Pudemos identificar importantes marcas da experiência dos participantes na APS do SUS para a construção de suas identidades profissionais. Tais marcas decorrem de aprendizagens e processos de socialização vivenciados na ESF, que contribuíram para a formação pessoal e social dos profissionais entrevistados, revelando transformações nos modos de agir e se posicionar ética e tecnicamente frente aos problemas de saúde da população. Dentre as inúmeras questões trabalhadas e discutidas nos diálogos de entrevista, os participantes, especialmente aqueles que tiveram experiências profissionais na RMSF,
relataram mudanças positivas no aprimoramento dos modos de agir como profissional. Dentre as mudanças relatadas destacamos: a ampliação da capacidade de escuta; aprimoramento nos relacionamentos interprofissionais e intersetoriais; ampliação do olhar para o processo saúde- doença; desenvolvimento de uma postura ativa frente aos problemas de saúde; amadurecimento; desenvolvimento técnico; fortalecimento da identidade profissional de psicólogo; e transformações decorrentes da incorporação da identidade de profissional da saúde.
Dentre as aprendizagens decorrentes da inserção do profissional no campo da APS, nos territórios da ESF, destaca-se um conjunto de saberes e práticas desenvolvidos nas relações com os usuários, suas histórias e contextos de vida. A aprendizagem construída na relação com o usuário, seus problemas de saúde e as práticas profissionais, influencia decididamente na formação do psicólogo, consolidando estratégias de atuação que institucionalizam práticas e modos realização, bem como questionando fazeres tradicionais a partir dos problemas práticos relativos ao cotidiano das práticas nos CSF.
Eu aprendi a escutar bem mais, eu aprendi a ser mais humano, a aceitar e aí eu acho que isso é mais fantástico, pra mim foi o que foi mais fantástico, que aí exigiu muito de mim, pensar alternativas terapêuticas. Porque eu dava uma e aí dava um tempo e via que não funcionava, aí tá, tudo bem. ‘Mas porque é que não funcionou?” Então assim, já do meio pro final eu comecei a, sentava aqui com uma pessoa: “olha a gente tem aqui uma série de possibilidades dentro do que você tá me dizendo. O que é que é melhor pra você pra gente te ajudar? O que é que é melhor pra você? Vamos lá escolher? Você escolher. Então assim, isso pra mim, porque uma coisa é vocês estudar né, você vê que o projeto terapêutico, dentro da clínica ampliada é centrado no sujeito, mas outra coisa é você vê isso na prática e você vê que o sujeito não tá topando o teu projeto terapêutico. Ele tem que topar o projeto terapêutico que ele faz parte. Então assim, eu aprendi muito isso né.
Um conjunto de aprendizagens ligado à experiência de trabalho com equipes multiprofissionais, também expõe os modelos de prática psicológica tradicionais a revisões críticas e ampliações no escopo de suas ações. Aqui, como nas aprendizagens das relações com os usuários, podemos perceber a ampliação do olhar e da intervenção do profissional psicólogo como resultante da experiência na APS. Esse processo de ampliação do olhar dos profissionais é fundamental para o desenvolvimento de práticas participativas nos CSF (NEPOMUCENO et al., 2013). Dentro desse processo de ampliação e revisão crítica, muitos referenciais teóricos e metodológicos são analisados, discute-se um conjunto de habilidades e competências necessárias para agir em saúde e no SUS, várias inovações são exigidas no exercício da prática profissional, subsidiando certa reconstrução de representações e identificações profissionais, que redireciona alguns processos de subjetivação implicados na prática. Articula-se assim, na prática profissional, um conjunto de questões afetivas referentes
à construção de uma identidade profissional específica ao campo da APS. Nesse processo de construção da identidade profissional, alguns participantes relataram sentir-se “efetivamente psicólogos” a partir da experiência de trabalho na RMSF e NASF, pela amplitude do campo e complexidade de seus problemas, que contribui para que o psicólogo tenha mais “marra profissional”:
Eu acho que assim, eu me descobri psicólogo quando eu tava na residência. Porque eu acho que quando eu saí da graduação eu fiz o meu estágio na clínica o último, mas eu acho que eu só me senti psicóloga mesmo na residência assim realmente estou sendo psicólogo, eu estou fazendo coisa que o psicólogo faz. Mesmo a gente tendo essa crise toda, mas eu me senti como psicólogo foi na residência. Então, eu acho que me fez construir, me construir enquanto profissional. Claro que na minha formação toda eu me construí como profissional, minha graduação. Mas d’eu me sentir né, acho que tem a ver com isso d’eu me sentir profissional acho que foi muito importante assim e me fez eu acho que...
Pesquisador: E como que a atenção primária te fez sentir psicólogo?
Justamente por essa complexidade de demandas. Por exemplo, um psicólogo que atua só numa coisa ele não tem experiência com outra coisa. Mas a gente, na atenção primária, tem experiência de tudo, praticamente de tudo.
Pesquisador: E tem uma visão ampla da psicologia é?
É. Por exemplo, tem visão desde o bebê, da criança, do adolescente, dos adultos e dos idosos. Então, assim, a gente atua com todas as faixas etárias, com diversos aspectos do conhecimento, da atuação psicológica que envolve. Aqui, por exemplo, eu aprendi a fazer testes neuropsicológicos pra atuar com os idosos, pra fazer coisas de acompanhamento terapêutico, coisas de psicologia escolar, de psicopedagogia, coisas de álcool e drogas, de coisas de saúde mental mais grave, dos diversos tipos dos transtornos. Porque no território tem de tudo e não é só uma coisa. Então, eu me construir assim “putz, né?! Tenho experiência em muitas coisas né?!”, não tenho experiência numa coisa só não [...] mas com a diversidade da vida mesmo, das pessoas e, o que eu acho muito bom da atenção primária[...] Então eu acho que isso foi muito bom pra mim, assim, de me construir com... dar marra mesmo ao profissional.
A experiência da APS levou alguns profissionais participantes a fortalecerem-se na construção de uma identidade profissional marcada pelos amplos e diversos âmbitos de possibilidades práticas, aglutinando saberes e práticas oriundos de diversas áreas de atuação da psicologia e de outras profissões de saúde. Isso nos remete a pensar os desafios da formação em psicologia para o trabalho nas políticas públicas, que têm crescido atualmente como na ampliação de espaços de contratação de trabalhadores sociais e que tem se refletido no deslocamento de um perfil de profissional liberal para um trabalhador social no campo das políticas públicas (FERREIRA NETO, 2011).
Em nosso caso, vemos a APS como grande desafio pela abertura de diversas perspectivas práticas. A possibilidade de experimentar diversos espaços de prática, de submeter à ação e reflexão um conjunto amplo de referenciais, modos de ser e abordagens teórico-metodológicas da psicologia, qualifica a APS como campo de potencias transformações na relação entre psicologia e políticas de atenção à saúde. Isso claro, em nossa
experiência, sofre influência marcante dos processos instaurados pelos programas de RMSF. Como destaca o participante, na fala abaixo, a experiência da APS do SUS, tem o potencial de repercutir na formação dos agentes, especialmente, na preparação para lidar com a relação entre a prática psicológica e as necessidades de saúde da população, qualificando os agentes para a produção de ações consistentes e legitimadas no processo saúde-doença-cuidado.
Participante:Eu não sei bem assim dimensionar e tamanha é a importância, porque eu acho que pra mim foi uma formação, alguma formação aquilo que eu pude ter assim, me deu. E, assim, quando eu sento e converso sobre, eu percebo que eu acho que eu não sei tão pouco assim, como eu penso que sei, que acabei absorvendo alguma coisa por estar lá. Por ter sido dado pra mim essa oportunidade de estar inserido na atenção primária e de perceber a importância disso. E de me conectar com gente, de me conectar com pessoas de diversas categorias, de procurar construir um fazer e um saber que realmente tenha uma eficácia, que traga algum benefício pra aquelas pessoas que tão ali. E, assim, pra mim, eu considero uma grande parte da minha formação profissional o fato d’eu ter passado e estar ainda esses dois anos e cinco meses dentro de um centro de saúde da família, me ajudou demais, me deu muito mais do que eu dei.
Pesquisador:O que te deu?
Participante:Me deu consistência, mais consistência, não vou dizer que deu a consistência.
Pesquisador:Consistência em que?
Participante:Consistência profissional. Eu me senti mais psicólogo, lá dentro do centro de saúde da família.
Pesquisador:O que é esse “me sentir mais psicólogo”?
Participante: Porque isso aí eu já tou falando de uma crise pessoal que eu tive no curso, de por não ter feito o curso, que eu considerei depois, não sendo... não vou dizer ideal, porque ideal não tem, mas que eu sabia que eu poderia ter feito, olhando pra trás pro curso, eu digo que poderia ter feito isso. E eu sempre me achei meio psicólogo, eu tinha até o constrangimento de dizer pra mim mesmo e pros outros “eu sou psicólogo”, porque eu via psicólogos perto de mim, eu sabia o que era o psicólogo, um cara que tem um saber ali. [...] a atenção primária me deu muita coisa pro meu saber de verdade mesmo pra que eu tivesse condição de ter a tal da práxis e não só a prática, entendeu. [...] Porque, na atenção primária, eu tive chance de ter muitas experiências em uma só. Porque eu sempre valorizei, sempre percebi a riqueza de você, numa segunda-feira, estar indo numa casa de uma pessoa, numa terça-feira ta numa catequese ouvindo um grupo de idosos, numa quarta-feira você ta no ambulatório, numa quinta-feira você ta numa escola, numa sexta-feira você ta numa formação no auditório de uma Regional, numa segunda-feira estar num hotel fazendo um curso de formação em saúde mental, entendeu? Então onde é que eu vou ter a chance de ter todas essas experiências numa só?
O fortalecimento de uma identidade profissional, a partir da variação constante de perspectivas de atuação aparece como resultado parcial das ações desenvolvidas no campo da APS do SUS. Esses processos de reconstrução identitária não podem ser atribuídos somente à experiência de realização e reprodução de práticas, mas também ao exercício da problematização do cotidiano, que é facilitada em atividades formais e não-formais de educação permanente em saúde, atreladas à RMSF e ao NASF. No campo da sociologia das profissões, um aspecto bastante discutido na análise do processo de profissionalização é a incorporação de tecnologias e inovações, que possibilitam a renovação gradual e progressiva
da base cognitiva e a consolidação do monopólio da competência (BOSI, 1996; DUBAR, 2005; MACHADO, 1995). Pudemos perceber, nesse contexto, a influência da experiência de práticas profissionais na ESF, como reconfiguradora da identidade profissional. As identidades profissionais são, assim, marcadas pelos processos de socialização produzidos no interior dos espaços sociais da ESF, que reconfiguram as representações que os profissionais têm de si mesmos como profissionais. A partir de uma abordagem da relação entre socialização, identidade profissional e autonomia, como proposta por Dubar (2005), pudemos observar várias “formas identitárias”, que são representativas dos processos sociais de construção da realidade implicados nas práticas dos psicólogos nesse novo contexto da ESF. Assim, em nossa abordagem, a socialização profissional vivida no espaço de práticas foi entendida a partir dos modos característicos como os psicólogos participantes se identificaram como psicólogos no entrecruzamento da estrutura do campo com suas trajetórias profissionais e de formação anteriores. Assim, abordamos alguns dos sentidos da experiência profissional vivida pelos psicólogos, para a identificação de designações compartilhadas pelos participantes sobre si mesmos como atores profissionais.
A construção da identidade profissional é, como vimos a partir da análise das entrevistas, impactada pela experiência da prática profissional na ESF. As direções apontadas nessa construção passam pela reconstrução de uma identidade profissional muito marcado pelas representações da profissão ligadas à prática da clínica. Um dos entrevistados destaca sentir-se mais psicólogo clínico a partir da experiência vivida na ESF. Nesse campo, paradoxalmente como já vimos, a experiência profissional evidencia os limites e necessidades de revisão do arcabouço teórico-metodológico da clínica diante da complexidade dos processos de constituição de sujeitos envolvidos nas ações.
É engraçado, hoje eu me considero muito mais um psicólogo clínico. Assim, muito mais de cuidar dos quadros clínicos, de quadros de adoecimento mesmo, de transtorno mental, de manejar. Eu me considero muito mais preparado do que antes, mas ao mesmo tempo também despreparado, porque eu vi como tem questões, assim, que sempre vão estar pra além do que eu sei, do que eu já vivi. E, ao mesmo tempo, que eu me considero mais preparado, mas também eu vejo como eu estou mais distante. Eu não tinha talvez a dimensão do como complexo pode ser o sujeito, de como ele pode se apresentar de diversas formas assim.
Reconhecer-se como profissional da clínica foi um imperativo de apropriação, das relações entre um conjunto de saberes e práticas, ligados ao contexto do campo da APS. Na análise de alguns significados expressos nas entrevistas, o processo de constituição da identidade de profissional é atrelada ao campo das práticas da saúde, onde a dimensão do espaço social demarca o tipo e a representação das práticas.
Participante:O que eu visualizo assim, foi muito rico e como divisor de águas mesmo assim a questão da Residência. Então, tudo pós-residência na área da saúde eu já vejo de uma outra maneira. Não só porque eu vejo teoricamente, mas porque é uma teoria que foi associada a prática, a vivência, o experimentar no campo né, do contato. Então, hoje tudo que eu vejo pós eu vejo diferente [...] Na perspectiva de uma compreensão ampliada. [...]
Pesquisador:E como é que isso reverbera na profissão do psicólogo e na sua prática psicológica? O que esse campo todo ...
Participante:Eu acho que esse todo, de alguma forma mexeu um pouco na minha identidade como psicólogo. Porque hoje eu já não me vejo mais tanto como um psicólogo, hoje eu me vejo mais como profissional da saúde. Eu acho que ela acabou interferindo muito nisso assim também dessa coisa da identidade. Hoje eu não consigo, eu sei que tem a história do núcleo e o campo e tudo e eu vejo onde é que eu estou. Mas hoje eu já não me vejo mais tão rigidamente psicólogo, hoje me vejo mais o profissional da saúde, o profissional da saúde mental.
O contato com uma rede de serviços interligados com a ESF constitui uma experiência marcante para os participantes, de aprender a lidar com uma multiplicidade de vetores influenciadores da prática e influenciados por esta, situados na interface de serviços de saúde, especialmente no espaço de intersetorialidade com as políticas de ação social e de intrasetorialidade com outros níveis de atenção à saúde. Observamos aqui, os desafios da construção cotidiana das políticas e serviços de saúde, onde a participação dos agentes é fundamental. Na perspectiva da APS, no âmbito municipal, discute-se a importância da construção de práticas intersetoriais que se processam na ação comunitária, no território, na articulação de diversas políticas sociais municipais e integração das redes de atenção. Isso constitui um dos desafios para se efetivar uma APS abrangente e reorientadora dos modelos de atenção à saúde (GIOVANELLA et al., 2009). Destaca-se, aqui, o papel da RMSF e NASF na construção das práticas profissionais e processos de formação para atuar no SUS.
Foi uma questão de organização do sistema de saúde, que eu me deparei com isso na residência. Então assim, me importar com isso surgiu da residência, foi gestado na residência e foi uma coisa que me modificou. Até pensar assim a minha prática clínica, mesmo quando eu estou no consultório quando eu estou atendendo individualmente alguém. Eu não estou mais, mas até o final da residência praticamente já tava atendendo no consultório na clínica privada. Eu começo a me perguntar coisas diferentes, eu começo a ter questionamentos diferentes a respeito daquela pessoa, que extrapolava a relação que eu tinha, anteriormente. E, assim, eu acho que mudou a minha prática clínica também. Eu acho que mudou a minha forma de até se pensar, as questões que eu penso hoje tem muito mais a ver com o SUS, com a saúde mental no SUS, do que uma questão da psicologia. [...]foi a atenção primária que me fez perceber o SUS enquanto um conjunto, enquanto um sistema e aí eu posso estar na atenção primária ou secundária ou então na gestão ou no apoio institucional ou numa articulação, enfim, qualquer ponto e aí eu estou pensando coisas que eu comecei a pensar por causa da atenção primária.[...] Eu acho que a atenção primária exige essa abertura pra fora dela mesma sabe, pra fora do posto de saúde, pra fora só desse serviço. Eu acho que é mais fácil as pessoas se encapsularem em outros serviços, em outros níveis de atenção do que na atenção primária. Eu acho que ela exige maior capilaridade, exige maior relação, maiores articulações com outras coisas tanto com o território quanto com a rede de serviços.
Observamos o desenvolvimento das capacidades de pensar o usuário e seu modo de vida no território, suas relações sociais e institucionais, bem como de reconhecer outros serviços e instituições potencializadores das práticas de saúde. Isso pode ser concebido como uma dimensão do habitus profissional sobre o qual a experiência prática na APS incide de modo transformador no desenvolvimento dos agentes, como profissionais mais plurais na construção de ações. O habitus profissional, como sistema de disposições incorporados para pensar e agir formado no decorrer das trajetórias profissionais, da maioria dos participantes nos permite pensar as possibilidades de transformação identitária proporcionada pela experiência na ESF. O que, em nosso caso, permite pensar no caráter formativo do campo, trazendo importantes possibilidades para se pensar e fazer a psicologia, numa perspectiva de maior e mais qualificado compromisso social. Aqui reconhecemos as potencialidades do contexto histórico atual, de ampliação da inserção da psicologia na ESF, como propulsor de contextos práticos ricos de elementos capazes de mobilizar uma parte das experiências históricas incorporadas pela profissão no Brasil e reconfigurar novos modos de ser psicólogo. Entendemos, em diálogo com alguns autores (BOURDIEU, 2012; DUBAR, 2005; LAHIRE, 2003), que a formação de um profissional é resultado de múltiplas experiências passadas, de múltiplas aquisições feitas em situações sociais vividas e da atualização de disposições adquiridas a partir das novas incursões profissionais. O encontro entre a psicologia e a ESF tem nos permitido uma reflexão importante sobre a força desse campo de atuação para a reconstrução das identidades profissionais, para uma formação, bastante explorada nas RMSF, capaz de marcar as trajetórias e os corpos dos profissionais. Essa relação entre os campos e os habitus, em nosso estudo, revelou uma ESF rica em possibilidades de transformação e atualização dos habitus profissionais dos psicólogos.
E se essas forças [do contexto] exigem por vezes de nós outras coisas que não podemos dar, então não temos geralmente outras opções senão encontrar uma outra