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1. BÖLÜM

3.13. Geleceğe İlişkin Değerlendirme Biçimleri

3.13.2. Meslek Ahlâkı Kavramı Ve Uyulması Gereken Ahlâki Kurallar

Esta pesquisa é sobre a explicação das mudanças num determinado grupo de políticas públicas, a saber, as políticas municipais de habitação de São Paulo. Contudo, a motivação para realizá- la não veio, propriamente, do desdobramento do debate acadêmico neste campo, o das políticas públicas, ainda que seja inegavelmente influenciada por ele. Ela decorre de certa curiosidade do pesquisador quanto ao desenvolvimento de uma análise, e quiçá de uma teoria, dos movimentos sociais brasileiros, que buscasse, enquanto tal, controlar as consequências, para sua própria análise, da compreensão de Estado por ela adotada em seu movimento analítico. Ou seja, uma teoria dos movimentos sociais brasileiros, com um controle aumentado sobre os efeitos explicativos das variáveis relacionadas ao conceito de Estado mobilizado. Essa curiosidade floresceu a partir da impressão do pesquisador de que as mudanças nas análises sobre os nossos movimentos sociais, talvez, sejam mais adequadamente explicadas pelas mudanças naquilo que os pesquisadores entendiam por Estado do que por mudanças nos próprios movimentos.

Não obstante, grande parte desta variação na concepção do que é o Estado não se deve a devaneios dos pesquisadores, mas à mudança do que foi concretamente o Estado ao longo da

história desses movimentos. Daí alguns estudiosos, a nosso ver, até sugerirem que, talvez, residam na nossa interpretação do Estado as nossas explicações sobre os movimentos sociais26.

Do que outros, em outros momentos, com certeza discordariam, e outros, ainda hoje, com certeza discordam. É um ponto polêmico, mas o importante a ressaltar é a necessidade de aumentarmos o controle sobre os efeitos explicativos da concepção de Estado, que a cada momento adotamos, para a análise dos movimentos sociais daí resultante. Por isso, há um interesse quanto aos lugares do Estado na conformação daqueles atores e, sobretudo, quanto aos lugares destes na conformação daquele no cerne desta pesquisa27.

Tal interesse coloca questões que se desdobram em pelo menos três planos: um metateórico, um teórico-metodológico, e outro empírico. No primeiro, as questões se referem à dissociabilidade destes dois supostos objetos: movimentos sociais e Estado. Em outras palavras, serão eles dois entes ou diferentes expressões de um mesmo ente. Há alguma totalidade, cultural ou socioeconômica que conforma e explica ambos, ou eles são entidades ontologicamente distintas, apesar de se relacionarem? Esta é uma questão complexa e como tal não possui respostas fáceis, tranquilas e definitivas.

Trata-se de um debate em aberto, contudo, nesta pesquisa há uma escolha, há opção pela dissociabilidade dos objetos. Esta opção nos parece mais adequada a uma pesquisa que quer jogar luz sobre a interação dos movimentos sociais com o Estado. Ao tratarmos os dois objetos como entes diversos, as interações entre eles ficam mais visíveis, do que quando os tratamos como manifestações de um mesmo ente. Com isso não se quer propor uma resposta àquele debate aberto. Trata-se apenas de um recurso de pesquisa que força uma explicitação da

26 Ruth Cardoso foi, até onde conheço, a primeira a apontar que a oposição movimento-Estado, até então

central na construção do ator movimento social, talvez não fosse epistemológica mas sim ontológica do campo de estudo dos movimentos brasileiros: “Ao criticar, não estou dizendo que os pesquisadores erraram ou não viram. Estou querendo mostrar como os próprios contextos políticos e o próprio contexto ideológico recorta de certa maneira um objeto e como esse recorte, no caso dos movimentos sociais, dificultou o entendimento da dinâmica do que aconteceu depois. Daí a visão tão recorrente de que houve um refluxo, uma cooptação”. Ver CARDOSO, Ruth. A Trajetória dos Movimentos Sociais. In: DAGNINO, Evelina (org). Os Anos 90: política e sociedade no Brasil. São Paulo: ed. Brasiliense, 1996, p.85.

27 Tatagiba, por exemplo, foca-se na influência da Prefeitura Municipal de São Paulo sobre o mesmo

movimento. Em um de seus trabalhos, sugere que se faça algo muito próximo do que nos propusemos: “Claro que a forma como cada organização do movimento responde a esses diferentes contextos, assim como os resultados que obtém varia, dentre outras coisas, em função de seus recursos organizacionais, de sua posição relativa no interior da rede, de seus projetos políticos etc. Aliás, um interessante campo de investigação a ser explorado em pesquisas é a forma como contextos, projetos e estratégias se combinam na produção de diferentes resultados. [grifo nosso] (TATAGIBA 2011, p.245) Ver TATAGIBA, L. Relação entre movimentos sociais e instituições políticas na cidade de São Paulo: o caso do movimento de moradia. In KOWARICK, L; MARQUES, E (org.). São Paulo: novos percursos e autores. 1ª ed. São Paulo: Ed. 34; Centro de Estudos da Metrópole, 2011, pp. 253-254.

conceituação do Estado, além da conceituação de movimento evidentemente, e, sobretudo, uma explicitação das consequências dessa conceituação para a explicação das interações entre esses dois entes. Desta opção derivaram-se as opções teórico-metodológicas da pesquisa.

Revisões bibliográficas dos estudos sobre políticas públicas indicam que existem atualmente diversas abordagens disponíveis a um pesquisador das interações entre Estado e atores sociais28.

A questão que se coloca ao pesquisador é a da escolha entre elas. Escolha esta que em grande medida deve ser orientada pela adequação entre o que se quer pesquisar e o como se vai pesquisar.

Nos dias de hoje, na Ciência Política, três variantes do Neoinstitucionalismo agrupam grande parte dos estudos sobre políticas públicas: (i) o neoinstitucionalismo da escolha racional, (ii) o histórico e (iii) o sociológico. Este último, a princípio, não seria o corpo teórico-metodológico mais adequado para esta pesquisa. Hall e Taylor, em importante artigo sobre as três versões do neoinstitucionalismo29, após exporem as principais características de cada um, utilizam as

diferentes posições de cada um deles quanto a dois temas, (a) instituições e comportamento e (b) criação e mudanças de políticas públicas, para iluminarem as potencialidades e os limites de cada uma das abordagens. Ao discutirem este segundo tema, (b) como as diferentes versões do neoinstitucionalismo abordam e explicam a criação e mudança das políticas públicas, tema este especialmente caro a esta pesquisa, eles apontam que:

Do ponto de vista da Ciência Política, contudo, a abordagem do institucionalismo sociológico amiúde parece estranhamente etérea. Especificamente, ela pode deixar inteiramente de lado o fato de que o processo de criação ou de reforma institucional envolve um conflito de poder entre atores cujos interesses entram em competição [...] Em certos casos, os neo-institucionalistas sociológicos parecem privilegiar de tal modo os processos macrossociológicos que os atores em jogo parecem desvanecer-se ao longe, tornando o resultado semelhante a uma ‘ação sem atores’.30

28 Cf : (1) SOUZA, Celina. 'Estado do Campo' da Pesquisa em Políticas Públicas no Brasil. RBCS, 18(51): 15-

20 2003. (2) SOUZA, Celina. Políticas Públicas: uma revisão da literatura. Sociologias, Porto Alegre, 8(16): 20- 45. 2006. (3) SOUZA, Celina. Estado da Arte da Pesquisa em Políticas Púbicas. In: HOCHMAN, Gilberto, ARRETCHE, Marta, e MARQUES, Eduardo. Políticas Públicas no Brasil. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2007. (4) FARIA, C. Ideias, Conhecimento e Políticas Públicas: Um inventário sucinto das principais

vertentes analíticas recentes. RBCS, 18(51), 2003. (5) CAPELLA, A. Perspectivas Teóricas sobre o Processo de Formulação de Políticas Públicas. In: HOCHMAN, Gilberto, ARRETCHE, Marta, e MARQUES, Eduardo. Políticas Públicas no Brasil. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2007.

29 HALL, P. A. e TAYLOR, R.C.R. As Três Versões do neoinstitucionalismo. LUA NOVA Nº 58. 2003. O

original é de 1996.

Esta vertente do neoinstitucionalismo se desenvolveu no âmbito da Sociologia das Organizações, questionando a primazia do processo de racionalização do mundo na explicação das mudanças organizacionais. Scott, num artigo de 2004, em que comenta o desenvolvimento da Sociologia das Organizações31, aponta que nas décadas de 60 e 70 essa área da Sociologia

se caracterizou por sucessivos desenvolvimentos teóricos quanto aos determinantes das organizações. Esses desenvolvimentos estariam centrados na preocupação dos pesquisadores quanto ao lugar do ambiente, do entorno num sentido amplo, na explicação das características e das mudanças das organizações. Seis abordagens surgiram nesses anos: (a) Contingency Theory, (b) Transaction Cost, (c) Resource Dependence Theory, (d) Network Theory, (e) Organizational Ecology, e (f) Institutional Theory. Segundo Scott, pesquisadores de Stanford foram responsáveis por grande parte desses desenvolvimentos, dentre eles pelo o que veio a ser denominado de Neoinstitucionalismo Sociológico32.

A Contingency Theory, a primeira nova abordagem a surgir, reconhecia que as organizações eram dependentes de seus ambientes quanto aos recursos e às informações técnicas, e que tais ambientes variavam quanto à sua complexidade e grau de incerteza. Consequentemente variavam as estruturas organizacionais. As organizações eram vistas como variando em função de seus distintos ambientes técnicos, e, sobretudo, era esperado que organizações mais adaptadas aos seus ambientes específicos tivessem um melhor desempenho. A segunda abordagem, Transaction Cost, desenvolveu-se a partir da ideia, advinda da Economia, de que todas as transações, de bens e serviços, são custosas, porém que os custos variam. Para essa abordagem, transações seriam incertas e complexas, e as organizações reduziriam isso por alinharem interesses e introduzirem sistemas de controle que desencorajariam o comportamento oportunista. A terceira abordagem, Resource Dependence Theory, também ressaltava a importância da adaptação da organização ao ambiente, contudo, concebia o ambiente composto também pelo sistema político, além do econômico. A quarta abordagem foi a aplicação da

Network Theory ao estudo das relações entre organizações, apontando o poder explicativo de

variáveis como estrutura da rede e a posição da organização na sua rede para se compreender as organizações e seus desempenhos.

31 SCOTT, R W. Reflections on a half-century of Organizational Sociology. Annu. Rev. Sociol. 30:1–21. 2004. 32 “Throughout this creative period, I was working at Stanford University, where I would remain throughout my

career. By the mid-1970s, the collection of organizational scholars assembled at this place was unrivaled in the world. Three of the six major theories—resource dependence, organizational ecology, and institutional theory— were launched by members of the Stanford faculty”. SCOTT, R W. Reflections on a half-century of

A quinta abordagem, Organizational Ecology, questionava a capacidade de uma organização individual de resistir a mudanças fundamentais, apontando que os estudos sobre mudanças organizacionais deveriam focar-se, não em casos individuais, mas no estudo de populações de organizações. A sexta abordagem, Institutional Theory, enfatizava a importância dos aspectos culturais do ambiente para a explicação das organizações. Note-se, ela ressaltava os aspectos culturais. Esta última abordagem é o que denominou-se no debate da Ciência Política de Neoinstitucionalismo Sociológico. Quanto a ela Scott aponta que:

Building on the work of Berger & Luckmann (1967), institutional theorists [os do neoinstitucionalismo sociológico] argued that organizations must consider not only their technical environment but also their “institutional” environment: regulative, normative, and cultural-cognitive features that define 'social fitness'. Earlier theorists, such as Selznick and Parsons, stressed the regulative and normative aspects of institutional systems. Later 'neoinstitutionalists' recognized these as significant factors, but they also called attention to the role of symbolic elements—schemas, typifications, and scripts that perform an important, independent role in shaping organization structure and behavior.33 (grifo nosso)

Por esta perspectiva, as mudanças observadas nas organizações não seriam decorrências da ação racional, do processo de racionalização do mundo engendrado pelas organizações e suas necessidades. Seriam sim, decorrências de mecanismos e processos que têm dado origem às práticas culturais em geral, tais como os mecanismos de transmissão ou de difusão. O livro The

New Institutionalism in Organizational Analysis34, composto por trabalhos de alguns dos

principais pesquisadores dessa abordagem, procura apresentar as origens, o presente, e o futuro dessa perspectiva. Na Introdução deste livro DiMaggio e Powell apontam os quatro estudos fundamentais dessa abordagem: (a) Institutionalized Organizations: Formal Structure as Myth and Ceremony35, (b) The Iron Cage Revisited: Institutional Isomorphism and Collective

Rationality36, (c) The Role of Institutionalization in Cultural Persistence37, e (d) The

33 SCOTT, R W. Reflections on a half-century of Organizational Sociology. Annu. Rev. Sociol. 30:1–21. 2004.

p.7

34 DiMaggio P. e Powell W.W. The New Institutionalism in Organizational Analysis. Chicago. University of

Chicago Press, 1991.

35 Meyer, J. W. e Rowan, B. Institutionalized Organizations. Formal Structure as Myth and Ceremony.

American Journal of Sociology, 83, pp. 340-363. 1977.

36 DiMaggio & Powell. “The Iron Cage Revisited: Institutional Isomorphism and Collective Rationality”.

American Sociological Review, Vol. 48, No. 2, pp. 147-160. Apr., 1983.

37 Zucker. The Role of Institutionalization in Cultural Persistence. American Sociological Review, Volume 42,

Organization of Societal Sectors: Propositions and Early Evidence38. Nesse livro vê-se que de

fato a divergência entre o neoinstitucionalismo sociológico e a posição de Parsons e Selznick é

maior do que o “reconhecimento tardio” de Scott, três décadas depois, dá a entender. Para

DiMaggio e Powell, a teoria institucional na análise das organizações, o Neoinstitucionalismo Sociológico na Ciência Política, surge como uma resposta aos desencontros dos resultados da pesquisa empírica com as teorias então correntes39. Segundo eles,

The resurgence of interest in institutions also harkens back to an older tradition of political economy, associated with Veblen and Commons, that focused on the mechanisms through which social and economic action occurred; and to the efforts of functionalists like Parsons and Selznick to grasp the enduring interconnections between the polity, the economy, and the society. These older lineages fell into disfavor not because they asked the wrong questions, but because they provided answers that were either largely descriptive and historically specific or so abstract as to lack explanatory punch. The current effort to conjoin the research foci of these traditions with contemporary developments in theory and method is not merely a return to scholarly roots, but an attempt to provide fresh answers to old questions about how social choices are shaped, mediated, and channeled by institutional arrangements.40

Peci, Vieira e Glegg apontam que a principal crítica deste institucionalismo ao funcionalismo de Parsons referir-se-ia à falta duma dimensão cognitiva41. Podemos ver tal crítica e a solução

adotada, a introdução da dimensão cognitiva no Neoinstitucionalismo Sociológico com base no Construtivismo Social, por exemplo, numa passagem, naquela mesma Introdução, quando

38 Scott & Meyer. The Organization of Societal Sectors: Propositions and Early Evidence. In: DiMaggio P. e

Powell W.W. The New Institutionalism in Organizational Analysis. Chicago. University of Chicago Press, 1991.

39 “Studies of organizational and political change routinely point findings that are hard to square with either

rational-actor or functionalist accounts. Administrators and politicians champion programs that are established but not implemented; managers gather information assiduously, but fail to analyse it; experts are hired not for advice but to signal legitimacy. Such pervasive findings of case-based research provoke effotrs to replace rational theories of technical contingency or strategic choice with alternative models that are more consistent with the organizational reality that researchers have observed”. Scott & Meyer. The Organization of Societal Sectors: Propositions and Early Evidence. In: DiMaggio P. e Powell W.W. The New Institutionalism in Organizational Analysis. Chicago. University of Chicago Press, 1991, p.3.

40 Ibid., p.2.

41 “A principal crítica que o novo institucionalismo direciona ao funcionalismo de Parsons refere-se à falta da

dimensão cognitiva que, segundo os representantes dessa abordagem, pode ser encontrada nos estudos de March e Cyert (1963), March e Simon (1958) e Simon (1976). O processo de tomada de decisão dentro das

organizações se apresenta como um deslocamento do velho para o novo institucionalismo, de uma abordagem normativa para uma abordagem cognitiva, do comprometimento para rotina, da motivação para a lógica de seguimento das regras (Heritage, 1984; McSwite, 1998; Powell & Dimaggio, 1990).” PECI, A.; VIEIRA, M. M. F.; CLEGG, S. R. A Construçăo do “Real” e Práticas Discursivas: o Poder nos Processos de Institucionaliz(açăo). RAC, v. 10, n. 3, pp. 51-71. Jul./Set. 2006.

DiMaggio e Powell abordam a importância de Berger e Luckmann para a formação do Neoinstitucionalismo Sociológico:

Berger and Luckmann, like Parsons, slight the microconstruction of social order that so concerned Garfinkel. Practical reasons is not their concern. Indeed, their account of institutions as constituted by 'a reciprocal typification of habitualized actions by types of actors' (1967:54) is similar to Parsons' discussion of institutionalized roles, but with a crucial difference. Their analysis operates largely at the level of cognition, whereas Parson enphasizes the evaluative and cathetic aspect and the integration of role requirements with the personality system. By contrast, Berger and Luckmann grant extraordinary power to institutions as cognitive constructions, suggesting that they 'control human conduct... prior to or apart from any mechanisms or sanctions specifically set up to support' them (p. 55). Even the internalization of typifications, although guided by cathectic attachments and linked to normative legitimation, is essentially cognitive in nature.

Ethnomethodolgy and phenomenology together provide the new institutionalism with a microsociology of considerable power.42

Berger e Luckmann, dois expoentes do Construtivismo Social, preocupavam-se acerca de como determinada verdade é assumida como realidade43. Nesta abordagem, a sociedade é vista como

uma grande instituição. Assim, apesar da perspectiva do Neoinstitucionalismo Sociológico fornecer análises muito interessantes, a forma como ela aborda o estudo da sociedade embaça a fronteira entre o Estado e os atores sociais, permitindo passagens fáceis de ideias e padrões comportamentais de um para outro. Não sendo por isso profícua ao detalhamento e esmiuçamento dessas interações que este estudo pretende realizar. Caso se adotasse esta abordagem, provavelmente, a análise que seria desenvolvida nesta pesquisa recairia nos mesmos problemas que ela busca superar. Por fim, a adoção de tal perspectiva significaria abrir mão da opção feita no plano metateórico quanto à dissociabilidade entre Estado e atores sociais. Isto porque, na perspectiva do institucionalismo sociológico, esses dois objetos são expressões diferentes de um mesmo ente, uma grande instituição que molda, significa e explica a ambos,

42 DiMaggio P. e Powell W.W. The New Institutionalism in Organizational Analysis. Chicago. University of

Chicago Press, 1991p.21.

43 “Exagerar a importância do pensamento teórico na sociedade e na história é um natural engano dos

teorizadores. Isto torna por conseguinte ainda mais necessário corrigir esta incompreensão intelectualista. As formulações teóricas da realidade, quer sejam científicas ou filosóficas quer sejam até mitológicas, não esgotam o que é 'real' para os membros de uma sociedade. Sendo assim, a sociologia do conhecimento deve acima de tudo ocupar-se como que os homens 'conhecem' como 'realidade' em sua vida cotidiana, vida não teórica ou pré teórica. Em outras palavras, o 'conhecimento' do senso comum, e não as 'ideias', deve ser o foco central da sociologia do conhecimento. É precisamente este 'conhecimento' que constitui o tecido de significados sem o qual nenhuma sociedade poderia existir.”. BERGER, P. L. e LUCKMAN, T. A Construção Social da Realidade:Tratado de Sociologia do Conhecimento. 16. ed. Petrópolis: Vozes, pp.29-30. 1998.

a cultura. Assim sendo, a adoção dessa perspectiva resultaria no abandono daquela opção, que apesar de ser provisória é, nesta pesquisa, indicativa da linha analítica.

Diferentemente da vertente sociológica, o Neoinstitucionalismo da Escolha Racional opera com uma dissociação ontológica entre ator e instituição. Para esta perspectiva, os atores são agentes maximizadores de seus ganhos. Eles necessariamente agem estrategicamente com base em seus cálculos. Esses cálculos são realizados com base nas informações de que dispõe, principalmente:

pelas expectativas do ator relativas ao comportamento provável dos outros atores. As instituições estruturam essa interação ao influenciarem a possibilidade e a sequência de alternativas na agenda, ou ao oferecerem informações ou mecanismos de adoção que reduzem a incerteza no tocante ao comportamento dos outros, ao mesmo tempo que propiciam aos atores ‘ganhos de troca’, o que os incentivará a se dirigirem a certos cálculos ou ações precisas. Trata-se de um enfoque ‘calculador’ clássico para explicar a influência das instituições sobre a ação individual.44

Note-se, que apesar das instituições fornecerem informações acerca da ação de agentes, elas propriamente não são agentes. São entes de uma substância diversa dos atores. Enquanto aquelas se aproximam da ideia de coisa, estes se aproximam da de sujeito. Assim, o Neoinstitucionalismo da Escolha Racional operaria numa distinção ontológica entre instituição e ator. Logo, neste plano, ele poderia ser adequado à pesquisa que aqui se propõe. Entretanto, a adoção desta abordagem teórico-metodológica, nessa pesquisa, acarretaria inadequações entre o que se quer pesquisar e o modo como se pesquisaria. Isso porque o neoinstitucionalismo da escolha racional, por sua conformação teórico-metodológica, é mais adequado ao estudo de