A. ORGANİZE SANAYİ BÖLGELERİNİN KURULUŞ AMAÇLARI VE GELİŞİMİ
2. OSB’LERİN GELİŞİMİ
Conforme apontado anteriormente, durante a década de 1950, houve uma atenção especial que se voltou às pesquisas sobre japoneses no Brasil, em concordância com estudos no Japão que tratavam da inserção de seus emigrantes na sociedade brasileira. Isso se mostrou presente tanto através dos estudos realizados por Hiroshi Saito como por meio de pesquisas empreendidas pelo sociólogo japonês Seiichi Izumi, que veio ao Brasil com o apoio da UNESCO. Tais pesquisas estavam inseridas no contexto que se segue à Segunda Guerra Mundial, quando agências internacionais tinham o intuito de identificar e evitar conflitos raciais e étnicos, como havia acontecido durante a guerra, e um dos locais “de risco” seria dentro de comunidades imigrantes, como a japonesa no Brasil.
Além disso, no contexto da Guerra Fria, tinha-se o objetivo não só de impedir novos conflitos raciais no mundo, como conhecê-lo melhor. Um dos motivos para tanto seria a necessidade dos Estados Unidos de controlar a propagação da ideologia comunista em países subdesenvolvidos. Este conhecimento era adquirido, principalmente, pelos chamados area studies, que eram estudos antropológicos, em sua maioria, apoiados pelo governo norte- americano em países do Pacífico, por exemplo, e com o objetivo de conhecer a sociedade alvo dessa política de “controle”, procurando saber as suas principais carências e os melhores investimentos a serem feitos (PRICE, 2016). Em meio à Guerra Fria, a presença americana reforçava o seu poder sobre a região, e o capitalismo tinha mais chances de vingar num local com uma população saudável e apta ao trabalho (PACKARD, 1997). Ou seja, acreditava-se a esta altura que uma sociedade desenvolvida, com empregos e inovações tecnológicas, estaria menos suscetível à ideologia comunista, e para o capitalismo ser inserido naquele local era preciso conhecer a sua cultura, hábitos e etc.; isso tudo deveria ser feito pelas mãos de antropólogos. Sendo assim, havia diversas variáveis que influenciavam as pesquisas internacionais sobre determinadas populações. Contudo, o nosso interesse principal para aqueles estudos financiados pela UNESCO com intuito de investigar as questões raciais.
Com o final da Segunda Guerra Mundial e as consequências do Holocausto, que seria, entre outras coisas, o auge dos conflitos raciais e étnicos conhecidos até então no mundo, cria- se a UNESCO, em novembro de 1945. A organização tinha como objetivo auxiliar na “superação da ignorância, do preconceito e do nacionalismo xenófobo por meio da educação, da cultura e da ciência”. Assim, a organização financiou pesquisas e publicou livros e revistas como parte de sua campanha contra o analfabetismo e o racismo (MAIO & SANTOS, 2010, pp. 149). Em 1950, é divulgada a Primeira Declaração Sobre Raça da UNESCO, que afirmava
que a “raça é menos um fato biológico do que um mito social e, como mito, causou severas perdas de vidas humanas e muito sofrimento em anos recentes” (MAIO & SANTOS, 2010, p. 148).
O conceito de raça como instrumento válido de classificação da espécie humana já estava sendo questionado por Franz Boas desde o final da Primeira Guerra. No entanto, é só com os resultados desastrosos da Segunda Guerra que a discussão passa a ganhar terreno como uma crítica ao determinismo biológico (MAIO, 1999, p. 380). Apesar da mudança de interpretação do que seria o conceito de raça, ainda havia locais de tensões sociais, ditas raciais, como, por exemplo, na África do Sul, com a lei do Apartheid, e nos Estados Unidos, com as leis de segregação (MAIO, 1999, p. 143). Assim, depois dos conflitos raciais da Segunda Guerra, buscaram-se formas de resolver outras situações semelhantes de forma pacífica e, por isso, incentivaram-se pesquisas com o intuito de identificar e entender situações de conflito ao redor do mundo. Em 1949, o Conselho Econômico e Social (Ecosoc), ligado às Organização das Nações Unidas (ONU), propõe um programa de combate à discriminação racial a UNESCO. Entre as propostas, estavam:
1) disponibilizar material relevante ou análises que possam resultar de estudos sobre tensões sociais ou de qualquer outro programa patrocinado pela UNESCO;(...); 3) considerar a conveniência de se iniciar e recomendar a adoção geral de um programa de disseminação de fatos científicos com o propósito de eliminar o que é geralmente conhecido como preconceito racial.
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Entre as atividades colocadas em prática pela UNESCO, tinha-se em vista uma pesquisa sobre relações raciais no Brasil, país visto pela organização, segundo Maio (1999, p. 19), “como o ‘laboratório socioantropológico’ privilegiado para desqualificar a importância conferida aos constructos raciais em nome da promissora experiência de miscigenação e assimilação”. Essa imagem se construía em função da teoria da democracia racial, reforçada a partir da divulgação das obras de Gilberto Freyre (MAIO, 1999, p. 144). Segundo Taniguti (2015, p. 193), nos anos de 1950, essa teoria foi relida sob a chave de que não seriam somente três raças que comporiam a nação brasileira, mas várias outras, que conviviam harmoniosamente — e a presença dos imigrantes japoneses e da sua assimilação à sociedade brasileira seriam provas incontestes desse quadro. Além disso, estas raças não eram determinadas por características biológicas, mas sim culturais (TANIGUTI, 2015, p. 193), reforçando a importância de pesquisas realizadas por Willems, Saito e Izumi, cujo foco era,
94 MAIO, Marcos Chor. O Brasil no concerto das nações: a luta contra o racismo nos primórdios da UNESCO.
em geral, a adaptação cultural destes imigrantes, e não a questão racial que os diferenciava da população brasileira.
As pesquisas no Brasil aconteceram tanto através do chamado Projeto UNESCO como por meio de outras iniciativas promovidas pela Organização, como aquela da qual Izumi fez parte e que será explorada mais adiante. O Projeto UNESCO aconteceu entre os anos de 1951 e 1952 e consistiu em pesquisas cujo intuito era investigar as relações raciais no Brasil para apresentar ao mundo as experiências, vistas como positivas e bem-sucedidas, das interações raciais no nordeste e sudeste brasileiro (MAIO, 1999, p. 141). Entre outras pesquisas, há aquelas que aconteceram em Recife, coordenada por Gilberto Freyre (1900-1987)95; em
Salvador, coordenada por Charles Wagley (1913-1991)96; no Rio de Janeiro, coordenada por
Luíz Costa Pinto (1920-2002); e, em São Paulo, coordenada por Roger Bastide (1898-1974) e Florestan Fernandes (1920-1995). A Bahia era o foco inicial do projeto por conta das pesquisas que já existiam sobre as relações raciais no estado97. Recife teria sido incluído por
conta da influência e importância de Gilberto Freyre naquele momento. O sudeste foi também escolhido principalmente pela preocupação que haveria em entender como os processos de modernização e industrialização impactavam sociedades subdesenvolvidas (MAIO, 1999, p. 150).
Cada pesquisa do Projeto UNESCO teve a sua própria conclusão, mas, no geral, a quantidade de mestiços teria chamado a atenção dos pesquisadores, especialmente em Salvador, onde a miscigenação havia levado a uma falta de preocupação com a identidade racial das pessoas. O que prevaleceria seria um preconceito social sobre o racial, isto é, apesar de haver casamentos inter-raciais, por exemplo, estes seriam mais raros entre pessoas que ocupavam os extremos das posições sociais no país. Ainda, quanto mais elevada a posição de um indivíduo na escala social, tão mais evidente se tornava o preconceito racial (MAIO, 2001). De acordo com Maio (2001, p. 133), sobretudo na região sudeste, concluiu-se que “as dificuldades experimentadas pelos negros eram atribuídas não a sua cor, mas a sua posição na hierarquia social”. Outra conclusão do Projeto foi que no Brasil as classificações raciais eram definidas não só por características físicas, mas também atributos como classe social, educação e status (MAIO, 2001, p. 134).
95 A pesquisa em Recife contou com a participação do antropólogo René Ribeiro (1914-1990). 96 A pesquisa em Salvador contou com a participação do antropólogo Thales de Azevedo (1904-1995).
97 Entre estas pesquisas, podemos citar The city of women, de Ruth Landes (1947); “The negro family in Bahia,
Brazil”, de Franklin Frazier (1942); Negroes in Brazil, de Donald Pierson (1942); e “The negro in Bahia, Brazil: a problem in method”, de Melville Herskovits (1943). (MAIO, 1999).
Além do Projeto UNESCO, a organização intergovernamental incentivou e patrocinou também outras pesquisas para entender os conflitos étnicos que haviam sido registrados no país, e é nesta chave que temos a primeira pesquisa de Seiichi Izumi no Brasil. Esta pesquisa não era pontual, mas sim parte de um programa mais amplo da UNESCO, que, como dito, buscava sugestões e soluções para evitar que conflitos étnico-raciais, como o da Segunda Guerra Mundial, se repetissem. No entanto, as pesquisas não tratariam apenas das experiências bem-sucedidas de assimilação e relações raciais, mas também daquelas que tiveram efeitos negativos para as pessoas envolvidas.
Diante dos resultados do fim da Segunda Guerra, entre os imigrantes japoneses no Brasil foi criada a Shindô-Renmei, que tinha o objetivo de convencer seus compatriotas de que o Japão havia ganhado a guerra, efetuando ações extremistas (foram mais de 40 ataques e alguns assassinatos) contra aqueles que afirmavam o contrário. A primeira pesquisa de Izumi no país tinha por objetivo investigar como se deram os conflitos, as suas causas, as consequências e como diminuir os seus efeitos para comunidade japonesa no Brasil (KINGSBERG, 2014, p.78). Assim, as pesquisas de Izumi no Brasil, as de Saito, posteriormente, e as de outros estudos japoneses no país estavam em concordância com as preocupações da UNESCO e das Ciências Sociais na década de 1950..