Intervenção nas Obras de Eustáquio Neves
Figura 51: Intervenção nas obras de Eustáquio Neves
O jornalista e editor da revista do Instituto de Arte das Américas no ano de 2011, Walter Sebastião, ao escrever sobre os trabalhos de Eustáquio Neves afirma que há, nas fotografias dele, u e e o a . Le a ças de imagens, pulsação, enfrentamento da imobilidade se ti e tal . Nesse se tido, as e i is ias das p ofesso as e p essa essa pulsaç o, esse enfretamento da imobilidade de sentimentos carregados de significados e sentidos. Nas entrevistas esbarramos mais u a ez o pe sa e tos de Ma oel de Ba os. Pa a ele, o ais difí il olo a u a i age a ista do leito . Co o t a sfo a as a ati as das professoras em imagens passíveis de interpretação? Sendo também professora, me via em suas narrativas, em suas experiências, ficava misturada. Como pesquisadora, precisava me distanciar, estranhar aquilo que por natureza era familiar. Meu sentimento ali, no momento das entrevistas e da pesquisa como um todo, era deixar de ser para continuar existindo. Processo difícil para quem está se iniciando na arte de pesquisar. Por isso, achamos que seria
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pertinente misturar as professoras e suas lembranças com o rememorar de Eustáquio Neves. Ao observar suas fotografias, é possível vislumbrar serenos emblemas de lutas, por uma existência, para se tornarem visíveis. Mas há também um drama, uma alegria de vencer as barreiras, a obstrução de sua visibilidade. Suponho que o rememorar em suas fotografias dialoga com as reminiscências de cada professor que busca, apesar dos dramas cotidianos, sua visibilidade e sua alegria.
Para continuar, gostaria de destacar aquilo que Trierweiller (2008) afirma em sua dissertação de mestrado, ao pontuar que
o p ee de o o te to e ue os professores vivem e atuam como profissionais da infância, um contexto situado, não isolado, que congrega as marcas de discursos sociais hegemônicos que são por vezes incorporados e adotados como referenciais, (...) possibilitou não considerar em si e por si, as entrevistas que foram realizadas com as doze professoras do CEI pes uisado TRIERWEILLER, , p. .
Para a autora, esse exercício, no momento da pesquisa, foi importante para que não deixasse de o side a os se tidos e/ou os sig ifi ados ue essas profissionais atribuíssem em relação a sua formação ou prática com as linguagens artísticas fosse fruto de uma subjetividade e/ou de u a pa ti ula idade ue esti esse isolada de u o te to so io ultu al ais a plo (TRIERWEILLER, 2008, p. 125). Diante das narrativas das professoras pesquisadas na UMEI Olhos de criança, tive como pressuposto, assim como destaca Trierweiller (2008),
não culpabilizá-las. O que não significou naturalizar todas as posturas e respostas atribuídas às questões elencadas. Tive como base o que Bakhtin (2003) denominou de responsabilidade, isto é, o princípio de que sempre respondemos por nossos atos, independente de termos ou não consciência dos mesmos. E respondemos sempre a nós mesmos e aos outros. Logo, não culpabilizá-las, não as exime (ou nos exime) do princípio de responsabilidade. (TRIERWEILLER, 2008, p. 125).
Para isso, analisar as Artes Visuais na memórias e nas experiências de vida das professoras da UMEI Olhos de Criança, nos ajuda a compreender os circuitos de relações que essas tiveram desde a infância, com suas limitações e possibilidades. Quais as condições de acesso e constância aos espaços em que as Artes visuais estavam presentes? As condições materiais oportunizaram esse acesso?
Refletir sobre essas questões possibilita entender que, na maioria das vezes, essas circunstâncias não estão restritas apenas às professoras, mas surgem de um contexto sociocultural mais amplo. Ao discutir as Artes Visuais na memória das professoras, nos deparamos com uma questão latente: o acesso aos espaços culturais voltados para as Artes.
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Esses espaços podem ser compreendidos como locais em que os sujeitos têm acesso às diferentes formas de interação com as produções e manifestações artísticas e culturais. Para Coli (1995), frequentar esses espaços possibilita a troca que se configura materializada pelas mãos de outros. Ele adverte ainda sobre a e essidade do o tato di eto o as o as. U a possibilidade inigualável de percorrer e descobrir outros caminhos que uma reprodução igual e te o os fo e e ia COLI, , p. . De a o do o esse autor, falar sobre o di eito ao a esso f il, as a f e ue taç o da A te , termo utilizado por ele, fica à mercê de condições materiais, de meios e situações concretas. Na prática, encontrar condições materiais quando não possuímos igualdade de oportunidades dificulta o acesso. Osteto (2010) também traz contribuições sobre o acesso aos códigos artísticos e afirma que
como seres sócio-históricos que somos, interagimos com a realidade que nos cerca, somos afetados por relações, imagens, situações, acontecimentos, emoções. Então, nossos repertórios constituídos ao longo da vida, são acionados a cada encontro com o outro – pessoas, lugares, paisagens, obras, objetos, conceitos. É com eles que vamos significando o mundo, fazendo a leitura do que nos rodeia e nos acontece. Quanto maior o epe t io, aio a possi ilidade de esta ele e di logo o as oisas do u do , o o ist io da ida. Assi para a arte como para todos os campos da vida humana (OSTETO, 2010, p. 30).
Para Osteto (2010) a ampliação do repertório possibilita às crianças uma maior conexão com as oisas do u do . No e ta to, o pode os dei a de o side a a p o le atizaç o apresentada por Coli (1995) sobre as dificuldades de acesso e frequentação da Arte. Nas entrevistas feitas, quando indagadas sobre a participação em exposições ou museus, duas professoras afirmaram ter frequentado o museu com o pai, quando ainda eram crianças. Uma professora afirmou ter frequentado o museu quando ainda fazia o magistério no Instituto de Educação, mas não mencionou essa experiência quando criança, juntamente com a família e nem mesmo com a escola. Porém, pontua sua presença constante em exposições e museus com sua filha e também com seus alunos, no momento atual. As outras cinco professoras explicitaram a falta de acesso a esses espaços culturais ou não se lembravam de terem frequentado tais locais quando ainda eram crianças. Mas afirmam a participação na atualidade, inclusive com seus alunos.
Eu não me recordo de ter sido influenciada, tipo assim, vamos a um museu ou vamos a alguma coisa do tipo. Visitas culturais. Este tipo de programa eu não me recordo, sinceramente (MICHELE, professora entrevistada em 2014). Eu gosto muito de museu e eu me lembro que a primeira vez em que eu fui num museu foi naquele da Pampulha e quando eu entrei eu fiquei deslumbrada. O meu pai nos levou num domingo, a gente foi fazer, algum passeio e ele levou a gente lá. E foi fantástico para mim (NOLA, professora entrevistada em 2014).