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Os objetivos dos cursos de aperfeiçoamento técnico e pedagógico de Educação Física, planejados e organizados por Boaventura, foram a racionalização do ensino da Educação Física, considerando que só poderia ser assim caso se estabelecesse uma unidade de conteúdos, continuidade e eficiência da ação educativa, e o cumprimento de um currículo mínino de conteúdos universalmente aceitos. As propostas não eram voltadas apenas ao conteúdo didático, mas, como pode se averiguar no quarto item, a auxiliar o professor em sua prática, buscando instrumentá-lo com estratégias e sugestões para os problemas diários.

4 – Auxiliar o professor:

a) Interessar todos os educandos no aprendizado dos gestos ginásticos e desportivos de acordo com suas habilidades... b) Dar a escola oportunidade de colaborar na solução do

problema da generalização esportiva (Trabalho básico sistemático de formação e iniciação esportiva).

Único em seus propósitos, porém jamais rígido em face: 1o. Das condições materiais de cada escola.

2o. Para não tolher a liberdade do professor.

3o. Reprogramar o conceito de uniformidade, não satisfaz o ideal

pedagógico.

Meios universalmente aceitos para a elaboração do programa – Ginástica - Jogos – Esportes – dança – atividades ao ar livre.

É possível que Boaventura estivesse atento para as diferentes realidades de trabalho dos professores que freqüentavam o curso, já que em seu segundo subitem sugere flexibilidade em relação ao espaço de aplicação e materiais, da possibilidade do professor fazer suas escolhas metodológicas, mas sempre “único em seus propósitos”. Provavelmente, quando se refere ao conceito de uniformidade, estivesse fazendo alusão a sua primeira obra “Vozes de Comando – sua uniformização em Educação Física”, que foi distribuída a todos os estabelecimentos de ensino oficiais em 1942, e previsto na portaria no. 113 de 27 de agosto de 1941, que tratava de uniformizar os comandos dos diferentes padrões de educação física existentes à época.

Outro indício da transformação do conceito de educação do físico e da disciplina Educação Física, é o aparente consenso do que Boaventura chamou de “meios universalmente aceitos para elaboração do programa – Ginástica – Jogos – Esportes – dança – atividades ao ar livre”. Para ele, não se tratava da cisão entre ginástica e esporte

que a historiografia aponta nas décadas de 30 e 40, em que haveria resistências à incorporação do esporte nas aulas de educação do físico.

Do primeiro curso participaram 300 profissionais; no curso seguinte, 420, advindos de diferentes estados e países sul-americanos, dentre eles, Luiz Brisquelt do Chile, Enrique e Gilda Romero Brest da Argentina, Jacintho Francisco Targas55 do Rio Grande do Sul, Antonio Boaventura da Silva de São Paulo, Antonio Salles de Oliveira de São Paulo, Curt Johansson56 da Suécia, Aloyr Queiroz de Araújo do Espírito Santo, Sylvio José Raso de Minas Gerais, Francisco Pereira da Silva de São Paulo, Julio M. Isquierdo da APEF do Uruguai, Raul V. Blanco da Comissão Nacional de Educação Física do Uruguai.

Na assembléia do curso foram debatidos os problemas da Educação Física Nacional, em que se propôs formar uma comissão para analisar e encaminhar ao Ministro da Educação e Saúde um memorial, apontando para os problemas da falta de organização e orientação sobre a educação física nas escolas primárias, secundárias e profissionais. Boaventura, então Diretor Técnico do Departamento, relatou a necessidade de se traçar um plano de trabalho que já deveria ter sido feito pelo DEFE, logo após o primeiro curso, para analisar o problema da Educação Física no Brasil e sugerir soluções. Major Targas, Diretor da Escola Superior de Educação Física de Porto Alegre, disse que no Rio Grande do Sul já havia reunido uma comissão para tratar do assunto e sugeriu que fosse feito um trabalho em conjunto e reunir com a Divisão de Educação Física para solicitar do Ministério um trabalho a respeito. Mario Nunes de Souza, professor da Escola Superior de Educação Física de São Paulo e companheiro de Boaventura, sugeriu que fosse enviado um memorial, “forçando uma reunião de diretores na Divisão”.

Parece ter havido um consenso a respeito do problema da Educação Física, mas, não necessariamente sobre este mesmo slogan repousam os mesmos anseios. Francisco Gomes, professor de Educação Física da Escola Normal de Taquaritinga, sugeriu que       

55 Jacintho Francisco Targas foi companheiro de Boaventura na delegação brasileira que foi à Lingíada

em 1949, era diretor da Escola de Educação Física do Rio Grande do Sul, foi duas vezes vice-presidente da FIEP mundial e presidente da FIEP na América Latina em 1975, quando escreveu o código de ética profissional da Educação Física, traduzido para o francês, alemão, árabe, espanhol, italiano além do português (Boletim FIEP, no. 12/03).

56 Em diferentes documentos o nome do Sr. Curt Johansson (Manuscrito de Boaventura no curso de

Santos), vem como Kurt Jonhasson (Notícia da Gazeta Esportiva de 27/06/1951) e o mais comum Curt Johnson (Atlas do esporte 2002, transcrições de entrevista e outros estudos da historiografia). Trata-se de

60  fosse aproveitada a presença de professores estrangeiros, do Chile, da Argentina, do Uruguai e da Suécia, e fosse traçado um plano conjunto, uma vez que a Educação Física era um problema geral. Antonio Coelho, Delegado Regional de Educação Física de Campinas, propôs que fosse realizada uma reunião no ministério, conclamando os presentes a se unirem para que fossem ouvidos.

O professor Brisquelt, da Divisão de Educação Física do Ministério da Saúde do Chile, declarou que desconhecia a organização da educação em São Paulo e do Brasil, mas achou interessante a apresentação de um memorial com objetivos e sugestões, “pois um documento assim tem valor”. Mas, o próprio Brisquelt alertou que “não se poderá já se apresentar soluções” sem que fosse criada primeira uma comissão para planejar as ações e dividir em subcomissões que tratariam do assunto em diversas frentes de trabalho. Boaventura propôs a formação de uma comissão para redigir o memorial, e Major Targas enfatizou que deviam ser apresentados os pontos de apoio à comissão. O professor Boaventura agradeceu a colaboração de todos e externou sua opinião, dizendo que “devemos ter mais confiança na obra que propomos”. Enrique Romero Brest, professor da Escola de Educação Física de Buenos Aires na Argentina, sugeriu que fosse votada a comissão com representantes dos estados presentes, sugestão que foi aceita, e a Assembléia votou seus representantes57.

Nas deliberações do curso de Aperfeiçoamento técnico e pedagógico de Educação Física, encaminhadas ao então Ministro da Educação e Saúde, o Ministro Ernesto Simões da Silva Freitas Filho, reivindicava-se que fosse dada à Educação Física o mesmo “tratamento dispensado às demais atividades do currículo”, através de medidas legais junto aos diferentes extratos administrativos do sistema de ensino.

Os professores participantes do II curso de aperfeiçoamento técnico e pedagógico promovido pelo Departamento de Educação Física do Estado de São Paulo, realizado em Santos de 20 de junho à 5 julho de 1952, apelam à Vossa Excelência no sentido de:

I - Dar igual tratamento dispensado às demais atividades do currículo escolar à educação física, promovendo medidas administrativas junto às       

57 Foram eleitos os seguintes representantes: do Rio Grande do Sul, o Major Jacinto Targas, diretor da

Escola de Educação Física de Porto Alegre, do Paraná, o professor Roberto Willian Albizú, diretor da Escola de Educação Física e Desporto de Curitiba, de Minas Gerais, o diretor Sylvio José Raso da Escola de Educação Física das Faculdades Católicas de Minas Gerais e SESI, do Distrito Federal, o professor Manoel Monteiro Soares do Serviço de Educação Física e Recreação da prefeitura do Distrito Federal – Rio de Janeiro, do Espírito Santo, o diretor Aloyr Queiroz de Araújo da Escola de Educação Física de Vitória, de São Paulo o diretor técnico Antonio Boaventura da Silva, do Departamento de Educação Física.

autoridades oficiais e aos Srs. Diretores de estabelecimentos de ensino de todos os níveis.

Entendia-se que a obrigatoriedade da educação física nos estabelecimentos de ensino não era suficiente, se os poderes públicos não tornassem efetivas determinadas ações e leis, já que a disciplina gozaria do mesmo status das outras. Então, sugeriu-se que não fosse permitido o licenciamento de estabelecimentos de ensino em qualquer nível, oficiais ou não, se não atendessem a especificações e espaços necessários para a prática da educação física, garantindo-lhe a reserva de áreas internas e externas.

II - Tornar, efetivamente, obrigatória a reserva de áreas, internas e externas, para a educação física, não permitindo, em hipótese alguma, o licenciamento de estabelecimentos de ensino de qualquer nível, oficiais ou não, sem que preencham as condições exigidas pelo órgão especializado competente.

Ainda, solicitavam que fossem reexaminadas as “DIRETRIZES” para a Educação Física nos estabelecimentos de ensino secundário, por entenderem que essas não satisfaziam o propósito da Educação Física na escola, que fossem aperfeiçoados as suas finalidades no ensino secundário, que o número e a duração das aulas fossem aumentados. Ainda questionavam algumas ações do cotidiano do professor, como as avaliações práticas, considerando-as impróprias e sem objetivos claros, e pretendiam que fossem definidos critérios quanto à freqüência às aulas de educação física, pois a política para essa forma escolar era “instável”, dificultando a ação do professor. Criticaram a documentação exigida pelas escolas, classificando-as como desnecessárias, solicitaram que houvesse assistência médica e, por fim, que fosse dada aos professores a possibilidade de experimentar novos dispositivos educacionais em sua prática pedagógica.

Dentro desse conjunto de reivindicações, sugestões e críticas, o memorial ainda trazia itens sobre a Educação Física nas Escolas Normais, a efetivação da prática da educação física nas Escolas Primárias e a obrigatoriedade da educação física nas escolas técnicas do Ministério de Educação e Saúde. O incentivo à prática esportiva nas escolas também fazia parte do conjunto da lista, além de, no mesmo texto, sugerir a periodicidade e o tempo das atividades. Por fim o texto, com mais três itens, sugeria que o Ministério promovesse instrumentos de aperfeiçoamento e atualização de conhecimentos na área da educação física, como cursos, publicações etc., estabelecesse convênios com os estados, descentralizando as ações para que cada órgão competente

62  pudesse organizar orientar e dar assistência a educação física. E, por fim, que fosse convocada uma reunião com os representantes dos estados para que pudessem colocar as aspirações de seus representados de acordo com as necessidades locais, sugerindo soluções aos problemas “levando em conta o plano pan-americano de Educação Física, aprovado no 3º. Congresso Pan-americano de Educação Física”.