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2.3 80’Lİ YILLAR VE YERLEŞİKLEŞEN TÜKETİM KÜLTÜRÜ

1.1. Um autor entre a Amazônia e o mundo

No ano de 1946, na cidade de Manaus, nasce Márcio Gonçalves Bentes de Souza. Por ser filho de um linotipitista, desde cedo foi acostumado com as letras e os livros. Aos 13 anos começou a trabalhar como crítico de cinema no jornal O trabalhista. O cinema foi a sua primeira grande paixão. Aos 15 anos colaborava na fundação do Grupo de Estudos Cinematográficos de Manaus. Em 1963, muda-se para São Paulo. Em 1966, ingressa no curso de Ciências Sociais da USP, de onde sai em 1969 sem o diploma de graduação, eram tempos difíceis, “mais pra urubu do que pra colibri” (Souza, M., 1982a: 3). Mesmo longe de sua terra natal, aprofunda-se no conhecimento da história da Amazônia brasileira. Por esses anos já começava a esboçar o perfil do que uma década depois seria o seu livro de maior sucesso: Galvez, imperador do Acre.

Em 1967, aos 21 anos, dono de uma razoável cultura fílmica e livresca para a sua idade, publica a sua primeira obra: O mostrador das sombras. São ensaios sobre o cinema nacional e internacional. Ali se esboçava o intelectual voltado para os problemas culturais de seu país e sua região. Analisa as conseqüências da era desenvolvimentista, o Cinema Novo, o cinema regional etc. Coloca-se contra a massificação (20), ou a industrialização da sétima arte como portadora de uma ideologia de domínio (25). Cita com desenvoltura Morin, Lukács, Sartre, sente-se veladamente a presença de um Adorno. Não disfarça a sua admiração pelo cinema antiburguês de Buñuel (68). Fellini e Bergman são odiados e amados nas suas concepções metafísicas de uma sociedade já decadente (85, 91). Traça também, especificamente, um painel do precário cinema amazônico, estabelecendo objetivos de luta e esclarecimento de um universo subdesenvolvido, clamando por uma estética de ação transformadora (149). Nesse livro, pressente-se um jovem Márcio Souza inteiramente mergulhado no seu tempo, profundamente influenciado pelo meio universitário que começava a freqüentar, onde o intelectual tomava a condução de causas essenciais, lutando pela liberdade e emancipação das classes exploradas. Por isso é tão forte de sua parte o apego a uma capacidade própria de orientação e concepção estética. Aqui, o ensaísta desperdiça e exagera o seu talento, limita e ultrapassa os apelos de uma época eivada de referências, conciliando um marxismo urgente a uma sensibilidade de rara sofisticação moldada nas salas de cinema de Manaus e São Paulo; num primeiro momento, buscando a plenitude na palavra exata e que leve, mais adiante, a ação mais contundente.

Começa a trabalhar para o cinema ainda em São Paulo, por volta de 1968, como roteirista, assistente de direção ou produtor de filmes publicitários. Anos depois, achando que “São Paulo não era loucura suficiente” tentou Nova York (1982a:3). Ainda em 1968, já um pouco desiludido com o cinema, começava a ter contato, em Manaus, com outros jovens no Teatro Experimental do SESC (TESC). Foi uma experiência decisiva para a sua formação e conhecimento da realidade regional. Em 1972, dirigiria ainda dois longas-metragens: O rio de sangue e A selva, este último baseado no romance de Ferreira de Castro. A partir de 1973, começa a se dedicar à arte dramática, quase exclusivamente, voltando a morar na sua terra natal.

Com o teatro, envolve-se principalmente com a autoria das peças do grupo. Recentemente, essa aventura dramatúrgica, que durou bem uns doze anos, foi republicada, na sua maior parte, pela editora Marco Zero (da qual ele é um dos sócios), em três volumes. No primeiro volume, estão as peças que tratam das culturas indígenas do alto rio Negro. O segundo trará textos onde a presença do branco na Amazônia desde o século XIX é colocada em relevo. No terceiro, estão as peças de caráter político, onde o aspecto regional não aparece necessariamente. Nessa década que passou com o grupo TESC, Márcio Souza desenvolverá uma técnica de pesquisa histórica muito valiosa para a construção de seus romances. Os recursos dramatúrgicos também lhe proporcionarão um amplo campo de debates, dentro e fora do palco. O teatro se torna um veículo propagandístico por excelência para a divulgação de uma cultura regional, até então marginalizada pelos próprios moradores de Manaus. Ao contrário da expectativa geral, o grupo evitou o aspecto exótico e folclórico (Souza, M., 1982b: 89), fazendo disto o ponto de partida para suas produções.

Em “A paixão de Ajuricaba”, peça construída na forma de tragédia grega, utilizando propositadamente um didatismo histórico, conta o confronto do famoso líder manau contra os invasores portugueses no século XVIII, centrando-se no sacrifício de sua amada Nhambu que se recusa a tornar-se amante de um comandante inimigo. Como um grande herói da resistência nativa da região, Ajuricaba é a personagem, vista aqui, que retarda a expansão colonialista e resgata o olhar do índio sobre o invasor. Mesmo utilizando uma monumentalidade épica e sem refazer a linguagem coloquial indígena, o que, segundo Jefferson Del Rios, resultaria numa “duvidosa ficção antropológica” (10- 1), o autor alcança um razoável efeito nos seus objetivos iniciais. O final da peça inverte propositalmente a leitura dos manuais de história amazônica, não mais mostrando Ajuricaba como mártir suicida, mas sendo jogado covardemente às águas pelos soldados portugueses. Essa liberdade de criação marcará também toda a produção de ficção histórica de Márcio Souza.

Na peça “Dessana, Dessana”, escrita em parceria com Aldisio Filgueiras (companheiro do grupo TESC), temos o mito do início do universo sob a ótica indígena, numa clara alusão bíblica. A grande inversão parece estar que para o índio “o mundo é criado a todo instante e toda hora, desde o começo e antes do começo” (Souza, M., 1997a,

I:51). “Jurupari, a guerra dos sexos” cria uma atmosfera de confronto entre o patriarcado e o matriarcado e também demonstra como os indígenas possam ter resolvido parcialmente a questão. O amor, nessa peça, representa, até um certo ponto, a derrota do matriarcado, sem que o patriarcado possa prescindir da importância da mulher na sua funcionalidade. Segundo Del Rios, o caráter de libreto é reforçado pelas minuciosas indicações cenográficas e de figurinos, fugindo de uma reprodução etnográfica realista, tal qual como em “Ajuricaba”, pois o que importa é a representação de um elaborado universo simbólico dos povos indígenas amazônicos (12). Esse poder de inventividade vai dando ao mundo teatral souziano um caráter eminentemente receptivo aos vários tipos de público que o projeto do Teatro Experimental tentava alcançar, tanto nas várias cidades amazonenses como em algumas viagens pelo Brasil.

Em “A maravilhosa aventura do sapo Tarô-Bequê”, Márcio Souza vai buscar, na área cultural norte-amazônica indígena de seu Estado, a motivação de uma peça moral para as crianças. O sapo Tarô-Bequê é um príncipe às avessas, que deseja ser gente para conquistar a mulher amada. Esse desejo sentencia a própria condição humana, que existe para querer o que não tem. Cessando os objetivos, Tarô-Bequê volta a ser sapo. Para Del Rios, “a comédia rompe com o monopolitismo das lendas sombrias. O índio ri além dos postais e dos ensaios fotográficos” (12). Na peça, surpreende-nos um excessivo jogo de palavras, onde o que interessa é a fotografia mágica do novo universo a se construir e onde as crianças procurem se encantar pelo simples prazer de ouvir: “Eu sou sapo e sou gente e fui tudo isto sendo” (Souza, M., 1997a,I: 156). Ou: “Não me falta nada, meu paizinho, mas me falta tudo” (157). Ou ainda: “É que eu sou o que não quero ser”

(157). A cultura indígena do alto rio Negro passa a ser digerida facilmente num colorido

enfeite de antíteses. Na peça, “Contatos amazônicos de terceiro grau”, a natureza verdejante e a cultura nativas vêem chegar o seu fim ao som de um gravador, encontrado ao acaso por um casal de índios, onde se toca o réquiem de Mozart acompanhado dos som dos tratores que derrubam a mata. Dois universos ali se encontram e, sintomaticamente, é a última peça do ciclo indígena. A indagação final “aquele que faz uma música bonita como esta, será capaz de matar...?” (I: 207) está necessariamente registrando, tal qual a imagem sugerida do gravador, o choque

inevitável. O tom profético da peça não limita, no entanto, a idéia de resistência de uma cultura.

No segundo volume da série, com as peças voltadas para a presença do branco na Amazônia, em três períodos específicos, começamos a ter um Márcio Souza compromissado com as questões históricas e os perigosos, e intricados, caminhos da evolução política e econômica da sua região. Em “O pequeno teatro da felicidade”, a ação se passa em 1836, numa Manaus sob o domínio dos cabanos. A cabanagem, que representou a revolta de caboclos e mestiços em geral contra a exploração e discriminação, aqui é apresentada sob o signo da ambigüidade. Não há causa, por mais “justa”, que signifique ausência de opressão. A peça funciona obviamente como um paralelo da vida política brasileira dos anos 70 (Del Rios:14). De fato, uma das cenas de estupro e assassinato de uma jovem é reutilizada no romance A condolência, ambientado, porém, nos estertores da ditadura militar, explorando diretamente a corrupção e a degenerescência daquele período.

Em “As folias do látex” e “Tem piranha no pirarucu”, Márcio Souza trabalha questões bastante delicadas para a sociedade local e que trarão empecilhos nada agradáveis para o seu grupo teatral. Como conseqüência, resultará no próprio fim da atividade do TESC por volta de 1981. A primeira peça traz o registro irônico e debochado do período áureo do extrativismo da borracha em forma de um vaudeville, enfatizando o conflito de interesses multinacionais, a exploração de trabalho do seringueiro e a bancarrota com a concorrência asiática. Fica de tudo isso um profundo mal-estar pelo Brasil, mais uma vez, ter perdido o seu lugar na história. As músicas vão ilustrando o ridículo de uma época em que se podia tudo, sintetizando um período de desperdícios e abusos onde o destino para toda uma comunidade não seria menos heróico. Na outra peça, parece termos chegado à triste conseqüência final da malbaratada aventura gomífera, quando a Zona Franca, pólo industrial para a produção muambeira manauara, com as bênçãos institucionais, parece ter a missão de recuperar o orgulho regional. Com esse texto dramático, o autor chega ao auge de sua veia corrosiva e sem precedentes na suas incursões teatrais. Certas figuras da sociedade de Manaus são “folclorizadas” num claro processo dialógico e radical. Ao mesmo tempo, perpassa a consciência de um momento presente que acenava com mais uma ilusão em

anos de colonialismo cultural. O duplo sentido é a regra do aparatoso bufo e sustentador satírico de toda uma situação delirante:

Condessa de Navico – (...) Chegamos à zona depois de um passado de migalhas e mentiras. Se tudo parecia correr bem em 1910, uma década depois era a miséria. A Paris dos trópicos virava Port au Prince.

Dr. Pedreira – A Zona Franca é o novo Ciclo da Borra- cha. Temos de fechar os olhos para o holocausto e go- zar enquanto é tempo. (...)

(...)

Musa Amazônica – SAIGON (URGENTE) AS PRI- MEIRAS SEMENTES DE ZONA FRANCA FORAM ROUBADAS PELOS AMERICANOS DE MANAUS ACABAM DE GERMINAR NO JARDIM BOTÂ- NICO DE WESTMORELAND VG OS CIENTISTAS ACREDITAM PRODUZIR RACIONALMENTE ZO- NAS FRANCAS DENTRO DE DEZ ANOS... (...) (II:

172, 174)

O terceiro volume contém as peças voltadas para dois momentos específicos da política brasileira no século XX. O auge do populismo nos anos 50 é o tema de “A resistível ascensão do Boto Tucuxi”. Ali, o surgimento, a carreira e a decadência de um conhecido político local são mostrados despudoradamente. Esta peça, mais adiante, em 1982, será transformada, com o mesmo título, num dos seus melhores romances, graças também à sugestão das próprias técnicas teatrais utilizadas, tornando a narrativa mais enxuta e deslizante, contudo criando uma nova forma de expressão. As outras duas peças, “O elogio da preguiça” e “Ação entre amigos”, reportam-se à agonia do período militar. A ação da primeira inspirará um monólogo interior, bastante longo, do seu romance Operação silêncio, quando, alegoricamente, Márcio Souza reúne quatro classes sociais que viviam a paranóia dos anos 70: um general linha dura, uma madame rica e frustrada, uma empregada doméstica alienada e um ex-guerrilheiro. No exíguo espaço da sala da madame, começa uma espécie de exorcismos de fantasmas das personagens que acabam confrontando suas impotências. “Ação entre amigos” utiliza elementos detetivescos para o desmascaramento não do assassino propriamente dito, mas para a incriminação de todos que participaram, de uma maneira ou de outra, da loucura dos anos de chumbo. A limitação de lidar com os novos fatos (a redemocratização do país) leva ao desconforto de criar as suas próprias realidades.

Algumas dessas indagações serão reutilizadas nos seus romances A ordem do dia e A

condolência.

No ano de 1976, sai o romance-folhetim Galvez, imperador do Acre, que tornaria Márcio Souza conhecido em todo Brasil e daria a ele, com o passar dos anos, uma repercussão internacional. Escrito e pesquisado durante a sua intensa atividade teatral (aproximadamente mais de dez anos), Galvez é uma grande sinfonia das várias vozes que ocuparam a Amazônia no século XIX. Diálogo entre o possível e o imaginário, onde a história pede para ser recontada. Publicado, inicialmente, pela Fundação Cultural do Amazonas, o romance por pouco não foi proibido, e só não o foi porque constava da agenda de eventos do governador na época.

Em 1978, Márcio Souza publicará o seu ajuste de contas com a literatura de seu Estado natal: A expressão amazonense. É quase a descrição de uma tragédia regional, de impasses criados ao longo de três séculos de colonialismo e delírios. O impacto é bem diferente da publicação de Galvez, pois segundo Antonio Dimas “a sisudez de O

mostrador atenua-se com o tempo, disfarça-se na galhofa do primeiro romance e das

primeiras peças teatrais, para reaparecer em A expressão” (103).

Operação silêncio, romance publicado em 1979, conta a trajetória, em São Paulo, de

um cineasta brasileiro na década de 70. A personagem se vê em pleno olho do furacão, no meio de um tiroteio verbal e ideológico, tentando reestruturar-se nos estilhaços de um momento apocalíptico para o país. Romance que utiliza vários níveis de linguagem, acabou não sendo bem recebido pela crítica e pelo público da época, que esperavam dele mais uma narrativa cheia de humor (Dimas: 104). Em 1980, sairá o romance histórico Mad Maria. Resultado também de alguns anos de pesquisa, o livro conta as relações entre a construção da via-férrea Madeira-Mamoré, responsável pela morte de milhares de operários, e a política do nosso governo na belle-époque carioca, por volta de 1910. Escrito numa forma mais linear, dentro de dois núcleos básicos de ação, o romance mostra um autor de volta às questões regionais, ao mesmo tempo que procura ganhar um público leitor cada vez maior.

Em 1983, surge outro romance-folhetim, A ordem do dia. Temos um Márcio Souza reafirmando o humor e o deboche como principais marcas de sua obra, onde a presença de extraterrestres explicaria as confusões da política brasileira sob a tutela dos militares.

Acontecimentos se sobrepõem a acontecimentos num processo sempre envolvente, em que a narrativa fica dividida entre uma fala oficial (epistolografia das ordens do dia) e a voz satírica do narrador, carnavalizando as rígidas convenções políticas e militares da época. No fundo, toda a trama funciona como uma dessacralização da própria forma novelesca como a do então agonizante regime (estamos nos anos 80, em pleno governo João Figueiredo). As várias vozes são conduzidas e interligadas à própria mirabolância do enredo, onde Parintins, Manaus e Brasília se reúnem num deslizar metonímico de uma dada situação e também de um país perdido nos seus dramas individuais e coletivos.

Em 1984, com O palco verde, Márcio Souza mergulha nas suas memórias como membro do grupo TESC. O livro conta a grande aventura teatral por todo o Estado do Amazonas e, também, pelo Brasil, mostrando a repercussão, o auge e o desmembramento do projeto, por mais de doze anos de intensa atividade. Nesse mesmo ano sai o romance A condolência. O acerto de contas agora se dá com o fim do período militar, o confronto de forças entre os que querem a continuação da ditadura e a inevitável redemocratização do país. Seguindo uma linha de conteúdo parecida com A

ordem do dia, a narrativa se mantém em torno de várias peripécias, porém, instaura um

processo de construção muito mais linear e sem a mesma verve humorista. Aqui como lá, a sua estratégia de articulação novelesca se estrutura em constantes mudanças de cenários (bem teatral, aliás): Rio, Paris, Porto Velho, Belém, favelas, ruas, prédios etc., todos os locais e todas as loucuras de uma época se juntam para o desenho de um outro complexo painel da vida política de nosso país para aqueles anos de transição.

No ano de 1986, vem a público o romance O brasileiro voador, uma biografia livre sobre Santos Dumont. O livro surge inicialmente como argumento de um filme que acabou não se realizando. Aqui, a forma de construção narrativa se aproxima bastante da de Galvez, com muitas referências intertextuais, buscando o máximo de agilidade e limitando bastante as descrições, porém sem a complicação de narradores que fôra utilizado naquele. Aproveitando-se de vários depoimentos, de pessoas que conviveram com o nosso pai da aviação, Márcio Souza delineia um retrato pouco convencional para um herói da pátria.

O empate contra Chico Mendes sai publicado em 1990. Articula-se a volta do

intelectual nativo ao seu ambiente, depois de alguns anos, obrigado a repensar a Amazônia no cenário internacional, buscando superar a imagem pré-estabelecida de “ecologista bonzinho” do líder acreano. Ainda nesse ano, e praticamente fechando um livre ciclo de criação de romances, ele publica O fim do Terceiro Mundo. A questão amazônica é colocada de forma radical, reunindo as indagações de séculos e rejeitando todas as simplificações e solidariedades, explorando ainda as peripécias e o fantástico como mote para o desenrolar narrativo. Em 1994, sai publicado o livro de contos A

caligrafia de Deus. O grande cenário é Manaus, a cidade odiada, depauperada,

explorada, universo onde transitará todas as personagens, que se encontram sempre ao acaso, sem nada a ver aparentemente umas com as outras. A periferia da grande cidade e seus habitantes, o garimpeiro, os estrangeiros, os índios aculturados, a ecologista em crise, a fábrica poluente e seus donos e operários, todos se reúnem num esforço de traduzir a angústia de um ambiente, o sufoco de buscar a sua própria expressão em torno das várias máscaras que aquele universo urbano impõe com as sobras da vida selvática..

Nos anos 90, porém, Márcio Souza se envolve com a direção de dois órgãos federais ligados à cultura. Primeiro, dirige o Departamento Nacional de Livro e, nos últimos anos, tem sido o presidente da Funarte (Fundação Nacional da Arte). Em ambos, procurou implementar uma mentalidade de autogestão e capacitação de recursos próprios para promover a divulgação de livros e autores como das mais diversas manifestações artísticas. Com isso, o seu tempo para escrever ficou bastante reduzido. Mesmo assim, publicou, ainda, em 1997, o primeiro romance da tetralogia “Crônicas do Grão-Pará e rio Negro”, chamado Lealdade. Não temos mais as personagens se envolvendo em mil peripécias ou o conhecido humor corrosivo. O que interessa é o resgate histórico por meio de um projeto linear de acontecimentos fundamentais que ficaram à margem de uma visão geral. Prometeu-nos trabalhar nas férias e publicar as outras três seqüências nos anos seguintes, o que ainda, até agora, infelizmente, não ocorreu. A tetralogia tentará dar conta de um período histórico bastante complexo na Amazônia e pouco divulgado, passado entre fins do século XVIII e por boa parte do XIX, procurando compreender o reflexo da Independência no extremo norte do Brasil,

de como o então novo Império procurou esmagar todas as lideranças políticas da região, inclusive os que eram a favor da própria Independência. Narrado em primeira pessoa,

Lealdade é um teste de memória, de um país que se define na própria indefinição e os

fatos históricos refletem a ambigüidade da condição de brasilidade dos paraenses da época.

No ano 2000, sai, pela Fundação Nacional de Cultura, para os “Cadernos do Nosso Tempo”, Fascínio e repulsa: Estado, cultura e sociedade no Brasil. Num texto razoavelmente curto, Márcio Souza traça alguns dos principais pontos do seu