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Desde sua criação em 1966, em decorrências do desastre natural ocorrido naquele ano, a Defesa Civil atravessou diversos momentos e configurações, sendo estas influenciadas pelos aspectos políticos e, principalmente pelo clamor popular após cada desastre que assolava a cidade.

A Coordenadoria do Sistema de Defesa Civil do município do Rio de Janeiro (COSIDEC) é a mais antiga estrutura formal de Defesa Civil no país. Desde sua criação sua estrutura tem sido constituída, majoritariamente, por integrantes do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro (CBMERJ), o que a norteou sempre para as atividades de resposta e recuperação, o que mudou no ano de 2009 com a adesão da mesma aos ditames do MAH.

Em 1983, a estrutura estadual de Defesa Civil ganhou o status de Secretaria de Estado, cujo secretário era o Comandante-Geral do CBMERJ. Nos governos que se seguiram, a mesma teve a sua estrutura no governo alternada entre Coordenadoria de Estado, Subsecretaria de Estado e Secretaria de Estado, sendo na sua trajetória atrelada à Secretaria de Segurança Pública e Secretaria de Saúde em diferentes governos. Atualmente, a mesma possui status de Secretaria de Estado, sendo o CBMERJ subordinado a mesma cujo Secretário de Estado acumula o cargo de Comandante-Geral do Corpo de Bombeiros.

Igualmente, nos municípios do RJ, as demais estruturas da Defesa Civil mudam de pasta de acordo com o interesse político, sendo subordinadas em geral à Secretaria de Ordem Pública, mas também se subordinam à Secretaria de Meio Ambiente, Secretaria de Obras, Secretaria de Assistência Social. Infelizmente, as mesmas são tratadas como Corpos de Bombeiros municipais, sendo esta a visão dos seus gestores, governantes e da população. Ressalta-se que estas quase em sua totalidade não possuem orçamento, quando o possuem não são seus gestores que o executam.

Dentre os gestores de Defesa Civil nos municípios, existe um elevado número de integrantes do Corpo de Bombeiros, os quais em sua maioria buscam emprego na Defesa Civil a fim de fugir das atribuições e responsabilidades do CBMERJ, bem como perceberem uma remuneração adicional através de gratificações nos municípios. No entanto, trata-se de um contrato de risco, pois os prefeitos os contratam a fim destes serem os verdadeiros responsáveis quando da ocorrência dos desastres. Assim, os governantes reverberam a célebre frase: eu não sabia!

Culturalmente, a visão mais emblemática das ações de Defesa Civil relaciona-se ao socorro e assistência às vítimas, bem como as ações humanitárias aos flagelados. De fato, o Corpo de Bombeiros, como organismo de resposta, é a instituição que mais se identifica com a Defesa Civil, impregnando na maioria dos casos a mesma com a sua identidade. É comum, pois observar-se que nas Coordenadorias Municipais de Defesa Civil (COMDEC) replicam-se

os trabalhos realizados pelo Corpo de Bombeiros, como se fossem destacamentos29 da Corporação. Destaca-se que geralmente não possuem orçamento e que corte de árvores é o serviço mais prestado pela COMDEC. Pelo que já vimos: isso é Defesa Civil ou fazer defesa civil? Em tese, é os dois conceitos: Defesa Civil e Fazer defesa civil.

Ademais os Corpos de Bombeiros comporem o SINDEC como um órgão setorial pertencente à administração pública estadual, deve-se atentar que o mesmo não é a Defesa Civil, mas um integrante que opera em uma das fases de ações da mesma: a resposta. Assim, este não pode ter papel de protagonismo algum, pois caso isto esteja acontecendo é notório que se falhou na prevenção, preparação e mitigação.

A SEDEC/RJ tem procurado atuar nestas fases, vez que tem buscado ampliar e nivelar o conhecimento da doutrina de Defesa Civil no Estado a todos aqueles que operam na área. Os cursos objetivam a difusão da doutrina, fartamente documentada em manuais e normas disponíveis no endereço eletrônico da SNDC. Estes também orientam os participantes quanto a outras questões relevantes, tais como: a implantação de estruturas formais de Defesa Civil – COMDECs e NUDECs -; a realização de mapeamentos de riscos; e, a avaliação de danos, dentre outros.

Os cursos ministrados na EsDEC, também, servem de fóruns de discussão nos quais as experiências são compartilhadas por todos, criando um capital social importantíssimo para o desenvolvimento dos programas e políticas públicas de Defesa Civil, bem como se aproveitando dos já formados em diversas comunidades de risco.

Os estudos de caso são amplamente abordados e discutidos; enriquecendo assim, os próximos cursos. Esses propiciam soluções para problemas correlatos em outras comunidades de risco. Dessa feita, destaca-se o vultoso dinamismo no aprendizado, dado a diversidade de problemas envolvendo questões econômicas, ambientais, sociais e políticas.

Algumas estruturas municipais de Defesa Civil já são geridas e operadas por profissionais e não Bombeiros Militares, a exemplificar: Angra dos Reis. Pretende-se com o nivelamento a inclusão de todos para que haja uma perfeita sintonia entre os integrantes do sistema, criando uma grande rede de cooperação conectada. Todavia, ainda existem municípios no estado do RJ que não possuem Defesa Civil: Paracambi e Varre e Sai.

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Destacamento é a menor unidade prestadora de socorro do CBMERJ. Esta se subordina ao Grupamento, possuindo estrutura organizacional e operacional reduzida, sendo esta adaptada às características operacionais da região. Esta tem a função precípua de prestar a primeira assistência em sua região, sendo apoiada pelo grupamento, em casos que fujam a capacidade operacional para o atendimento.

Cabe à SNDC a articulação e coordenação dos sistemas, bem como fomentar a troca de informações entre os integrantes do sistema, incrementando assim o mesmo. Todavia, esta grande rede, ainda, possui vários pontos de fragilidade em virtude da sua falta de coesão, bem como em decorrência dos interesses políticos difusos e diversos, no entanto, a nova PNPDC em seu escopo procurou incrementar a integração do sistema como um todo.

O SEDEC/RJ tem em sua estrutura organizacional a Superintendência Operacional de Defesa Civil (SUOP), a qual instrumentaliza a articulação entre as 12 Regionais de Defesa Civil (REDEC), bem como com as COMDECs. À frente das REDECs estão Oficiais do CBMERJ, o que facilita a integração com às COMDECs, vez que a maioria dos gestores locais são Bombeiros Militares. Todavia, isso propicia alguns problemas já abordados nesta pesquisa.

De toda maneira, cabe salientar que os coordenadores das COMDEC possuem as mais variadas formações, origens culturais e, principalmente, experiência em Defesa Civil, o que se revela desta maneira, tendo em vista o prefeito ser o responsável pela indicação do Coordenador. Esses desconhecem a Defesa Civil e, principalmente, a sua importância.

Desta feita, a SEDEC/RJ sempre que possível mostra ao governante a importância e a conveniência da nomeação de um Coordenador e agente de Defesa Civil capacitado e experiente que se possível tenha sido capacitado, também, pela EsDEC. Quando inexiste esta possibilidade, a EsDEC, cumprindo seu papel de fomentação da doutrina de Defesa Civil, disponibiliza cursos aos Coordenadores e agentes de Defesa Civil a fim de integrá-los ao sistema e à rede de Defesa Civil. Isso é de suma importância, pois se passa a ter uma única doutrina no Estado com programas e políticas públicas de Defesa Civil similares, sendo essas adaptadas às peculiaridades de cada município.

Para tal, é necessário também que o Sistema Estadual de Defesa Civil forme uma consistente e vultosa rede de cooperação com os municípios. Teoricamente, os gestores municipais são doutrinados como cobrados pela SEDEC/RJ a desenvolverem anualmente o mapa de avaliação de riscos e ameaças30 e o plano de contingência31 local.

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O Mapa de Avaliação de Riscos e Ameaças é o instrumento legal onde estão mapeados todos os riscos e ameaças de desastres contidos nas comunidades de um município. Segundo a PNPDC o mesmo deve ser revisado anualmente.

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O Plano de Contingências é um documento oficial, no qual são elaboradas possíveis hipóteses de desastres e, consequentemente, a padronização das medidas para o seu enfrentamento. Nele estão definidas as responsabilidades e atribuições das agencias governamentais, comunidade, voluntariado, etc. Este deve ser desenvolvido, organizado, treinado e revisado, minimizando assim os efeitos do desastre.

O mapeamento deve se basear em informações, a saber: relatórios de avaliação de danos; dados estatísticos; histórico sobre índice pluviométrico; decretos de calamidade pública e situação de emergência; óbitos e, ações recuperativas relacionadas, também, ao histórico de desastres na região. Estes tentarão prever os desastres naturais associados aos fenômenos da natureza a fim de determinar um padrão e assim agir preventivamente, objetivando a RRD e, conseqüentemente, a redução do número de óbitos.

Todavia, a maioria das COMDECs não executa o mapeamento, muito menos, elabora o plano de contingências, vez que, o prefeito passaria a tomar ciência oficialmente dos riscos e, quando houvesse um desastre não poderia se esquivar dizendo: eu não sabia! O Coordenador não me informou de nada disso! Assim, estabelece-se uma relação simbiótica entre o prefeito e o Coordenador de Defesa Civil, ou seja, eu lhe dou uma gratificação e você não me importuna com problemas que você nem sabe se acontecerão.

De fato, as COMDECs não conseguem, em muitos casos, sintonizarem-se às doutrinas e ditames da SEDEC/RJ, vez que o fator político local e a falta de querência dos governantes quanto à responsabilização influenciam, sobremaneira, os programas e políticas públicas de Defesa Civil. Desta feita, é muito comum que as COMDECs exerçam funções diversas das que norteiam a Defesa Civil, em alguns casos dicotomicamente: as Defesas Civis são os maiores desmatadores dos municípios, vez que são os responsáveis pelo corte de árvores, geralmente oriundos de pedidos político. Devendo ser lembrado de que meio ambiente e sustentabilidade integram todas as pastas, inclusível da Defesa Civil.

As COMDECs, em sua maioria formada por Bombeiros Militares, inevitavelmente, atendem as demandas e conveniências políticas dos governantes, os quais desejam que a Defesa Civil tenha postura resolutiva em relação aos principais problemas das comunidades de risco, ou seja, a parte visível do voto. Assim, começa-se a entender o porquê, também, dos políticos não investirem na prevenção.

É fato a falta de continuidade dos programas e políticas públicas de Defesa Civil nos municípios, vez que os quadros que compõem a estrutura municipal renovam-se a cada governo, sendo que o novo governante tem uma tendência natural a não dar continuidade aos programas da gestão anterior, dada a necessidade de extirpar politicamente a corrente adversária que saiu do governo e, assim, monopolizar o capital político regional. Esses fatos prejudicam, sobremaneira, a continuidade administrativa e a articulação do sistema de Defesa Civil.

Desta feita, são de vital importância o comprometimento e apoio incondicional dos governantes, sendo este talvez o hub32 mais importante da rede de defesa Civil, pois a rede local de Defesa Civil - a mais importante em todo o sistema – necessita de uma articulação perfeita entre os órgãos setoriais: governantes, e, NUDECs e de apoio: empresariado, ONGs, voluntariado e a sociedade civil organizada, sendo todos estes integrados e articulados pela COMDEC. Assim, destaca-se que, sem a falta de apoio político, a COMDEC pouco tem a fazer para a Defesa Civil.

Nessa esteira, comenta-se que o SINDEC, ainda, não conseguiu estruturar um banco de dados consistente cujos conteúdos englobassem toda a gama de eventos adversos que assolam o estado do RJ. Ainda assim, a SEDEC recente e incipientemente começou a contabilizar as notificações preliminares de eventos adversos que impactaram os municípios no RJ.

Sendo assim, o MAH preconiza, também, a criação e atualização constante de banco de dados sobre eventos adversos e desastres, vez que, as experiências ao redor do mundo indicam que um banco de dados consistente subsidia a tomada de decisão precisa e eficaz nas ações preventivas e a RRD; reduzindo assim, o número de óbitos decorrentes dos desastres e a desigualdade socioeconômica.

Internacionalmente, destacam-se o Center of Research on the Epidemology of Desasters33 (CRED), o Global Risk Identification Programme34 (GRIP), a La Red35, dentre tantos outros organismos e organizações da ONU para o desenvolvimento humano.

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Hubs são pontos – pessoas - mais importantes de uma rede de relacionamento, sendo estes os mais influentes. Eles compartilham,influenciam, recrutam, analisam..., ou seja, facilitam a troca e a interação entre os integrantes da rede de relacionamento.

33

O Centro de Pesquisa em Epidemiologia em Desastres é um centro da Universidade Católica de Louvain. O mesmo desenvolve pesquisas, há trinta anos, na área de resposta e recuperação de desastres. Igualmente, o CRED promove capacitação técnica em emergências humanitárias, tendo especial foco em epidemiologia e saúde pública.

34

O Programa de Identificação do Risco Global visa à promoção do desenvolvimento sustentável através da identificação, monitoramento e redução do risco de desastres. O mesmo foi lançado em 2007 pela EIRD em complementação ao MAH. O GRIP norteia o seu trabalho sobre três aspectos, a saber: a melhoria da coordenação global, regional e nacional; a promoção da qualidade de vida, pautando-se em padrões mínios de identificação do risco; e, o fornecimento de suporte técnico a fim de que a ações de identificação e avaliação dos riscos sejam desenvolvidas.

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Desde a década de 90, a noção de risco de desastre tem sido socialmente construída e reconhecida academicamente no campo social ao redor do mundo. Assim, surgiu a La Red, sendo esta uma rede de estudos sociais na prevenção de desastres na América Latina. Esta integra outras disciplinas a fim de compreender os desastres.

De tudo exposto até aqui, nota-se que a tarefa do gestor da Defesa Civil municipal é árdua, pois como vimos o mesmo dificilmente tem apoio dos governantes. Assim, cabe ao gestor, sério e comprometido com os ideais da Defesa Civil, identificar e motivar todos aqueles com potencial de auxilio e que se predispuserem a colaborar.

Nesse caso, a informalidade no relacionamento passa a ser o diferencial, pois a rede de colaboradores, interna e externamente à administração municipal, passa a ser norteada pelas relações interpessoais; havendo assim, uma constante troca de informações e articulação, a qual corrobora para o empoderamento, informal, do sistema de defesa civil local. Todavia, existe um limite, vez que o Coordenador de Defesa Civil não pode crescer politicamente no município a revelia do prefeito. Caso isso aconteça, o mesmo será sumariamente exonerado, pois os votos gerados pela Defesa Civil devem ir para o prefeito e não para o Coordenador, a não ser que o prefeito permita esta transferência.

Igualmente, comenta-se que a articulação política, bem como dos meios para o desenvolvimento dos programas e políticas públicas de Defesa Civil, também, pode ser feita pela cooperação técnica, administrativa e política entre municípios vizinhos, que geralmente compartilham problemas semelhantes, tendo em vista possivelmente terem o mesmo clima, índice pluviométrico e bacia hidrográfica. Nesse sentido, a REDEC assume papel preponderante nesta integração e coordenação.

De tudo exposto, é fato que as prefeituras mais estruturadas e articuladas administrativa e politicamente, quanto ao mister da Defesa Civil, realizam qualitativa e quantitativamente mais ações de prevenção, preparação e mitigação que as demais, minimizando assim os efeitos dos eventos adversos, exemplificando temos as do município do RJ e a de Angra do Reis.