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5. TARTIŞMA

5.2. Bulguların Tartışılması

5.2.4. Koronal Düzlemde Ortogonal Asimetri Bulgularının Tartışılması

Por fim, entre as cenas que se repetem, há uma que insiste naquela correção herdado do avô Ribeiro de Almeida, o ministro que morreu pobre (ver cit. 1). Esse parece ser um aspecto secundário da escritura, mas, de fato, ele remete ao primeiro elemento constitutivo da paratopia de Niemeyer, que é do seu advento ao mundo como membro de uma sociedade, dotado de um nome, uma ascendência. Por isso dissemos que essa cena realiza uma espécie de dobra sobre o primeiro momento da paratopia de Niemeyer. O enunciado abaixo é uma das narrativas dessa cena:

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Estive com Israel, que me disse: “Só poderei pagar-lhe como funcionário. Mas, como o Instituto de Arquitetos do Brasil estabelece, seria possível lhe

dar uma comissão sobre o custo das construções.” E a palavra “comissão”,

que detesto, me fez recusar sua proposta, projetando todos os palácios de Brasília com o salário mensal de um modesto servidor público. [...] Mas quando JK me telefonou – “Niemeyer, quero que você projete as sedes, em Brasília, do Banco do Brasil e do Banco do Desenvolvimento Econômico, e receba pela tabela do IAB” –, respondi-lhe: “não posso, sou funcionário” (MA, p.35-36, grifo nosso).

Não se pode deixar de perceber aí a presença do avô, na imagem de homem honesto e desinteressado por dinheiro. Mas há outro aspecto, menos evidente. Recusar-se a receber um valor baseado em critérios prosaicos, como a tabela do IAB, aponta para a percepção de seu trabalho como diferente de um serviço de arquitetura comum. Obras de arte, na verdade, não têm seus valores regulados por tabelas de associações profissionais. O enunciado abaixo, de certa forma, apoia nossa suposição:

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Duas coisas guardo com satisfação. Uma é esse desinteresse pelo dinheiro, que mantive por toda a vida; a outra, minha vontade de ajudar as pessoas [...]. Tendo trabalhado muito, é natural que pensem ser eu um homem rico. Como negá-lo, se os jornais anunciam os meus trabalhos? Como contestá-

lo, se andei pelo Velho Mundo e tanto realizei? [...] Ninguém imagina quantas vezes trabalho graciosamente, como fico longos períodos colaborando sem nada receber, como divido com meus amigos os projetos que elaboro [...]. Com que satisfação comprei o apartamento de Luís Carlos Prestes! Lembro que naquela época minha conta no banco estava curta e

apressei o Acácio, seu secretário: “Providencia a escritura rapidamente, que o dinheiro pode acabar.” Um ato natural de pura amizade. [...] “Teria

vergonha de ser um homem rico” (ACT, 163-165, grifo nosso).

O desprendimento com relação ao dinheiro é relacionado a uma satisfação em ajudar as pessoas, certamente ligada a um gozo. O que nos interessa aqui, entretanto, não é o retorno afetivo que a solidariedade e a amizade podem propiciar, ou talvez a herança da educação recebida em uma família católica124, embora esse aspecto não deva ser desprezado: a declaração de que “teria vergonha de ser um homem rico” confirma esse aspecto ligado a uma moral católica. O que queremos destacar é, antes, a apropriação que Niemeyer faz dessa herança familiar na sua prática. Não é por acaso que o exemplo de gesto solidário escolhido pelo autor envolva ninguém menos que Luís Carlos Prestes, “o cavaleiro da esperança”, comunista e não religioso. A figura de Prestes está ligada ao imaginário de um outro mundo, mais justo, uma sociedade sem classes. “O que poderia ser comparado à luta por um mundo melhor, sem classes, todos iguais?” pergunta Niemeyer (MSE, p.33). Amizade e solidariedade são aspectos necessariamente constitutivos desse outro mundo, dessa sociedade de iguais. E a arquitetura de formas livres do arquiteto seria, então, o cenário dessa vida futura. Essa visada não passou despercebida ao poeta Ferreira Gullar, no poema “Lição de arquitetura”:

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No coração de Argel sofrida faz aterrizar uma tarde uma nave estelar e linda

como ainda há de ser a vida (com seu traço futuro Oscar nos ensina

que o sonho é popular) (MSE, p.32).

É por isso que sustentamos que esse posicionamento ético é, ao mesmo tempo, elemento essencial de sua paratopia e um aspecto da proposição heterotópica de Niemeyer.

124

Seu irmão, o neurocirurgião Paulo Niemeyer, ocupou vários postos na Santa Casa até chegar ao cargo de

provedor, jamais recebendo um centavo por seus serviços no hospital. “Costumamos dizer que é o espírito de

misericórdia que nos move, de fazer algo pelo doente, além do interesse de aprender e de ensinar”, teria dito. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Paulo_Niemeyer, consultado em 20/05/2012.

Finalmente, pode-se falar também da construção de um personagem heroico nessa longa narrativa na primeira pessoa que compõe o discurso arquitetural de Oscar Niemeyer, quase oito décadas. Como um herói, nosso autor é sempre guiado por ideais nobres como a liberdade, fraternidade, coragem e justiça. Mas se tomarmos Utopus como referência de herói, enquanto idealizador e fundador da cidade segundo um modelo virtuoso, então Niemeyer se parece mais com um anti-herói. É que Niemeyer propõe uma nova maneira de pensar a arquitetura, no entrelaçamento entre a surpresa e a defesa da construção de um mundo justo e igualitário. Le Corbusier é que estaria mais próximo de Utopus, e sua proposta modelar seria uma versão moderna do mito de Utopia. Mas a proposição de Niemeyer tende muito mais para uma heterotopia, um mito às avessas. E por duas razões: a primeira é que se trata de uma narrativa na primeira pessoa, enunciada no presente, enquanto o mito é sempre pretérito, em terceira pessoa. Além disso, o mito supõe a solução de contradições, enquanto Niemeyer quer deixar exposta a não relação entre a beleza (que é a verdade da obra), necessariamente ligada à singularidade, e a sociedade comunista, que implica em repetição, de maneira a que todos possam ter acesso aos mesmos bens.