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Para explorar a questão da carnavalização na América Latina, é preciso, primeiramente, fazer um reconhecimento e situar a carnavalização no centro do debate. Em uma reflexão comparativista e sem muita profundidade, não poderíamos negar que há uma linha muito tênue entre a carnavalização e a antropofagia. Ou

poderíamos ser mais ousados e dizer que a carnavalização atravessa a antropofagia, cruza a antropofagia, que há um encontro entre essas duas linhas, sendo que uma deriva do pensamento baktiniano e a outra do pensamento oswaldiano.

Bakhtin desenvolve um estudo embasado no carnaval da Idade Média para refletir o carnaval como ritual, como visão particular de mundo. Já Oswald de Andrade parte do princípio da devoração dos índios para refletir sobre a antropofagia. Portanto, podemos aferir que, tanto na linha oswaldiana como na bakhtiniana, a devoração do outro não se dá como dominação e muito menos como imposição, mas como fusão, assimilação, assumindo a qualidade e a força da alteridade. Assim, sem sombra de dúvidas, podemos afirmar que tanto a antropofagia como a carnavalização valorizam o nosso primitivismo latino-americano como recurso de inversão e subversão.

Para fazermos mais algumas afirmações, é necessário recorrermos a alguns subsídios teóricos, com o propósito de elucidar a questão entre carnaval e carnavalização. Bakhtin apresenta um estudo teórico sobre a carnavalização em sua obra Problemas da Poética de Dostoiévski,

Chamaremos literatura carnavalizada à literatura que, direta ou indiretamente, através de diversos elos mediadores, sofreu a influência de diferentes modalidades de folclore carnavalesco (antigo e medieval). Todo o campo do cômico-sério constitui o primeiro exemplo desse tipo de literatura. (1981, p. 92)

Nesse aspecto, a carnavalização, segundo Bakhtin, como prática cultural, visão de mundo e de vida, torna-se um instrumento precioso e de extrema grandeza para o estudo, para a investigação das linhas culturais e identitárias. Bakhtin, em A cultura popular na idade média e no renascimento, dá-nos uma grande direção ao considerar que:

o núcleo dessa cultura, isto é, o carnaval, não é de maneira alguma a forma puramente artística do espetáculo teatral e, de forma geral, não entra no domínio da arte. Ele se situa nas fronteiras entre arte e a vida. Na realidade, é a própria vida apresentada com os elementos característicos da representação. (...) O carnaval possui um caráter universal, é um estado peculiar do mundo. (BAKHTIN, 1993, p. 6)

Essas citações elucidam a questão do carnaval, manifestação popular, festa do povo e carnavalização, como um conceito primado por Bakhtin, pois na carnavalização, segundo Bakhtin (1993), podem-se identificar elementos dos ritos carnavalescos da Idade Média e do Renascimento, em que o povo saía às ruas, em procissões, comemorando a liberdade de expressão e a contravenção à ordem imposta (religiosa, principalmente). Nessas festas predominavam o riso, a alegria, a felicidade, expressamente proibidos pela Igreja porque representavam os sentimentos obscenos, pecaminosos, dignos de punição.

Outro aspecto constante dos ritos carnavalescos são as situações de desnudamento e de mascaramento, já que o ato de pôr a máscara significa assumir outra personalidade ou esconder-se, assim como o de tirar a máscara significa mostra-se, exibir-se. Com base nesse conceito e por saber que a substância que forma o quadro cultural na América Latina se dá pelas tensões e pelas contradições, a carnavalização é o signo constitutivo, estruturador e mediador desse processo de formação.

A carnavalização, nesse continente latino, começa desde a nossa origem, que é marcada pelo entrecruzamento dos discursos ficcional e histórico, ou seja, marcando pela tradição da literatura vinculada à história. A literatura hispano-americana se constitui por meio das crônicas da conquista, em que o índio, figura central desse processo, é decorativo, sendo herói e não herói, gente e não gente etc. Os relatos ou crônicas de viagem são os instrumentos inaugurais de uma literatura e de uma historiografia. Instrumentos que referenciam e atestam nossa existência são, assim, documentos que possibilitam um estudo comprobatório. Para ancorar nossa afirmação, procuramos em Todorov (1996), no Diário de 4.11.1492, 9.1.1493 e 31.8.1498, algumas passagens inusitadas de Cristovão Colombo, quando este de certa forma concebia ou “inventava” o Novo Continente, a cultura latina. Colombo, um descobridor que não descobriu, mas foi consagrado como o descobridor da América, é por natureza uma figura ambígua, uma identidade paradoxal, cujas máscaras em alguns momentos são miméticas, que, segundo Todorov (1996) e

outros historiadores, além de acreditar nos dogmas cristãos, também acreditava em ciclopes e sereias. Vejamos:

nas vésperas, caminho do rio do Ouro, viu três sereias que saltaram alto fora do mar. Mas elas não eram tão belas quanto diz, embora de um certo modo tivessem forma humana de rosto. Essas mulheres não se dedicam a nenhum exercício feminino, e sim aos do arco e da flecha (...) O Paraíso terrestre está o fim do Oriente (...) Descobri que o mundo não era redondo (...) mas de forma de uma pêra que seria toda redonda, exceto no local onde se encontra a haste, que é o ponto mas elevado (...) estaria algo como uma teta de mulher e a parte deste mamilo fosse mais elevada e mas próxima do céu e situada sobre a linha equinocial neste mar Oceano, no fim do Oriente. Próximo ao mar havia inumeráveis ostras presas aos galhos que cresciam no mar, com boca aberta para receber o orvalho que cai das folhas, esperando que caísse uma gota para dar origem às pérolas (...). (TODOROV, 1996, p. 16-17)

Os elementos expostos nessa passagem são carnavalizados, são marcados pela excentricidade, são alegóricos, representam tipos determinados, podem ser o que realmente são ou aquilo que desejam ser, porque se valem da estratégia do mascaramento. Colombo, nesse relato, ao descrever os elementos, estabelece a imagem de um corpo feminino, um corpo comível, um corpo antropofágico, alterando sistematicamente a dualidade de poder e desejo, numa relação onde o poder se anula e é tomado pela possessão libidinosa e prazerosa.

A carnavalização é a própria substância desse relato, desse documento que vai oficializar os registros e os caminhos da história, é o estado do mundo às avessas, e, como mostra Bakhtin, as oposições ganham lugar em uma encenação:

São muito características do pensamento carnavalesco as imagens pares, escolhidas de acordo com o contraste (alto/baixo, gordo/magro etc.) (...) É característico ainda o emprego de objetos ao contrário: roupas pelo avesso, calças na cabeça, vasilhames em vez de adornos de cabeça, utensílios domésticos como armas etc. Trata-se de uma manifestação específica da categoria carnavalesca de excentricidade, da violação do que é comum e geralmente aceito; é vida deslocada do seu curso habitual (BAKHTIN, 1981, p. 108).

De acordo com esses extratos teóricos, é notável que Colombo cria uma América artificial, um paraíso carnavalizado, que se alterna entre o presente do eu que é sujeito-narrador e o passado do eu objeto-narrado, em um jogo capaz de romper as marcas convencionais do tempo, e apaga a distância entre os acontecimentos,

produzindo uma esfera dinâmica de pura ficção. Por essa origem, a carnavalização consubstanciou-se na América Latina, criando uma linguagem própria, carnavalizada, caracterizada pela lógica “ao avesso”, em que tudo se mistura e nada se afeta, em que são rompidas as barreiras do espaço sagrado, e que “recusa e esvazia o modelo original para criar e preencher um modelo que lhe é próprio” (MONEGAL, 1980, p. 20), em que

a psicologia do latino-americano não está definida - e aí estão os forçados, vacilantes, vergonhosos, ensaios de ubiquação que se aproximam da realidade dessa psicologia sem atingir uma definição válida. Poderíamos opinar, pelo contrário, que onde se encontra mais definida a psicologia das gentes é na América Latina. (...) O Chileno é chileno e o venezuelano é venezuelano por razões e características mais operantes e vigorosas que aqueles fatores somáticos e mentais. (CARPENTIER, 1969, p.18-19) Por isso, as manifestações artísticas na America Latina, como a literatura, o cinema, a música, a dança e o teatro, revelam um potencial altamente subversivo, um potencial que não postula o valor absoluto, e sim relativiza, descanoniza, sem que para isso seja necessário romper com a ordem. Transborda sugestivamente a capacidade crítica e reflexiva. Portanto, na América Latina, o significado se hospeda intrinsecamente na carnavalização de maneira absolutamente confortável.