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II. KAVRAMSAL ÇERÇEVE

2.2. Maden ve Kuyumculuk Tarih

Para mim, o que me marca mais são os meninos correndo atrás deles (dos Doutores da Alegria). Eles vão de enfermaria em enfermaria atrás deles e ficam olhando. Então, eu acho isso muito interessante, essa questão deles chegarem e mobilizarem todos. "Ah, o Titêtê está chegando, a Brisa está chegando". E eu gosto muito de ver os meninos. Aí, eles ficam na enfermaria, “oh, não pode entrar, não”. Eles ficam olhando assim para mim, para ver se eu vou sair para eles poderem entrar. Então, eu acho que é isso que me marca mais. Ver os meninos atrás deles, correndo atrás deles, querendo brincar. Aí cutucam. E aí eles (os Doutores da Alegria) também pegam com eles e correm atrás deles. Tem que tomar cuidado que eles (os meninos) ficam muito agitados. Teve um menino que até bateu a cabeça no extintor de incêndio porque estava brincando com eles. E eles brincam, eles ficam no meio, na confusão. Então, uma situação marcante, específica, eu não tenho, mas eu gosto de ver os meninos atrás (ENF – ENFERMARIA – ENTR 3).

Durante o período de internação, a criança é privada do ambiente familiar, o qual constitui uma importante referência de proteção e acolhimento. Nesse período, a criança é exposta a uma realidade adversa, onde predominam normas e regras que são seguidas em prol do tratamento eficaz. Ademais, a internação hospitalar também se traduz em procedimentos invasivos, muitas vezes dolorosos, quebrando a rotina e as situações habituais próprias da infância. Segundo Morais e Costa (2009), esse cenário pode desencadear transtornos físicos e emocionais que podem repercutir até mesmo após a alta.

Sabe-se que a criança utiliza-se do brincar como forma de superar as crises e elaborar traumas e perdas em sua vida. Assim, o ato de brincar assume relevante papel no desenvolvimento infantil, principalmente nas crianças que passam por longos períodos de hospitalização. Como forma de minimizar o sofrimento e auxiliar no tratamento infantil, os

hospitais têm adotado como estratégia a estimulação de brincadeiras, destinando parte do seu espaço físico para a instalação de brinquedotecas. De forma semelhante, os palhaços de hospital acabam sendo catalisadores ambulantes de brincadeiras e, por esse motivo, conseguem reunir muitas crianças à sua volta.

A proposta de trabalho dos Doutores da Alegria está voltada para a abertura dos palhaços para a compreensão e atendimento das necessidades do outro de forma interativa e com qualidade. Assim, o palhaço passa a enxergar o mundo com o olhar de uma criança, favorecendo o encontro de iguais. Isso ocorre porque o palhaço traz em si a curiosidade e ingenuidade infantis, aliadas às experiências do adulto. Sem medo de ser ridículo, ele cria oportunidades para brincar e se relacionar, sempre levando em conta que, independente do diagnóstico, a criança traz em si a essência que deseja brincar (MASETTI, 2003).

Na narrativa da enfermeira, são evidenciados momentos que refletem a expressão da vida se manifestando em busca da alegria, sinônimo de festa, de divertimento e de prazer. Tal expressão se traduz na correria e na algazarra das crianças como sinal da força que pulsa, capaz de movê-las na direção dos palhaços e incentivá-las a transgredir algumas regras que cerceiam sua curiosidade e as impedem de desfrutar de momentos felizes. Essa mesma força as leva em direção à saúde, “enganando” a doença.

6.3.2 “Tocando a vida”: música para o Gabriel

Ah, foi o Titetê ou foi a Brisa? Foi quando eles descobriram que eu estava grávida. Aí, o Titetê abaixou e eles têm aquela caixinha de música. Eu estava no refeitório com mais duas crianças, né? Então ele abaixou e ficou pertinho da minha barriga, rodando a caixinha de música e tocando música para o Gabriel, meu neném. A Brisa cantando e ele tocando a musiquinha. Para mim foi marcante, né? Uma sensibilidade assim. Hoje em dia as pessoas me vêm passar com a barriga, mas, ninguém entrou em contato com o bebê e eles entraram em contato com o bebê. Foi interessante (TO – ENTR 5).

A narrativa da terapeuta ocupacional traz à tona a expressão da subjetividade presente em um momento singular do cotidiano de trabalho da unidade pediátrica. No contexto do trabalho em saúde, a rotina diária carregada de tensão torna as relações entre os profissionais “endurecidas”, passando despercebidas as situações especiais vivenciadas cotidianamente. A esse respeito, cabe salientar que as relações interpessoais e o clima organizacional favoráveis são de fundamental importância para o fortalecimento da identidade dos diferentes grupos

profissionais. Nessa perspectiva, o depoimento da terapeuta ocupacional reflete a necessidade de estabelecimento de relações afetivas e que levem em conta momentos de vida como, no caso especifico, a gravidez.

Destaca-se que a gravidez é um período de mudanças físicas e psicológicas, durante o qual a mulher possui uma exacerbação da sensibilidade. Com o decorrer do tempo, a grávida passa a se relacionar cada vez mais com o bebê e a dedicar-lhe importante espaço psíquico. Esse aspecto deve ser levado em conta no relacionamento com a gestante, uma vez que não se trata de uma futura mãe, nem de um feto, mas de uma mãe e de seu bebê. (PICCININI et al., 2008).

O palhaço, assim como qualquer indivíduo, não é uma ilha, pois ele só se concretiza na relação com o outro. Na sua forma intensa de ser e agir, ele está atento a tudo e a todos à sua volta, por isso ninguém escapa ao seu olhar. Por sua vez, ele só existe se for visto ou notado; daí o seu corpo dilatado e sem medidas, suas vestes extravagantes e a sua presença irreverente. Com sua lógica, o palhaço promove uma valorização intensa do outro, principalmente os excluídos, os isolados, os esquecidos (ACHCAR, 2007).

Vivenciar um encontro singelo, profundo e de extrema magnitude representa algo único e significativo na vida de qualquer pessoa, sobremaneira na de uma mulher no período de gravidez. Assim, ao direcionar a caixinha de música para o bebê, os palhaços tocaram profundamente a sensibilidade da gestante, pois tocaram sua alma, a essência do ser. Considerando a ingenuidade e pureza que caracterizam o palhaço, observa-se que não há espaço pré-definido ou tempo determinado para os encontros acontecerem. Esses encontros podem ocorrer em locais como um refeitório, uma enfermaria ou em qualquer outro lugar onde haja o encontro de pessoas. Ressalta-se ainda, que ao se abaixar para se aproximar da barriga da grávida, o palhaço assume a real postura clínica, o que pode ser explicado se buscarmos a origem da palavra “Klíno” (clínica), que, em grego, refere-se à necessidade do médico inclinar-se sobre o paciente” (CAMPOS, 2010, p. 2340). Tal inclinação representa uma atitude de proximidade na medida certa: nem distante, nem muito próximo.

Em um ambiente onde predominam as tecnologias duras (MERHY, 2002), o palhaço resgata a subjetividade por meio da arte e da estética do encontro, revelando a capacidade de reconhecimento do outro como sujeito e despertando paixões alegres.