O objetivo da modicidade da tarifa consiste em proporcionar ao consumidor uma tarifa
que lhe seja acessível, a mínima onerosa possível. Talvez a escolha do adjetivo “módico” para
caracterizar a tarifa tenha sido um tanto quanto exagerada se levarmos em consideração seu significado, especialmente no que tange ao setor elétrico, conforme demonstrado pela CPI das Tarifas de Energia Elétrica. Um dos três principais objetivos do Novo Modelo do setor elétrico brasileiro, a modicidade das tarifas constitui uma das condições necessárias à prestação de um serviço adequado pelo concessionário ou permissionário de serviço público em geral189.
Em meio à evolução do mecanismo de contratação de energia elétrica para suprir o setor elétrico brasileiro, verificou-se que a compra pelas distribuidoras mediante leilões de energia com base no critério da menor tarifa adequa-se aos objetivos de modicidade tarifária. Assim, uma vez as distribuidoras adquirindo energia elétrica pelo menor preço, a expectativa é de que a redução destes custos reflita na fixação da tarifa para os usuários. Aliás, a Lei federal nº
188 GUEDES, Clélia Fabiana Bueno. Políticas públicas de estímulo à P&D. Uma avaliação dos resultados do programa regulado pela Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL. 2010. 119 f. Dissertação (Mestrado em Administração) – Universidade de Brasília, Brasília/DF, 2010.
189 BRASIL. Lei nº 8.987, de 13 de fevereiro de 1995. Dispõe sobre o regime de concessão e permissão da prestação de serviços públicos previsto no art. 175 da Constituição Federal, e dá outras providências. 1995. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8987cons.htm>. Acesso em: 10 fev. 2015. Vide art. 6º, §1º.
8.987/1995, art. 15, I, dispõe que o menor valor da tarifa do serviço público a ser prestado deve figurar como um dos critérios no julgamento da licitação190.
Outro mecanismo para se alcançar a modicidade tarifária no setor elétrico reside na redução das perdas não-técnicas (perdas comerciais, como furtos e fraudes). Observa-se que a redução das perdas para além do nível regulatório permite às concessionárias otimizar seus ganhos sem perder o compromisso com a modicidade tarifária191. O caminho da eficiência também decorre do incentivo à obtenção de novas receitas pelas distribuidoras, permitindo-se tanto a retenção de parte desta receita pela distribuidora como a reversão de outra parte para fins de modicidade tarifária192.
Importa ilustrar ainda que a modicidade tarifária revela-se na tarifa social criada pela Lei federal nº 12.212, de 20 de janeiro de 2010. A Tarifa Social de Energia Elétrica beneficia os consumidores integrantes da Subclasse Residencial Baixa Renda, caracterizada por descontos incidentes sobre a tarifa aplicável à classe residencial das distribuidoras de energia elétrica. Para tanto, estabelece-se o critério de correlação positiva entre consumo e renda per capita, partindo-se da pressuposição de que, quanto maior o consumo, maior a renda per capita193. Assim, o desconto na tarifa variará de acordo com o consumo de energia elétrica e
incidirá até o limite de 220 (duzentos e vinte) kWh/mês. Para receber o benefício, a família deve estar inscrita no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico) e apresentar renda familiar mensal per capita menor ou igual a meio salário mínimo. A Tarifa Social também se aplica à família que tenha algum componente contemplado com o Benefício de Prestação Continuada da Assistência Social, nos termos da Lei federal nº 8.742/1993194.
190 BRASIL. Lei nº 8.987, de 13 de fevereiro de 1995. Dispõe sobre o regime de concessão e permissão da prestação de serviços públicos previsto no art. 175 da Constituição Federal, e dá outras providências. 1995. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8987cons.htm>. Acesso em: 10 fev. 2015. Esta prescrição teve sua redação conferida pela Lei federal nº 9.648/1998.
191 PENIN, Carlos Alexandre de Sousa. Combate, prevenção e otimização das perdas comerciais de energia elétrica. 2008. 214 f. Tese (Doutorado em Engenharia) – Universidade de São Paulo, São Paulo/SP, 2008. 192 SILVA, Carlos Marcel Ferreira da. Tratamento de outras receitas na tarifa de distribuição de energia elétrica. Aspectos regulatórios e potenciais contribuições para a modicidade tarifária. 2011. 140 f. Dissertação (Mestrado em Regulação e Defesa da Concorrência) – Universidade de Brasília, Brasília/DF, 2011.
193 COSTA, Victor Hugo Gurgel; BRAGA JUNIOR, Sérgio Alexandre de Moraes. Políticas públicas e sustentabilidade para a universalização do acesso à energia elétrica. In: CONPEDI/UFSC. (Org.). Direitos sociais e políticas públicas II. XXIII Encontro Nacional do CONPEDI. 1. ed. Florianópolis: CONPEDI, 2014, p. 469- 490.
194 BRASIL. Lei nº 12.212, de 20 de janeiro de 2010. Dispõe sobre a Tarifa Social de Energia Elétrica; altera as Leis nos 9.991, de 24 de julho de 2000, 10.925, de 23 de julho de 2004, e 10.438, de 26 de abril de 2002; e dá outras providências. 2010. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007- 2010/2010/Lei/L12212.htm>. Acesso em: 5 jul. 2014. Excepcionalmente, o benefício será concedido à unidade consumidora que tenha entre seus membros “portador de doença ou patologia cujo tratamento ou procedimento médico pertinente requeira o uso continuado de aparelhos, equipamentos ou instrumentos que, para o seu funcionamento, demandem consumo de energia elétrica”, devendo estar a família inscrita no CadÚnico e possuir renda mensal de até três salários mínimos (vide art. 2º, §1º). A Tarifa Social também contempla as famílias
A busca pela modicidade de tarifa encontra, no entanto, alguns desafios, inclusive em face dos demais objetivos do setor elétrico. De fato, a ampliação da rede de distribuição para locais dantes inacessíveis e a consequente universalização do acesso à energia elétrica pressupõe investimentos de grande monta aos concessionários. Sabe-se que a regulação deve primar pelo equilíbrio econômico-financeiro entre as partes, e as distribuidoras anseiam pelo retorno dos investimentos realizados, especialmente para assegurar a eficiência e atualidade do serviço prestado. Surge, pois, a questão de como compatibilizar os investimentos pela segurança energética e universalização do acesso à eletricidade com a modicidade tarifária e a universalização do uso da energia. Exsurge, pois, a missão da ANEEL, em seu mister regulatório, para assegurar o equilíbrio entre as partes de modo a criar o cenário ideal para a adequação do serviço.