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A leitura e o estudo da produção de diferentes autores contribuíram para a compreensão da Arte em geral, o entendimento das possibilidades de trabalho com as Artes Visuais e a análise das práticas em Artes Visuais das professoras na UMEI Olhos de Criança em Belo Horizonte. Nas entrevistas realizadas com as professoras ficou que, para elas as Artes Visuais possibilitam trocas e descobertas coletivas. Ao definirem as Artes Visuais como livre expressão, capacidade de simbolização, ou suporte para as atividades escolares, as professoras revelam concepções diferentes sobre o significado, o valor e o sentido das práticas em Artes Visuais no cotidiano das instituições de Educação Infantil. No entanto, apesar das diversas visões, as professoras são unânimes em afirmar que Arte é algo fundamental ao processo de educação da criança pequena e destacam a importância de os trabalhos a serem produzidos com as crianças e serem menos artesanais e mais artísticos.

Na observação do campo de pesquisa e na análise das entrevistas realizadas com as professoras foi possível perceber que o grupo de profissionais da UMEI Olhos de Criança mostra-se empenhado em superar as lacunas da formação e os limites das propostas em Artes Visuais já desenvolvidas por elas no cotidiano de suas práticas. Quando as professoras afirmam

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a necessidade de que as propostas não fiquem presas a mecanismos de reprodução repetitiva de atividades e que as práticas em Artes Visuais estejam em movimento de interação e de diálogo com as crianças, elas revelam que já existe na UMEI Olhos de Criança uma busca de estratégias alternativas em que a Arte possa, de fato, contribuir para que as crianças aprendam a ver o mundo com outros olhos e a se relacionar com as pessoas com mais cuidado.

Para que isso possa acontecer é preciso conhecer, experimentar e vivenciar diferentes propostas que resultem em variadas práticas em Artes Visuais. Quando as crianças entram em contato com o universo cognitivo das artes, marcado por ambiguidades, tensões e até por profundas divergências, elas aprendem desde cedo a pensar, interpretar, formular hipóteses e conceber possibilidades estéticas. A tomada de consciência do valor da Arte não ocorre através de contatos espontâneos com as produções artísticas. Ocorre através de trabalho e de estudo intencional que envolve processos educativos, imaginativos e cognitivos. Para isso, o diálogo com múltiplas crenças, valores e as diferentes manifestações da arte com as quais as crianças convivem, e através das quais elas se formam, contribui para que os projetos de Artes Visuais na Educação Infantil possibilitem descobertas e trocas de experiências. O envolvimento das crianças na discussão dos problemas e na partilha de soluções é um bom caminho para que a Arte não seja apenas mais uma obrigação curricular e escolar em suas vidas.

Embora seja possível perceber avanços nas experiências já vivenciadas pelas professoras na rotina da UMEI Olhos de criança, é possível também identificar pontos que precisam ser discutidos e aprofundados. Um desses pontos é a presença entre as professoras da concepção de Artes Visuais como autoexpressão. O acesso a outras concepções e práticas poderia oferecer condições para ampliar suas percepções sobre as diferentes perspectivas em relação ao ensino de Artes Visuais, principalmente considerando que as professoras da UMEI Olhos de Criança não são especialistas na área.

Nesse sentido a inclusão da discussão sobre esse tema na formação do professor torna-se necessária porque o trabalho com as Artes Visuais precisa considerar posições e uma maior compreensão histórica e teórica do valor da Arte e das obras de Arte, no sentido de identificar estilos e de interpretar contextos e significados. Como um professor, que não é especialista na área de Artes Visuais, poderá se apropriar dessa discussão sem que haja um processo formativo que considere tais especificidades? O termo autoexpressão já descrito nessa dissertação, por exemplo, advindo do modernismo, é associado pelas professoras ao movimento de criação das crianças. Muitos chegam a pensar que para trabalhar Arte com

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crianças basta deixá-las livres para se expressarem e se esquecem de que toda expressão tem um conteúdo que a motiva. Portanto, a correspondência linear e automática entre Arte e linguagem, presente inclusive nos documentos oficiais analisados neste trabalho, precisa ser problematizada, pois a Arte possui um lugar próprio e distinto na experiência humana.

Nos documentos curriculares nacionais e municipais para a Educação Infantil, conforme analisamos, prevalece a ideia de que as Artes Visuais compõem as múltiplas linguagens a serem trabalhadas com as crianças. Esse processo de aprendizagem das crianças, quando comprometido com o respeito às múltiplas linguagens da infância, garante a meninas e meninos espaços e meios para que suas expressões possam se manifestar e serem compreendidas por todos no cotidiano das instituições.

No entanto, para que esses processos sejam experimentados pelas crianças de forma concreta na rotina escolar, existem alguns fatores que não podem limitar o contato e a relação das crianças com as Artes Visuais, tais como: os adultos, os espaços, os tempos, os materiais e os corpos. A decisão pessoal da criança não pode ser condicionada por um espaço e tempo limitado. O tempo disponível para a experimentação, pela disposição do adulto de conversar com ela sobre o que deseja realizar e pelos materiais colocados ao alcance de seu corpo, de sua mente e de suas mãos são fatores indispensáveis para seu aprendizado em Artes Visuais. Nesse sentido, a existência ou não de materiais e de mobiliários pode facilitar ou dificultar a organização da proposta de trabalho em Artes Visuais. A organização dos lugares influencia ou pode até mesmo inviabilizar as propostas a serem desenvolvidas com as crianças. Assim, as aprendizagens significativas em Artes Visuais dependem de fatores que muitas vezes extrapolam a vontade das crianças e de seus professores.

As professoras da UMEI Olhos de Criança apontam a presença destes fatores no cotidiano, que dificultam o desenvolvimento das práticas em Artes Visuais. Elas afirmam, sobretudo, que a perda do ateliê que era o espaço próprio para estas práticas e que o número excessivo de ia ças e sala, assi o o o te po pi ado e o t olado, i pede a o ti uidade dos trabalhos dentro daquilo que inicialmente fora planejado. Horários partidos e sequências cortadas fragmentam as ações e impedem a realização de um trabalho de qualidade. As professoras destacam que as crianças precisam de espaço e tempo adequados. Além disso, afirmam que a pouca experiência em Artes Visuais e a inexistência de formação nesse campo também dificultam o trabalho. Segundo as professoras, a proposta coletiva da UMEI, de o iliza o g upo de p ofesso as e ia ças e to o da isita a ual de u es ito e u

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artista, tem contribuído bastante na superação dessas dificuldades, sendo inclusive oportunidade para melhorar a formação e para a troca de experiências.

De acordo com o que foi possível observar no cotidiano da UMEI Olhos de Criança, há um movimento, por parte da coordenação, das professoras e das crianças no sentido de, mesmo com as dificuldades encontradas, buscar novos caminhos para as práticas em Artes Visuais. A decisão coletiva de não trabalhar com desenho pronto e/ou fotocopiado (xerocado) é um exemplo disso. Apesar dessa decisão, ainda há, entre as professoras que trabalham com os bebês e as crianças menores, certa dificuldade em acolher os desenhos feitos por essas crianças tão pequenas. Nesse sentido algumas professoras optam pela reprodução de mãozinhas e pezinhos para serem coladas nas paredes da UMEI. É preciso problematizar estas práticas e perceber que a criança pequena não é uma folha em branco deixando marcas sobre um papel branco. É preciso ainda estudar materiais, situações, histórias, imagens, jogo do rabisco, jogo gráfico, traçados, reproduções, garatujas, inversões, observações, que possibilitam e interferem no desenho e nas produções das crianças.

Para outras professoras, o acolhimento daquilo que as crianças produzem é fundamental. Mas como acolher a movimentação das crianças se não há tempo, espaço e oportunidades para que elas produzam e reflitam sobre sua produção em Artes Visuais? Essa indagação é muito forte entre as professoras, mostrando uma consciência da necessidade de melhorar as condições para o desenvolvimento do trabalho na UMEI, valorizando o processo vivido pelas crianças. Como afirma a vice-diretora Luz, uma coisa que é bacana é o fato de a gente ter rompido desde o início da UMEI com esta coisa do desenho pronto, de valorizar ao máximo a expressão da criança. Só isso já força o profissional a ter esse olhar e a repensar sua prática o dese ho . Nesse sentido, o professor Baiano defende a experimentação da mistura de cores no trabalho com desenho e com pintura, pois as crianças ficam fascinadas com a possibilidade de misturar as tintas, ver a transformação das cores. É possível que através de diferentes processos expressivos e de variadas formas de experimentação, as crianças entrem em contato com as produções artísticas de diversas partes do mundo, podendo ainda inventar, compor, dar forma e construir, a partir de materiais diversos.

Sobre os trabalhos desenvolvidos pelas crianças na UMEI Olhos de Criança, fica destacado, entre algumas professoras, a importância de mostrar e expor o que elas produzem e fazem. Mas diante do que foi observado, é preciso ainda que as professoras valorizem mais o processo e diminuam as expectativas em relação ao produto final. Sabemos que a dimensão

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estética é fundante do currículo da Educação Infantil e para que este princípio seja de fato assumido e praticado é necessário que as professoras percebam que em Artes Visuais é mais importante o processo vivido pelas crianças do que o resultado final a ser obtido. Isso não significa que não possa existir o produto. Ainda discutindo as produções das crianças, as professoras afirmam que é preciso problematizar a tendência e a demanda muito forte da comunidade escolar em torno da produção de enfeites e adereços para as datas comemorativas. O que essas imagens sobre as datas comemorativas podem nos dizer sobre as crianças? As imagens espalhadas pelas paredes das escolas podem nos ensinar, ou camuflar o que sabemos sobre as crianças. A percepção do objeto vai depender muito dos conhecimentos e do interesse de cada sujeito que olha. Dessa forma, ele também vai selecionar e recortar o que for significativo para si.

Nesse sentido a valorização e o resgate da dimensão lúdica presente nas diversas manifestações artísticas e culturais podem contribuir para o envolvimento das crianças nesse processo. No entanto, participação lúdica não quer dizer, ausência de reflexão. Ensinar a ver e a decifrar sentidos e significados das imagens pode ser um caminho para as Artes Visuais na Educação Infantil.

Porém, esse entendimento das concepções do ensino de Artes Visuais na Educação Infantil, depende também do aprofundamento do processo de formação em Artes Visuais e da ampliação do repertório artístico-cultural das professoras. Essa já é uma necessidade sentida e percebida pelas professoras da UMEI Olhos de Criança. Conforme já analisado anteriormente, os posicionamentos, os discursos e as práticas das professoras dependem de suas trajetórias formativas, das condições de trabalho e das interdições estruturais de espaço e de tempo vivenciadas na experiência pessoal. Entre possibilidades formativas e barreiras institucionais as professoras vão sobrevivendo como podem.

De acordo com as professoras os cursos de pedagogia que elas fizeram em faculdades particulares ou em universidades públicas, a formação para atuar na Educação Infantil e para trabalhar com as Artes Visuais é bastante precária. Seria importante que os responsáveis pela formação das professoras da infância, reavaliassem suas grades curriculares, valorizando mais o ensino de Artes Visuais, garantindo a presença constante da arte no processo de formação. Nesse mesmo sentido, é grande o número de professoras da Educação Infantil que não tem clareza sobre propostas e procedimentos necessários para o desenvolvimento das práticas em Artes Visuais. Além dos problemas de formação, os baixos salários e as precárias condições de

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trabalho dificultam o desenvolvimento das propostas em Artes Visuais na Educação Infantil. Na UMEI Olhos de Criança, o grupo de professoras mostra-se empenhado em superar essas dificuldades, conquistando melhores salários, condições de trabalho adequadas e formação qualificada.

Benzer Belgeler