3. PROJE UYGULAMALARINDA HATALARA VE DEĞĐŞĐKLĐKLERE
3.1 Mal Sahibinin Etkisi
Reconstruir a trajetória desta pesquisa é submergir no aporte teórico e emergir na realidade muçulmana local, especificamente de São Bernardo do Campo. O caminho traçado para a construção dos conhecimentos foi ilustrada por analogias relacionadas ao corpo humano. Esta ferramenta foi utilizada para realçar a proposta da pesquisa, uma vez que as Ciências Humanas podem “dar as mãos” às Ciências da Saúde para caminharem lado a lado.
O ser humano é integral, holístico. É compreensível que as áreas de conhecimento não sejam analisadas de maneira isolada, mas sempre estejam atreladas a outras áreas de conhecimento, a fim de propor linhas de pensamentos que comuniquem com o cotidiano das pessoas. A proposta por unir saúde e religião é essencialmente esta. Construir conhecimentos de saúde que comuniquem com a religião, em especial com o islamismo. Pessoas muçulmanas como visto no capítulo 1, vivenciam o islamismo de maneira muito intensa, principalmente pelo fato, do islamismo ser para elas um código de vida. Código este que influencia em vários aspectos do cotidiano de seus adeptos, inclusive nas questões de saúde.
As relações de gênero entre homens e mulheres no islamismo, vão para além das regras de comportamento no lar. Estas relações ultrapassam o privado e ganham notoriedade no público, como por exemplo, o uso da vestimenta islâmica feminina e as restrições quanto ao toque entre pessoas de sexos diferentes. Como analisado no Capítulo 2, estas relações influenciam diretamente nas práticas de saúde. Com base nesta premissa, pude na prática do campo de pesquisa, constatar que de fato a vivência dos muçulmanos, e especificamente, das mulheres muçulmanas é muito intensa no que diz respeito a aplicar o islamismo em todas as áreas da vida cotidiana.
A cada nova entrevista e visita às instituições participantes, se tornava claro que o islamismo influencia as práticas de saúde. Claro que cada indivíduo absorve a religião de forma diferente, cada um com a sua intensidade, mas, seja com maior ou menor intensidade, de alguma forma, a expressão religiosa sempre influencia em algum aspecto da saúde.
Vários aspectos religiosos do islam foram analisados, principalmente, através da perspectiva muçulmana de saúde. Além disto, questões como casamento também foram suscitadas, uma vez que este é um tema que repercute diretamente nas questões de saúde, prova disto é a consanguinidade. A questão da consanguinidade pressupõe problemas
genéticos em decorrência dos casamentos entre indivíduos com um grau de parentesco muito próximo, o que no islamismo pode ocorrer, devido a valorização da herança. Em geral, principalmente em famílias muçulmanas oriundas de outros países, os casamentos são arranjados entre os próprios familiares, fato este, para preservar os clãs e manter a herança financeira.
Outro aspecto analisado no segundo capítulo relacionado aos casamentos foi o das relações sexuais. No islam, a conduta sexual é a de maior importância entre todas as éticas (AYYATULLAH, 2008), sendo normatizada nos hábitos sociais, pessoais e das relações sexuais. Os hadiths demonstram vários ditos do Profeta quanto aos hábitos necessários para o momento sexual. As abluções são um exemplo específico de higiene, não apenas para o momento das orações, mas também, para as relações sexuais. O sexo no islam é sagrado, em nome de Alá. O estar limpo através das abluções permite o sagrado, e simboliza o estar limpo no corpo e um para o outro. Através da análise da saúde, as abluções realizadas anteriormente e posteriormente às relações sexuais, auxiliam na prevenção de infecções ginecológicas, uma vez que a região genital, tanto masculina, quanto feminina, se mantém higienizadas, com menores chances de proliferação de microorganismos patogênicos.
Quanto à menstruação, para o islam, o sangue é considerado impuro. Mulheres menstruadas não conseguem se manter abluídas, devido ao sangramento constante da menstruação. Por não se manterem “limpas”, ficam impossibilitadas de realizar seus ritos sagrados, tais como orações e jejuns. Segundo S.J, o fato das mulheres não realizarem suas orações, não comparecerem às mesquitas e nem tocarem no Alcorão durante a menstruação, demonstra a adoração delas a Alá, visto que isto é considerado como adoração.Algumas mulheres optam por utilizarem anticoncepcionais orais para conter seus sangramentos, a fim de participarem principalmente do jejum do Ramadã.
Os métodos contraceptivos em geral, são bem aceitos, desde que sejam reversíveis. O uso da camisinha, principalmente a masculina é recomendada. S.J disse que os companheiros do Profeta utilizavam códons semelhantes à camisinha masculina. Outro método recomendado é o coito interrompido com base na observação do período fértil. O uso dos métodos hormonais são permitidos. A única restrição está quanto aos métodos irreversíveis, tais como a laqueadura e a vasectomia. Tais métodos são permitidos apenas quando são por recomendação médica devido a problemas de saúde.
A fertilização in-vitro é permitida, desde que seja realizada com os próprios gametas do casal. Óvulos e espermatozóides de terceiros não são permitidos, uma vez que a hereditariedade não será preservada. A utilização de “barriga de aluguel” também não é permitida. Acredita-se que, mesmo que os gametas sejam dos pais, o fato da gestação ocorrer em outra mulher, isto influencia na genética do bebê, que terá traços genéticos da “mãe de aluguel”.
O pré-natal é recomendado. No entanto, segundo relatos das participantes, as mulheres muçulmanas recém-chegadas de outros países postergam a realização do pré-natal. O entrave do idioma é um dos fatores. A busca por profissionais do mesmo sexo é outra questão. No sistema privado de saúde, as mulheres tem a opção de escolher o profissional de saúde que irá assisti-las, contudo, no sistema público nem sempre há essa possibilidade. Sendo assim, mulheres que vieram de países predominantemente muçulmanos, podem ser arredias ao pré- natal devido à assistência ser realizada por profissionais do sexo masculino.
O momento do parto para as mulheres muçulmanas é envolto por crenças. A dor está relacionada à crença na predestinação da dor (SIDUMO, 2007). Necessariamente, espera-se que a prestação de cuidados seja efetuada por uma equipe de saúde feminina. Após os primeiros cuidados com o neonato, o pai ou a pessoa que for acompanhar a mulher durante o parto, realizará o chamamento da oração no ouvido direito do bebê, além de esfregar tâmara amassada na gengiva do recém-nascido. Acredita-e que isso auxilia na regulação da glicose do bebê.
O período do puerpério e amamentação, em geral, são acompanhados com uma rica alimentação, a fim de proporcionar a recuperação física da parturiente, assim como permitir que os nutrientes necessários sejam repassados para o bebê no intuito de favorecer o crescimento do neonato. O uso das tâmaras é incentivado na alimentação materna. Como foi relatado no Alcorão que Maria utilizou as tâmaras no período do seu parto, há a recomendação para que as mulheres também ingiram as tâmaras, principalmente no puerpério.
Outro dado interessante relacionado ao período da amamentação é a não permissão da utilização do leite materno de outras mulheres. Caso na unidade hospitalar, após o parto, a parturiente não conseguir amamentar seu filho, os profissionais de saúde não poderão oferecer leite materno oriundo dos bancos de leite, uma vez que, quando a criança ingere outro leite materno que não seja da sua própria mãe, há a crença de que componentes estruturais desta mulher passarão para a criança, e esta passará a ser filho de leite dessa mulher. S.J relatou que
no islam, creem que componentes genéticos da criança serão alterados devido a esta ingestão deste leite.
A temática do aborto foi pouco discutida entre as participantes da pesquisa. Este dado pode sugerir o desconforto quanto ao tema. S.J foi o único a discutir o tema, e evidencia que o aborto é permitido, mas, não recomendado. Este tema é motivo de discussões entre os sábios da religião, no entanto, o que há de consenso é que a partir dos 120 dias não é permitido o aborto. Anterior a este tempo, alguns dizem que é permitido, outros não.
No Capítulo 3, busquei através da base conceitual da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher, propor diretrizes de assistência a essas mulheres muçulmanas. Diretrizes são orientações ou rumos a serem seguidos. Como na própria PNAISM, as diretrizes servem para dar o suporte aos profissionais de saúde para que o planejamento e execução das ações de saúde sejam eficazes. Da mesma forma, o intuito em gerar estas diretrizes voltadas aos profissionais de saúde é direcionar os cuidados de saúde às mulheres muçulmanas, e posteriormente, guiar o planejamento e a execução das ações em saúde.
Algumas diretrizes foram criadas de acordo com as demandas religiosas que as participantes da pesquisa propuseram, outras, foram propostas de acordo com as peculiaridades que o islam expressa quanto às relações de gênero e consequente influência social sobre essas mulheres. A demanda de maior relevância foi que a prestação de cuidados de saúde, em específico, saúde ginecológica e obstétrica, seja realizada por profissionais do sexo feminino.
Outras questões religiosas que geram demandas na assistência em saúde são a condição dos casamentos, com possíveis casos de consanguinidade. As DST´s são outro aspecto de relevante importância, uma vez que no islam a poligamia é permitida. O planejamento familiar não deve ser imposto, assim como negociado de acordo com a demanda familiar.
As abluções podem apresentam repercussões diretas na saúde ginecológica destas mulheres, tanto no sentido de favorecer a saúde, quanto na possível permissividade de agentes patogênicos, devido ao excesso de lavagens vaginais. Neste sentido, esta diretriz atenta os profissionais de saúde a atentarem para determinadas infecções ginecológicas.
Cabe realçar que as diretrizes são baseadas no levantamento dos preceitos religiosos. O intuito é através destes preceitos, identificar como estes influenciam na saúde dessas
mulheres muçulmanas e direcionar a assistência para que esta seja efetiva. Todas as diretrizes criadas conduzem a esta prestação de cuidados congruente de acordo com as demandas das mulheres quando na assistência.
Sendo assim, este é o caminho para afirmar que esta é uma pseudo-conclusão. Digo isto, pois ainda há um caminho a ser trilhado até o que considero ser a conclusão da pesquisa. A partir desta, as possibilidades para a continuidade da mesma são inúmeras. O anseio por sua aplicabilidade nos vários níveis de atenção à saúde ainda é algo que palpita em meu coração. Como dito na introdução, pesquisas se fazem com o “coração”. Pois bem, ainda sinto o pulsar por este tema, por isso, ainda há muito a ser explorado.
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