• Sonuç bulunamadı

A Defensoria Pública passou a ter legitimidade ativa expressa a partir da Lei nº 11.448/2007, que deu nova redação ao art. 5º da LACP, ainda que, mesmo antes da edição da lei já se aceitava que a Defensoria Pública representasse em juízo as associações hipossuficientes, por exemplo229. A instituição pode agir em nome próprio nas demandas coletivas, sem que haja necessidade de provocação, assim como os demais legitimados, pois sua legitimidade é institucional; mas deve-se atentar aos seus objetivos institucionais, dentre os quais se encontra a defesa dos necessitados (Constituição, arts. 134 e 5º, LXXIV). A lei, no entanto, não explicita quem são os necessitados.

A doutrina chega a afirmar que o termo poderia ir além dos economicamente carentes, incluindo, igualmente, os necessitados organizacionais, que são aqueles socialmente vulneráveis (consumidores, usuários de serviços públicos etc.)230. No entanto, esta não parece ser a interpretação mais correta, em razão do que dispõe o inciso LXXIV do art. 5º da Constituição, que possui a seguinte redação: “o Estado prestará assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos”. O fato de o texto apontado indicar a gratuidade da prestação e a necessidade de comprovação da insuficiência de recursos leva a crer que estes necessitados são os econômicos, assim entendidos como os que não podem pagar um advogado231.

Outro ponto que se coloca é se a atuação da instituição deverá beneficiar somente os necessitados, sem que alcance outras pessoas que não se enquadrem neste requisito. A discussão, entretanto, não parece razoável, na medida em que em se tratando de direitos de titularidade por vezes inidentificável, a restrição praticamente inviabilizaria a sua tutela jurisdicional. Acerca do direito ambiental e do alcance de outras pessoas que não sejam necessitadas, diz Marcelo Buzaglo Dantas232:

Em matéria de defesa do meio ambiente, não há dúvidas de que isso sempre ocorrerá, especialmente considerando que, como já dito e repetido, o bem tutelado se apresenta sob a forma de direito difuso, atinente, portanto, à coletividade como um todo. Deste modo, é praticamente impossível separar os beneficiados por uma

229 ZANETI JUNIOR. Hermes. Curso de Direito Processual Civil. Processo Coletivo. 4.ed. Salvador: Jus

Podivm, 2009, vol. 4, p. 211.

230 GRINOVER, Ada Pellegrini. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor comentado pelos autores do

anteprojeto. Vol. II – Processo Coletivo. 10.ed.Rio de Janeiro: Forense, 2011. p. 33, item 2.1. No mesmo sentido: MORAES, Ana Carvalho Bueno Ferreira de. A Defensoria Pública como instrumento de acesso à justiça. Dissertação de Mestrado apresentada à PUC-SP, 2009. p. 270.

231 Nesse sentido: ALMEIDA, Gregório Assagra. Manual das Ações Constitucionais. Belo Horizonte: Del Rey,

2007. p. 124.

prestação jurisdicional de procedência de uma ação civil pública promovida pela Defensoria Pública (como de resto, por qualquer legitimado), de modo a que somente os necessitados pudessem ser atingidos pelos efeitos da sentença. Basta se pensar em hipóteses como a proibição de emitir poluentes na atmosfera ou dejetos no leito de um rio ou no mar territorial. Em todos esses casos, ganha a coletividade como um todo – repita-se, necessitados e não-necessitados.

A atuação da Defensoria Pública, portanto, deverá pautar-se de acordo com seus objetivos institucionais, que, em relação à ordem urbanística, permite a ela propor ação civil pública, por exemplo, para defender os interesses dos moradores de comunidades localizadas em área de risco, a fim de buscar o reassentamento das famílias233; regularização urbanística de favelas em razão de obrigações previstas na legislação urbanística234; e, sem sombra de dúvidas, propor ação civil públicas que tenha por objeto os instrumentos urbanísticos relacionados ao atendimento de programas sociais ligados aos necessitados, como o direito de preempção exercido para regularização fundiária, execução de programas e projetos habitacionais de interesse social.

233 AÇÃO CIVIL PÚBLICA - REGULARIZAÇÃO URBANÍSTICA - SENTENÇA DE PROCEDÊNCIA -

INEXISTÊNCIA, DE RESTRIÇÃO À LEGITIMIDADE OUTORGADA À DEFENSORIA PÚBLICA NO TOCANTE ÀS AÇÕES COLETIVAS, LEI 7.347/1985, COM AS ALTERAÇÕES INTRODUZIDAS PELA LEI 11.448/2007 - DECISÃO DE PRIMEIRO GRAU QUE NÃO VIOLOU A LEI 8.437/92 - PEDIDOS FORMULADOS QUE NÃO SE MOSTRAM MANIFESTAMENTE INCOMPATÍVEIS - AUSÊNCIA DE INDICAÇÃO DAS PESSOAS A SEREM PROTEGIDAS PELA MEDIDA, COM MÍNIMOS DETALHES DE SUAS RESPECTIVAS SITUAÇÕES NO CONTEXTO DA ÁREA OCUPADA, "INCLUSIVE PARA QUE SE POSSA DECIDIR, PREAMBULARMENTE, SOBRE A OCORRÊNCIA DE SITUAÇÃO HOMOGÊNEA - VEDAÇÃO AO JUDICIÁRIO EM IMPEDIR QUE HAJA DESOCUPAÇÃO FORÇADA, AINDA MAIS EM SEDE DE LIMINAR E SEM DEMONSTRAÇÃO SEGURA DE QUE A PERMANÊNCIA NO LOCAL SEJA VIÁVEL E SEGURA - SITUAÇÃO DE RISCO, COMPETINDO À ADMINISTRAÇÃO A ADOÇÃO DE MEDIDAS NECESSÁRIAS - "FAVELA DO TANQUE" QUE INVADIU NÃO SÓ A ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE, MAS O PRÓPRIO LEITO DO CÓRREGO QUE PASSA PELO LOCAL - RECURSO PROVIDO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO (SÃO PAULO. Tribunal de Justiça. Câmara Especial de Meio-Ambiente, Agravo de Instrumento 7970255000. Relator: Desembargador. Samuel Júnior, DJ, 29 jan. )

234 Ação Civil Pública - Defensoria Pública Favela - Área considerada de risco Ação de reintegração de

posse em face dos moradores desta Favela Ação Civil Pública interposta visando-se à regularização fundiária e urbanística da área em que se insere a Favela Parque Europa II com a manutenção das famílias nela residentes Invocação do Estatuto da Cidade e dos arts. 182 e 183 da Constituição Federal

Pedido de reconhecimento do direito à concessão especial de uso individual ou coletivo (MP nº 2.220/01) Sentença de improcedência Recurso da Defensoria Desprovimento de rigor. Concessão especial de uso - Impossibilidade - Função social da propriedade que tem o sentido de direito coletivo relacionado com a uma melhor resolução da vida na cidade A retirada de moradores de áreas de risco é dever do Município - Tutela de interesse das próprias famílias que estão sendo removidas Área que não encerra possibilidade de regularização. R. Sentença mantida. Recurso desprovido (SÃO PAULO. Tribunal de Justiça. Sexta Câmara de Direito Público. Apelação Cível nº 0126924-19.2008.8.26.0053. Relator: Desembargador Sidney Romano dos Reis, julgado em 21 de outubro de 2013. Disponível em: <http://www.tjsp.jus.br).