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O primeiro registro da figura do ouvidor remota ao Brasil-colônia. Este ouvidor representava a coroa real portuguesa e, portanto, divergia do modelo sueco do

ombudsman.

Com relação à época do Império, existe um registro sobre algo semelhante a uma ouvidoria no Brasil. Esse registro se refere ao deputado constituinte José de Souza Mello, que, em 1823, segundo DIAS (2005, p. 6), apresentou um projeto cujo artigo 5º estabelecia:

“Para desafogo e liberdade dos povos, haverá em cada província um Juízo do Povo, a quem recorra nos casos de opressão para apresentar na Corte as suas queixas o que o mesmo Juiz do Povo deverá fazer ex-oficio”.

Essa proposta apresentava similaridades tanto com a instituição ouvidoria como com o ombudsman sueco.

A partir desse marco temporal até os anos 60, não se encontra quase nenhum vestígio de quaisquer referências à implantação de ouvidoria no Brasil. Esse silêncio foi rompido com o Decreto 50.533 de 1961, que implantaria subgabinetes da Presidência da República, nas capitais dos estados, com o intuito de prover encaminhamento à administração federal de “reclamações, pedidos e papéis de interesse das populações locais”. Infelizmente, esse decreto foi revogado antes mesmo de ser implementado. Em 1964, devido ao regime ditatorial, as instituições democráticas tiveram que se manter em silêncio.

Segundo DIAS (2005, p. 7), em 1977, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) cria um cargo de ombudsman, que também não foi preenchido. A década de 70 é caracterizada por pronunciamentos na Câmara e no Senado que espelham a percepção de um estado de cunho tecnocrático. Ressaltem-se a demanda por uma Procuradoria- Geral do Povo do Deputado Mendonça Neto e o pleito de uma Procuradoria-Geral do Legislativo do Deputado Jose Costa.

A partir de 1985, em linha com a redemocratização do país, várias foram as propostas de implantação do ombudsman como, por exemplo, o Decreto no 92.700/86, que visava criar o ouvidor-geral da previdência social e o Decreto no 93.714/86 que

“dispõe sobre a defesa de direitos do cidadão contra abusos, erros, e omissões na Administração Federal”. Este último decreto criou o Conselho de Defesa e Informação do Cidadão (Codici), havendo um ouvidor exercendo de fato o cargo.

A partir dos anos 80, multiplicam-se as ouvidorias tanto nas empresas estatais como nas privadas, com destaque para o ombudsman do jornal Folha de São Paulo. Esse

ombudsman teve um papel relevante na difusão do conceito de ouvidoria no Brasil.

A ouvidoria do município de Curitiba, no Paraná, é a referência inicial de ouvidoria na esfera pública, tendo sido criada em 1986 e extinta em 1989 (PINTO, 1998; BRASIL 2003). Em 1991, o Estado do Paraná criou o primeiro ouvidor-geral estadual (PINTO, 1998; BRASIL 2003). Em 1992, criou-se a primeira ouvidoria pública

federal, a Ouvidoria-Geral da República, vinculada ao Ministério da Justiça (BRASIL 2003).

Igualmente, deve-se observar a contribuição fundamental que o Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/90) fornece ao desempenho de uma ouvidoria. Conforme defende DIAS (2005 p. 27), “... o Código de Defesa do Consumidor pode ser

considerado um guia do ouvidor, que deve ser um profundo conhecedor de cada artigo desse diploma legal e zelar pelo seu fiel cumprimento”.

Em 2004, a Lei n. 10.689/2004 ajusta a denominação de Ouvidoria-Geral da República para Ouvidoria-Geral da União. Essa lei complementando o Decreto nº

4.785/2003 tem a competência de coordenar tecnicamente o segmento de ouvidorias do Poder Executivo Federal.

Ressalte-se que no Brasil, a função de Ouvidor encontra respaldo legal no §3º do artigo 37 da CF de 88, a partir de uma interpretação extensiva.

PINTO (1998, p. 47), entretanto, contesta tal afirmação, defendendo que a CF de 88 “não instituiu um ombudsman para controle da administração federal” e que “estas

funções ficaram divididas entre o Tribunal de Contas da União (TCU), o Ministério Público e o Congresso Nacional”.

De modo geral, as ouvidorias têm se multiplicado rapidamente, tanto no setor público quanto no privado. Apesar de não haver no Brasil um ouvidor ou ombudsman público do consumidor, vários PROCONs7 procuram exercer a função objetivando suprir essa ausência, aprimorar o atendimento ao consumidor que busca os seus serviços e estimular à criação da função no ambiente privado (BRASIL, 2003, p.5).

A tabela 6 resume o histórico da expansão da figura do ouvidor no Brasil.

Tabela 6- Breve histórico da expansão da figura do ouvidor no Brasil

DATA DESCRIÇÃO

Brasil-

colônia O ouvidor tinha por função aplicar a Lei da Metrópole; era totalmente diferente do modelo clássico, pois não representava o cidadão, atendia ao titular do Poder, reportava ao rei em Portugal o que acontecia na colônia. 1538 Foi nomeado o primeiro Ouvidor, Antônio de Oliveira

1548 Com a criação do Governo Geral do Brasil, surge o Ouvidor-Geral com as funções de Corregedor-Geral da Justiça em todo território colonizado. Império

1823 Surge o ouvidor como o juízo do povo. As queixas deveriam ser encaminhadas ex-officio à Corte por este juiz. República

1964

Com a ditadura todas as instituições democráticas foram relegadas ao silêncio forçado.

1983 Começa a abertura democrática: o debate para criação de canais entre a estrutura de poder e a população começa a tomar pulso.

Nova República

1986

A prefeitura de Curitiba/PR cria a primeira ouvidoria pública no País. Decreto n° 93.714/86 cria a Comissão de Defesa dos Direitos do Cidadão vinculado á Presidência da República para defesa de direitos do cidadão contra abusos, erros e omissões na Administração Pública Federal; o presidente da comissão acumulava a função de ouvidor.

1992 A Lei n° 8.490/92 cria a Ouvidoria-Geral da República na estrutura regimental básica do Ministério da Justiça.

1996 e

1998 Os Decretos n°s 1.796/96 e 2.802/98 delegam ao Gabinete do Ministro da Justiça as competências para desenvolver as atividades de Ouvidoria- Geral da República.

1999 O estado de São Paulo promulga a lei de proteção ao usuário do serviço público e determina a criação de ouvidorias em todos os órgãos estaduais. 2000 O Decreto n° 3.382/2000 delega ao Secretário Nacional de Direitos

Humanos do Min. da Justiça as funções de Ouvidor-Geral da República. 2001 A Medida Provisória n° 2.216/01 cria a Corregedoria-Geral da União que

integra a Presidência da República.

2002 O Decreto n° 4.177/02 transfere as competências de ouvidoria-geral do Ministério da Justiça para a Corregedoria-Geral da União, com exceção das relativas à de ouvidoria-geral de direitos humanos que permaneceram no Ministério da Justiça. O Decreto n° 4.490/02 cria a Ouvidoria-Geral da República na estrutura regimental básica da Corregedoria-Geral da União.

2003 A Lei n° 10.683/03 transforma a Corregedoria-Geral da União em Controladoria-Geral da União, mantendo dentre as sua competência as atividades de ouvidorias-geral,exceto as atividades de ouvidoria dos índios,do consumidor e das polícias federais a cargo do Ministério da Justiça e dos direitos humanos a cargo da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República.

2004 A Lei n° 10.689/04 ajusta a denominação de Ouvidoria-Geral da República para Ouvidoria-Geral da União, que pelo Decreto n° 4.785/03,tem entre outras,a competência de coordenar tecnicamente o segmento de ouvidorias do Poder Executivo Federal.

Fonte: adaptado de BRASIL (2006, p. 4/7)