BÖLÜM 1: TEFSÎRDE İHTİLÂFIN MÂHİYETİ
1.5. İhtilâflarda Tercih Sebepleri
1.5.1. Kur‟ân-ı Kerîm
O controle e a influência diretos do Hizbullah nas regiões do sul do Líbano e do vale do Biqaa perpassam a questão da elaboração e da implantação de programas de assistência social e econômica aos camponeses e aos pequenos comerciantes mais empobrecidos e marginalizados da comunidade xiita, vítimas tanto da guerra civil e de seus efeitos ao longo dos anos 1990 como da ocupação israelense, que se estendeu até o ano 2000. Assim, essa problemática diz respeito ao aprofundamento do papel e da influência, no período do pós- guerra civil, de redes econômicas e sociais de apoio e manutenção à execução de determinadas atividades por parte do Hizbullah. Conforme veremos mais adiante, muitas dessas redes estavam baseadas no exterior graças à diáspora xiita que remonta ao início da guerra civil libanesa, enquanto que outras eram financiadas graças a doações realizadas por particulares ou por alguns grupos econômicos e empresariais da comunidade xiita libanesa. Nesse sentido,
No caso do Hezbollah, deve-se pensar no desdobramento de uma rede elaborada e complexa de prestação de serviços em articulação com sua ação armada: as questões da proteção e da Resistência, quer sejam sociais ou militares, jogam um papel central como recurso político e motivo de engajamento ou de legitimação. Mas, também é importante observar essas dinâmicas in loco, lá onde elas acontecem, isto é, sobretudo no contexto do „laissez-faire‟ do „neolibanismo‟, onde a noção de bem [ou serviço] público é tênue, mal amparada por um Estado frágil, em que a ascensão social se traduz em desilusão. (CATUSSE & ALAGHA, 2008, p. 118, trad. nossa)
Desse modo, o comprometimento do Hizballah com um programa de reformas sociais e econômicas tornou-se parte essencial das plataformas políticas e eleitorais do partido nos anos 1990 e 2000. Em 1996, o partido relacionou uma série de esboços e ideias de natureza socioeconômica, mas sem que fosse traçada uma linha de ação política definida. Entretanto, nas eleições legislativas de 2000, grande parte do programa eleitoral do Hizballah contemplava o tratamento de questões socioeconômicas, uma vez que a retirada de Israel do
sul do Líbano permitiu que algumas prioridades e estratégias fossem alteradas. Assim, o partido passou a elencar, em termos gerais, as prioridades de seu programa social e econômico, tais como: reformas políticas e econômicas no setor público que acabassem com a corrupção, a ineficiência, o desperdício, o clientelismo e o nepotismo, e que instaurassem também a funcionalidade econômica, a especialização, a transparência e a responsabilidade. Além disso, o Hizballah propunha a eliminação da pobreza, através do incentivo aos setores produtivos (agrícola e industrial) e da proteção dos recursos naturais, a fim de obter-se justiça social, melhoras na assistência social do Estado aos cidadãos e um desenvolvimento equilibrado e sustentável.
O Hizballah acusava o governo libanês de ser negligente quanto ao cumprimento de seus deveres socioeconômicos para com seus cidadãos. Assim, enquanto o governo libanês incentivava o consumo desenfreado e ostensivo do centro econômico do país – representado na burguesia e nas classes médias altas de Beirute e do Monte Líbano –, o Hizballah dedicava-se a desenvolver um modelo econômico redistributivo, que tinha como alvo a periferia de Beirute, o vale do Biqaa e o monte Ámil. De acordo com os programas políticos do Hizballah, em que o partido orgulhava-se de oferecer seus serviços a várias regiões libanesas, Alagha refere que esses programas assistenciais não se limitavam a atender apenas xiitas ou muçulmanos, sobretudo no caso do chamado “esforço de guerra”, em que a reconstrução de imóveis de cristãos que foram destruídos pelas bombas israelenses – por exemplo, na “guerra dos 33 dias” em 2006 – mostrou-se uma realidade.
Entre 1992 e 2006, as ONGs e as redes socioeconômicas do Hizballah prestaram diversos serviços e executaram vários programas assistenciais, a saber: 1) reconstrução de imóveis danificados ou destruídos; 2) orientação agrícola; 3) serviço médico e hospitalar; 4) educação primária e secundária; 5) concessão de bolsas estudantis; e 6) fornecimento de água e eletricidade a áreas não atendidas pelo Estado. Assim,
As ONGs do Hizballah têm como alvo principal as massas e os [indivíduos] social e economicamente marginalizados ao desenvolver um assistencialismo amplo e abrangente que mescla a experiência democrática com a doutrina islâmica de direitos humanos (“al-huquq al-shariyah”) das [doações] „zakat‟ e „khums‟ [definidas abaixo]. (ALAGHA, 2006, p. 167, trad. nossa)
Um dos objetivos dessas ONGs, assim como das instituições sociais e dos programas de bem-estar do partido, era, através do parlamento, pressionar o governo a tomar medidas que levassem à erradicação do desenvolvimento desigual e desequilibrado que existia no Líbano
nessa época. Passemos, então, à análise da constituição e das formas d atuação dessas organizações não-governamentais e das redes econômicas e sociais do Hizballah.
3.3.1 Redes e ONGs do Hizballah ou sob sua influência
Há dois tipos principais de instituições/organizações sociais do Hizballah ou de que este participa, atuando em forma de rede:
1) As instituições inseridas no aparato formal do partido, em que o Hizballah ocupa uma posição de autoridade (papel na nomeação de seus dirigentes e nas formas de recrutamento de seus funcionários). Os documentos do Hizballah as apresentam como partes (partícipes) da estrutura de suas instituições de serviço. Cadastradas no Ministério do Interior libanês como “organizações caritativas não-governamentais”, elas funcionam de modo estreitamente interdependente, e seus líderes permutam entre si.
2) As organizações que gravitam em torno do partido, com o qual mantêm relações em escala variável, mas que não podem ser consideradas como seus instrumentos diretos. Pertencem, sobretudo, a uma rede atuante em forma de organizações satélites.
Ex.: organizações ligadas ao esforço de guerra que prestam apoio e serviço à “sociedade de resistência” (Fundação dos Mártires, Fundação para os Feridos, Hospital al-Rasul al-A‟zam em Dahiyeh financiado pela Fundação dos Mártires iraniana e libanesa, em uma região habitada por quinhentos mil libaneses, que equivale a um terço da grande Beirute, e onde não existe nenhum hospital público).
O financiamento dessas organizações é complexo e pouco conhecido. Há três fontes principais: 1) o autofinanciamento; 2) os fundos iranianos; e 3) a redistribuição local do dízimo religioso (“zakat” e “khums”). 39 As fontes subsidiárias são: 1) remessas da diáspora libanesa xiita; e 2) doações xiitas em geral.
39 O “zakat” é um dos cinco pilares do Islã. Os muçulmanos que possuem condições econômicas para contribuir
devem doar 2.5% de sua receita líquida anual. Além de ter sido uma medida redistributiva de renda desde a época do Profeta, o significado simbólico e cultural dessa obrigação islâmica refere-se a desapego material, senso de espiritualidade e responsabilidade social com os necessitados. (cf. ESPOSITO, 2003, p. 345, trad. nossa)
Abaixo, enumeraremos algumas dessas organizações e redes que prestaram serviço ao Hizballah no período 1992-2006. Primeiramente, Mona Fawaz aponta para ONGs que, apesar de manterem estreitas relações com os organismos iranianos que ainda financiam uma parte considerável de seu orçamento, conseguiram proceder à nacionalização de alguns fundos e recursos iranianos. Assim, a fim de implantarem projetos do Hizballah no contexto libanês e de obterem um forte apoio local, essas associações adaptaram o discurso da pobreza e da marginalização social às necessidades específicas dos xiitas libaneses, a fim de que estes possam reivindicar suas demandas ao Estado. (FAWAZ apud SHAERY-EISENLHOR, 2008, p. 255, nota 54, trad. nossa)
A organização “Al-majma‟ al-„alami li ahl al-bait”, conhecida como Fundação Internacional “Ahl al-bait”, fundada em 1990 por Khamenei, recebeu, em 1993, uma proposta de financiamento do Líbano para a abertura de oito centros culturais no país, tendo o “Centro Cultural da República Islâmica do Irã” (ICC, m inglês) como uma instituição intermediária para auxiliar no estabelecimento de contatos entre grupos que buscavam fundos para esses projetos e instituições de financiamento no Irã. A importância local de cada uma dessas regiões (Beirute, Dahiyeh, Hirmil, Baalbek, Zahle, Biqaa ocidental, Sidon e Tiro) para a política xiita libanesa é discutida em termos de como um centro cultural xiita poderia contribuir para a aquisição de poder pela comunidade xiita em âmbito nacional. Assim, os objetivos desses centros são: 1) fortalecer a comunidade xiita libanesa em relação às demais comunidades; 2) simultaneamente influenciar os xiitas libaneses de forma a auxiliar a fundação a alcançar seu objetivo de fortalecer a posição e o controle iranianos da “marja‟iyya” centrada em Khomeini e Khamenei. Nesta instituição, enfatiza-se a diferença, isto é, a demonstração pública da identidade xiita como pré-condição para a participação na nação libanesa, e que também se mostra uma estratégia exitosa para romper a hegemonia através da reivindicação de espaços alternativos. Nesse sentido,
Para que os xiitas participem dos projetos de coexistência e diálogo, primeiro eles precisam desenvolver, profunda e publicamente, sua identidade como uma comunidade coerente e autônoma em relação a outras comunidades religiosas. (SHAERY-EISENLOHR, 2008, p. 186, trad. nossa)
O “khums” era um imposto baseado em um quinto (1/5) do botim de guerra dado pelos muçulmanos ao Profeta e à sua família. Após sua morte, passou a ser cobrado sobre o lucro de várias atividades econômicas. Mais comum e importante no Islã xiita, constituiu-se como uma fonte de renda ao clero xiita iraniano, propiciando-lhe independência do Estado e, portanto, ajudando na eclosão da revolução islâmica. (cf. ESPOSITO, 2003, p. 174, trad. nossa)
O Centro Consultivo de Estudos e Documentação (CCSD, em inglês) foi fundado em 1988 em Dahiyeh com fundos iranianos. Seus membros (todos do Hizballah) elaboram informes, pesquisas e consultas em áreas de estudo de interesse do centro, assim como realizam trabalhos de campo e estudos estatísticos. Possuem, ainda, um banco de dados e um arquivo jornalístico, publicam livros e periódicos científicos e organizam palestras, oficinas e conferências. O CCSD colabora com o Estado libanês, através da “realização de pesquisas sobre as tendências políticas e eleitorais [...]” (SHAERY-EISENLOHR, 2008, p. 187, trad. nossa), e também disponibiliza informações e dados para pesquisas sobre os xiitas libaneses. Ademais, o CCSD promove a divulgação pública de suas próprias visões e interpretações acerca de vários aspectos do Líbano, através da publicação de livros e da realização de palestras, e arquiva a documentação e o registro de todas as operações da resistência contra a ocupação e agressões israelenses desde 1982. Enfim, o CCSD criou uma voz acerca de três importantes questões: 1) divulgar e tornar conhecida a presença xiita; 2) tornar públicas as interpretações e o entendimento do Hizballah sobre os fatos políticos e econômicos, assim como acerca dos problemas libaneses; e 3) sugerir propostas para melhorar ou resolver essas questões.
Por sua vez, o “Comitê Islâmico de Saúde” (“al-Haya al-Sihhiyya al-Islamiyya”) registrado no Ministério do Interior desde 1988, elabora as políticas de saúde do partido, administra os centros de prevenção e um hospital no sul do Líbano sob o slogan “Saúde para todos e com todos” e mantêm campanhas e atividades de prevenção realizadas em escolas públicas e privadas pela mídia e pela imprensa do partido e, às vezes, em colaboração com organismos internacionais, como o UNICEF, a OMS e o Departamento de Saúde Pública da Universidade Americana de Beirute (AUB).
A Fundação para o “Bom Empréstimo” (“Muassassat al-Qard al-Hasan”), fundada em 1982, sob iniciativa iraniana, distribui empréstimos sem juros em Dahiyeh, Sur (Tiro) e Nabatiyeh em forma de microcréditos.
O “Al-Imdad” (ou “Comitê Filantrópico Islâmico”), criado em 1987 em Beirute, sob iniciativa local, mas com apoio financeiro iraniano, inicialmente tratava-se de um centro de auxílio emergencial a pessoas e famílias necessitadas (sem renda). Hoje, espalhado pelo território libanês, fornece diversas espécies de ajuda a chefes de família que não podem suprir e arcar com as necessidades básicas e que não tem como recorrer a outras instituições do Hizballah. Além disso, também fornece microcréditos, a fim de incentivar o desenvolvimento
de atividades geradoras de renda de modo semelhante como o fazem outras associações para o desenvolvimento.
A “Jihad al-Binaa” – “Fundação para os Esforços de Reconstrução” – foi criada em 1985 como uma filial de uma associação iraniana para ocupar-se da reconstrução de imóveis em um contexto de guerra (residências, escolas, hospitais, mesquitas), além da administração de serviços urbanos, tais como a coleta de lixo e o fornecimento gratuito de água e eletricidade nos subúrbios ao sul de Beirute. No pós-guerra, a organização também tem se dedicado a atividades de desenvolvimento local, especialmente em regiões rurais do Líbano. Às vezes em colaboração com prefeituras e órgãos públicos do Estado nacional e também com instituições internacionais, como agências de desenvolvimento, a “Jihad al-Binaa” oferece linhas de microcrédito aos agricultores e instituiu fundos de previdência social.
A questão do acesso e da distribuição de água e eletricidade no Líbano pelo Estado continua problemática e restrita. Desse modo, o Hizballah, através da “Jihad al-Binaa”, mostra-se eficaz em suprir, embora parcialmente, essa deficiência nas áreas suburbanas, apesar de deixar a operadores privados a venda de geradores, intervindo apenas pontualmente. Entretanto, isso não impede que, em razão dos constantes racionamentos, o partido apóie os protestos dos usuários contra a desigualdade geográfica e social das redes públicas de eletricidade.
Em relação às instituições de caráter religioso, não podemos deixar de mencionar a “Mobilização para a Educação” (“Tabi‟a Tarbawiyya”), uma estrutura central que coordena a ação do Hizballah na área educacional, inclusive em nível local. Outro exemplo importante do setor educacional, a rede de escolas al-Mahdi é constituída de quinze unidades (sete no sul, quatro no Biqaa, três em Dahiyeh e uma em Qum, no Irã), que congregam catorze mil alunos e oitocentos empregados, sob a administração da Associação para a Educação e o Ensino. Tem em seu currículo o ensino de valores islâmicos a indivíduos aptos a servirem os objetivos da sociedade e, particularmente, da comunidade formada pela “hala islamiyya”, ou seja, o conjunto de simpatizantes do Hizballah e de sua causa religiosa, política e militar. A individualidade do ensino moderno é aqui colocada a serviço da causa geral da sociedade, como no caso da celebração dos mártires que morreram em combates contra Israel, em que a valorização da noção de sacrifício em favor da coletividade adquire sentido em uma visão religiosa e militante do mundo e do social.
A rede de escolas al-Mustafa é administrada pela Associação para o Ensino Religioso Islâmico (AERI, em inglês). Inauguradas a partir de 1984, têm um nível de qualidade pedagógica equivalente ao de escolas católicas libanesas de prestígio. As escolas Al-Mustafa
possuem um dos custos de matrícula e de mensalidade mais elevados e dispõem de meios materiais superiores e recursos humanos mais qualificados. Assim, destinam-se a atender uma determinada categoria de classe média (possivelmente, a classe média alta), ou seja, a burguesia xiita preocupada em oferecer um ensino de qualidade aos seus filhos em um ambiente religioso adequado. A “Mobilização para a Educação” é a interface entre o Hizballah e o governo libanês e os estabelecimentos de ensino do país, em relação aos quais exerce uma influência cultural, social e política tanto em nível escolar quanto superior. Realiza um trabalho de “polarização”, através da organização de campanhas e atividades destinadas a atrair estudantes para o partido, representa o Hizballah em sindicatos e ligas das diversas categorias de ensino (escolas públicas e privadas, universidades), outorga bolsas de estudos a estudantes pobres ou que obtiveram mérito para tanto por meio do “Centro Islâmico de Orientação e Ensino Superior”, ONG fundada em 1994 que administra a concessão de bolsas e de crédito estudantil.
Enfim, poderíamos enumerar uma série de outros exemplos de redes e organizações do Hizballah, ou que contam com a sua participação, tanto em âmbito libanês como transnacional (via Irã, Síria ou mesmo fora do Oriente Médio). Porém, a fim de compreendermos tanto o fenômeno do “islamo-nacionalismo” como a constituição das redes socioeconômicas, é necessário entender que o papel que o “Partido de Deus” passou a exercer, a partir dos anos 1990, insere-se, por um lado, em uma teoria mais geral da terceirização e da transferência de parte significativa das atribuições e dos serviços públicos do Estado libanês para organizações civis e redes econômicas e sociais que, em grande medida, existiam e operavam segundo interesses particulares determinados. Assim, diante da ineficácia, da fragilidade e da quase ausência histórica do Estado libanês em cumprir e atender às necessidades de suas comunidades camponesas, proletárias e mesmo pequeno-burguesas até os anos 1990 (então majoritariamente xiitas) – em razão da guerra que findava, mas, sobretudo, graças à sua formação politicamente conservadora e economicamente comercial, privatista e (neo)liberal – novos atores políticos e sociais (com maior ou menor apoio externo) arrogaram-se essa responsabilidade, em relação à qual o Hizballah constituiu-se, entre 1992 e 2006, em um de seus principais agentes propagadores.
Por outro lado, também devemos considerar a tese geral de Olivier Roy (2006, p. 78- 84), especialista francês em Islã Político, que explica a ascensão e a função social dos demais movimentos islamistas, especialmente sunitas, a partir dos anos 1970. Segundo essa teoria, o Hizbullah teria se dedicado, sobretudo no pós-guerra civil, a preencher um vácuo ideológico, a desempenhar um papel político e a praticar uma função social “progressista” em favor da
pequena-burguesia e das classes médias, ou seja, ações e medidas que outrora (até os anos 1970-80) haviam sido realizadas principalmente pelos partidos e movimentos da esquerda árabe e libanesa (nacionalistas, nasseristas e socialistas), sobretudo no sentido da construção de uma nova realidade social que – embora por muito pouco tempo – a era shihabista de desenvolvimento econômico e reformismo político nacionalista buscou representar e introduzir no Líbano dos anos 1960.
Enfim, a visão geral de Roy parece, de certo modo, sintetizar o papel pragmático e reformista que o Hizballah assumiu nos anos 1990 e 2000, tanto em relação à construção de um discurso político embasado naquilo que aqui denominamos de “islamo-nacionalismo” quanto acerca da extensa propagação de atividades típicas do chamado “terceiro setor” – ONGs, associações, fundações não-estatais ou para-estatais – nas ações sociais que passou a executar no pós-guerra libanês.
CONCLUSÕES
As décadas de 1970 e 1980 assistiram ao acirramento, após a Guerra dos Seis Dias de 1967, do conflito árabe-israelense e ao seu desbordamento para as fronteiras libanesas, somando-se a uma realidade política e econômica e social interna de crise latente que apenas adiara os problemas dos conflitos libaneses de 1958, mas sem, na verdade, nunca tê-los resolvido. Assim, o fim da era das políticas shihabistas de desenvolvimento nacional reformista e relativamente redistributivo em 1970, aliado a essa situação de crise em potencial representada no fator palestino-israelense que operava no território libanês desde o fim dos anos 1960, literalmente levaram à “explosão” do Líbano.
Ainda hoje permanece, sobretudo entre os libaneses conservadores, um discurso que busca explicar e justificar a eclosão do conflito apenas levando-se em consideração os seus fatores externos. Durante a realização desta pesquisa, em conversas informais mantidas, tanto no Líbano como com imigrantes e descendentes no Brasil, diversas vezes escutamos afirmações do tipo “a guerra civil libanesa foi e representou o embate dos outros (Síria, Irã, Israel, EUA, etc.) em solo libanês para defender somente seus interesses”. Sabemos que isso não corresponde à verdade. Essa afirmação parcial, tendenciosa e anti-científica apenas pretende evadir os fatores internos do conflito e eximir de suas responsabilidades orgânicas a seu respeito o governo conservador pró-maronita, bem como a alta burguesia comercial e financeira maronita e sunita.
Diante desse argumento, que deseja manipular e falsear a verdade histórica, é urgente enfatizar que, desde o início do período colonial francês em 1920, o “Grande Líbano” – e, depois, o Líbano independente – existiu e operou principalmente (para não dizer quase que totalmente) para servir aos interesses de uma minoria – tanto em âmbito demográfico quanto em termos de classe social – que, durante pelo menos sessenta anos, encastelou-se no poder público e no controle de uma economia baseada no chamado “modelo da república comercial libanesa”. Essa ordem econômica liberal-burguesa dominada pelo libanismo maronita e, a partir dos anos 1950-60, também pela burguesia sunita, mostrou ser altamente concentradora de riqueza e renda e, portanto, socialmente desigual e excludente, sobretudo em relação à comunidade xiita.
Assim, surgiu um ativismo político militante, sob a liderança do imã Mussa al-Sadr, que assumira, nos anos 1960-70, a luta contra a marginalização dos xiitas, que pertenciam aos grupos sociais com os mais baixos indicadores sociais e econômicos libaneses. Fonte de
inspiração para todos os movimentos xiitas militantes posteriores, o legado de al-Sadr, de certa forma, sobreviveu no Hizballah a partir de sua formação em 1985, embora este tenha se originado através de um processo de ruptura intraxiita, que justamente ocorrera no partido Amal, a organização fundada por al-Sadr em 1975 para reivindicar os direitos políticos e sociais dos xiitas e marginalizados libaneses em geral.
Impulsionado pelo papes devastador que o Estado de Israel desempenhara durante suas duas grandes invasões do Líbano (em 1978 e em 1982) para lutar contra o nacionalismo guerrilheiro palestino, o Hizballah veio à luz, em primeiro lugar, para enfrentar a ameaça