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Kooperatif Muafiyeti İle İlgili Özel Durumlar a) Deneme İşlemleri

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3- Kooperatif Muafiyeti İle İlgili Özel Durumlar a) Deneme İşlemleri

Em Fantasia de Compensação (2004), Rodrigo Braga, artista residente em Recife, premiado com bolsa pelo 45º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, utilizou como parte do seu trabalho uma carcaça de animal – segmentos da cabeça de um cachorro, que foram aderidos à imagem da sua própria face (focinho, olhos, orelha e fronte). A proposta foi trabalhar o binômio força e fraqueza – a força do cão feroz, compensando a fraqueza do artista.

O trabalho é bastante autobiográfico, embora possamos admiti- lo sem minhas referências pessoais. Para quem vê o trabalho sem conhecer nada sobre mim vai, com um pouco de sensibilidade, fruir pela questão da antropofagia. Estou me valendo dos poderes simbólicos de um ser diferente de mim, daí a compensação. Estou colocando uma máscara de outro ser que, penso ser mais forte, tem dentes, força,

coragem – é um cão feroz (Rodrigo Braga12, trecho de entrevista).

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Entrevista realizada com o artista, com o uso do recurso MSN, em 2005. Depois de trascrito o material retornou para leitura do autor e foi editado conjuntamente pela entrevistadora e entrevistado, sendo assinado o devido termo de consentimento informado como preconizado pela resolução 196/96 ascerca da pesquisa com seres humanos. Doravante, todas as falas do artista apresentadas no texto resultam da entrevista

Caixa de texto 9 – Breve adendo sobre ética animal

A partir dos anos setenta, a discussão sobre a ética animal aplicada aos experimentos científicos ganhou impulso (Paixão, 2001). A primeira lei visando a proteção dos animais na experimentação científica data ainda do século XIX - The Cruelty to Animals Act 1876. No livro The Principles of Humane Experimental Technique (1959), W. M. S. Russel e R. L. Burch sintetizaram o princípio dos “3 R”: replacement (substituição), reduction (redução) e refinement (refinamento). Animais devem ser substituídos por outros métodos de experimentação sempre que possível; deve ser usado o mínimo de animais possível e, além disso, o sofrimento e desconforto animal devem ser minimizados ao máximo. Foi nos anos oitenta que os ‘3 R’ se incorporam à legislações, o que nos anos noventa culminou com a entrada em cena de instâncias regulamentadoras. No Brasil, a primeira lei neste sentido data de 1979 (Lei 6638, de 8 de maio de 1979), tendo sido seguida por dois projetos de lei: Projeto de Lei nº 1.153 de 1995 de autoria do deputado Sérgio Arouca) e Projeto de lei nº 3964 de 1997 – FESBE, SBPC, FIOCRUZ e Academia Brasileira de Ciências). De acordo com o levantamento feito por Paixão em 2001, encontra-se em vigor a Lei nº 9.605 de 12 de fevereiro de 1998, regulamentada pelo Decreto nº 3.179 de 21 de setembro de 1999.

O animal foi obtido junto ao Centro de Vigilância Ambiental (CVA) de Recife, depois de várias visitas à instituição. No documento de autorização para o manuseio da sua carcaça estava expressa a finalidade artística da pesquisa, o que se tornou possível graças à legitimidade da instituição acadêmica. Conforme fala de Rodrigo Braga:

Passei um longo tempo para convencê-los. O chefe do centro de vigilância ambiental (carrocinha) topou ceder o animal depois de ver que a proposta era séria. Gosto de frisar que o corpo saiu de lá com uma autorização para ‘pesquisa de fins artísticos’ e não médicos como de costume (Rodrigo Braga, trecho de entrevista).

Rodrigo Braga entregou ao diretor do CVA dois documentos. No primeiro, expedido pela Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco atestava -se a sua participação no 45º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco. No segundo, assinado por uma professora da Universidade Federal de Pernambuco, comprovava-se a filiação acadêmica do projeto. Veja-se trecho do segundo documento assinado em 06 de agosto de 2004:

O artista Rodrigo Braga, desenvolve projeto ‘A manipulação digital da fotografia como meio de expressão artística’, (...) ao qual tenho dado orientação teórica.

realizada, bem como os documentos e imagens mencionados . O contato com o artista se deu inicialmente pela visita a sua obra quando exposta na mostra O Corpo no Itaú Cultural-SP, em 2004.

Figura 20 – Foto de divulgação do trabalho Fantasia de Compensação, 2004

Para realizar o referido projeto, Rodrigo Braga terá que utilizar a carcaça de um cão, que será manipulado com os cuidados necessários e acompanhamento do veterinário Aristófanes de Castro Shculer. Neste sentido, solicito ao CVA a liberação de um animal, que sofreu eutanásia, conforme entendimento realizado pelo artista e vossa senhoria (documento cedido pelo artista).

Para preservá-los de possíveis críticas, além dos documentos foram necessários dois outros cuidados: a seleção de um veterinário reconhecido na cidade e a realização do procedimento cirúrgico no próprio Centro de Vigilância Animal. Por não ser o CVA uma instituição de pesquisa, não conta com uma comissão de bioética, daí a necessidade de manifestação de uma comissão interna da Universidade Federal de Pernambuco, conforme atestou João Alves, gerente do referido centro:

(...) Aí veja, como se tratava de um trabalho científico, ele tinha uma orientadora, como nós não somos um centro de pesquisa, nos precisaríamos de um parecer para tudo o que envolve, mesmo que não fosse haver nenhum processo de manipulação dos animais, de um parecer de uma comissão de bioética para que fosse feito. Daí ele trouxe, satisfez as necessidades (João Alves13, trecho de

entrevista).

Ainda segundo ele, para a aprovação do pleito do artista foi decisivo que se tratasse de um trabalho científico. Caso contrário, o projeto teria que ser anteriormente aprovado pelo setor jurídico da Secretaria de Saúde.

A respeito da substituição do animal na experimentação artística em questão, justificou que o artista alegara a necessidade de captação de imagens e que o procedimento constitui parte da rotina do centro.

Dolores Galindo – Veja, porque em ética animal a gente tem o princípio da substituição, quer dizer se o animal pode ser substituído por um outro recurso, seja na experimentação artística ou científica, isto deve ser feito...

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Entrevista concedida à autora pelo Gerente do Centro de Vigilância Ambiental de Recife, João Alves, em 2006. Foi realizada por telefone, sendo também assinado termo de consentimento informado enviado por fax. Doravante todas as falas mencionadas foram retiradas da entrevista cujo texto foi lido e aprovado pelo entrevistado. O contato com o gerente foi feito pela autora com indicação do artista Rodrigo Braga.

João Alves - Deve ser substituído, mas não era o caso. O animal foi capturado pelas ruas, esperou-se o tempo regulamentado pela lei, foi eutanasiado. Quer dizer ele já estava eutanasiado, seria incinerado. Mas antes de ele ser incinerado, a gente permitiu que ele batesse fotos. É diferente, eu concordo, sempre que você puder num trabalho artístico ou científico, que possa trazer algum tipo de desconforto ao animal se você tem a possibilidade de usar um outro artifício que não seja um animal, eu acho que deve ser feito (Trecho de entrevista).

Afirmou ainda, ter objeções quanto ao uso de animais vivos ou que sejam mortos para fins artísticos. Trata-se de uma questão de difícil resposta porque grande parte das pesquisas com objetivos médicos e vitais justifica o uso de animais em suas experimentações com o argumento de que o sofrimento provocado no animal contribuirá para o alívio do sofrimento de diversos humanos (Singer, 2002). Porém, como justificar o uso de animais quando a pesquisa não apresenta finalidades médicas ou vitais? As justificativas do artista e do gerente do CVA traduziram o problema ético como aplicação de uma rotina pré- estabelecida nos centros de vigilância e nem por isso consensualmente aceita – a eutanásia de animais.

Dolores Galindo: E como o senhor vê, em geral, o uso de animais em experimentações artísticas?

João Alves – Com reservas. No caso, o trabalho que ele fez usava um animal eutanasiado. Não sei se você conhece o processo, o animal que é capturado na rua, numa área que é endêmica para raiva que é o Recife. Esse animal passa aqui três dias, aguardando um proprietário e depois ele é eutanasiado, sacrificado, mas a gente chama eutanásia porque é uma morte sem sofrimento, sem dor. Então não ia trazer nenhum transtorno ao animal. Então desde que não cause nenhum sofrimento, nenhum dano ao animal, que não cause nenhum prejuízo ao bem estar do animal... (Trecho de entrevista)

Para o artista, o trabalho só poderia ser feito com o uso de um animal real, em função do desejo de vivenciar o processo e do resultado técnico esperado.

Dolores Galindo: O ‘Fantasia de Compensação’ poderia ter sido feito sem o uso do animal eutanasiado?

Rodrigo Braga: De maneira alguma! Muita gente falou para eu fazer tudo virtual, mas tem duas questões: nunca ficaria tecnicamente como eu desejava e, sobretudo, me interessava a vivência do trabalho (trecho de entrevista).

Quando indagado sobre a eutanásia, o artista afirmou que muitos animais são eutanasiados cotidianamente, de modo que o procedimento seria adotado independente da sua pesquisa. O artista mostrou preocupação com a banalização do uso de animais, afinal, ele teria aberto um precedente. O gerente do Centro de Vigilância Ambiental, por sua vez, não apresentou preocupações, pois segundo ele, os procedimentos éticos foram adotados.

Outros animais e seus derivados são utilizados por Rodrigo Braga, tais como peixes e carne bovina, cujo consumo humano se encontra normatizado. Em 2006, na série Da Compaixão Cínica, o artista voltou a explorar sua relação com animais, literalmente, moldando-se às suas formas: das vacas, o artista misturou suas mãos, às patas; dos peixes, colocou sua cabeça dentro da cabeça de um deles e das galinhas, juntou seus pés aos pés do animal. Desta vez usou partes dos corpos de animais, que possivelmente comprou em açougues ou em outro estabelecimento autorizado para comercio de carne animal.

Fantasia de Compensação tem como um dos seus efeitos visuais causar a

impressão de que o artista realizou uma cirurgia, que uniu seu rosto ao focinho do cão. Mas, o processo real consistiu na utilização de um modelo de gesso da face do artista e na manipulação digital da imagem. Todo o trabalho foi documentado e as imagens aludem à cena médico-cirúrgica quando mostram uma maca e o artista trajado como um paciente. Nem por isso, as manifestações de indignação deixaram de acontecer, as quais, segundo ele, foram abrandadas depois de identificada a diferença entre o efeito visual e o procedimento real. Segundo Rodrigo Braga, a escolha do cachorro foi intencional pelo caráter polêmico que proporcionaria ao trabalho.

(...) depois do choque inicial, e de entender a relação de ‘falsa’ aplicação da tecnologia, essa idéia se desfaz. Em geral depois de um tempo, as pessoas passam a adorar o trabalho e a defendê-lo diante de outros olhares. Ainda continua mexendo com o imaginário delas e provocando falsa sedução (Rodrigo Braga, treho de entrevista)

2.4. Quando não é suficiente importar procedimentos da saúde: o caso