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No Brasil, especialmente, após a publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN (1998), a noção de gêneros do discurso passou a ser uma noção intrinsecamente relacionada à própria noção de linguagem. Por ser considerado um fenômeno que decorre entre a língua, o discurso e as estruturas sociais, possibilitou o diálogo entre estudiosos e investigadores de diferentes vertentes teóricas, especialmente aquelas que buscam explicar o

uso e funcionamento da linguagem em contextos e práticas sociais específicas, a exemplo da Linguística Aplicada. Nesse sentido, julgamos necessário explicitar alguns desdobramentos teórico-metodológicos que dão unidade conceitual ao tratamento dos gêneros do discurso no conjunto da obra bakhtiniana, em função da centralização dessa noção na análise do nosso

corpus. Nesse sentido, estamos considerando que se do ponto de vista formal, a ideia de

gênero como unidade da linguagem unifica o campo, as noções de texto, discurso e a própria natureza da linguagem possibilitam uma maior abrangência de orientações teóricas (sócio- discursiva, sócio-retórica, sócio-semióticas, sócio-históricas), postas em circulação no campo das didáticas no ensino da língua.

Dada a existência de pontos de unificação e dispersão, a noção de gênero é identificada ora como gênero textual ou como gêneros discursivos (ou do discurso)9 e trabalhadas em propostas didáticas de ensino, associadas a sequência textual, tipo textual, modalidade discursiva, comunidade discursiva, esfera ou campo social entre outros.

Dessa forma, observa-se que o estudo de gênero de um modo geral, sua descrição e a sua proposição em projetos pedagógicos de ensinos e constituem ancorados em concepções teóricas e terminologias flutuantes. No Brasil, apesar da noção de gênero ter ampla aceitação, tanto nos PCN (1998) como em livros didáticos, em projetos para o ensino da leitura e da produção textual com base nos estudos de Bakhtin e seu Círculo, observa-se essa mesma diversidade conceitual e terminológica.

Para os estudiosos e pesquisadores da obra bakhtiniana (FARACO, 2009; RODRIGUES, 2005, SOBRAL, 2009; BRAIT, 2005, entre outros), a existência de uma heterogeneidade terminológica resulta tanto do processo de tradução como do trabalho do autor em criar novos termos. De acordo com Rodrigues (2005, p. 154), essa diversidade terminológica pode ser também constatada em relação aos gêneros do discurso, quando o filósofo russo utiliza uma terminologia já existente para problematizar e ressignificar o conceito de gênero. Na oportunidade, Bakhtin (2003) cria novos termos, a exemplo de ―modos‖ de discurso,‖ ―tipos de interação verbal,‖ ―formas de enunciados,‖ ―formas de discurso social‖, entre outros, para abordá-la na formação das atividades humanas dos sujeitos a partir das ideologias (do cotidiano).

Nesse contexto, esse conceito desloca-se do domínio da arte e da retórica clássica, onde os gêneros recebem um tratamento formal, para ser evidenciado nas relações sociais dos

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Rojo (2005), Marcuschi (2006), entre outros, em diferentes tempos e lugares teóricos enunciativos, fazem uma importante reflexão sobre a questão da variação terminológica e conceitual relacionadas às noções de gêneros do discurso, gênero textual e tipo textual.

sujeito sem diferentes esferas institucionais, no mundo da vida e no mundo da cultura, ou seja, das ideologias formalizadas e sistematizadas (ciência, arte, religião, filosofia).

Bakhtin (2003) concebe os gêneros do discurso como uma forma sócio-histórica e ideológica, uma vez que os discursos materializam-se na forma de enunciados concretos, relativamente estáveis nas esferas culturais. Para Rodrigues (2005), é essa relação intrínseca com os enunciados que estabelece um elo com as situações de interação verbal (ou qualquer outro material semiótico) da vida social dos indivíduos em diferentes esferas da atividade humana. Nesse sentido, os gêneros discursivos são também formas de ação, uma vez que esses construtos funcionam como um sistema de referência tanto no processo discursivo do autor/locutor, como um horizonte de expectativas para o interlocutor, no processo de compreensão e interpretação de um enunciado, como compreensão/resposta ativa ao dizer do outro.

Por assim se constituir, o enunciado apresenta não só uma dimensão verbal composta na materialidade de signos e da organização desse material num todo coerente, mas também uma dimensão social que inclui tempo e espaço histórico, a posição social dos participantes e sua orientação valorativa (BAKHTIN/VOLOSHINOV, 2002).

Ao apontar para a dimensão social do enunciado, a situação de interação passa a integrar o contexto externo (extralinguístico), constituindo-se como uma condição indispensável para compreensão do discurso10, conforme explicitado por Bakhtin:

Um enunciado isolado e concreto sempre é dado num contexto cultural e semântico-axiológico (científico, artístico, político etc.) ou no contexto de uma situação isolada da vida privada; apenas nesses contextos o enunciado isolado é vivo e compreensível: ele é verdadeiro ou falso, belo ou disforme, sincero ou malicioso, franco, cínico, autoritário e assim por diante. Não há enunciados neutros nem pode haver; mas a linguística vê neles somente o fenômeno da língua, relaciona-os apenas com a unidade da língua, mas não com a unidade de conceito, de prática de vida, da História, do caráter do indivíduo etc.(BAKHTIN, 2010b, p. 46).

Nesse fragmento, o enunciado é pressuposto como um aspecto essencial da comunicação, estabelecendo uma relação indissociável com a vida e, por conseguinte, como posições axiológicas dos sujeitos nos atos de comunicação com a linguagem. Com essa

10 Em ―Estética da Criação Verbal (BAKHTIN,2003) os termos ―enunciado, discurso, texto são intercambiáveis.

compreensão, Bakhtin (2003) vai propor a noção de gênero como tipos relativamente estáveis, vinculados a situações típicas de comunicação social.

No texto ―Os gêneros do discurso‖, o enunciado é definido como uma unidade da comunicação sócio verbal e apresentado a partir de três peculiaridades da comunicação discursiva: i) a alternância dos sujeitos do discurso; ii) a expressividade; iii) a conclusibilidade. A noção de totalidade discursiva é determinada a partir de três aspectos interligados: a) o tratamento exaustivo do objeto e do sentido, isto é, quando o autor disse tudo o que pode ser dito naquela situação; b) a intencionalidade do enunciador em direção ao locutor; c) as formas composicionais e os gêneros do discurso.

Dessa forma, os gêneros se estabilizam nas situações sociais de interação em todas as atividades humanas como discursos individuais, dotados de uma dimensão social e uma dimensão linguístico-textual. Nessa condição, têm um efeito normativo sobre as interações verbais orais e escritas e, nas relações dialógicas, funcionam como índices de referência da atitude do falante/autor em direção ao outro, bem como do horizonte social dos interlocutores nos grupos, em suas esferas culturais.

A partir dessa compreensão para os discursos, Bakhtin (2003) vai propor a distinção entre enunciado (unidade concreta do discurso) e oração (unidade abstrata do sistema da língua). Para o filósofo, a língua, enquanto sistema objeto de estudo da Linguística, não tem contato com a realidade, relaciona-se apenas, no contexto verbal, com frases, orações, morfemas, palavras no dicionário e entre esses elementos um texto. Essas relações, embora, absolutamente, necessárias e legítimas, quando focalizadas do ponto de vista estritamente linguístico, perdem a integridade concreta e viva da língua, realizando-se nas relações dialógicas do uso da palavra, enquanto signo nos discursos.

Bakhtin (2003, p. 307-308) afirma que o ―texto (oral ou escrito)‖ é o ―dado primário de todas as disciplinas‖, ―é a realidade do pensamento e de toda a vivência humana‖. Nesse sentido, cada texto possui um autor (falante ou escritor) que age motivado por uma intenção em direção a um segundo sujeito – o interlocutor que, na condição de ouvinte/leitor, constrói um novo texto no acontecimento discursivo, como elemento ―emoldurador‖(que comenta, avalia, objeta, etc.).

O autor afirma também que cada texto pressupõe um sistema de signos, convencionalmente aceitos no âmbito de uma cultura. Este sistema de signos compreende elementos cujos significados estão nos aspectos ―técnicos‖ (gráficos e do suporte), nos modos heterogêneos das vozes dialogizadas, nos discursos realizados por cada sujeito, no modo como os falantes utilizam os recursos verbais (elementos gramaticais, lexicais) e não

verbais da língua (entonação, pelos gestos e expressões faciais), indiciadores da relação do falante com o seu discurso, ou seja, pelos elementos ―extralinguísticos‖ e metalinguísticos (aspas, parênteses, citação direta e indireta, referência bibliográfica ―[...] que penetram no enunciado também por dentro‖ e só se revelam ―[...] numa situação e na cadeia dos textos (na comunicação discursiva de um dado campo)‖ (BAKHTIN, 2003, p. 310). Cada atitude humana é, portanto ,um texto em potencial, dotado de estilo, expressividade, de posições axiológicas de dois sujeitos que nas relações dialógicas tornam o uso da palavra bivocal.

A proposta bakhtiniana para os gêneros do discurso decorre de sua compreensão de que todo o texto, seja uma obra literária como o romance, seja um enunciado/ discursos nas interações dialógicas de dois ou mais falantes, as cartas, as crônicas, as notícias, as sátiras etc., realiza-se em toda sua complexidade, nos gêneros do discurso primários e secundários, que reconfiguram a palavra do primeiro, fazendo-a interagir com a palavra do outro (o autor- criador), na forma dos discursos direto, indireto, indireto livre, entre outros, focalizando as formas de transmissão/citação do discurso do outro, como uma forma de narrativa que reflete as tendências sociais da interação verbal numa determinada época e num grupo social específico.

Partindo desse posicionamento teórico, Bakhtin (2003, p.395-396) vê o texto como o dado primário, o ponto de partida para o estudo do homem e da sua linguagem humana, definindo o seu objeto de estudo a partir do ―ser expressivo e falante‖ como um ser bilateral, ou seja, como ser expressivo ―só se realiza na interação entre duas consciências (a do eu e a do outro)‖, no diálogo com outros textos cujo contato ocorre entre indivíduos. ―[...] Se apagarmos as divisões das vozes (a alternância dos sujeitos falantes), o sentido profundo (infinito) desaparecerá (bateremos contra o fundo, poremos um ponto morto)‖ (BAKHTIN, 2003, p. 401).

Nesse âmbito, uma possível ordem para o estudo dos gêneros parte da dimensão social (constituída pelos horizontes: espacial e temporal, horizonte temático e axiológico) para a dimensão verbal (as formas da língua) ou outro material semiótico do enunciado, considerando que não se pode dissociar a relação entre os signos da comunicação social e ideológica do processo de mudança das formas da língua. Por essa razão, Bakhtin (2003) entende que os gêneros constroem a nossa experiência nos discursos e chegam a nossa consciência da mesma maneira como aprendemos a falar uma língua.

Do ponto de vista do estilo, os gêneros se constituem como uma das grandes forças sociais de estratificação e diversidade de visões de mundo socialmente significativas. Essas dimensões sociais decorrem dos diferentes horizontes axiológicos, a partir dos quais os

sujeitos constroem diferentes índices de valor para refratar os signos em cada esfera de sua atuação, nas profissões, no cotidiano, em determinada época e lugar na história e no grupo social de que participam. Por fim, os gêneros se constroem pela dimensão das formas composicionais, na relação entre os participantes da interação, pelos recursos estilísticos dispostos na língua para a organização, disposição e da totalidade discursiva, na diversidade e heterogeneidade das atividades humanas, fato que, para Bakhtin (2010b), não permitiria um plano comum para o seu estudo.

Para Bakhtin (2003), essas orientações de ordem teórico-metodológicas, não se limitam à verificação da presença ou ausência dessas dimensões como categorias previamente estabelecidas, considerando que o enunciado não se define a partir de métodos linguísticos formais para observar unidades do sistema que se tornaram elementos do texto, mas de unidade de sentido que nos discursos são inacessíveis a todas as categorizações linguísticas.

Outra questão metodológica levantada pelo filósofo da linguagem, diz respeito às análises que têm como foco a organização textual do enunciado. Se a dimensão social e a dimensão verbal dos gêneros aparecem como um elemento orientador para a identificação para aqueles mais estabilizados, essas dimensões já não são suficientes quando se consideram que esses construtos são formas plásticas, mais sensíveis às mudanças do que as formas da língua. Com isso, têm a capacidade de, no seu funcionamento, introduzir outros, denominados por Bakhtin (2010b) de gêneros intercalados, a exemplo da sátira, da carta, do bilhete etc., estudados no romance de Dostoiévski. No processo de intercalação, eles são reacentuados nos enunciados, assumindo o funcionamento discursivo de outro (um poema na forma de receita, uma apresentação de livro na forma de um artigo de lei, uma nota de compra na forma de propaganda), de forma que, só a partir de uma dada situação de interação, pode indicar o seu gênero.