente aceito. As fêmeas observadas durante a gestação praticamente não apresentaram

31 comportamentos neofóbicos a estes itens, aceitando-os desde a primeira exposição, não realizando, inclusive, comportamentos exploratórios antes da ingestão e consumindo uma maior quantidade de itens do que a pré-estabelecida para cada indivíduo. Qual seria o motivo para esses alimentos despertarem respostas menos neofóbicas em gestantes?

É preciso observar que para fêmeas de C. jacchus, um aporte alimentar adequado é um fator de grande importância, especialmente na gestação (Box 1997, Lacerda 2004, Power 1999), pois, assim como a maioria dos primatas do Novo Mundo, o custo energético envolvido nesse período é extremamente alto (Nievergelt & Martin 1999). Ainda segundo estes autores, as mudanças que ocorrem no corpo da fêmea grávida (aumento do peso corporal em aproximadamente 20%) certamente acarretam um aumento no consumo energético, que deve ser suprido com enriquecimento da dieta. Além disso, em calitriquídeos, fêmeas normalmente dão luz a gêmeos dizigotos que pesam em torno de 15% do seu próprio peso, e que o tamanho do filhote aumenta ainda mais os gastos energéticos e parece estar relacionado com o melhoramento da alimentação da fêmea no período gestacional (Sanches et al. 1999). Devido a todos esses custos, há de se esperar que fêmeas grávidas sejam pouco neofóbicas a itens que possam representar alimentos em potencial, especialmente aos mais energéticos.

Em relação aos filhotes, verificamos a maior receptividade dos mesmos aos alimentos quando estes foram previamente apresentados às suas mães durante o período de gestação. Esse resultado corrobora com a nossa hipótese de que há influência intra-uterina no comportamento alimentar pós-natal, ou seja, o consumo de determinados alimentos pela fêmea grávida influencia diretamente o comportamento alimentar de sua prole. Esse fato era esperado, pois, durante o seu desenvolvimento o feto é exposto a nutrientes, sabores e odores importados da dieta materna, que penetram através do líquido amniótico e são

absorvidos pelo feto, entrando em contato com o seu aparato olfato-gustatório. Alguns estudos mostraram que, em humanos e em animais de laboratório (ratos, camundongos e suínos), mudanças no comportamento alimentar da mãe durante o período gestacional podem gerar um “imprinting” pré-natal afetando o apetite durante a vida futura da prole, ou seja, preferências para sabores específicos podem ter origem na exposição ao sabor da dieta materna (Stylianos 2008). Outros trabalhos demonstraram o aumento da palatabilidade na infância e na vida adulta de roedores, após a experiência pré-natal, ao álcool (Chotro et al. 1990, Youngentob et al. 2007, Eade et al. 2009) e ao sal (Leshen 1999).

Poderíamos, dessa forma, considerar que a baixa neofobia aos alimentos doces na infância e ao longo da vida, podem ter origem intra-uterina, visto que observamos que a fêmea se mostra altamente neofílica a estes itens quando grávida. Esse fato pode ter evoluído por ser adaptativamente vantajoso. Se considerarmos que fêmeas que aceitam facilmente alimentos doces e altamente energéticos influenciam sua prole para a aceitação de itens alimentares da mesma categoria, esta fêmea estará ampliando a chance de sobrevivência de seus filhotes e consequentemente atuando no aumento de sua própria aptidão.

Observamos também que ocorre diferença na resposta aos alimentos quando comparamos o sexo dos filhotes. Em nossos dados, os filhotes do sexo masculino se mostraram mais prudentes, apresentando maior latência para o consumo dos itens oferecidos e também ingerindo uma menor quantidade, demonstrando o que poderíamos considerar como um comportamento mais neofóbico. Esses dados estão de acordo com a nossa hipótese, uma vez que diferenças semelhantes já foram observadas em saguis, C. jacchus, adultos. Michels (1998) ao realizar estudos sobre fêmeas de C. jacchus, observou que estas se mostram mais eficientes do que machos na obtenção de comida. Também de

33 acordo com Petto e Devin (1988), observações realizadas imediatamente após a introdução de um alimento na condição de cativeiro mostraram forte diferença entre os sexos tanto na aceitação quanto no tempo gasto com o consumo. Fêmeas se mostraram mais receptivas e também permaneceram mais tempo se alimentando, além de ingerirem uma maior variedade de alimentos, quando estes foram oferecidos. Além disso, estudos realizados por Yamamoto et al. (2004) também verificaram essa diferença comportamental entre os sexos. Segundo esses autores, ao apresentar uma tarefa de desempenho para a aquisição de um alimento, os saguis do sexo feminino (reprodutoras ou não) obtiveram um melhor resultado que os do sexo masculino, apresentando uma latência menor para a obtenção do alimento, utilizando mais estratégias para tal, e com isso consumindo mais itens.

Testes análogos foram realizados em calitriquídeos do gênero Saguinus (S. labiatus, S. fuscicollis e S. oedipus). Apesar dos autores terem encontrado algumas variações entre as três espécies, os resultados se mantiveram semelhantes na diferença do desempenho e aquisição de alimento entre os sexos, com as fêmeas apresentando melhores resultados, menor neofobia ao aparato experimental, obtendo assim uma maior quantidade de alimentos (Box et al. 1995). É importante ressaltar que os primatas utilizados nesses testes não apresentam diferenças morfológicas que poderiam justificar a diferença de desempenho, e sendo assim, esses resultados poderiam também ser explicados pela maior necessidade energética da fêmea devido aos custos envolvidos posteriormente na reprodução.

Os comportamentos que atuam na melhoria do desempenho para a obtenção do alimento, assim como as características menos neofóbicas, podem ter sido evolutivamente importantes para a fêmea, pois a aptidão da fêmea é altamente influenciada pelo acesso aos recursos alimentares, enquanto a aptidão do macho é afetada principalmente pelo acesso à

fêmeas receptivas (Silk 2002). Em várias condições o sucesso reprodutivo da fêmea tem sido ligado a sua condição nutricional, pois fêmeas melhor alimentadas iniciam a reprodução mais cedo, produzem proles mais saudáveis e se reproduzem por mais tempo (Strier, 1999).

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7. CONCLUSÕES

Os resultados obtidos em nosso trabalho nos permitem chegar às seguintes conclusões:

1. Tanto fêmeas em período gestacional quanto as fora desse período são menos neofóbicas a alimentos com alto teor de açúcar do que a alimentos salgados; 2. Fêmeas em período gestacional são menos neofóbicas do que fêmeas fora deste

período tanto para itens doces quanto para salgados;

3. Filhotes que tiveram contato intra-uterino com um item alimentar respondem mais prontamente a esse alimento do que os filhotes que não passaram por essa experiência;

4. Desde a infância as fêmeas já demonstram menos comportamentos neofóbicos do que os machos de sagui (Callithrix jacchus).

Apesar da consistência dos nossos resultados, mais dados necessitam ser coletados a fim de esclarecer outros mecanismos envolvidos na neofobia alimentar bem como na transmissão de preferências alimentares pela via intra-uterina em saguis.

8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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