Fonte:Instituto Socioambiental (2005)
O município de São Gabriel da Cachoeira situa-se a noroeste do estado do Amazonas, na região da Amazônia brasileira. Por fazer fronteira com a Colômbia e a Venezuela, foi
Nessa região, além da vasta área florestal, existem muitos rios que formam imensas bacias hidrográficas. Há duas estações durante todo o ano: a da seca e a das chuvas, o que gera uma mudança nos hábitos de sua população. Para compreender melhor o fenômeno estudado, (o convênio entre a FOIRN e a FUNASA) foi necessário fazer um breve relato de seus povos indígenas, como eles vivem, quais são seus hábitos, suas etnias, e entender um pouco de sua cultura, pois só podemos avaliar um convênio de gestão de saúde dessa natureza se for possível compreender as necessidades que ele deveria ter suprido; sem conhecer a população alvo da assistência, isso não seria possível. Sendo assim, o próximo item é sobre os povos indígenas do alto rio Negro.
2.1. POVOS INDÍGENAS DO BRASIL E SUA DEMOGRAFIA
A importância da descrição da demografia neste estudo reside no fato de a população viver em uma área tão grande e de uma maneira tão dispersa, fazendo com que o acesso aos serviços de saúde seja dificultado e que as estratégias para a realização da assistência a saúde sejam distintas de outras regiões do país.
A demografia indígena no Brasil é estudada, em sua maioria, por antropólogos sem formação específica na área. A situação demográfica dos povos indígenas no Brasil na atualidade relaciona-se estreitamente com os amplos impactos causados pela interação com a sociedade nacional, cuja profundidade temporal estende-se até a chegada dos portugueses no século XVI. Se na atualidade a população indígena constituía-se por volta de 700 mil habitantes, dependendo da fonte, o contingente populacional indígena total que vivia na região atualmente compreendida pelo território brasileiro talvez chegasse a seis milhões ou mais em 1500 (Cunha, 1992:14). Epidemias de doenças infecciosas, massacres e trabalho escravo foram os principais fatores para a redução dessas populações.
Estatísticas vitais, tais como coeficiente de mortalidade infantil, esperança de vida ao nascer e taxas brutas de natalidade e mortalidade, essenciais para monitorar o perfil de saúde/doença e planejar ações de saúde e educação, não estão disponíveis para a ampla maioria dos grupos. Neste sentido, Coimbra Jr. e Santos (2000) chamam atenção para as implicações de uma “danosa invisibilidade demográfica e epidemiológica”. Entre as décadas de 1950 e 1970,
foram correntes prognósticos sombrios sobre o futuro dos povos indígenas no Brasil, em alguns casos prevendo-se a possibilidade de extinção de várias etnias (Davis, 1978; Ribeiro, 1977; entre outros). Nos anos 80, já se ouviam vozes com timbres mais otimistas.
Segundo Gomes:
... o que surge como mais surpreendente e extraordinário nas relações entre os índios e o Brasil é a possível reversão histórica na demografia indígena. Certamente seria temerário afirmar que os índios, afinal, sobreviveram, e que esta é uma realidade concreta e permanente... Mas o fato é que há fortes indícios de que as populações indígenas sobreviventes vêm crescendo nas últimas três décadas, surpreendendo as expectativas alarmantes... de tempos atrás (1988:16-17).
Na década de 1990, a percepção já se pautava em outro plano, conforme Ricardo (1996), pois estava afastada a hipótese de desaparecimento físico dos índios no Brasil e, portanto, não estamos diante de uma “causa perdida” como se chegou a dizer anos atrás (RICARDO, 1996).
A reversão do quadro de pessimismo quanto ao futuro dos povos indígenas fundamentou-se na constatação de contínuo crescimento populacional ao longo de um período amplo, podendo se observar na atualidade por dados do IBGE (2008) ser uma população que cresce proporcionalmente mais do que a média brasileira.
Como já mencionado, as fontes de dados demográficos para populações indígenas no Brasil caracterizam-se pela precariedade. Mesmo o parâmetro mais básico, qual seja, tamanho populacional por etnia, é de difícil obtenção. Quando disponível, em geral provém de estimativas e não de contagens diretas. (AZEVEDO, 2000) A situação torna-se ainda mais complicada quando se almeja discutir perfis de mortalidade, fecundidade, migração ou crescimento populacional. Na introdução de “Povos Indígenas no Brasil 1991/95”:
... o que se sabe sobre a situação [demográfica] contemporânea dos índios no Brasil é muito pouco. Os dados... são bastante heterogêneos quanto à sua origem, data e procedimento de coleta... Mesmo quando são dados resultantes de contagem direta, via de regra os recenseadores não dominam a língua, não entendem a organização social nem a dinâmica espacial e sazonal das sociedades indígenas, produzindo, portanto, informações inconsistentes e totais errados, para mais ou para menos. (RICARDO, 1996)
2.1.1 POVOS INDÍGENAS DO RIO NEGRO E SUA DEMOGRAFIA
Os povos indígenas do rio Negro seguem a mesma sorte no que diz respeito a seus dados demográficos. Segundo o censo demográfico de 2000, (IBGE, 2008) o município de SGC é o município com maior população indígena no Brasil. Dessa maneira, seria esperado que qualquer convênio referente à saúde dessa população focasse em suas características centrais, ainda mais tendo em vista culturas e hábitos tão diferentes da maioria da população brasileira. Não é somente sua cultura e seus hábitos que a fazem especial mais também a região que habitam. Por esse motivo, criou-se um item para a descrição desses povos e como são suas distribuições demográficas, tendo relação direta com o convênio estudado.
Tabela 2: Relação dos municípios com as maiores proporções de autodeclarados indígenas no Brasil de 2000.
O mapa 2 corrobora com a afirmação do ISA, pois a região marrom-escuro no mapa é exatamente a área do alto rio Negro, um dos motivos do estudo de caso deste trabalho ter se realizado nesse município.