Coloca-se, aqui, uma reflexão particular sobre a questão da percepção, por parte dos participantes, de uma escassez de serviços ofertados pelos psicólogos no SUS. Assim, uma questão rica em termos de subsidiar a avaliação da inserção da psicologia na APS, é a análise da necessidade de termos mais psicólogos na APS. Seria o lugar do psicólogo na ESF ainda muito restrito? Caberia, por exemplo, a inclusão da categoria na condição de membro da equipe mínima?
Em torno dessas questões, conversamos com os participantes e pudemos vislumbrar a insatisfação dos psicólogos com o lugar que ocupam no CSF e na ESF. Uma das perspectivas apontadas em nossos diálogos, fora a inclusão do psicólogo nas equipes mínimas da ESF. A defesa de sua inserção na equipe mínima corrobora com a ideia de que o serviço existente, hoje, ainda está muito aquém do que deveria ser. O lugar reservado ao psicólogo, nas equipes de apoio à ESF, no NASF, é bastante insuficiente e limitado. Advoga-se, no entanto, sua inclusão em novo espaço, o que não remete, necessariamente, à exclusão do espaço já ocupado.
Se tivesse um psicólogo quarenta horas num Posto de Saúde, assim como tem um dentista, ele teria demanda pra atender e agenda lotada. Não tenho dúvida disso. Porque a demanda é muito grande. A Atenção Secundária não consegue dar conta. Aí o que é que acaba acontecendo? As pessoas vão piorando, piorando, piorando e tem que ir pra lá. Porque não tem essa primeira parte aqui, da escuta aqui.
(outro participante)
Eu fico pensando o seguinte: pensando três lugares diferentes, certo? Uma coisa é você ser parte da equipe de referência ou sei lá parte da equipe mínima ou você ser o psicólogo do posto, esse é um local. Outro local é você ser apoio institucional que você ta dando esse suporte inclusive nível organizacional e como é que funcionam as coisas. E tem o terceiro lugar que eu acho que é você ta numa função de apoio matricial, que é como o NASF é proposto, que é como a nossa residência era proposta também, porque aí é um apoio que você ao mesmo tempo ta olhando pra prática do outro, mas você ta tendo uma prática lá dentro também, enquanto que no apoio institucional eu acho que você acaba olhando exclusivamente pra instituição. [...] Eu acho que são possíveis todos esses espaços sabe.
(outro participante)
Pesquisador:Tu acha que cabe o profissional da psicologia na equipe?
Caber eu acho que cabe, eu acho que é fundamental, é necessário, eu diria até que é necessário.
Pesquisador: Você está falando da equipe mínima?
Na equipe mínima. Porque assim, você tem o profissional no NASF, o NASF é importante, é uma conquista, com todas as críticas que a gente tem é uma conquista dos profissionais, das profissões, da ampliação desse conceito de saúde. Agora parece que ainda assim o NASF, quer dizer, o NASF trabalha com uma série de dificuldades, que a gente observa, no sentido assim de ter que estar em vários lugares ao mesmo tempo.
O questionamento sobre o acesso restrito ao serviço psicológico parece ser fundamental para pensarmos as necessidades de saúde, que poderiam estar sendo melhor acompanhadas, de modo mais adequado para a população assistida na APS. Isso parece patente nos diálogos realizados em entrevista, nos diversos âmbitos de prática da psicologia. Especificamente, como vimos acima, a psicoterapia ou mesmo qualquer acompanhamento individual de longa duração, algo que ultrapasse os 6 a 8 atendimentos, parece inviável para a organização da agenda de trabalho do profissional psicólogo no modelo NASF, ficando evidente, uma enorme demanda descoberta ou mesmo coberta precariamente. Isso remete a reenfatizar o contexto de precarização das práticas psicológicas já discutido. Essa reflexão toma uma conotação mais pública e tensa, pelas lutas simbólicas efervescentes intra e interprofissionais do trabalho nos serviços de APS, no âmbito das práticas clínicas. Assim, em nossa pesquisa tornou-se evidente, após a análise do material construído nas entrevistas, que corrobora com a experiência vivida anteriormente pelo pesquisador, a necessidade de ampliação do acesso aos serviços psicológicos.
[Entrevista com dois participantes]
Pesquisador: E se o morador de uma Unidade dessa, que vocês trabalham, enfim, numa Unidade de Saúde, em geral, apesar de ter as especificidades, se ele quiser fazer psicoterapia, por exemplo, como fica?
Participante A- Ou se ele precisar que eu possa articular essa psicoterapia com outro setor, que possa dar esse suporte, ele vai ter dificuldade de chegar até a mim. Participante B - Até você e até o outro serviço.
Participante A- Até se eu puder acompanhar durante um tempo, fazer uma avaliação e tal, um cuidado primeiro, talvez eu nem possa ficar com ele por longo tempo
porque a demanda é grande. Mas nem sequer articular com outro serviço eu consigo, porque a demanda [com gestos -braços abertos- indica que é grande].
Pesquisador: E essa demanda é uma demanda que existe?
Participante A. Existe, no meu território existe. Existem essas pessoas que ficam desassistidas, na maioria das vezes, ficam desassistidas, afirmo categoricamente isso, nesse momento histórico.
A análise do momento histórico de inserção da psicologia na APS aponta que as contribuições da profissão são ainda incipientes e que muito poderia melhorar não somente com a inserção de mais psicólogos na ESF e rede articulada, mas, sobretudo, pela melhoria das condições de trabalho desse profissional, o que inclui uma diminuição do seu território de atuação e uma ampliação de sua participação na ação direta junto à população, diferente da prática de apoio matricial. Destacamos aqui mais uma arena de disputas pelo controle sobre as tarefas nobres, como a clínica, e que são representativas do processo de profissionalização (DUBAR, 2005) vivido pela psicologia em sua inserção na ESF. Nesse contexto, a discussão da demanda, implica em repensar um conjunto de questões como: o risco da hiperprofissionalização do campo saúde, que restringem as práticas de cuidado a processos de submissão aos saberes técnico dos profissionais (ILLICH,1975; NOGUEIRA, 2003); as lutas por reconhecimento e autonomia (BOSI, 1996; DUBAR, 2005; MACHADO, 1995); o tema da formação em saúde e a necessidade de reformulação dos modelos ideais de agir.