Entre as concepções das professoras da UMEI Olhos de Criança, identificamos um segundo campo conceitual em que as Artes Visuais são definidas como capacidade humana de representar e simbolizar o mundo e a vida, expressando conflitos e percepções, materializados em imagens visuais e nas obras de artistas plásticos, pintores, desenhistas, cineastas e escultores. Para aqueles que concebem as Artes Visuais dessa maneira, existem imagens e obras que representam situações reais, encantadas e abstratas, devendo o trabalho com as crianças assegurar acesso a leituras, releituras e produções diversas como formas de representar o mundo e as coisas vividas e percebidas.
Pensando em Artes Visuais, penso em manifestações como o desenho, a pintura, a escultura, o grafite, como estas manifestações. Eu acho que para a criança e para qualquer pessoa, a arte, e eu volto lá em cima, é uma forma de representação humana dos nossos sentimentos, dos nossos conflitos, das nossas percepções (LUZ, vice-diretora entrevistada em 2014).
A criança é puro simbolismo, pura fantasia. Acho que isto é tão forte porque ela está justamente tentando compreender tudo isso aí, tentando simbolizar, tentando perceber este mundo. A arte é uma destas formas de aprender o mundo, de representá-lo, de simbolizá-lo (LUZ, vice-diretora entrevistada em 2014).
De acordo com a entrevistada Luz, ao pensar sobre as manifestações artísticas, destaca o desenho, a pintura, a escultura, o cinema, o grafite, a instalação e a Arte contemporânea, como formas de representação humana em que os sentimentos, os conflitos vividos, estão presentes. Para Luz, como a criança está apreendendo o mundo, ela também vai representá-lo e simbolizá-lo. Mas o que significa para a criança representar o mundo? O que é a representação em Artes Visuais? E o que significa representação, no desenho da criança? De acordo com Pillar (1996), ainda na metade do século XIX, a Arte da civilização ocidental Cristã, tinha como objetivo representar a realidade, uma cópia da natureza. Segundo a autora, a concepção de representação como imitação, como mimeses é discutida desde Platão. Ao a o da a A te de p oduzi i age s, Plat o di idiu a i ti a e a te da pia e a te do si ula o . No p i ei o aso, se ia opia fiel e te pa a elho a a i itaç o. J no segundo caso, seria uma ilusão do objeto. Uma semelhança da cópia, mas não a cópia.
Foi com a modernidade que surgiu a ideia de que o artista poderia criar de maneira livre, sem modelos, expressando seus pensamentos, sua visão de mundo e seus sentimentos. Assim
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como em todas as outras formas simbólicas, a Arte se torna uma descoberta da realidade, é um dos caminhos que conduz a uma visão objetiva das coisas e da vida. Foi Humberto Eco que ao apresentar seus posicionamentos sobre os modos de representação afirmou, segundo Pillar (1996), que o artista, mesmo buscando representar, duplicar a realidade, inevitavelmente a interpreta. Esse autor faz um paralelo entre a imagem de um objeto no desenho e o seu reflexo no espelho. Segundo Eco,
Por isso desenha-se (...): para realizar sem espelho aquilo que o espelho permite. Mas, o mais realístico dos desenhos não exibe todas as características de duplicação absoluta próprias do espelho (ECO, 1989, apud PILLAR, 1996, p. 41).
No caso do desenho da criança, estudos desenvolvidos a partir dos pressupostos construtivistas, definem a representação gráfica, a maneira de a criança construir o conhecimento no desenho, como consequência de sua ação sobre o objeto. Para Pillar,
o sig ifi ado da pala a ep ese taç o o dese ho da ia ça te , assi , um sentido de simbolização, de recriação, de reconstrução do seu mundo ao nível das imagens, do pensamento e da imaginação. Vê-se que difere, e muito, da ideia de cópia mimética da ealidade PILLAR, , p. .
Como já afirmamos acima, a partir de Staccioli (2014), o mundo é sempre interpretável, e para isso a interpretação faz uso das linguagens para comunicar, como o desenho, por exemplo. Porém, nenhuma interpretação se esgota ou oferece completude. Para o autor
a o u i aç o se p e u pou o a ígua, e a a tísti a particularmente, porque se funda sobre a ambiguidade, não é estática ou fotográfica, mas segue o movimento do pensamento, das experiências que se seguem e dos sentimentos que os desenhistas constroem e des o st oe ao lo go do p p io te po de ida STACCIOLI, , p. 107).
Diante das pontuações feitas pelo autor, podemos considerar que a realidade não é representada e sim interpretada. Ao observar e conversar com uma criança sobre seu desenho, podemos verificar que ela desenha por deslocamentos, desenha adjetivos, nos mostra que nem tudo que desenha é exatamente o que vemos. Justifica-se por similitudes, muda cores e formas. No desenho ela deixa registrado seu afeto, sua competência e sua es olha a a ei a de ope a , de p o essa seu t a alho STACCIOLI, . Al disso, seu desenho nos apresenta também uma escolha duplamente ambígua, aberta, fruto de interpretação e de elaboração, fruto da relação sujeito/ objeto, uma ambiguidade que é a a te ísti a do osso se o u do STACCIOLI, , p. . Dia te dessas o se aç es, a concepção de desenho, ou de arte como representação do real, precisa ser reavaliada no sentido de compreender melhor como se processa essa experiência com as crianças,
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o side a do i lusi e o ue afi a Luz, eu a ho ue falta tanto um conhecimento desta fo a de e p ess o da ia ça, ua to da p p ia A te e si LUZ, vice-diretora entrevistada em 2014).
4.2.3. Artes Visuais como suporte e ferramenta de outras atividades escolares.
No terceiro campo conceitual, as professoras entendem as Artes Visuais como ferramentas de apoio para outras atividades escolares e outros campos disciplinares. Na realização de exposições, na confecção de cartazes, na culminância de outros trabalhos, na produção de materiais didáticos, as Artes Visuais funcionariam apenas como um suporte. As práticas em Artes Visuais deveriam, para aqueles que se situam neste campo, se aproximar das outras ações e disciplinas escolares, contribuindo assim para o alcance dos objetivos dos projetos didáticos e pedagógicos.
Eu confeccionei seis ou sete jogos com os meninos que são jogos da memória, dado de nomes e bingo. E acredito que tudo isto é material de Artes Visuais, porque os meninos vão visualizar aquilo ali, vão interagir, vão aprender com um material visual, vão trabalhar linguagem musical, linguagem matemática, as Artes Visuais que é a parte de confecção do cartaz. (NICOLE, professora entrevistada em 2014).
Na fala da professora Nicole, ela associa o trabalho com as Artes Visuais às ferramentas de apoio para outras atividades escolares e outros campos disciplinares. Ao construir jogos e i uedos ela afi a ue todos esses o jetos s o isuais e ul i a e algu a oisa isual . Mas o p i ipal o jeti o o a A te e si o ue ela us a al a ça o let a ento e na linguagem matemática. A Arte seria apenas um suporte, um material de apoio a serviço de outros objetivos escolares e pedagógicos. No entanto, das professoras entrevistadas, apenas Nicole expressou, em seu discurso, essa concepção sobre as Artes Visuais..
E então, com a culminância do trabalho, eu acho que ela sempre tem que ser com as Artes Visuais. Alguma coisa visual. Mas o foco não é este não. O foco é este aqui, letramento, a linguagem matemática. A linguagem musical. O foco não é as Artes Visuais. Mas é um grande suporte (NICOLE, professora entrevistada em 2014).
No entanto, na prática das professoras da UMEI Olhos de Criança, o que observei de forma recorrente foi o trabalho de Artes Visuais em função de outros objetivos. Desenhos e pinturas
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foram desenvolvidos para retratar as datas comemorativas, para ilustrar atividades desenvolvidas na matemática, na escrita, nos projetos da sala e também da escola. No diário de campo registrei a rotina de sala das professoras Michele e Nola. A partir de minhas anotações foi possível observar que as práticas com desenho foram as que mais se destacaram. Durante o período em que fiquei na sala, presenciei duas atividades de pinturas. Uma pintura feita no cartão para as mães e uma pintura do contorno do rosto da reprodução da obra do Picasso, artista que a professora Michele estudou com as crianças no período da pesquisa. Farei a descrição desse trabalho mais adiante.
A utilização de vídeos é frequente na rotina, mas durante a pesquisa assisti, junto com as crianças, apenas um vídeo que tinha como viés a discussão sobre Artes Visuais. O vídeo narrava a história do personagem "traça" que queria comer as obras do Portinari no museu. Durante o vídeo surgiu outro personagem que foi apresentando as obras para a "traça" que acabou desistindo de transformar as obras do Portinari num prato artístico com um leve sabor de óleo colorido. Esse vídeo foi assistido pelas crianças, porque inicialmente a professora Michele tinha a intenção de estudar esse artista, o que foi mudado posteriormente para o artista Picasso.
Durante o período de minha pesquisa de campo na UMEI Olhos de Criança, não observei nas práticas das professoras em nenhum momento trabalhos envolvendo argila, escultura, vídeo arte, instalação e objetos artísticos variados. No final do mês de maio, a professora Michele trouxe imagens de Picasso e propôs a utilização de novos materiais: fotografias e um tijolo de vidro.
Como já afirmei anteriormente, os desenhos sempre estiveram presentes na rotina das crianças, mas sua função era registrar as propostas de trabalho envolvendo a linguagem escrita, matemática e projetos. O trabalho que apresento abaixo foi desenvolvido pela professora Nola que também participa de alguns projetos com a turma, além de ser responsável pelas linguagens matemática, musical e corporal. O trecho abaixo foi retirado do meu diário de campo e descreve como ele transcorreu:
Ela começou a conversa perguntando sobre o que eles sabiam sobre o piolho. Pe gu tou se sa ia ual e a o ta a ho dele. Ele g a de ou pe ue o? Se ue ele do ta a ho de u elefa te? As ia ças i a e disseram que não. Perguntou se eles imaginavam como seria um piolho. Algu as ia ças Fala a : igual u a pulga ou ai da: pa e e o u a fo igui ha e pe ue i i ha E t o, ela pediu ue duas ia ças desenhassem no quadro o piolho do jeito que eles achavam que era. Depois disso as outras crianças também foram opinando sobre os desenhos feitos (DIÁRIO DE CAMPO, 2014).
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Figura 52: Desenho do piolho Figura 53: Desenho do piolho
Esse desenho teve como objetivo identificar a aparência física do piolho que na época da pesquisa tinha se tornado um grande problema nas cabeças da escola. Em algumas aulas que observei, as crianças assistiram vídeos informativos sobre os piolhos, rodas de conversa e puderam observar pela lupa um piolho de verdade. Fizeram investigações sobre como esse bicho tão pequeno chega até a cabeça, principalmente das crianças. Fizeram uma lista de medidas que poderiam ser tomadas para evitar os piolhos. Registraram as informações a partir do desenho e bilhetes escritos coletivamente, com a ajuda da professora Michele e que foram espalhados pela UMEI Olhos de Criança. Dessa forma a intenção era conscientizar os pais, as crianças e toda comunidade escolar sobre o problema vivido pela escola.
Envolvendo também o desenho, a partir da sua utilização como ferramenta de apoio para outras ações escolares e outros campos disciplinares, o trabalho que descrevo a seguir foi elaborado a partir da leitura e da escrita. O objetivo foi ilustrar a poesia de Vinícius de Morais. Abaixo, deixo registrada a atividade que Michele desenvolveu com as crianças, que em minha opinião foi muito significativa e na sequência fica também registrada a proposta do desenho.
A professora Michele trouxe a poesia Casa de Vinícius de Moraes. Leu o título e perguntou para as crianças se pelo nome da poesia eles saberiam dizer do que tratava aquela poesia. Além disso, disse que essa poesia havia sido usi ada. A Mi hele disse: ou le a poesia e o s te ta le a a música. Logo nas primeiras frases, eles descobriram qual era a música. Ela te i ou de le a poesia e depois a ta a . Ela ai da pe gu tou: Algu saberia me dizer ue o auto dessa poesia? A Cla a levantou a mão e disse: Vi í ius de Mo ais . A Mi hele disse: isso es o Clara, o autor é o Vi í ius . Todas as ia ças ti ha as os a fotocópia da poesia. A Mi hele e t o falou: Va os i a de a ha pala as es o didas a poesia? Por gentileza, Lucas, pegue o potinho de giz de cera e traga para o eio da oda. Co ti uou fala do: pa a encontrar a palavra tem que conhecê-la primeiro. Disse que a palavra casa aparecia quatro vezes na poesia. Perguntou para as crianças como eles imaginavam que a palavra casa pudesse ser escrita. Pediu que Clara que já lê e escreve para anotar no quadro o que os meninos já sabiam sobre a palavra. As crianças, de um modo geral, falaram que para escrever a palavra tinha que ter a letra k. A Clara a otou a let a K. E seguida a Mi hele pe gu tou: e o SA, o o se