Os entes federados, bem como “as entidades e órgãos da Administração Pública, direta ou indireta, ainda que sem personalidade jurídica, especificamente destinados à defesa dos interesses e direitos protegidos por este código”, também estão legitimados à propositura de ação coletiva. O CDC houve por bem ampliar a legitimidade, estendendo-a até mesmo aos órgãos da Administração que não tenham personalidade jurídica.
Apesar de não haver previsão expressa na lei, está consolidado o entendimento de que os legitimados que compõem a chamada Administração Direta estão dispensados de comprovar a pertinência temática. Os que compõem a Indireta, se de direito privado, devem comprovar; se de direito público ou constitucionais, não244.
243 Assim o fez a “Associação Amigos do Jardim das Bandeiras” ao ajuizar ação civil pública com o objetivo de
cassar alvará que permitiu ao loteador o início de obras que supostamente não atendiam à legislação urbanística. Veja-se a ementa da liminar mantida em agravo de instrumento:
“AGRAVO DE INSTRUMENTO. Ação Civil Pública. Urbanismo. Preliminar de falta de correlação entre os fundamentos recursais e a decisão agravada repelida. Agravante que em suas razões expôs os fatos e o direito que entende aplicável à espécie para modificar a decisão agravada, inexistindo óbice para seu conhecimento.
Liminar concedida para determinar a suspensão dos efeitos do alvará concedido pelo Município de S. Paulo com a consequente paralisação da obra em andamento descrita na inicial. Manutenção. Matéria
que depende de dilação probatória. A questão da prevalência da Lei nº 13.885/04 (art. 247), o fato de ser
ou não ZCLp, das restrições do loteador ou a prevalência do Estatuto da Cidades, é matéria que deve ser enfrentada com maior acurácia, no momento adequado. Aliás, este é o cerne da questão, saber se o
Estado pode desfigurar ou alterar bairro ou região -- desconstituindo restrições contratuais anteriores -- elaborada por cidadãos, em uma ordem democrática, por meio de um ato estatal, a lei.Decisão mantida. Negado provimento ao recurso.” (SÃO PAULO. Tribunal de Justiça. Nona Câmara de Direito Público. Relator: Agravo de Instrumento nº 0146399-47.2013.8.26.0000. Desembargador Oswaldo Luiz Palu,julgado em 29 de janeiro de 2014. Disponível em: <http://www.tjsp.jus.br)
244“Devemos perquirir se o requisito de pertinência temática só se limita às associações civis, ou se também
alcançaria as fundações privadas, sindicatos, corporações, ou até mesmo as entidades e os órgãos da administração pública direta ou indireta, ainda que sem personalidade jurídica. Numa interpretação mais literal, a conclusão será negativa, dada a redação do art. 5° da LACP e do art. 82, IV, do CDC. Entretanto, onde há a mesma razão, deve-se aplicar a mesma disposição. Os sindicatos e corporações congêneres estão na mesma situação que as associações civis, para o fim da defesa coletiva de grupos; as fundações privadas e até mesmo as entidades da administração pública também têm seus fins peculiares, que nem sempre se coadunam com a substituição processual de grupos, classes ou categorias de pessoas lesadas, para defesa coletiva de seus interesses." in A Defesa dos Interesses Difusos em Juízo, Hugo Nigro Mazzilii, São Paulo, Saraiva, 2006. p. 277/278 [...]” (BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Primeira Turma. AgRg no REsp 901936/RJ. Relator: Ministro Luiz Fux, julgado em 16 de outubro de 2008, DJe, 16 mar. 2009).
Não há na legislação norma que impeça que um ente federado promova ação civil pública em outra localidade com a finalidade de ver efetivados os direitos coletivos lato sensu para os quais está legitimado. Neste sentido estão Nelson Nery Junior. e Rosa Nery245:
Não há nenhuma exigência na lei para que os órgãos da administração direta estejam legitimados à propositura da ACP. O Estado federado do Sul, por exemplo, pode ajuizar ACP na defesa do meio ambiente do Estado do Amazonas, porque o interesse processual na ACP é aferível em razão da qualidade do direito tutelado: difuso, coletivo ou individual homogêneo.
No entanto, para Motauri Ciocchetti de Souza246 pode-se extrair certa restrição em relação ao interesse dos legitimados no inciso II, devendo haver coincidência entre a localização geográfica dos lesados e a pessoa política: “No entanto, uma restrição é de ser feita: a pessoa política somente poderá agir em defesa dos interesses da sociedade que a forma e constitui – em outras palavras, das pessoas a quem lhe incumbe representar adequadamente.” Para ele, não poderia a União ingressar com ação civil pública em razão de dano local, por exemplo, da mesma forma em que seria vedado a determinado município intentar ação civil pública em razão de lesões sofridas em outro.
A lei, entretanto, não faz esta ressalva, mormente porque se se está a tratar de interesses cuja titularidade não se pode identificar, não seria razoável fazê-lo.
Com maior razão, parece não haver impedimento de que, por exemplo, a União ou um dos Estados ingresse com ação civil pública com o intuito de compelir determinado município ao cumprimento da legislação urbanística, seja no que se refere às normas gerais previstas na Constituição e no Estatuto da Cidade, seja em relação às normas municipais urbanísticas. De outro lado, também poderá o município ajuizar ação civil pública quando o Estado ou a União, atuando no âmbito de suas competências, aja em desconformidade com o planejamento urbanístico.
Já em relação às entidades e órgãos que compõem a Administração, ainda que sem personalidade jurídica, diz a lei que deverão ser destinados à defesa dos direitos difusos e coletivos. Da mesma forma autarquias, fundações e empresas públicas deverão ater-se às suas finalidades institucionais.
245 NERY JUNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. Código de Processo Civil Comentado e Legislação
Extravagante. 11.ed. São Paulo: RT, 2010. p. 1446.