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BÖLÜM 3: KADIN VE ÇOCUKLARIN CAMİLERDEN BEKLEDİĞİ

3.2. Mescid-i Nebi

Para atender ao propósito de fornecer subsídios à elaboração de uma nova política educacional que atendesse às exigências colocadas pelo desenvolvimento urbano e industrial do país, observando a sua diversidade regional, as pesquisas elaboradas pelos Centros do INEP precisavam complementar a análise do funcionamento interno da escola com o estudo das relações existentes entre a educação escolarizada e o sistema social no qual ela se processava.

Tal necessidade, que estava presente na definição dos objetivos dos Centros do INEP, já havia sido identificada pelo sociólogo Antonio Candido, no início da

década de 1950, em seu trabalho “A estrutura da escola”,18 no qual o autor apontava como o conhecimento sociológico poderia complementar o ponto de vista administrativo, tendo em vista a compreensão da realidade total da escola.

Conforme Antonio Candido, a estrutura total da escola era algo muito mais amplo do que sua estrutura administrativa. A estrutura administrativa da escola correspondia exclusivamente a uma ordenação racional e consciente, deliberada pelo Poder Público, que homogeneizava todas as escolas de um mesmo tipo. Envolvendo essa estrutura administrativa e interferindo diretamente no funcionamento de cada escola existiam e precisavam ser consideradas, caso se pretendesse alcançar uma visão mais larga e compreensiva da realidade da escola, todas as relações que derivavam da sua existência enquanto um grupo social dotado de dinâmica própria:

Isto vale dizer que, ao lado das relações oficialmente previstas (que o Legislador toma em consideração para estabelecer as normas administrativas), há outras que escapam à sua previsão, pois nascem da própria dinâmica do grupo social escolar. Deste modo, se há uma organização administrativa igual para todas as escolas de determinado tipo, pode-se dizer que cada uma delas é diferente da outra, por apresentar características devidas à sua sociabilidade própria (Candido, 1953, p. 09).

Antonio Candido acreditava que, mediante o emprego da análise sociológica, seria possível o acesso à realidade total da escola, que exprimia sua “vida profunda, espontânea, fruto da integração de seus membros” (Candido, 1953, p. 09), ou seja, que exprimia “o que é próprio à vida escolar” (Candido, 1953, p. 10). Munido desse conhecimento sociológico acerca da realidade escolar, o educador, ou o administrador, ampliaria e aprofundaria sua visão acerca do funcionamento da escola e das relações nem sempre perceptíveis que nela se travavam:

Caso, porém, seja capaz de apreender a realidade total da escola, o educador (administrador, no caso) poderá analisar de maneira adequada a realidade de cada escola, que não lhe aparecerá mais como “estabelecimento de ensino” a ser enquadrado nas normas racionais da Legislação Escolar, mas como algo autônomo e vivo no que tem de próprio e por assim dizer único: que requer portanto ajustamento correspondente destas normas, visto como possui outras, que devem ser levadas em conta (Candido, 1953, p. 09-10).

A análise sociológica da escola, segundo Antonio Candido, possibilitaria ao educador complementar a sua visão acerca da estrutura administrativa da escola com outra, voltada à compreensão de como cada escola desenvolve uma dinâmica

18

O trabalho “A estrutura da escola: contribuição sociológica aos cursos especializados de administração escolar” foi publicado originalmente em 1953, reunindo parte do conteúdo dos cursos de Sociologia Educacional que o autor ministrava na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, desde 1947.

própria de relações sociais entre seus membros e sofre as influências do meio social no qual se acha inserida.

Desenvolvendo esta orientação de análise sociológica da escola sugerida por Antonio Candido, o sociólogo Luiz Pereira19 elaborou, enquanto trabalhava como pesquisador do Centro Regional de Pesquisas Educacionais de São Paulo (CRPE/SP), o trabalho intitulado “Rendimento e deficiências do ensino primário brasileiro”, apresentado no Simpósio sobre Problemas Educacionais Brasileiros, realizado em 1959, na sede daquele Centro Regional.

Neste trabalho, Luiz Pereira analisou os fatores envolvidos nos altos índices de repetência e evasão escolar observados nas escolas primárias localizadas em áreas rurais e em bairros pobres das periferias urbanas do estado de São Paulo, chegando à conclusão que o baixo rendimento apresentado nestas escolas era uma conseqüência da pequena integração existente entre os conteúdos valorizados no ensino escolarizado e o estilo de vida das populações que as freqüentavam. Conforme Luiz Pereira, o conteúdo transmitido pelas escolas primárias correspondia ao patrimônio cultural que já era conhecido apenas pelos alunos oriundos das camadas socioeconômicas urbanas médias e superiores, fazendo com que a escola, para esta parcela dos estudantes, exercesse primordialmente sua função de preservação de um estilo de vida urbano previamente possuído. Para todos os outros alunos, provenientes de meios rurais ou de camadas socioeconômicas inferiores, mesmo que citadinas, a escola exercia primordialmente sua função urbanizadora, ou seja, a função de agência de mudança sócio-cultural ou de desintegração do estilo não-urbano de vida. Nas condições sócio-culturais predominantes no Brasil na década de 1950, em que “a população não-urbanizada e semi-urbanizada ultrapassava em muito a urbanizada, participante das camadas citadinas médias e superiores” (Pereira, 1968 [1959], p. 12), avultava a função urbanizadora da escola primária, função implícita que poderia ter seu sucesso verificado na proporção inversa das repetências constatadas nas escolas primárias.

Através desta análise, portanto, Luiz Pereira demonstrava a contribuição que o ponto de vista sociológico poderia agregar à compreensão dos problemas

19

Luiz Pereira (1933-1985) formou-se em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, onde também se especializou em Sociologia e obteve o título de Doutor em Ciências Sociais (Sociologia), sob a orientação de Florestan Fernandes. Entre 1957 e 1959 foi pesquisador no Centro Regional de Pesquisas Educacionais de São Paulo.

educacionais, enfatizando a necessidade de consideração das relações que a escola estabelecia com o meio social em que funcionava:

Em face do exposto, pode-se afirmar que os problemas de rendimento e deficiências do ensino primário só são compreendidos convenientemente quando não se limita a sua focalização ao âmbito restrito da escola. De fato, mais que simples problemas educacionais, apresentam-se como manifestações parciais, no campo da educação escolar, de problemas sociais gerais da comunidade nacional brasileira (Pereira, 1968 [1959], p. 21).

Além deste trabalho, Luiz Pereira ainda elaboraria os livros “A escola numa área metropolitana” e “O professor primário metropolitano”, nos quais continuou a desenvolver essa perspectiva de análise sociológica da escola voltada ao estudo das relações existentes entre a dinâmica do funcionamento escolar e os problemas sociais do país que se manifestavam com especial intensidade nas regiões em que os processos urbanização e industrialização estavam ocorrendo de forma acelerada.

Essa perspectiva de análise sociológica da escola e das mudanças sociais que estavam se processando no país indicava para a necessidade de se levar em consideração o sistema social mais amplo em que a educação escolarizada se processava, seja para a elaboração de pesquisas sobre os problemas educacionais brasileiros, seja para a elaboração, a partir dos resultados destas pesquisas, de sugestões de alteração na forma como o sistema escolar estava organizado.

Tal orientação estava presente no projeto institucional dos Centros do INEP, no qual planejava-se tanto a realização de pesquisas que adotavam essa perspectiva sociológica de análise, como a realização de pesquisas dotadas de uma perspectiva mais administrativa acerca do funcionamento interno da escola, sendo que os resultados alcançados por ambos os tipos de pesquisas deveriam ser utilizados para promover a elaboração de novas políticas educacionais capazes de ajustar o funcionamento do sistema de ensino às mudanças sociais decorrentes do desenvolvimento econômico e social que se processava, com intensidades diferentes, nas diversas regiões brasileiras.