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2.3. Sakarya İlinde Yerel Yiyecek-İçecek İşletmelerinin ve Yöresel Lezzetlerin

2.3.5. Sakarya şehrinin yöresel mutfağına özgü bazı yemek tarifleri

2.3.5.1. Çorbalar

Fundei minha causa sobre nada (Goethe) Quando teremos lógicos e filósofos dormentes?

(Andre Breton) Neutro seria uma espécie de brilho mínimo. Meio certo, muito errado. (Roland Barthes) As Piedades e os sonhos não se dissipam sozinhos. Variando assim as condições em que adormecemos, não são apenas os sonhos que se dissipam, mas durante muitos dias, anos às vezes, a faculdade não só de sonhar mas de adormecer. O sono é divino, mas pouco estável; o mais leve choque deixa-o volátil. Amigo dos hábitos, estes o retêm cada noite, mais fixos do que ele, em seu lugar consagrado, preservam-no de todo choque. Mas, se o mudarmos de lugar, se não o mantivermos submisso, ele se desfaz como um vapor. Assemelha-se à juventude e aos amores, não o encontraremos jamais.

(Marcel Proust)

Roland Barthes procurou impor à linguagem o limite. Exonerar o sentido da linguagem é interromper o fluxo de consciência ou sua intencionalidade; é anúncio da existência do neutro – instantâneo que realiza evaporação do ego, seu repentino desaparecimento; o estremecimento da linguagem. No neutro, o Ser é situado fora do universo até confundir-se com ele e abalar a subjetividade. A singularidade da consciência sucumbe diante do mundo e “semanticamente, o Neutro remete essencialmente ao inanimado […] Neutro = o não-sujeito, aquele a quem a subjetividade é vetada, que é excluído da subjetividade (mancipium)”.71 Barthes parece dialogar com Nietzsche, para quem a noção de

71 BARTHES, 2003, p. 385.

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sujeito é ilusão gramatical. Reflexo do poder inventivo do verbo, de sorte que a morte de Deus está relacionada com a cessação da própria linguagem e do eu:

[...] Pois antigamente se acreditava na “alma”, assim como se acreditava na gramática e no sujeito gramatical: dizia-se “eu” é condição, “penso” é predicado e condicionado – pensar é uma atividade, para a qual um sujeito tem que ser pensado como causa. Tentou-se então, com tenacidade e astúcia dignas de admiração, enxergar uma saída nessa teia – se não seria verdadeiro talvez o contrário: “penso”, condição “eu”, condicionado; “eu” sendo uma síntese, feita pelo próprio pensar. Kant queria demonstrar, no fundo, que a partir do sujeito o sujeito não pode ser pensado – e tampouco o objeto: a possibilidade de uma existência aparente do sujeito, da “alma”, pode não lhe ter sido estranha, pensamento este que, como filosofia vedanta, já houve uma vez na terra, com imenso poder (NIETZSCHE, 2005, p. 53).

Atribuir “definição do Neutro que permanece estrutural” representa duplo desafio a Barthes. Um é o de desvencilhar seu estruturalismo da linguagem. O de realizar a “neutralização fonológica ou grau zero”.72 Outro diz respeito à “neutralização husserliana”,73 o que significa desmantelar a epokhé e promover, de fato, a suspensão do sujeito. O resultado dessa equação é a manifestação de movimentos estranhos não intencionais, inconscientes e

insensientes, ao Ser e que se realizam na mente e no comportamento social. O neutro destoa da produção de signos e, portanto, do inconsciente da psicanálise e da consciência fenomenológica. Eesses últimos, dotados de linguagem e de intencionalidade, conforme vimos nas considerações de Badiou.

O neutro e o estupor se aproximam do tipo de estranhamento que propomos estudar. A intenção de Barthes não parece ser a de estudar a passagem do estranhamento ao conhecimento, mas a de fixar a compreensão do estranho. Trata-se de compreender instantes nos quais o sujeito carece de linguagem e a consciência é destituída de qualquer significado. O neutro aproxima-se das sensações confusas descritas por Lévi-Strauss. Relacionar o neutro ao estranhamento frente ao outro pode nos ajudar a compreender em que consistem os estágios pré-políticos entre os indivíduos.

O seminário O neutro (1977-8) de Barthes, realizado no Collège de France, obedece a rascunhos e anotações de próprio punho expostos em suas aulas. Com certa assistematicidade, o filósofo procura abandonar a premissa de que o Ser, ou o sujeito, são constituídos através da linguagem. O que representa tentativa de “burlar o paradigma” que remonta à tradição grega:

72 BARTHES, 2003, p. 18.

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thauma = admiração Ser e linguagem ou constituição do eu

Onde encontramos o neutro? Talvez o neutro não seja tão estranho à linguagem e ao corpo. O neutro oculta e “permeia a língua, o discurso, o gesto, o ato, o corpo, etc.” 74 ou os “textos literários, filosóficos, místicos, mas também […] comportamentos, emoções interiores do sujeito”.75 Produzir a noção estrutural do neutro exige a escritura. Para concebê-la, Barthes articula a convivência de dois contrários: a linguagem como afirmação do sujeito e sua anulação ou neutralização. A imobilização do pensamento ocorre sob a duração de um relâmpago. Movimento alcançado de forma esparsa e fragmentada recorda ritual de passagem no qual o corpo do indivíduo em êxtase transita entre movimentos voluntários e involuntários com sucessivas reviravoltas. A suspensão da consciência foi tema importante nos últimos escritos de Barthes

Em obras anteriores ao curso sobre o Neutro, como é o caso de O grau zero da escrita (1953) e de alguns artigos que compõem o livro O grão da voz, os signos ainda são referenciados como condição necessária do homem em sociedade, o que conduz Barthes a afirmar que “o sentido é uma tal fatalidade para o homem”76 a tal ponto que “não há pensamento sem linguagem”.77

A busca pelo grau zero da escrita surge da própria linguagem, da consciência de que o simbólico está fundamentado num sonho de sentido “tudo o que é escrito está 'com falta de sentido', segundo a excelente expressão de Lévi-Strauss. O que não quer dizer que a produção seja simplesmente insignificante. Ela está com falta de sentido: não há sentido, mas há como um sonho de sentido”.78 Barthes parte da linguagem para compreender o Ser, dar-se-á por meio do esvaziamento de seu sentido que localizará o neutro. O Ser é, portanto, invenção imagética da linguagem e encontra nela seu habitat mítico.

É comum na comunicação corriqueira a proclamação, em alto e bom som, do nada na forma de discurso. O diálogo supérfluo é expressão do neutro. Por isso, fala-se do tempo, discurso que não comporta nenhum sinônimo, nenhuma metáfora ou perífrase. É o grau zero da linguagem que fala por falar como aceitação da pura ausência na presença do outro. O grau

74 BARTHES, 2003, p. 19.

75 Ibid.; p. 430.

76 Id.; Sobre o cinema. In: BARTHES, 2004a, p. 29.

77 Id.; O grau zero da escrita; tradução Mario Laranjeira. São Paulo: Martins Fontes, 2004b, p. 72. 78 Id.; A crise da verdade [1975]. In: BARTHES, 2004a, p. 351.

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zero ameaça a métrica e a concatenação dos sentidos presentes na sonoridade do discurso e compromete a sensação de continuum do tempo e do espaço que inserem o sujeito na História.

O exemplo das tortuosas conversas sobre o tempo demonstra o limite entre consciência e diluição do sujeito e indica o estranho sem sentido que ronda a linguagem. O tempo é discurso universal, geralmente empregado para evitar o silêncio e a incômoda presença do outro diante de nossos olhos. Falar do tempo expressa tênue passagem entre ausência de sentido no mundo e empreendimento humano em sua busca. O outro, por mais desinteressante que seja, por vezes, exige o diálogo que gera a sensação comum de que se está presente num mesmo espaço. Significa dizer ao outro existe-se no mesmo cenário, que não pode ser mais neutro, pois ambos estão despertos.

[…] o tempo que está fazendo. Esse “assunto” que nas conversas cotidianas do mundo inteiro ocupa certamente o primeiro lugar, mereceria algum estudo: a despeito de sua futilidade aparente, não nos diz ele o vazio do discurso através do qual se constitui a relação humana? Falar do tempo que está fazendo foi inicialmente uma comunicação plena, informação requerida pela prática do camponês, para quem a colheita depende do tempo: mas na relação citadina, é um assunto vazio, e esse vazio é o sentido mesmo da interlocução: fala-se do tempo para não dizer nada, isto é, apenas para dizer ao outro o seguinte: estou falando com você, você existe para mim, quero existir para você (assim é uma atitude falsamente superior a de zombar do tempo que está fazendo) […]: permite ao discurso manter-se sem dizer nada (dizendo nada), frustra o sentido, e, esmiuçado em algumas notações adjacentes […] permite fazer referência a algum estar-presente do mundo, primeiro, natural, incontestável, in-significante […] (BARTHES, 2004b, p. 210-1).

No seminário O neutro e em sua obra póstuma, O sussurro da linguagem (Le

bruissement de la langue -1984), Barthes avança na apreensão da suspensão da linguagem. Não se trata mais de considerar a linguagem como atividade fundante e necessária do sujeito, como anunciado pela tradição filosófica e teológica. Sua proposta pode ser lida como radical desvencilhamento entre a noção de estrutura e a linguagem, parceria ou mesmo indistinção que no estruturalismo francês parecia irrevogável. Barthes direciona o estranhamento para o nível de supressão do sujeito.

A linguagem exige discurso inteligível, linear e sequencial que possibilite a palavra e a correlação entre o significante e o significado para que o som emitido pela voz humana adquira sentido ao outro. O neutro cinde o discurso; emerge no átimo que anuncia a “ausência provisória” 79 do sentido; ruído indeterminado que transforma o verbo em sussurro; vapor da linguagem que condensa o Ser na Natureza.

79 BARTHES, 2003, p. 281.

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Barthes possui afinidades eletivas com Górgias, sofista contrário a Sócrates e à ontologia, precursor do neutro, que propôs a dissolução da voz humana, ou da fala racional, no ruído anônimo da natureza como se fosse o murmúrio inarticulado do peixe ou da planta tangida pelo vento. Górgias discorreu contra a superioridade ou a singularidade da alma (psykhé) em relação à natureza, o que o permitiu desconstruir a linguagem e o eu. Platão inaugura a metafísica, ao considerar a alma como parte superior e eterna do Ser. Temos aqui conflito entre Sócrates e o sofista Górgias cuja oposição consolidou o pensamento do primeiro e a tese de que a essência do Ser é racional.

Mas a psykhé revela a volatilidade das noções que sustentam a formação do logos e do sujeito no Ocidente. A alma, que se identifica com o Cogito desde Descartes, revela de forma surpreendente que a condição do homem é neutra, frustração e descontinuidade diante de suas intenções racionais “signo sonoro do fracasso”. 80 Embora a construção do eu exija distanciamento do pensamento diante da natureza, não nos esqueçamos que etimologicamente a psykhé

[…] está relacionada com o último suspiro antes da morte e não com os processos psíquicos do homem. Psykhé é derivado regressivo do verbo psýkhein “soprar, emitir um sopro”. Psýkho verbo, “eu sopro, deixo escapar o ar”, origina-se, provavelmente, da forma não sufixada psýo, “soprar”, que possuí sua origem no indo-europeu. Esta composição assemelha-se a psýkho e sua forma secundária psýgo, “eu esfrio, refresco”, porém é necessário não confundi-las […] (OLIVEIRA, 2007, p. 2. In: Existência e Arte, Ano III, n. III, jan./dez. de 2007, p. 2.)

No limite, o neutro dissolve o verbo ao destrinchar a etimologia; as construções simbólicas são desnudadas. Assim como o thauma, a psykhé indica, de maneira dialética, a formação de pensamento objetivante, o que significa dizer que ora produz conhecimento ora seu desmoronamento. Por isso a alma, o pensamento e o cogito confundem-se para fornecer entendimento ao homem e realidade ao mundo. A psykhé, ao contrário, produz seu revés, o antídoto que transforma atos e pensamentos em ventania ou natureza pensante. O neutro é realismo radical diante das construções simbólicas humanas.

Emudecer o verbo e desconstituir o sujeito revela que o neutro é efêmero e “não há verdade que não esteja relacionada ao instante”. 81 O que caracteriza o neutro é o limiar (limes, limites em latim), que os gregos compreendiam como metaxu, convivência dos duplos ou das dicotomias. Trata-se do entre, encruzilhada que não sendo “nem A nem B; grau

80 BARTHES, 2009, p. 115.

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complexo, grau zero [...]” 82, nem isto, tampouco aquilo, caracteriza-se por ser zona de indeterminação que permite volatilidade ou transição constante sobre dois territórios. O neutro situa-se tenuemente entre o silêncio e a fala, o desejo da fala e o inominável.

No instantâneo, Proust investigou a experiência do limiar, correspondente às situações nas quais o homem se encontra em estado bruto ou selvagem. A intenção de Proust é “[...] isolar e imobilizar o que jamais apreendera: uma fração de tempo em estado puro [...]”. Ao frear o instante, ou diluir a temporalidade, a narração proustiana é conduzida ao estado de exceção. Ao inominável, compreendido como o limiar; momento em que a hesitação paralisa o indivíduo e sequer nos é dado perceber o que é consciente ou inconsciente em nossas ações. Trata-se do neutro ou o grau zero do significado.

O autor da Recherche relata a proeza alcançada: “[...] Um minuto livre da ordem do tempo recriou em nós, para senti-lo, o homem livre da ordem do tempo [...]”. 83 A natureza do homem se torna mais evidente na exceção, quando o corpo e a mente não são proprietários de si, ou quando nada governa o sujeito. É por isso que o limiar é zona de transição. Nas regras sociais ou nas do discurso – nas ações ordinárias dos indivíduos em sociedade – são escamoteados os operadores mentais e sensoriais que permitem compreender a própria conduta, as coisas ou os fenômenos. A regra da cultura transgride a natureza buscando contraditoriamente naturalizar o que, na verdade, é invenção do homem. O limiar é ruptura para com a regra; ele permite alcançar atalhos ou exceções nos quais a natureza não mais se distingue da cultura. Quando avaliamos um fenômeno social a partir do que é geral e corriqueiro, alcançamos a roupagem que a cultura cria sobre a natureza. No limiar despimos a cultura até que ela se confunda com a vida natural. O neutro é forma de estranhamento que aloca o sujeito sob a tensão entre seu estado natural e sua condição de animal em sociedade.

A etimologia do limiar remete à concepção de passagem; margem que aproxima o fora e o dentro; o entre que não permite determinar o estrangeiro e o nativo, ou a possibilidade de transição de um lado ao outro; o balancear da porta, instabilidade e frágil barreira que permite sair ou entrar; ausência de taxionomia. O neutro é sintoma ou sensação impredicável que torna impossível e impensável a nomeação e a identificação do externo e do interno “[...] o Neutro = avesso, mas avesso que se dá a ver-se, chamar a atenção; não se esconde, mas não se marca”.84

82 BARTHES, 2003, p. 116.

83 PROUST, Marcel. O Tempo Redescoberto; tradução Lúcia Miguel Pereira. Porto Alegre: Editora Globo, 1970,

p. 125.

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Walter Benjamin considera que a experiência do limiar no homem moderno foi praticamente abolida pelo pensamento e pela intencionalidade burgueses, parceiros das rotinas da produção fabril e do tedioso processo de alavancagem de lucros.

Na vida moderna, estas transições tornam-se cada vez mais irreconhecíveis e difíceis de vivenciar. Tornamo-nos muito pobres em experiências liminares. O adormecer talvez seja a única delas que nos restou. (E, com isso também, o despertar). E, finalmente, tal qual as variações das figuras do sonho, oscilam também em torno de limiares os altos e baixos da conversação e as mudanças sexuais do amor. “Como agrada ao homem”, diz Aragon, “manter-se na soleira da imaginação” (no limiar das portas da imaginação), (Paysan de Paris, 1926, Paris, p.74). Não é apenas dos limiares destas portas fantásticas, mas dos limiares em geral que os amantes, os amigos, adoram sugar as forças. As prostitutas porém, amam os limiares das portas dos sonhos. - O limiar (Schewelle) deve ser rigorosamente diferenciado da fronteira (Grenze). O limiar é uma zona. Mudança, transição, fluxo estão contidos na palavra schewelle [inchar, intumescer], e a etimologia não deve negligenciar significados. Por outro lado, é necessário determinar (manter, constatar) o contexto tectônico e cerimonial imediato que deu à palavra seu significado (BENJAMIN, 2006, p. 535).

Diferentemente da fronteira, local do mais absoluto distanciamento de uma parte em relação à outra, o limiar não é garantia de fixidez. Ele é a intersecção do zero ao um e do repouso ao movimento; da passagem entre Natureza e Cultura; aporia segundo a qual nos é impossível saber se o número total de estrelas no universo é par ou ímpar; indefinição ou incomensurável incolor “tempo do ainda não, momento em que, na indiferenciação original, começam a desenhar-se, tom sobre tom, as primeiras diferenças […]; rebento, ovo ainda não eclodido: antes do sentido”. Neutro é, ao mesmo tempo, gradiente e intensidade, tensão do pensamento limite prestes a se dissolver ao oscilar entre a queda e a elevação; adição e

aphaíresis, termo grego que significa retirada, abstração ou subtração.

O neutro tem como sintoma o estranhamento. A percepção perde sua capacidade de determinação sobre os objetos; o tempo e o espaço parecem formar única dimensão, mas vazia e intransponível, imobilizada pelo estupor. A interrupção do pensamento do Ser confunde-se com a perda do sentido da História da humanidade e revela a impossibilidade de autodeterminação do sujeito consigo ou com aqueles outros que lhe conferem certeza de sua existência.

O quase-nada é sensação neutra, o que Jankélévitch considera como o “inominado inominável” 85 e não deve ser visto como conceito, mas possibilidade próxima do fracasso sob “o milagre de um instante […] milagre que o meio burguês estava destinado a

85 JANKÉLÉVITCH, Vladimir. O Quase-Nada. In: Primeira e últimas páginas. Campinas: Papirus, 1995, p.

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economizar”. O neutro anuncia o advir O intermediário entre o ser e o não-ser que ocorre num nada de duração “o instante, enfim, que nega o momento e o ponto, nega ao mesmo tempo o espaço e a posição no espaço, o tempo e mesmo a posição no tempo”. Para Jankélévitch, o instante é peculiar ao homem. É o estar fora do tempo que pertence à temporalidade metafísica ou cultural, pois a experiência do pensamento suspenso é a autorrevelação da não-autonomia da subjetividade. Sem lugar definido na mente, o quase- nada não é pensamento intencional, como quer Husserl; é existência que ocorre para fora do tempo ou do espaço. O instante desfigura a ordenação metafísica que parece reger a natureza e a própria consciência; “o não-ser e o ser acabam se aproximando até coincidir num nada de duração”.

O quase-nada é inconcebível. Floresce como suspensão relâmpago apreendida espontaneamente nas relações supérfluas do cotidiano “o inconcebível é também a mais banal das banalidades”. 86 É estranhamento que se opõe ao esforço da consciência no processo de compreensão do mundo. Está-se diante do inefável e do esgotamento do pensamento que é surpreendido pelo incomensurável. O neutro representa entrega do sujeito às sensações confusas tornando-o apenas capaz de sentir e anunciar sintomas indecifráveis. Sensação essa que faz do eu, não o senhor de sua própria casa, mas seu inquilino prestes a ser despejado. Não há neutro sem o quase-nada:

[…] ora, este pensamento suspenso é que é aqui o mais profundo pensamento, e este pensamento – relâmpago é também um ato cortante, o ato górdio, ao mesmo tempo que profundamente duvidoso pelo qual o mesmo pensamento, o pensamento fagulha, ao mesmo tempo nasce e morre (JANKÉLÉVITCH, 1995, p. 259).

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No inacabado e póstumo livro Um sopro de vida, Clarice Lispector perseguiu o neutro para pôr fim à lógica dos símbolos que regem a vida consciente. Não se trata mais de buscar o sentido das coisas, como pretendia Macabea em sua vida urbana, mas de neutralizar essa busca em nome do “vazio silêncio da eternidade da espécie”,88 e compreender que a vida não opera como frase que exige sujeito, verbo e ponto final. O nada não é mais ou menos que zero, é o instante que “dentro do segundo” explicita que “haverá o não tempo”89.

86JANKÉLÉVITCH, 1995, p. 209.

87 Ibid.; p. 259.

88 LISPECTOR, Clarice. Um sopro de vida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978, p. 12. 89 Ibid.; p. 6.

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O neutro é a essência que habita a vida do homem; vácuo pleno de vazio; flutuação do Ser que deixa de afirmar sua autonomia sobre a natureza e se dissolve nela como o alimento ingerido pelo corpo; que conduz à certeza de que cada pergunta remete a não resposta

Existe por acaso um número que não seja nada? que é menos que zero? que começa no ano que nunca começou porque sempre era? e era antes de sempre? [...] Redondo sem início e sem fim, eu sou o ponto antes do zero e do ponto final. Do zero ao infinito vou caminhando sem parar (LISPECTOR, 1978, p. 11).

O título do livro de Clarice ilustra o intento de Górgias: aproximar a voz e a subjetividade do homem ao sopro da natureza, à psykhé.

O inominável de Beckett refere-se à narrativa que questiona a todo instante: sou? Inversão do cogito cartesiano, impera a impossibilidade de autodeterminação do pensamento, incapaz de afirmar a própria existência que se mantém inefável. Trata-se da história limiar do

eu, cujo discurso faz do pensamento um sopro de vida. O sujeito pensante cartesiano é substituído por um cogito sem método, desnorteado e à deriva da ipseidade – a voz da mente que procura combater o silêncio absoluto ameaçador do fluxo de consciência.

Em Beckett, a subjetividade flutua para o nada a fim de evitar o ocaso da linguagem. O pensamento é o algo em nenhum lugar da mente, mas que se encontra em toda parte quando existo. Causa estranhamento porque sua temporalidade é indefinida, ao passo que sua presença não nos abandona.O que pode se realizar com nossas ideias quando percebemos que tudo o que somos e o poderemos ser não ultrapassa em nada a ordem da linguagem? Segundo Beckett, “Este que sou, este que aqui está, que não pode falar, não pode pensar, e que tem de falar, e portanto pensar talvez um pouco, não pode falar ou pensar apenas em relação a mim