Com o passar do tempo, verificou-se, na História, que permitir à mesma pessoa que elabora as leis que as aplique desemboca no exercício arbitrário do poder. Por esta razão, o Estado caminhou para o que hoje se conhece, mormente em razão da sistematização feita por Montesquieu268, por separação dos poderes. Este autor “propôs a criação de órgãos distintos e independentes uns dos outros para o exercício de certas e determinadas atividades”269.
Observando as sociedades em geral, os autores perceberam que existem três funções básicas em cada Estado: a de elaborar normas gerais; a de exteriorizar, num ato concreto, a vontade da lei; e a de solucionar os conflitos decorrentes de sua inobservância. Assim, cada um desses poderes exerce, predominantemente, uma função.
Ao Poder Legislativo, cabe a elaboração de normas gerais e abstratas, que visam à regulação tanto do próprio Estado quanto das pessoas que nele habitam. Ao Poder Executivo cabe a função administrativa, ou seja, de aplicar as normas anteriormente elaboradas. Ao Poder Judiciário, por sua vez, cabe a função de resolver os conflitos. Celso Ribeiro Bastos ensina que “a essência dessa doutrina consiste em estabelecer um mecanismo de equilíbrio e recíproco controle a presidir o relacionamento entre os três órgãos supremos do Estado”270.
268 No geral, costuma-se atribuir ao BARÃO DE MONTESQUIEU a autoria de tal teoria. Entretanto, alerta CELSO
RIBEIRO BASTOS que a identificação dessas funções remonta a ARISTÓTELES, ainda que este autor, à sua época, utilizasse outras palavras. Mais a frente, o estudo das funções existente no Estado foi retomada por outros teóricos, como LOCKE e BOLINBROCK,mas, no entanto, sem a clareza com que MONTESQUIEU tratou o
tema (Curso de Teoria do Estado e Ciência Política. São Paulo: Saraiva, 1989. p. 76).
269 TEMER, Michel. Elementos de Direito Constitucional, São Paulo: Malheiros, 2008. p. 120.
270 BASTOS, Celso Ribeiro. Curso de Teoria do Estado e Ciência Política. São Paulo: Saraiva, 1989. p. 76.
Também leciona o precitado autor que “MONTESQUIEU tinha uma profunda descrença quanto ao homem
desvencilhar-se de todos os desatinos que o poder o leva a cometer. Para ele a força corruptora do exercício do mando político está sempre presente. Chegou mesmo a afirmar que se todo poder corrompe o homem o poder soberano o corrompe soberanamente. Não sendo possível apelar para eventual regeneração do próprio homem forçoso se tornou encontrar um remédio para o arbítrio e a prepotência dentro do mecanismo de
É o que nossa Constituição adota expressamente em seu art. 2º: “são Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário”271.
Relevante, no momento, se faz tecer breves comentários sobre a o Poder Judiciário, que exerce a função jurisdicional. Cintra, Grinover e Dinamarco272 ensinam ainda que a Jurisdição é ao mesmo tempo poder, função e atividade. Poder porque decorre da ideia de poder estatal e da imperatividade de suas decisões. É função no sentido do encargo que possuem os órgãos estatais de dirimir os conflitos; e, por fim, é atividade porque envolve um complexo de atos do juiz. Cândido Rangel Dinamarco entende que por ter essa capacidade de impor suas decisões, a Jurisdição não é senão o exercício do poder do Estado, neste caso, direcionado a uma finalidade específica. Ela deve ser vista, segundo ele, como “uma das
expressões do poder estatal, que é uno”, e não como um poder do Estado273.
Dessa forma, frente à impossibilidade de solucionar seus conflitos mediante o uso da própria força, as pessoas os levam à apreciação de um órgão jurisdicional, que profere uma decisão de acordo com o direito vigente e a impõe às partes. Nesse sentido, Humberto Theodoro Junior 274:
O Estado moderno, então, assumiu para si o encargo e o monopólio de definir o direito concretamente aplicável diante das situações litigiosas, bem como o de realizar esse mesmo direito, se a parte recalcitrante recusar-se a cumprir espontaneamente o comando concreto da lei.
Dessa forma, a Jurisdição
não se restringe, apenas, à declaração judicial do direito. Jurisdição não é só reconhecer, no sentido de declarar quem tem e quem não tem um direito digno de tutela (de proteção) perante o Estado, ao contrário do que a etimologia da palavra poderia dar a entender (juris + dictionis, dizer o direito). A jurisdição envolve também, pelo menos à luz do modelo constitucional do processo civil brasileiro, as medidas voltadas concretamente à tutela (à proteção) do direito tal qual reconhecido pelo Estado-juiz275.
exercício do poder. Era preciso, pois, dispor as coisas de tal sorte que o próprio poder contivesse o poder. Daí a necessidade do seu desmembramento em três funções distintas [...]”.
271 Sabe-se que essa tripartição de Poderes tem certas temperanças, na medida em que há as chamas funções
atípicas. É o caso, por exemplo, do Senado Federal, quando julga atos do Presidente da República (CR, art. 52, I).
272 CINTRA, Antonio Carlos de Araújo; GRINOVER, Ada Pellegrini; DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria
Geral do Processo. 23.ed. São Paulo: Malheiros, 2007.. p. 145.
273 DINAMARCO, Cândido Rangel. A Instrumentalidade do Processo. São Paulo: Malheiros, 2003. p. 138. 274 THEODOR JUNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil, Vol. I. Rio de Janeiro: Forense, 2007. p.
38.
275 BUENO, Cássio Scarpinella. Curso Sistematizado de Direito Processual Civil. 2.ed. São Paulo: Saraiva,
Mas o Poder Jurisdicional apresenta-se de modo organizado, dividindo-se em órgãos, a fim de melhor exercer sua função. E o que determina em quais casos cada órgão atuará é a chamada competência. De acordo com Patricia Miranda Pizzol276, dentre tantos conceitos apresentados pela doutrina sobre o tema, três podem ser destacados: (a) competência como medida de poder – medida de jurisdição; (b) competência como o próprio poder de exercer a jurisdição; (c) competência como regra de distribuição de atribuições ou de serviço. A autora opta pelo primeiro conceito.