2.2. KORUYUCU AİLE UYGULAMALARININ YAPISI VE İŞLEYİŞİ . 53
2.2.7. Koruyucu Ailelik Sürecinde Uygulanan Diğer İşlemler
Para que possamos defender o procedimento de instrução ao sósia, devemos esclarecer o que é esse procedimento e, para isso, teremos que dispor de uma discussão teórica sobre os fundamentos que sustentam o desenvolvimento e a utilização do mesmo.
Ressaltamos que uma ação tal como pode ser observada só pode ser descrita pelo seu plano de ação realizado, mas o que está subjacente a essa realização não. Filliettaz (2004) apóia-se em Habermas (1993) para defender que a “observação direta da atividade de trabalho
mostra-se intrinsecamente limitada e não pode, em nenhum caso, fornecer-nos uma compreensão detalhada das práticas estudadas” (2004, p. 202).
O pesquisador, que analisa o papel da linguagem no trabalho, afirma que grandes pesquisadores que estudam o trabalho (ergonomia, psicologia do trabalho, sociologia das organizações etc.) desenvolveram diversos dispositivos metodológicos que privilegiassem a
verbalização no e sobre o trabalho, para apreender os elementos que nos escapam a uma
simples observação, tais como: autoconfrontação simples e cruzada, a instrução ao sósia, a entrevista de explicitação, a escrita biográfica etc. Para Filliettaz, “essas estratégias encontram-se atualmente no centro dos métodos de análise do trabalho e não estão ausentes dos dispositivos de formação” (2004, p. 202).
A partir dessa perspectiva de verbalização no e sobre o trabalho é possível a articulação entre os saberes relativos à expertise do trabalhador e ao acadêmico do pesquisador (SCHWARTZ, 2002). A proposta de articular tais saberes, originalmente, iniciou-se no final dos anos 70 e início dos 80 (1979 – 1982), com os estudos desenvolvidos pelo psicólogo Ivar Oddone (1981) e sua equipe, em Turim (Itália).
O psicólogo idealizou e estabeleceu a Comunidade Científica Ampliada, que objetivava estabelecer uma nova forma de conhecimento sobre o trabalho: articular os conhecimentos dos próprios trabalhadores e confrontá-los com os dos pesquisadores e vice- versa. Conforme explicam Barros e Oliveira (2009), Oddone (1986) justifica essa proposta por considerar que a articulação entre os saberes sempre fora muito superficial, promovendo uma “incultura por parte do pesquisador e do trabalhador” (2009¸ p. 7), pois para se conhecer o trabalho devemos, antes, conhecer os saberes produzidos pelo trabalhador e confrontá-los com os científicos. Aqui podemos, então, compreender a epígrafe deste capítulo, pois nela encontra-se o “espírito científico” a que Oddone buscou, originando a proposta de reformulação da Psicologia do Trabalho (CLOT, 2010).
Oddone, com esse propósito de investigar o trabalho pela perspectiva do trabalhador, experimentou vários procedimentos de verbalização do trabalho sem sucesso, pois os procedimentos não traziam os resultados esperados, já que os trabalhadores “eliminavam aquilo que pensavam que os entrevistadores já sabiam, o que lhes parecia óbvio” (TOGNATO, 2008, p. 110). Em outras palavras, os trabalhadores deixavam de dizer muito sobre seu próprio trabalho.
O psicólogo, persistindo no seu propósito, gerou alianças entre trabalhadores (sindicatos) e universidades, o que influenciou os cursos de formação que buscavam “instituir um espaço de trocas e debates entre conceitos científicos, resultados de outras pesquisas, e a experiência prática dos trabalhadores da escola acerca das relações entre saúde, trabalho e processo formativo” (BARROS E OLIVEIRA, 2009). Foi então, nesse contexto de alianças, particularmente, nos seminários de formação de operários da FIAT na Universidade de Turim, que Oddone et. al. (1981) desenvolveu o procedimento de instrução ao sósia para apreender a “experiência formalizada, elaborada, transmissível e renovável” (CLOT, 2010, p.92).
Yves Clot, em entrevista com Leny Sato, revela que sofreu grande influência de Oddone, devido à ideia de Oddone de “os trabalhadores ‘entrarem’ na psicologia do trabalho por meio da ‘comunidade científica ampliada’, [que] de certa maneira, seria a psicologia do trabalhador” (CLOT, 2006b, p.100). Ainda, Clot afirma que esta inovação na psicologia do trabalho só foi possível devido a Oddone ter “um espírito prático e o interesse, a preocupação, de saber ‘como’, não ‘o que’ os trabalhadores sabem” (CLOT, 2006b, p. 100).
Assim, influenciado por Oddone, Clot retomou e desenvolveu o procedimento de instrução ao sósia16 levado pelo interesse em compreender “como” o trabalhador faz seu trabalho. Em nota, Faïta (2005) defende que o procedimento das “instruções ao sósia” consiste em levar cada trabalhador a “organizar as representações que ele faz para si de seu comportamento no cotidiano de trabalho, de modo, a torná-las transmissíveis e eventualmente utilizáveis” (2005, p. 28).
Para isso, no procedimento de instrução ao sósia, cria-se uma situação fictícia, em que o pesquisador, diante do trabalhador, apresenta-se como sósia desse trabalhador, isto é, alguém muito parecido fisicamente com o trabalhador e que deverá substituí-lo no seu trabalho, sendo que esta substituição não deve ser percebida por ninguém do trabalho. Para que essa situação fictícia de substituição seja perfeita, é necessário que o trabalhador instrua com detalhes o
como fazer seu trabalho e que o sósia pergunte, questione, visando apreender o máximo das instruções. O procedimento é iniciado então com a seguinte pergunta: “Suponha que eu seja
seu sósia e que amanhã eu deva substituir você em seu trabalho. Que instruções você deveria me transmitir para que ninguém perceba a substituição?” (CLOT, 2006, p. 144).
16 Destacamos que diversos grupos de pesquisa, atualmente, recorrem ao procedimento de instrução ao sósia, como, a Clínica
da Atividade (CLOT, 1999/2006 e CLOT e FAÏTA, 2000), o grupo ERGAPE de Saujat (2002, 2004), Faïta (2004, 2005), entretanto, conforme salienta Tognato (2009), no Brasil é um procedimento pouco difundido.
Essa interlocução necessária de instruir e de questionar promove um texto em co- autoria, já que se estabelece um diálogo conflitante entre o que se deve fazer e os questionamentos do sósia sobre como fazer o trabalho. Segundo Faïta (2005) são duas expertises de origens diferentes; uma relativa aos conceitos científicos outra aos conceitos cotidianos, em que ambas focam um mesmo objeto.
Dessa forma, podemos afirmar que é
pela mediação do sósia, que ele [trabalhador] realiza aquilo que não fez, em resposta a um interlocutor que lhe propõe, sem necessariamente percebê-lo, opções que ele recusou considerar, que ele obliterou ou desconheceu, ignorou ou, pelo contrário, buscou em vão descobrir (CLOT, 2006, p.147).
Clot (2006) defende que a instrução ao sósia é um rico procedimento dialético, em que o sósia “deve ser o especialista que não o é” (2006, p. 149), isto é, aquele que sabe, mas ao mesmo tempo não sabe, uma personagem artificial capaz de produzir uma interlocução sobre “aquilo que faço e aquilo que poderia fazer” (2006, p. 149).
Nesta interlocução, o uso dos pronomes ‘eu’ e ‘você’ traz implicações: o ‘eu’ deve ser utilizado pelo sósia (p. ex.: Mas como eu devo fazer a chamada?) como uma forma de assumir a responsabilidade pela realização do trabalho. Já o trabalhador e instrutor deverá recorrer ao pronome ‘você’, (p. ex. Você deve chegar uns dez minutos antes das sete), buscando distanciar-se do seu trabalho. Segundo Clot (2010), “trata-se de desligar-se de sua experiência a fim de que esta se torne um meio de fazer outras experiências. É tornar a experiência já feita, disponível para a experiência a fazer” (CLOT, 2010, p. 93). Assim como o sósia deve buscar aproximar- se do trabalho a fazer, o trabalhador deve afastar-se, para que possa ‘olhar’ para suas instruções não como próprias, únicas de si mesmo, mas principalmente do coletivo de trabalho, como elementos integrantes do seu métier.
O trabalhador tem então que, obrigatoriamente, (re)pensar sobre suas ações, buscando antecipar todas as possíveis situações favoráveis e desfavoráveis dentro do seu contexto de trabalho, o que o obriga a dizer aquilo que se deve fazer e aquilo que não se deve fazer dentro daquela função. Conforme Clot (2006), o “sósia “exige” um acesso, não só à vivência da ação, mas aquilo que não aconteceu e não é vivido pelo sujeito” (CLOT, 2006. p. 146). Promove-se, então, uma nova elaboração mental, uma reorganização do próprio fazer, gerando propriedades e possibilidades para uma nova atitude. É nesse momento que podemos afirmar que “transmitir é tornar possível um novo ato” (CLOT, 2006, p.148).
A instrução ao sósia possibilita reviver o trabalho de uma maneira pessoal, “oferecendo ao coletivo a oportunidade de um aperfeiçoamento”, pois as “instruções transmitidas ao sósia são de alguém, e unicamente dele, a propósito dos meios utilizados por todos; elas são suscetíveis de enriquecer, ao mesmo tempo, o sujeito e o grupo” (CLOT, 2010, p. 93-94), contribuindo, de acordo com Kátia Kostulski (2010, em curso17), para constituir o coletivo de trabalho (o métier).
Apoiada na proposição vygotskiana de que “O homem está pleno, em cada minuto, de
possibilidades não realizadas”18, Kostulski (2010, em curso) argumentou que o não realizado pesa no homem, por isso é importante ver o que se realizou e o que é possível de ser realizado. Para a pesquisadora, ao falarmos sobre as possibilidades dá-se uma maior clareza sobre as possíveis escolhas, e a instrução ao sósia é uma atividade discursiva que nos permite discutir a atividade realizada sob a perspectiva do real da atividade.
Mas como realizar o procedimento de instrução ao sósia? Essa é questão que trataremos a seguir.