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O campo científico da sociologia das profissões é marcado por uma diversidade de proposições conceituais repercutindo em certa pluralidade de opções teóricas para o debate de questões do mundo social das profissões. Muitas das questões do campo giram em torno das definições sobre o que é uma profissão e como se constitui o processo de profissionalização das diferentes ocupações. Tais questões foram importantes para a delimitação conceitual da pesquisa. Mesmo que não tomados como referencias teóricas centrais do estudo, nossa aproximação com a sociologia das profissões reflete-se em importantes discussões aqui desenvolvidas sobre a prática profissional da psicologia na APS do SUS. Essas discussões sobre o campo social da ESF e das práticas psicológicas nesse espaço são tangenciadas por algumas contribuições conceituais tiradas da sociologia das profissões (BOSI, 1996; DUBAR, 2005; MACHADO, 1995; PEREIRA; PEREIRA NETO, 2003).

Ademais das controvérsias e diversidade existente na sociologia das profissões, a definição de profissão é relativamente consensual em torno de dois aspectos: o corpo esotérico de conhecimento ou base cognitiva e a orientação para um ideal de serviços (BOSI, 1996; DUBAR, 2005; MACHADO, 1995). A diferenciação entre profissão e semiprofissão, por exemplo, funda-se na constituição de um corpo específico de conhecimento e de um mercado de trabalho inviolável. Médicos e advogados são exemplos de profissão, assim como farmacêuticos e enfermeiros são de semiprofissão, especialmente pelo poder dos primeiros refletido na autonomia profissional e no domínio de um saber específico, bem como no modo como negociam frente a uma clientela. Machado (1995) conceitua profissão:

Profissão é uma ocupação cujas obrigações criam e utilizam de forma sistemática o conhecimento geral acumulado na solução de problemas postulados por um cliente (tanto individual como coletivo). E atividade profissional é um conjunto de conhecimentos novos mais fortemente relacionados à esfera ocupacional. Portanto, a autoridade profissional é centrada no profissional que detém o conhecimento especializado para o problema específico do cliente. (MACHADO, 1995, p.18). O termo profissão tem longa história no ocidente, ligada às corporações de ofício na idade média, que remete à ideia de “profissão de fé” ligada aos rituais de admissão e iniciação. O termo distinguiu-se historicamente ligado ao desenvolvimento das Universidades, artes liberais e artes mecânicas, colocando em oposição profissões e ofícios. As profissões, ligadas às artes liberais ensinadas nas Universidades, tem sua produção mais voltadas para “o espírito” do que para “as mãos”. Os ofícios, oriundos das artes mecânicas,

voltam-se mais para o uso da força braçal. Ademais das divergências entre profissões e ofícios é possível aproximar ambas pela constituição de uma organização socioinstitucional na qual seus membros são unidos em prol de alguns preceitos éticos e processos de pertencimento (DUBAR, 2005).

O processo de profissionalização, também abordado de modo diverso pelos autores do campo da sociologia das profissões, se dá de modo variável conforme as características das ocupações e dos campos sociais de prática profissional (BOSI, 1996; DUBAR, 2005; MACHADO, 1995). Bosi (1996) conceitua a profissionalização destacando a busca do prestígio e do poder no mercado de trabalho. Para a autora, esse processo consiste num:

[...] conjunto de ações através das quais uma ocupação ou semiprofissão busca elevar seu prestígio, bem como seu poder e seus ganhos – constitui um processo vivenciado por um conjunto cada vez maior e mais diversificado de trabalhadores. A luta pela conquista do status profissional e pelo monopólio de determinadas competências – e, consequentemente, pela garantia de um espaço no mercado de trabalho, parece envolver quase todas as atividades hoje (BOSI, 1996, p.35).

A análise das profissões e relações profissionais deve ser criteriosa na consideração de nuances metodológicas, especialmente, nos processos de generalização e contextualização dos resultados. Diante de discussões conceituais sobre o que é uma profissão e o que compõe o processo de profissionalização, constituindo um contexto de divergências e convergências no campo da sociologia das profissões, Bosi destaca questões importantes para a reflexão sobre a prática profissional empreendida aqui:

Torna-se assim essencial, para compreensão do fenômeno da profissionalização, analisar os atributos profissionais como um conjunto de relações, e não como partes equivalentes que vão se adicionando umas às outras num processo de evolução natural. Destaca-se, portanto, a impropriedade de definir profissão a partir de traços/atributos, ou destacando o enfoque da estrutura para o processo. [...] o problema que se coloca não é tanto o que é uma profissão ‘em termos absolutos’ mas como, numa sociedade, se determina que é e quem não é profissional, num dado momento histórico [...] Assim, não se trata de abandonar a tarefa de definir o conceito mas, antes, de redimensioná-lo, considerando a existência de diferentes perspectivas (BOSI, 1996, p. 54).

Na presente pesquisa, buscamos abordar a profissionalização pela análise da luta pelo poder sobre o conhecimento técnico-científico e pelo reconhecimento social dentro de um campo de saber e atuação socialmente relevante, no caso, a ESF. Entendemos, no entanto, que a análise do processo de profissionalização precisa considerar cada critério teórico elegido como atributos variáveis e diversos, que implicam em dificuldades para fazer generalizações. É relevante, assim, não estabelecer modelos ideais e lineares nas análises.

Ao analisar as ideias vigentes no campo da sociologia das profissões, Bosi (1996) destaca que a questão do saber (ou base cognitiva) é aspecto transversal imprescindível em todo o processo de profissionalização. O saber, aqui, não pode ser analisado como algo abstrato e dissociado de outros fatores. É importante, nessa perspectiva analítica, considerar a relação entre o saber e a organização interna das profissões e suas instituições. A construção de uma base de conhecimento e de doutrina são pontos importantes para a obtenção de status profissional. O corpo esotérico de conhecimentos

[...] deve funcionar como uma caixa preta, ou seja, contendo segredos e técnicas profissionais invioláveis e indecifráveis por leigos, mas ao mesmo tempo com uma visibilidade social acessível a este mesmo público.[...] Assim, podemos definir o especialista como um indivíduo que conhece tanto que só pode comunicar uma pequena fração do seu conhecimento. Os clientes veem um mistério nas tarefas a serem desempenhadas, mistério este que não é dado ao leigo conhecer, visto que o conhecimento tácito é relativamente inacessível. Reter o conhecimento, torná-lo específico e suficientemente misterioso é o eixo central que move o profissionalismo. (MACHADO, 1995, p.21).

Como exemplo dos processos complexos e dinâmicos de profissionalização, é interessante pensar no modo como as corporações profissionais se organizam na seleção e treinamento dos profissionais, já que influem diretamente no poder e prestígio das profissões - atribuídos ao caráter simbólico do saber profissional. Nesse contexto, o papel das Universidades é fundamental para a legitimação dos saberes profissionais (BOSI, 1996):

[...] uma profissão assume estratégias para garantir sua exclusividade no exercício de uma tarefa, não tendo condições de definir o seu domínio sobre o conhecimento se não for capaz de determinar a base cognitiva das ocupações concorrentes. E isso é o que definirá em grande parte a hierarquização das diferentes categorias numa dada área. Para tal será necessário ter força suficiente não só para garantir os saberes necessários às suas atividades, mas para delimitar as esferas de conhecimento e prática de outras atividades afins. (BOSI, 1996, p.46).

Em nosso caso, reconhecemos um campo rico de discussões sobre as relações entre os profissionais de saúde em equipes multiprofissionais, numa mescla de competição e cooperação em busca de se afirmar como agentes importantes nos cenários dos serviços de saúde. Aqui, perceber as necessidades dos clientes e agir competentemente frente a estas, obedecendo a certas regras de conduta é outro aspecto relevante pra pensar a profissionalização. Essa orientação para o serviço é orquestrada por padrões éticos, processos de formação permanente e padronização de exames de admissão. Essa orientação normativa dos profissionais pressupõe o reconhecimento dos interesses do público/comunidade na construção da prática profissional (BOSI, 1996). A educação formal é um dos principais mecanismos de base para a constituição da especificidade profissional. A praticidade social é

outro elemento caracterizador de uma profissão, que se orienta para a prestação de um serviço e estabelece a atualização e reprodução permanente de normas de atuação em respeito à clientela e aos pares. A obtenção e manutenção da autonomia prática do profissional está intimamente ligada à especialização técnica e a determinação de critérios de excelência (MACHADO, 1995).

Outros autores no campo da sociologia das profissões dão especial ênfase ao mercado de trabalho na análise das profissões e da profissionalização. Nessa perspectiva, dentre os elementos analíticos utilizados, compreendemos que é fundamental a consideração das relações de poder onde “quanto mais independente, de outros mercados, for o mercado da profissão, e quanto maior a colaboração do Estado na disputa com outros grupos, melhor será a situação profissional” (BOSI, 1996, p. 49). Outros críticos propõem a adoção de estudos focados nas mudanças no mercado de trabalho e suas implicações na perda de autonomia profissional, especialmente, na propriedade ou controle dos meios de produção (DONNANGELO, 1975; DURAND, 1975). Machado (1995) sintetiza suas ponderações sobre o conceito de profissionalização:

[...]o problema central com o conceito dominante de profissionalização é seu foco na estrutura e não no trabalho. Analisar o desenvolvimento profissional é ver como esse vínculo (elo) é criado no trabalho, como ele está ancorado na estrutura social formal e informal e como a ação recíproca das ligações jurisdicionais entre as profissões determinam a história das próprias profissões individuais. (MACHADO, 1995, p.31).

Larson (MACHADO, 1995; BOSI, 1996) é autora de destaque na discussão das influências estruturais e ambientais, que constrangem em maior ou menor medida uma profissão, especialmente, no que tange ao monopólio da competência. Nesse enfoque, dois aspectos básicos estruturam o processo de profissionalização: a base cognitiva, que consiste no conhecimento abstrato passível de aplicabilidade; e o mercado, composto pelas condições socioeconômicas e ideologia dominante. Ressaltam-se, aqui, a relação entre controle do mercado e monopólio da competência:

A estrutura de um mercado profissional particular é determinada pela estrutura social que molda a necessidade social para um dado serviço e, além disso, define o público atual ou potencial da profissão. Quanto a base cognitiva, a autora sugere que a melhor forma é aquela que revela, ou atua ou maximiza as características do mercado profissional. Ela deve ser específica o bastante para partilhar com clareza a utilidade profissional, a ser formalizada ou codificada o bastante para permitir a estandartização do produto; o que significa essencialmente a estandartização dos produtores. E ainda, não deve ser tão claramente codificada que não permita efetuar um princípio de exclusão: onde todos podem reivindicar serem experts, não há expertise. (MACHADO, 1995, p.23-24).

Outro aspecto importante na perspectiva da análise do processo de profissionalização é a incorporação de tecnologias, inovações, que se constituem como elementos de renovação gradual e progressiva da base cognitiva e consolidação do monopólio da competência, que ocorrem em paralelo à legitimação social das mudanças (MACHADO, 1995).

Na presente pesquisa, a discussão da autonomia profissional é fundamental, já que nos permite pensar o processo de construção social das práticas da psicologia na ESF, sobre o pano de fundo do processo de profissionalização. Nosso recorte teórico-metodológico visa delimitar uma proposta de abordagem hermenêutica para compreender e analisar as práticas psicológicas dentro do processo de socialização profissional vivido na APS do SUS. Propomos-nos a relacionar autonomia e identidade profissionais como processos sociais que perpassam as práticas psicológicas aqui analisadas.

A autonomia profissional é entendida como “a capacidade de o profissional ter sua prática submetida ao seu próprio julgamento e autoridade, com sua responsabilidade como árbitro” (BOSI, 1996, p.47). Na discussão das profissões médicas e paramédicas, destaca-se a contribuição de Eliot Friedson, especialmente na discussão da autonomia profissional, entendida como “capacidade de avaliar e controlar o desenvolvimento do trabalho” (BOSI, 1996, p.51). Essa autonomia, como elemento que melhor possibilita a distinção da profissão frente à semiprofissão, remete ao controle sobre um saber específico e um processo de trabalho legitimado socialmente. Friedson distingue duas esferas ou modalidades de autonomia: a técnica e a socioeconômica. “A primeira seria caracterizada pela possibilidade de controle sobre a essência do que é próprio à profissão (ou seja, seu conteúdo técnico), ao passo que a autonomia socioeconômica estaria referida à capacidade de dispor sobre a organização social e econômica do trabalho” (BOSI, 1996, p. 51-52).

No processo de construção da autonomia profissional, o Estado cumpre um papel relevante, participando diretamente no fortalecimento ou não da autonomia, das estratégias de organização das corporações profissionais e da dinâmica do mercado de trabalho e formação. Bosi (1996) dá importante destaque para a questão da autonomia profissional, especialmente a autonomia técnica, e sua relação com o poder, como elemento central aglutinador de vários aspectos do processo histórico de profissionalização. Para Bosi (1996, p.54), a autonomia técnica é um conceito de forte relevância heurística:

[...] é uma categoria (teórica) que possibilita uma articulação entre a esfera do conhecimento e a do poder, o que nos auxilia a evidenciar a importância da dimensão do saber na constituição das profissões.[...] uma vez que se considera a

profissionalização como processo, o saber não é visto como uma esfera autônoma, mas um elemento em relação, daí a escolha do conceito de autonomia.

Entendemos que esse enfoque favorece o reconhecimento de relações indissociáveis, dinâmicas e complexas entre conhecimento e organização profissional. Nessa perspectiva, podemos analisar a autonomia de uma determinada categoria profissional como processo histórico marcado por lutas por reconhecimento em mercados de trabalho dinâmicos. Nesse contexto, a autonomia e identidade profissional articulam-se diretamente às questões do poder e do conhecimento estruturados e estruturantes dos campos sociais, onde se constroem os espaços de prática profissional. Na perspectiva de delimitarmos nossa posição de investigação diante da questão da autonomia e da identidade profissional, recorremos a algumas contribuições de Claude Dubar (2005). Adotando um referencial que articula contribuições da fenomenologia, o autor entende a identidade como: “o resultado a um só tempo estável e provisório, individual e coletivo, subjetivo e objetivo, biográfico e estrutural, dos diversos processos de socialização que, conjuntamente, constroem os indivíduos e definem as instituições” (DUBAR, 2005, p.136). Em sua proposta teórico-metodológica, foca suas análises na dimensão subjetiva e vivida da identidade, abordando-a a partir de pesquisa sobre os mundos vividos e exprimidos. Segundo Dubar, o estudo da noção de identidade se justifica, em sua perspectiva:

[...] pela tentativa de compreender as identidades e suas eventuais cisões como produtos de uma tensão ou de uma contradição interna ao próprio mundo social, [...] e não essencialmente como resultados do funcionamento psíquico e de seus recalques inconscientes. (DUBAR, 2005, p. 137).

Destaca-se, aqui, a ideia da construção social da identidade, que se expressa em lutas em torno de um saber legítimo, estratégias práticas e afirmação de uma identidade reconhecida. As relações de poder entre agentes e instituições implicam no engajamento do sujeito e em lutas por reconhecimento. As estratégicas práticas expressam, dentre outras questões, a avaliação das oportunidades em um determinado campo, bem como a interiorização da trajetória histórica do agente e do campo. Do ponto de vista metodológico, a abordagem do fenômeno da construção social da identidade profissional deve levar em conta o processo de socialização dos agentes e a percepção que estes tem da experiência.

Nesse contexto de debate, reconhece-se como contribuições da Etnografia (nascente em meados da década de 1930) a ideia de que “não há nenhuma lei geral que reja a educação das crianças nas sociedades tradicionais” (DUBAR, 2005, p.XV). Desse modo, não podemos pensar em mecanismos gerais ou universais que rejam o processo de socialização. Assim,

Dubar argumenta na perspectiva de impor uma crítica à ideia de uma teoria geral da socialização:

A socialização como aprendizagem da cultura de um grupo é tão diversa quanto as próprias culturas. Às vezes dominam as práticas mais autoritárias, às vezes as mais permissivas. Às vezes recorre-se a instituições especializadas, às vezes a educação é completamente difusa. Às vezes as crianças são educadas pela mãe, às vezes por outras pessoas. (DUBAR, 2005, p. XV).

O autor toma como base um conjunto de autores da sociologia (como Max Weber, Alfred Schultz, Georg Simmel e, especialmente, Peter Berger e Thomas Lückmann) para aplicar a noção de socialização ao campo da atividade profissional e das mudanças sociais. Para Dubar (2005), a socialização reflete-se na “construção de um mundo vivido” que se efetiva, permanentemente, durante a trajetória dos indivíduos em diversas esferas de atividade ao longo da vida. Na discussão sobre socialização e identidade, apropria-se das ideias de Bourdieu para analisar o conceito de habitus (DUBAR, 2005). Em sua apropriação da definição de habitus de Bourdieu, Dubar nos leva a revisar dois aspectos importantes da proposição bourdieusiana: o habitus pode ser pensado como incorporação de posições diferenciais no espaço social, estando ligado, em sua gênese, a uma posição; e o habitus pode ser visto como forma de percepção e visão do espaço social, de classificação. No primeiro aspecto, temos a objetividade das posições diferenciais e suas conformações estruturais que se vinculam na geração do habitus. No segundo, o habitus é vinculado a uma subjetividade que é produtora de práticas e tomadas de posição num campo social qualquer. Para Dubar, a noção de identidade social precisa ser entendida a partir da articulação entre uma “orientação ‘estratégica’ e uma posição ‘relacional’ resultante da interação entre uma trajetória social e um sistema de ação” (2005, p. 92).

Na proposta de articulação entre o estudo da trajetória dos indivíduos, instituições e sua concretização em sistemas de ação específicos, a trajetória é concebida como um ‘recurso subjetivo’ do indivíduo que consiste em:

[...] balanço subjetivo das capacidades para enfrentar os desafios específicos de um dado sistema.[...] Por isso, a hipótese da ‘consolidação da identidade/reprodução do sistema’ é apenas uma das hipóteses possíveis: a priori, todas as outras também são.” (DUBAR, 2005, p.92-93).

No que diz respeito à proposição de Dubar para a análise da articulação entre ‘trajetória’ e ‘orientação estratégica’, se intercala o estudo de relações internas ao campo em que o indivíduo define sua identidade específica. O autor destaca, nesse contexto, que as visões de futuro dos indivíduos nem sempre são reflexo de reproduções de percepções do

passado, não há uma reprodução social total - em que o tempo presente estaria pouco sob o controle dos indivíduos. Assim, no encontro entre ‘trajetória passada’ e ‘estratégias’ de ação há uma pluralidade de configurações possíveis que dependem de categorias de representação herdadas em trajetórias anteriores e de possibilidades estratégicas e categorizações possibilitadas num espaço social específico. O autor sintetiza o processo de construção social das identidades:

As identidades resultam, pois, do encontro entre trajetórias socialmente condicionadas a campos socialmente estruturados. Mas esses dois elementos não são necessariamente homogêneos, e as categorias significativas das trajetórias não são necessariamente as mesmas que estruturam os campos da prática social. Essa defasagem abre espaços de liberdade irredutíveis que tornam possíveis e, às vezes, necessárias conversões identitárias que engendram rupturas nas trajetórias e modificações possíveis das regras do jogo nos campos sociais. (DUBAR, 2005, p.94).

Dubar propõe uma abordagem compreensiva da socialização, na qual o fenômeno identitário é concebido como fruto de processos de socialização. Em sua elaboração teórica, uma entrada principal da identidade é apreendida pela perspectiva fenomenológica e compreensiva exposta pelo autor:

É pela análise dos ‘mundos’ construídos mentalmente pelos indivíduos a partir de sua experiência social que o sociólogo pode reconstruir melhor as identidades típicas pertinentes em um campo social específico. Essas ‘representações ativas’ estruturam os discursos dos indivíduos sobre suas práticas sociais ‘especializadas’ graças ao domínio de um vocabulário, à interiorização de ‘receitas’, à incorporação de um programa, em suma, à aquisição de um saber legítimo que permita a um só tempo a elaboração de ‘estratégias práticas’ e a afirmação de uma ‘identidade reconhecida’. (DUBAR, 2005, p. 129).

As dimensões mais relevantes dessas representações são: 1)a relação com os sistemas, instituições e com atores acionam a implicação e o reconhecimento do indivíduo, seu maior ou menor engajamento ou contestação, aciona tanto a identidade reivindicada, quanto a realmente reconhecida; 2) a relação com o futuro tanto do indivíduo quanto do sistema reflete-se nas orientações estratégicas, que resultam da análise das capacidades e oportunidades e que, remete à interiorização da trajetória e da história do sistema ou campos