• Sonuç bulunamadı

Nessa pesquisa, nos posicionamos a favor da defesa crítica e propositiva do inacabado projeto SUS. Uma defesa que considera de extrema importância a consolidação de suas diretrizes e princípios e que compreende que ainda temos muito a fazer para construí-lo. A defesa crítica do SUS se dá pelo entendimento de que este representa um avanço para proteção à saúde da população brasileira, mas que é preciso mudar o enorme hiato existente entre teoria e prática nas políticas públicas brasileiras. Compreendemos, nesse contexto, que a psicologia pode e deve trazer importantes contribuições ao campo amplo da Saúde Coletiva, participando da formulação de reflexões importantes para o desenvolvimento do SUS. A interface com a Saúde Coletiva (e SUS), em contrapartida, pode trazer contribuições relevantes para o desenvolvimento da psicologia, ciência e profissão ainda distante de muitos dos problemas de saúde vivenciados pela população brasileira.

Nossa condição epistemológica é bastante influenciada e motivada pela experiência de trabalho realizada na ESF, tanto no nível da atenção à saúde, quanto na formação de profissionais. Essa condição epistemológica fora um dos desafios interessantes dessa proposta metodológica. As ideias de Emerson Merhy (2006) sobre “sujeito implicado e militante” ajudam a esclarecer um pouco o desafio da construção do conhecimento que se coloca diante

de mim. Para entender melhor, vejamos o que o autor escreve a um de seus colaboradores de pesquisa:

O seu problema é que além de sujeito interessado você é um sujeito implicado. Você é o pesquisador e o pesquisado. E, assim, o analisador e o analisado. Você é um sujeito militante que pretende ser epistêmico e os desenhos de investigação que temos como consagrados no campo das ciências não dão conta deste tipo de processo (MERHY, 2006, p. 02).

A identificação com essa condição foi um processo parcialmente pertinente ao desenvolvimento da presente pesquisa a medida em que muitas experiências profissionais investigadas também foram vividas de modo semelhante na APS do SUS. Assim, buscamos, nessa empreitada, produzir conhecimento e sistematizá-lo, de forma rigorosa, explicitando os dilemas vivenciados, para ampliar as interlocuções sobre o tema da pesquisa. Propomo-nos, aqui, a alargar e ampliar a capacidade de refletir e gerar reflexões, com rigorosidade científica, sobre fenômenos em que estamos implicados. Considerando a experiência profissional e acadêmica vivida na APS do SUS, o desenvolvimento da investigação, pôde gerar ricos processos de autoanálise de nossa condição de agente no contexto estudado. Percebemos quão fora delicado o desafio enfrentado.

Nesse estudo, nos propomos a tecer uma interpretação pertinente sobre a construção social da prática profissional da Psicologia, a partir de um “mergulho empírico” no cotidiano dos territórios em que a APS do SUS é realizada. Demonstramos, assim, nossa vontade de contribuir na construção de conhecimentos sobre a interface Psicologia e Saúde Coletiva, colocando-nos na condição necessária de disponibilidade para discutir horizontalmente a relevância das contribuições, que trazemos.

Horizontalmente, porque não há nenhuma grande verdade mantendo quentes as nossas costas; nenhum instrumento de inquisição que podemos mostrar para garantir obediência às nossas ideias. Só podemos arguir e discutir, tal como os demais. Temos algo a contribuir porque temos um mínimo de disciplinariedade que inclui a vontade de discutir entre nós a validade daquilo que fazemos [...]Somos somente uma parte de uma ecologia de saberes, cada uma das quais partindo de um ponto distinto e pensando que tem algo a contribuir (KEVIN SPINK, 2008, p.76). Movido pela humildade e curiosidade epistemológica, procuramos, no cotidiano, conhecer a realidade em diálogo com os outros agentes nela inseridos. Para realizar essa investigação, partimos da compreensão de que as teorizações são explicações parciais da realidade (MINAYO, 2002), mas que podem ter grande valor para compreender, explicar e transformar os fenômenos do cotidiano.

A pesquisa social adquire peculiaridades próprias a partir da natureza de seu objeto, que é historicamente determinado. Um dos aspectos relevantes é que essa trata de uma

realidade da qual o pesquisador, em diferentes níveis, é agente ativo. Nesse contexto, a cientificidade ganha contornos de relatividade em que as teorias, conceitos, métodos e técnicas utilizadas adquirem sua legitimidade e validação, numa relação de coerência com os contextos em que se constrói o conhecimento. A não-neutralidade da ciência evidencia-se como um pressuposto importante, para destacar a necessária clareza sobre os interesses e valores, que perpassam a produção do conhecimento. A relação que se constrói entre o pesquisador e seu campo de estudo, uma realidade social marcada pelo “dinamismo da vida individual e coletiva com toda a riqueza de significados dela transbordante” (MINAYO, 2000, p. 15), é marcada pelas visões de mundo de ambos em todo o processo investigativo.

Assim, é necessário o desenvolvimento de estratégias dinâmicas de rigor e vigilância epistemológica (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 2010) capazes de, pelo permanente exercício da reflexividade, subordinar a utilização das técnicas e métodos à interrogação sobre condições e limites de validade. A metodologia da pesquisa social, portanto, apresenta-se como “o caminho do pensamento e a prática exercida na abordagem da realidade” (MINAYO, 2000, p.16), composto por teorias e técnicas articuladas, de modo criativo e original, num conjunto coerente e claro de procedimentos capazes de dar conta dos impasses da produção do conhecimento.

Tomando em consideração o referido contexto, nos orientamos em um modelo epistemológico situado nas ciências sociais, que assume todas as consequências do caráter histórico-cultural de seu objeto e do conhecimento como construção humana (GONZÁLEZ REY, 2002). Compreendendo que o conhecimento é “um produto histórico ancorado em contextos sociais e culturais específicos” (SPINK, 2000, p.19), a pesquisa é considerada uma prática social, que manifesta a expressão de sujeitos em atos de significar o mundo, de interferir diretamente na construção contínua da realidade. Realizamos aquiuma pesquisa de abordagem qualitativa da realidade. A epistemologia qualitativa se apresenta como “esforço na busca de formas diferentes de produção de conhecimento [...] que permitam a criação teórica acerca da realidade plurideterminada, diferenciada, irregular, interativa e histórica, que representa a subjetividade humana” (GONZÁLEZ REY, 2002, p. 29). Uma epistemologia qualitativa se apoia em três princípios, de consequências metodológicas importantes, que são: conceber o conhecimento como uma produção construtivo-interpretativa; ter clareza que o processo de produção do conhecimento é de caráter interativo; e por ter como nível legítimo, da produção do conhecimento, a significação da singularidade, destacando a qualidade da expressão dos sujeitos estudados e não a quantidade destes (Idem).

Para a produção de conhecimentos, portanto, a adoção do método qualitativo visa trabalhar com “o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis” (MINAYO, 2001, p. 21). Compreendemos ser possível, através do método qualitativo, uma análise detalhada do fenômeno a ser estudado, na busca de entendê-lo em sua complexidade, a partir de suas múltiplas dimensões: social, cultural, histórica, individual e singular. As metodologias qualitativas são entendidas aqui como: “aquelas capazes de incorporar a questão do significado e da intencionalidade como inerentes aos atos, às relações e às estruturas sociais, sendo essas últimas tomadas tanto no seu advento quanto na sua transformação, como construções humanas significativas” (MINAYO, 2006, p. 22-23). O processo de pesquisa qualitativa remete a levar em conta a historicidade do processo investigativo e investigar níveis profundos das relações sociais. A pesquisa então se debruçará sobre a complexidade dos fenômenos subjetivos

[...] cujos elementos estão implicados simultaneamente em diferentes processos constitutivos do todo, os quais mudam em face do contexto em que se expressa o sujeito concreto. A história e o contexto que caracterizam o desenvolvimento do sujeito marcam sua singularidade, que é expressão da riqueza e plasticidade do fenômeno subjetivo (GONZÁLEZ REY, 2002, p. 51).

Aqui, torna-se fundamental esclarecer o conceito de subjetividade adotado, aqui: a subjetividade constitui-se como substrato ontológico complexo dos processos psíquicos definidos na cultura, através de processos de significação e sentido subjetivo que se constituem historicamente nos diversos sistemas de atividade e comunicação humana. Não é algo dado, não se situa exclusivamente na esfera intrapsíquica e nem é algo que aprioristicamente determina o curso da ação humana. A subjetividade

[...] implica de forma simultánea lo interno y lo externo, lo intrapsíquico y lo interactivo, pues en ambos momentos se están produciendo significaciones y sentidos dentro de un mismo espacio subjetivo, en el que se integran el sujeto y la subjetividad social en múltiples formas (GONZALEZ REY, 2002b, p.22).

O que define o caráter subjetivo de um processo ou ação não é seu caráter interno ou externo, mas o espaço de sentido e significação em que se geram as expressões, espaço que está indissoluvelmente constituído por processos intersubjetivos. Ou seja, os fenômenos subjetivos se constituem ou se definem em sujeitos históricos concretos, que atuam de forma permanente em espaços sociais subjetivados, sendo assim, constituintes destes e constituídos nestes (GONZALEZ REY, 2002b).

Na perspectiva adotada aqui, o conhecimento sobre a realidade é um dos resultados do processo de apropriação inerentes à atividade humana. A apropriação remete à interiorização da realidade como um processo ativo e de significação. Remete ao ato de dar significado às coisas, onde o indivíduo se apropria da realidade transformada e a reconstrói internamente de modo singular (GÓIS, 2005).

Considerando os objetivos propostos, buscamos estruturar estratégias que possam dar conta de apreender os sentidos e significados atribuídos às práticas desenvolvidas no cotidiano da atenção primária à saúde no SUS. Tomando em consideração as reflexões de Uchimura e Bosi (2002) sobre qualidade e subjetividade, na avaliação de serviços e programas de saúde, direcionamos o presente estudo numa perspectiva de “busca do sentido dos fenômenos no espaço da intersubjetividade, ou melhor, no espaço do encontro entre a subjetividade que se inscreve na vivência dos informantes e na vivência do próprio pesquisador, através das compreensões e interpretações compartilhadas” (UCHIMURA; BOSI, 2002, p.1567). Mesmo que nossa intencionalidade de pesquisa não seja a de avaliar, esse movimento de imersão na experiência intersubjetiva irá demarcar todos os atos de pesquisar.

Em outro estudo, as mesmas autoras empreendem importante crítica a modelos tradicionais de avaliação da qualidade de serviços de saúde, que sobrevalorizam dimensões objetiváveis passíveis de quantificação e desconsideram dimensões intersubjetivas próprias da atividade humana (BOSI; UCHIMURA, 2007). O interesse da presente pesquisa, em consonância com as críticas colocadas, é compreender dimensões intersubjetivas da realidade social da atenção à saúde no SUS, a partir de uma inserção comprometida em cenários onde esse processo se produz.

Nesse sentido, entendemos que a pesquisa qualitativa “convoca” o pesquisador a um certo “jeito de ser”. E esse jeito de ser, me parece, deve guardar uma “sintonia fina” com o modus vivendi do mesmo, o modo como descobre e vive os mistérios da vida social. Essa “convocação” lhe aparecerá durante todo o processo investigativo colocando-se como exigência de coerência entre epistemologia, teoria, métodos e técnicas. Exigirá criatividade, presença, inteireza, abertura ao outro e a si mesmo – reconhecendo limitações e potencialidades próprias do humano. Aparecerá diretamente ligada ao caráter não-neutro da construção do conhecimento, permeada por valores, interesses, intencionalidades e tensionamentos políticos. Essa “convocação” emergirá do olhar do outro, da alteridade radical, que se coloca pela e na presença dos sujeitos-objetos-participantes do estudo. O imperativo ético é o elemento regulador e impulsionador dessa necessária congruência e

autenticidade. Entendo, portanto, que esse modelo de pesquisa impõe, ao pesquisador, ocupar um lugar de necessária exposição e interatividade.

A pesquisa qualitativa, para aqueles que pretendem construí-la de modo qualificado e autoral, implica numa compreensão da ontologia desse modus operanti de abordar a realidade social-humana, num modo autêntico de aproximar-se ao objeto de pesquisa e escolher- construir modelos epistemológicos adequados ao que se pretende conhecer. A delimitação desses aspectos fundamentais já deve se refletir na emergência de princípios praxiológicos a ser incorporados e encarnados, no desenvolvimento da pesquisa. Isso implica num modo específico de relacionar-se socialmente, movimentar-se no não-conhecido, transitar pelos espaços, estar presente, interrogar a si e ao mundo. Nesse modelo investigativo, o corpo lança-se no movimento de inter-ação com o outro, dialeticamente, deixando marcas e sendo marcado.

Nesse modo qualitativo de ser pesquisador, a tradicional “coleta de dados”, que preconiza a exequibilidade de um processo pseudo-asséptico de pesquisar sem interferir no curso de uma realidade intersubjetiva já dada supostamente como “natural”, é substituída pela “construção das informações”, que já torna claro o papel influente e responsável daquele que mergulha na busca por conhecer a realidade e é obrigado a conhecer a si mesmo. Os supostos “dados” são, portanto, construções históricas e de cada trajetória de pesquisa: informações contextualizadas a um contexto intersubjetivo específico. Os chamados “fatos”, do mesmo modo, como colocam Bourdieu, Chamboredon e Passeron (2010), são conquistados e construídos no exercício crítico da pesquisa. Ou seja, são construídos na prática de pesquisa e conquistados pelo mérito das incursões investigativas na teoria e na prática.

A análise das informações construídas, por sua vez, deve induzir a um novo movimento recursivo: a reformulação das perguntas. Paradoxalmente, uma pergunta feita induz a muitas outras, abre questões e, somente as fecha para abrir em momentos mais adequados. Como expressa Mercado-Martinez (2007, p.159), ao defender um modelo de retroalimentação permanente entre análise e definição do problema de pesquisa, “uma vez obtida certa informação, nenhum processo precede obrigatoriamente os outros”. Então, a necessária coerência epistêmico-metodológica da pesquisa qualitativa “convoca” para fluir com maleabilidade e rigor sistemático, exige inteireza e abertura no agir. Exige controle, perícia, ginga, coragem e entrega: uma presença comprometida. Esse modo peculiar de agir, em nosso entendimento, é o diferencial da pesquisa qualitativa. Um modo necessariamente promíscuo e promissor, uma ontologia demasiado humano-mundana, um jeito de ser crítico, afetivo, criativo, racional e sensível.