4. Kant ve Sonrası
1.1.1. Mead’in Hayatı ve Eserleri
Os adolescentes relatam diversas atividades que são realizadas na Casa de Acolhida Masculina e no Centro Educacional do Adolescente, a exemplo de oficinas de artes, cursos profissionalizantes, esportes, jogos lúdicos, momento religioso, dentre outros, conforme trechos de suas falas a seguir:
- [...] no CEA fiz umas amizades com os meninos, jogava bola e o evangelismo. (Rodrigues, 16 anos)
-Aqui na Casa de bom tem os passeios, o CFCMPS, faço atletismo no DEDE e uns cursos, tem comida, dormida e evangelismo. Lá no CEA fiz mosaico, batia umas peladas, escola de lá mesmo, origami, e banho de sol [...] (Rafael, 18 anos incompletos)
- CAM: Aquieu lavo o banheiro no meu dia, arrumo o quarto, como, assisto TV, vou pro CFCMPS só que já to abusado, aí tem o DEDE que faço atletismo e malhação, e dia de sábado escuto a palavra de Deus que o irmão vem aí conversar com a gente.
CEA: [...] ouxiii... tô bestaaaa, de bom no CEA só tem o banho de sol mermo e jogar bola. (Pablo, 16 anos)
- CAM: aqui eu como, durmo, arrumo o quarto, e vou pra Piollin, teve até uma apresentação de circo lá hoje, e eu faço trapézio e teatro. É bom ir pra Piollin todo dia. (Thiago, 16 anos)
- CAM: Aqui eu assistotelevisão, durmo, jogo dama e dominó, se não o cara fica doido. Lá no CEA tinha o banho de sol duas vezes na semana, tomava vacina, jogava dama dentro da cela, mas era uma dama para oito celas, até que chegasse na do cara demorava. (Júnior, 15 anos)
- Assim... a gente faz Piollim, que eu faço aula de circo, é toda tarde. Mas aqui na casa, aqui dentro não tem nada pra fazer, nosso passatempo é só jogar dominó. No CEA tinha uns cursos, mas eu não fiz nenhum não, não me colocaram, aí só fazia assistir televisão nas áreas comum e dormir. (Fernando, 17 anos)
De acordo com Mario Volpi (2011, p.33), o papel do desenvolvimento das atividades realizadas com os adolescentes deve ser o de educar para o exercício da cidadania e não apenas preencher o tempo ocioso e servir de meio de gastar as energias. Logo, as atividades (lúdicas, culturais, esportivas)
139 devem conter um caráter educacional, com a finalidade maior de formação para a cidadania.
Contudo, é possível perceber que nas duas instituições, e mais nitidamente no CEA as atividades são pouco providas desse caráter educacional, uma vez que as mais destacadas são: jogar bola (bater pelada) e banho de sol.
Apesar de alguns relatarem frequentar a escola da própria instituição (CEA), esse acesso só é viabilizado para os sentenciados, ocorrendo muitas vezes de os adolescentes passarem meses na provisória enquanto espera a sentença, como foi a situação da maioria dos entrevistados, não se enquadrando assim no perfil imposto pela unidade de internação para ter ingresso nas atividades educacionais, o que contraria o disposto pelas Regras Mínimas das Nações Unidas para a Proteção dos Jovens Privados de Liberdade:
Nº 12. A privação da liberdade deverá ser efetuada em condições e circunstâncias que garantam o respeito aos direitos humanos dos jovens. Deverá ser garantido, aos jovens reclusos em centros, o direito a desfrutar de atividades e programas úteis que sirvam para fomentar e garantir seu são desenvolvimento e sua dignidade, promover seu sentido de responsabilidade e fomentar, neles, atitudes e conhecimentos que ajudem a desenvolver suas possibilidades como membros da sociedade. (Regras Mínimas das Nações Unidas para a Proteção dos Jovens Privados de Liberdade. 2011. p. 59) Desta feita, o Centro Educacional do Adolescente muito pouco tem se aproximado das determinações impostas pelas normativas nacionais e internacionais, de forma que os adolescentes que já se encontram excluídos das oportunidades de educação, saúde, cultura, esporte, lazer e formação cidadã, pela sua condição de vulnerabilidade e não acesso ás políticas públicas, e ao necessitarem das medidas protetivas permanecem com seus direitos violados.
Já os adolescentes que passam pela Casa de Acolhida Masculina, por não estarem privados de liberdade, têm tido mais oportunidade de garantia de seus direitos, sendo inserindo-os em aulas esportivas com profissionais especializados na área de educação física, uma vez que são matriculados no Centro Integrado de Educação Física, conhecido como DEDE, que é um
140 complexo esportivo, aonde se localiza a Vila Olímpica Ronaldo Marinho, ligado à Secretaria de Estado da Juventude Esporte e Lazer.
Além disto, de acordo com o perfil e escolaridade dos adolescentes, a Casa de Acolhida os tem matriculado em cursos profissionalizantes, como os do SENAI, o de marcenaria oferecido pela própria Secretaria do Desenvolvimento Social de João Pessoa (SEDES), o de informática realizado pelo Instituto Federal da Paraíba (IFPB), e as aulas de teatro e circenses no Centro Cultural Piollim20.
Em paralelo a essas atividades articuladas com as demais políticas e secretarias (estadual e municipal), os adolescentes frequentam, em média três vezes por semana, o Centro de Formação Margarida Pereira da Silva (CFCMPS), que também é ligado à coordenação da Alta Complexidade da SEDES. Este Centro se configura num espaço para o lazer, esporte e cultura para as crianças e adolescentes das unidades de acolhimento institucional de João Pessoa – PB, aonde ocorre a socialização com seus pares.
Além das atividades de entretenimento e pedagógicas realizadas como os adolescentes, outro fator de destaque, que ocorre tanto no acolhimento quanto na privação, refere-se aos momentos religiosos de reflexão espiritual e a cerca da vida. Esses momentos são realizados por grupos evangélicos que visitam as instituições, o que viabiliza aos adolescentes, pensar a respeito dos seus atos, e a ter convívio com outras pessoas da sociedade, estabelecendo novas relações comunitárias:
- A CAM oferece muitas oportunidades boa pra melhorar a vida da pessoa, como as mensagens da palavra de Deus que o irmão traz que faz o cara refletir. (Rodrigues, 16 anos)
- Eu gosto daqui porque tem a dormida, comida, banho, televisão, ir pro DEDE, escutar a palavra de Deus nos sábados. (Pablo, 16 anos)
20 O Centro Cultural Piollin é uma Organização Não Governamental (ONG), que tem por missão
acolher e apoiar crianças, adolescentes e jovens prioritariamente de baixa renda, visando seu desenvolvimento pessoal e sua integração social através da educação e atividades artístico - culturais.
141 Vale ressaltar que em nenhum momento os adolescentes são obrigados a participarem desses momentos, tanto é que eles mesmos elencam tal atividade como boa. Assim, a liberdade de crença tem sido garantida conforme determina as legislações vigentes no país, e o preceito da Declaração Universal dos Direitos da Criança em que no Princípio I afirma o direito à igualdade, sem distinção de raça, religião ou nacionalidade.
Desse modo, as Orientações Técnicas: Serviços para Acolhimento Institucional (BRASIL, 2009), em conformidade com o ECA (art. 16), afirma que:
[...] os serviços de acolhimento devem propiciar [...] satisfazer suas necessidades de vida religiosa e espiritual. Nesse sentido, deve ser viabilizado o acesso às atividades de sua religião, bem como o direito de não participar de atos religiosos e recusar instrução ou orientação religiosa que não lhe seja significativa. (BRASIL. Orientações Técnicas: Serviços para Acolhimento Institucional, 2009, p.27)
É importante registrar que ambas as instituições abrem espaço para todas as religiões que se dispõem a fazer um trabalho pedagógico com os adolescentes, sem impor-lhes suas crenças. Porém, no período da pesquisa, apenas instituições evangélicas tinham se prontificado a realizar tais atividades. Em momentos anteriores outros grupos religiosos já haviam realizado ações parecidas, a exemplo da católica e mórmon.
4.2.2.2. Restrição do Direito de Ir e Vir
Apesar das atividades já mencionadas que são desenvolvidas nas instituições, os adolescentes colocam que estão cansados de algumas e destacam como característica negativa a restrição do direito de ir e vir, no CEA por estar privado de liberdade e não poder sair para lugar nenhum, ocorrendo a socialização apenas com adolescentes do mesmo sexo (masculino), e na CAM por não puderem sair sozinhos quando quiserem.
142 Contudo, as duas unidades cumprem determinações judiciais, o CEA porque o adolescente está em medida de privação de liberdade, e na Casa de Acolhida Masculina, por ser responsável pelos adolescentes não podendo permitir que estes saiam sempre que quiserem e para onde quiserem, uma vez que estão sob medida protetiva, que na maioria das vezes foi determinada devido a situação de ameaça de morte que muitos adolescentes possuem, e que todos os entrevistados se enquadram. Assim, se a Casa permitisse tal situação estaria colocando-os em situação de desproteção e risco, perdendo seu caráter protetivo.
- CAM: De ruim porque num pode sair, se o cara sair tá evadindo. CEA: Ficar preso numa cela com um bucado de macho. Era pro cara ficar com um bocado de mulé, mas só tinha macho. (Fernando, 17 anos)
- CAM: E também assim né... acho que aqui a gente deveria poder sair neh boy pra poder dar umas voltinhas.
No CEA nós num fazia nada, nós ficava dentro da cela de manhã, de tarde, de noite, de manha, de tarde, de noite. Só tinha coisa pra quem era sentenciado. O que eu fazia mesmo dentro da cela era só artesanato que os boys que tinha lá dentro que já sabia fazer que me ensinou. (Thiago, 16 anos) - CEA: É ruim porque a pessoa fica trancado o dia todo, arriscando levar furada, só lembrando da rua e da família, fica só no meio de macho. (Pablo, 16 anos)
- CAM: Aqui o cara não sai para canto nenhum, só para o CFCMPS, e já tô enjoado já. (Júnior, 15 anos)
Em relação ao direito de ir e vir, e sua restrição total ou parcial, as unidades que executam medidas protetivas e socioeducativas tem por diretriz o Estatuto da Criança e do Adolescente. Nesse sentido, o ECA dispõe em seus artigos 16, 98 e 112:
- Art. 16. O direito à liberdade compreende os seguintes aspectos:
I - ir, vir e estar nos logradouros públicos e espaços comunitários, ressalvadas as restrições legais;
[...]
- Art. 98. As medidas de proteção à criança e ao adolescente são aplicáveis sempre que os direitos reconhecidos nesta Lei forem ameaçados ou violados:
143 I - por ação ou omissão da sociedade ou do Estado;
II - por falta, omissão ou abuso dos pais ou responsável; III - em razão de sua conduta.
- Art. 112. Verificada a prática de ato infracional, a autoridade competente poderá aplicar ao adolescente as seguintes medidas:
[...]
VI - internação em estabelecimento educacional; [...]
Ou seja, todas as crianças e adolescentes têm o direito de ir e vir. Porém, devido a algumas situações (risco, vulnerabilidade, cometimento de ato infracional) em que se encontrem esse direito pode ser limitado em prol do seu próprio bem.
Desse modo, por mais que os adolescentes encarem esta restrição como negativa, as instituições cumprem as determinações dos documentos normativos vigentes. E os adolescentes precisam entender que este cerceamento se deve por razão de sua conduta (ou de outrem), uma vez que estão em risco de morte, e/ou cometeram ato infracional grave ou descumpriram a medida socioeducativa de meio aberto. Nestes casos, a medida de privação de liberdade é educativa e de resonsabilização, de forma que, pela infração grave cometida, o adolescente passa a ser privado temporariamente, de um importante direito de todo cidadão, garantido pela Constituição Federal, o direito de ir e vir.