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A amostra de inventários dos 20% mais ricos é formada por 202 documentos, que registram 243 ocupações. Dos 41 inventariados que apresentam mais de uma ocupação, são numerosos os casos de produtores rurais que também auferiam rendimentos como proprietários e investidores (19), bem como de produtores rurais atuando como industriais (6), de industriais como comerciantes (7) e de industriais como proprietários e investidores (3). Por esses resultados, nota-se o grupo de agroexportadores atuando em atividades dos setores financeiro e industrial da economia. A mesma tendência pode ser percebida nas combinações de atividades comerciais, industriais e de investimentos.

A Tabela 6.1 demonstra a importância da administração de propriedades, investimentos financeiros e da produção rural como ocupações mais presentes entre os inventariados da elite – ambas somando 160 de 243 ocorrências. Os demais grupos têm sua importância relativamente menor. Na Tabela 6.2, por sua vez, observam-se os resultados da distribuição das ocupações da elite em cada período.

Tabela 6.2 – Ocupações entre os 20% mais ricos, Campinas, 1870-1940, em número e %

1870-1890 1895-1915 1920-1940 Totais No. % No. % No. % No. Produtor rural 23 47,9 23 37,1 33 24,8 79 Proprietário e investidor 12 25,0 23 37,1 46 34,6 81 Comerciante 5 10,4 9 14,5 29 21,8 43 2727 Industrial, artesão, prestador serviços 6 12,5 6 9,7 15 11,3 27 Ocupações diversas 2 4,2 1 1,6 9 6,8 12 Sem declaração e identificação 0 0,0 0 0,0 1 0,7 1 Totais 48 100,0 62 100,0 133 100,0 243

Fonte: inventários TJSP–Campinas. Nota: Ocupações diversas: médico, construtor, militar, servidor público e parteira.

Os percentuais de produtores rurais mostram tendência de queda, com 47,9% em 1870-1890, 37,1% no período seguinte e com menos de 25% do total em 1920-1940. Dos 23 produtores do período inicial, 11 são cafeicultores, 10 apresentam cafezais combinados com lavouras de milho, feijão, arroz, batata, cana-de-açúcar e algodão e em 2 casos não foi possível identificar as lavouras. Dos 23 produtores do período 1895-1915, 14 cultivaram exclusivamente café, 7 diversificaram as propriedades com lavouras de café combinadas e em 2 casos não foi possível identificar as lavouras. Dos 33 agricultores do período 1920-1940, 12

são cafeicultores, 14 são cafeicultores e lavradores de demais gêneros e 7 roças não foram declaradas. Tais resultados reforçam o perfil agroexportador da elite, mas apontam também para o interesse em lavouras de alimentos, que podiam ser menos lucrativas que o café, mas que atendiam mercados locais também expressivos e dinâmicos. A preocupação com a diversificação de culturas e o atendimento do mercado interno não foram pontuais e podem ser observadas em inventários anteriores aos do apogeu cafeeiro. O aumento populacional advindo da inserção de imigrantes no mercado de trabalho, após 1886, ampliou significativamente o interesse nas lavouras de abastecimento alimentar durante o período final deste estudo.

Os percentuais do grupo de proprietários e investidores crescem de 25% no primeiro período para 37,1% entre 1895-1915, com um pequeno declínio para 34,6% em 1920-1940.

Os resultados do grupo de comerciantes acompanham a tendência geral de crescimento dessa ocupação. Os inventários com essa atividade partem de 10,4% do total no período 1870-1890, alcançam 12,5% no período seguinte e somam 21,8% em 1920-1940. Dos 5 casos iniciais, 1 é atacadista de alimentos (secos e molhados), 1 farmacêutico ou boticário e em 3 não foi possível especificar os ramos. Observa-se, no período 1895-1915, maior variedade da atividade comercial. Dos 9 registros, 3 são da área de alimentos e bebidas (secos e molhados, atacado de vinhos e carnes, víveres e ovos) 1 de botica ou farmácia, 1 de vestimentas e tecidos, 2 de utensílios domésticos e móveis, além de 2 estabelecimentos comerciais sem declaração e identificação. Dos 29 casos de 1920-1940, 20 são da área de alimentos e bebidas (16 varejistas e 2 atacadistas de secos e molhados, além de 2 atacadistas de café e açúcar), 3 de tecidos e vestimentas, 2 de farmácias ou boticas, 2 de móveis e utensílios domésticos, 1 de madeira e em 1 não existe especificação da atividade.

Os industriais, artesãos e prestadores de serviços apresentam uma participação estável ao longo do tempo. Esse grupo atingiu 12,5% do total em 1870-1890, caindo para 9,7% no período seguinte mas subindo novamente para 11,3% do total em 1920-1940. Dos 6 registros de 1870-1890, 4 são manufaturas da área de construção civil (olarias e carpintarias), 1 da área de alimentos e bebidas e 1 prestador de serviços de hospedagem. Dos 6 casos de 1895-1915, há 1 manufatura de bebidas, 1 de metal e mecânica, 2 manufaturas diversas (selas

e chapéus), 1 prestador de serviços de alimentação e hospedagem e 1 empreendedor industrial e comercial. Dos 15 inventariados de 1920-1940, 5 são manufaturas de alimentos e bebidas (torrefação de café, refinaria de açúcar, fábrica de bebidas e padarias), 4 da construção civil (2 olarias e 2 serralherias), 2 de metal e mecânica (montagem de equipamentos agrícolas), 1 manufatura diversa (colas, adubos e tecidos de algodão), além de 1 prestador de serviços de vestimentas, 1 de telefonia e 1 de serviços funerários.

O grupo de ocupações diversas apresenta tendência irregular, iniciando com 4,2% em 1870-1890, atingindo 1,6% no período seguinte e chegando em 1920- 1940 com 6,8%. Os 2 casos do período inicial são de médico e servidor público. Apenas 1 militar representa o grupo no período 1895-1915. Dos 9 casos do período 1920-1940, 4 são médicos, 2 engenheiros ou construtores, além de 1 registro cada um de servidor público, militar e parteira.

O estrato superior da elite, os 5% mais ricos, reafirma a ascendência de produtores rurais e de proprietários e investidores, com 55 de 72 casos. Os 54 inventários listam 72 ocupações e, dos 18 registros de inventariados identificados com ocupações secundárias, são mais numerosos os produtores rurais que recebiam rendimentos também como proprietários e investidores (12), os produtores rurais como industriais (3) e os industriais como comerciantes (3). Os valores da amostra confirmam as mesmas tendências de diversificação das oportunidades econômicas, observadas entre os 20% mais ricos, conforme a Tabela 6.3.

Tabela 6.3 – Ocupações entre os 5% mais ricos, Campinas, 1870-1940, em número e %

1870-1890 1895-1915 1920-1940 Totais No. % No. % No. % No. Produtor rural 9 56,3 10 47,6 14 40,0 33 Proprietário e investidor 5 31,3 6 28,6 11 31,4 22 Comerciante 2 12,5 4 19,0 0 0,0 6 Industrial, artesão, prestador serviços 0 0,0 1 4,8 7 20,0 8 Ocupações diversas 0 0,0 0 0,0 3 8,6 3 Totais 16 100,0 21 100,0 35 100,0 72

Fonte: inventários TJSP–Campinas. Nota: Ocupações diversas: médico, construtor e militar.

A superioridade da posição dos produtores rurais é demonstrada pelos 56,3% em 1870-1890, 47,6% entre 1895-1915 e 40% em 1920-1940. Dos 9 casos iniciais, 5 são cafeicultores e 4 produziam café combinado com lavouras de milho, arroz, feijão, cana-de-açúcar e algodão. Dos 10 registros de 1895-1915, 7

são cafeicultores, 2 lavradores de café e de lavouras da base alimentar citada e 1 não declarou o tipo da roça. Dos 14 casos de 1920-1940, 6 são cafeicultores, 6 lavradores de café com outras lavouras e em 2 não foi possível identificar as lavouras. Por esses casos é possível dizer que mesmo durante as maiores crises da economia cafeeira, a produção rural não deixou de ser a principal ocupação entre os mais ricos.

Os percentuais do grupo de proprietários e investidores revelam tendência estável em torno de 30% dos totais de cada período.

A trajetória do grupo de comerciantes é diferente da observada entre os 20% mais ricos. Os percentuais sobem de 12,5% no período 1870-1890 para 19% em 1895-1915 e caem a zero entre 1920-1940, sugerindo que essa ocupação não mais interessou aos mais ricos. Os 2 casos iniciais são de comércio atacadista de alimentos e bebidas e de medicamentos. Dos 4 inventários do período intermediário, 2 são da área de alimentos e bebidas, 1 de medicamentos e 1 de móveis e utensílios domésticos.

O grupo de industriais, artesãos e prestadores de serviços aparece apenas no período 1895-1915, com apenas 1 empresário dos ramos de transportes, abastecimento, energia, comunicação e crédito financeiro (Bento Quirino dos Santos, já citado). O grupo atinge 20% do total em 1920-1940. Dos 7 inventariados, 2 possuíam manufaturas da área de construção civil, 2 de metal e mecânica, 1 de colas, adubos e tecidos de algodão, além de 1 prestador de serviços de telefonia e 1 de vestimentas.

Resumidamente, além da maior proporção de produtores de café e de proprietários e investidores entre os mais ricos, os dados indicam uma queda do número de comerciantes e o aumento de industriais, artesãos e prestadores de serviços. Em outras palavras, as participações comparadas desses dois grupos revelam que as riquezas desse último grupo superaram as de comerciantes em 1920-1940, momento de impulso da economia industrial no Oeste paulista.