• Sonuç bulunamadı

Inicia-se a análise com uma descrição dos pontos de manipulação dos textos de partida, cujos distintos níveis de metaforicidade são explicados à luz da LSF (cf. Capítulo 2). O objetivo é mostrar por que cada ponto é mais ou menos metafórico para, em seguida, investigar o impacto do nível de metaforicidade na estrutura retórica.

Como apontado no Capítulo 3, o desenho experimental desta pesquisa envolveu a geração de duas versões análogas de um texto para serem distribuídas como textos de partida entre os sujeitos que participaram dos experimentos. A partir de um único texto inicial, foram criadas duas versões (alfa e beta) de modo que, com o mínimo de variação possível na sequência das informações e no número total de palavras e caracteres do texto, cada versão comportasse cinco passagens mais metafóricas que a outra. As duas versões são reproduzidas a seguir (FIGURA 11 e FIGURA 12), sendo as passagens em negrito e as passagens sublinhadas em cada versão respectivamente aquelas mais e menos metafóricas que as respectivas passagens análogas na outra versão.

Crumpling a sheet of paper seems simple and doesn't require much effort, but explaining why the crumpled ball behaves the way it does is another matter entirely. A scrunched paper

ball is more than 75 percent air. Yet it displays surprising strength and resistance to further compression, a fact that

has confounded physicists. A report in Physical Review Letters, though, describes one aspect of the behavior of crumpled sheets: how their size changes in relation to the force they withstand.

A crushed thin sheet is essentially a mass of conical points connected by curved energy-storing ridges. When the sheet is further compressed, these ridges collapse and smaller ones form, increasing the amount of stored energy within the wad. Scientists at the University of Chicago modeled how the force required to compress the ball relates to its size. After the

crumpling of a sheet of thin aluminized Mylar, the

researchers placed it inside a cylinder. They equipped the cylinder with a piston to crush the sheet. Instead of collapsing to a final fixed size, the height of the crushed ball continued to decrease, even three weeks after the

application of weight.

190 palavras

971 caracteres (sem espaço) 1.159 caracteres (com espaço) 2 parágrafos

10 sentenças

FIGURA 11 - Versão alfa do texto de partida

Manipulação 1 ! Manipulação 2 " Manipulação 3 " Manipulação 4 ! Manipulação 5 " Manipulação 6 ! Manipulação 7 ! Manipulação 8 " Manipulação 9 ! Manipulação 10 "

Crumpling a sheet of paper seems simple and doesn't require much effort, but explaining the crumpled ball’s behavior is another matter entirely. Once a paper ball is scrunched, it is more than 75 percent air. Yet it displays surprising strength and resists further compression, a fact that has confounded physicists. A report in Physical Review Letters, though, describes one aspect of the behavior of crumpled sheets: changes in their size in relation to the force they

withstand.

A crushed thin sheet is essentially a mass of conical points connected by curved ridges, which store energy. In the event

of further compression of the sheet these ridges collapse and

smaller ones form, increasing the amount of stored energy within the wad. Scientists at the University of Chicago modeled the relation between compression force and ball size. The researchers crumpled a sheet of thin aluminized Mylar and then placed it inside a cylinder equipped with a piston to crush the sheet. Instead of collapsing to a final fixed size, the height of the crushed ball continued to decrease, even three weeks after the researchers had applied the weight.

186 palavras

957 caracteres (sem espaço) 1.141 caracteres (com espaço) 2 parágrafos

11 sentenças

FIGURA 12 - Versão beta do texto de partida

As passagens análogas com diferentes níveis de metaforicidade nas duas versões são aqui denominadas de pontos de manipulação, sendo que cada versão apresenta dez desses pontos: cinco mais metafóricos (") e cinco menos metafóricos (!) que aqueles análogos na outra versão. Na versão alfa, o padrão é

! " " ! " ! ! " ! ",

ao passo que, na versão beta, o padrão é inverso, ou seja,

" ! ! " ! " " ! " !. Manipulação 1 " Manipulação 2 ! Manipulação 3 ! Manipulação 4 " Manipulação 5 ! Manipulação 6 " Manipulação 7 " Manipulação 8 ! Manipulação 9 " Manipulação 10 !

Como mencionado no Capítulo 3, as distintas intercalações dos pontos com diferentes níveis de metaforicidade objetivaram evitar qualquer possibilidade, ainda que remota, de os sujeitos identificarem a variável experimental.

A seguir são apresentados os diferentes pares correspondentes a cada ponto de manipulação para as versões alfa e beta, bem como uma breve explicação das diferenças de níveis de metaforicidade, com base no arcabouço teórico apresentado no Capítulo 2. Note-se que em negrito estão as versões mais metafóricas de cada par.

Ponto de Manipulação 1:

alfa (!): the crumpled ball behaves the way it does

beta (!): the crumpled ball’s behavior

O significado construído em alfa através de uma figura de comportamento, realizada por um complexo oracional (i.e., duas orações, uma principal e uma hipotática realizada por “the way it does”), é construído em beta através de um elemento, realizado por um grupo nominal, no qual o processo comportamental “to behave” se torna Ente, de forma que “o comportamento da bola” é o significado em foco e não mais o participante “ball” (bola). Em alfa, esse participante “ball” possui um processo principal a ele atribuído: “behaves”. Como Halliday e Matthiessen (2004) afirmam, toda oração, ou unidade de predicação, pode ser negada, contestada, reafirmada, além de poder ser localizada no espaço e no tempo (através dos sistemas de tempo e aspecto e de modo) e modalizada (através de recursos de modalidade e modulação); já grupos nominais, que podem ser participantes de uma oração e assim expandir o potencial de significado da língua, condensam significados e os reificam, como se tratasse de uma entidade, não sujeita a negação, contestação ou modalização de suas relações internas. Assim, na versão alfa, é possível negar com “the crumpled ball does not behave the way it does [in other situations]”, enquanto, em beta, a negação não procede porque a questão não é o “não comportamento da bola”, um absurdo, mas sim uma mudança no comportamento da bola.

Ponto de Manipulação 2:

alfa (!): A scrunched paper ball

Em alfa, há um elemento que condensa o significado construído por uma sequência em beta (duas figuras, sendo que uma – de fazer, construída em torno do processo “is scrunched” – intensifica a outra – de ser, construída em torno do processo “is” – em termos temporais). Em termos léxico-gramaticais, verifica-se que o significado é realizado em alfa por um grupo nominal, enquanto em beta é realizado por parte de um complexo oracional. É interessante destacar que, ao ser retomado por uma relação de anáfora coesiva (“Once a paper ball is scrunched, it...”), o Ente “ball”, enquanto participante do processo “scrunched” em beta, adquire o estatuto de nome com uma atribuição um tanto quanto ambígua: o pronome “it” pode ser lido como “paper ball” ou como “paper ball that has been scrunched”. A implicação disso é que se pode interpretar que é a bola de papel (seja qual o seu estado) que tem ar em 75% de sua constituição ou que é somente após o amassamento que a bola de papel tem essa porcentagem de ar em sua constituição.

Ponto de Manipulação 3:

alfa (!): [displays] surprising strength and resistance to further compression

beta (!): [displays] surprising strength and [it = scrunched ball] resists further compression

Alfa apresenta significado mais metafórico em razão de condensar em um elemento, participante Atributo do processo relacional “displays”, o significado construído em beta por um elemento, participante de uma figura de ser, mais uma figura de fazer: de um lado, o participante Atributo do processo relacional “displays”, realizado por “surprising strength”, e, de outro, a figura construída por um processo material, “resists”, cujo participante Ator pode ser identificado por elipse como “the ball” e cujo outro participante “further compression” é Escopo. Em termos léxico-gramaticais, tem-se em alfa um grupo nominal metafórico (MATTHIESSEN, 1995), “resistance to further compression”, o qual é realizado, em beta, como uma oração, “resists further compression”. Observe-se que aqui cabe considerar o grupo nominal “surprising strength”, porque, em alfa, o Epíteto “surprising” pode ser interpretado como se referindo apenas ao Ente “strength” ou também ao Ente “resistance”, enquanto em beta essa qualidade só pode ser atribuída ao Ente “strength”.

Ponto de Manipulação 4:

alfa (!): how their size changes in relation to the force they withstand

O significado em beta é mais metafórico porque condensa em um elemento a figura construída em alfa. Em termos léxico-gramaticais, o elemento de beta é realizado por um grupo nominal, enquanto a figura em alfa é realizada por uma oração na qual há um processo material (“changes”), uma circunstância de trajeto (“in relation to the force they withstand”) e um participante (“their size”), que, sob a perspectiva da Transitividade, é Ator, mas, sob a perspectiva da Ergatividade, é Meio (e não o Agente do processo). Já em beta, a entidade “changes” não é Ator nem Meio e as relações de “o que produz mudanças em que” são muito mais implícitas e devem ser explicitadas pelo leitor. Em outras palavras, o que era um Ator (“size”) é retextualizado como uma circunstância de localização espacial (“in their size”), sendo que essa circunstancialização gera novos significados: as mudanças no tamanho da bola são o resultado da força que lhes é aplicada ou simplesmente as mudanças no tamanho da bola são observadas / descritas comparativamente com a força a que ela é capaz de resistir (ou seja, não necessariamente há aplicação de uma força). Adicionalmente, considerando-se a sentença em que esse ponto de manipulação está inserido, a versão mais metafórica apresenta um rol maior de interpretações: o artigo mencionado descreve “como”, “por que”, “quando”, “em que situações” há mudanças no tamanho da bola de papel ou simplesmente descreve o fenômeno / fato de a bola mudar de tamanho.

Ponto de Manipulação 5:

alfa (!): by curved energy-storing ridges

beta (!): by curved ridges, which store energy.

A versão alfa é mais metafórica porque condensa em um único elemento a figura de fazer (de beta) “which store energy”, que expande o elemento “curved ridges”. Enquanto em beta se tem uma figura em que fica explícito que “ridges” constituem um participante Ator do processo material “store” cuja Meta é “energia”, em alfa essa configuração é mais implícita: “energy-storing” é uma qualidade dos “sulcos” (“ridges”), a qual pode significar finalidade ou função (um “sulco” tem a finalidade ou função de “armazenar energia”), propriedade (é característica de qualquer “sulco” armazenar energia) ou meio (um “sulco” é meio de se armazenar energia). Em termos léxico-gramaticais, a versão alfa é realizada apenas por uma frase preposicionada, enquanto a versão beta é realizada por uma frase preposicionada elaborada por uma oração hipotática. Ou em outras palavras, a oração hipotática que faz parte de beta é realizada como Epíteto (ou qualidade) do Ente “ridges” do grupo nominal que

constitui a frase preposicionada da versão alfa. Novamente, em beta, há uma clara relação entre o Ator “ridges” e o processo “store”; em alfa, essa relação precisa ser interpretada pelo leitor / tradutor a partir da compreensão do significado construído pelo pré-modificador “energy-storing” (i.e., qualidade, finalidade, função ou propriedade dos sulcos).

Ponto de Manipulação 6:

alfa (!): When the sheet is further compressed

beta (!): In the event of further compression of the sheet

A versão beta é mais metafórica porque a figura de fazer que constitui parte de uma sequência em alfa (intensificando a outra figura em termos temporais) é condensada em alfa por uma circunstância mais em termos de condição do que de tempo (embora sejam possíveis ambas as interpretações dado o limite tênue entre esses dois tipos de circunstância). Em beta, o significado é construído através de uma circunstância realizada por uma frase preposicionada, ao passo que a versão alfa apresenta uma figura realizada por uma oração hipotática passiva introduzida pelo conector “When”. Também é interessante apontar que, sob a perspectiva da ergatividade, a realização léxico-gramatical em alfa deixa claro que existe um Agente que comprime a lâmina (embora esse Agente não seja explicitado, ele é passível de ser compreendido como sendo o cientista que faz o experimento), ao passo que a realização léxico-gramatical em alfa torna o significado ambíguo: não se sabe se a lâmina se comprime sozinha ou se algo / alguém a comprime. Trata-se de uma condensação de significados que demanda compreensão do leitor / tradutor.

Ponto de Manipulação 7:

alfa (!): how the force required to compress the ball relates to its size

beta (!): the relation between compression force and ball size

A versão beta é mais metafórica porque consiste em um elemento, que é realizado por um grupo nominal e reifica uma figura da versão alfa, a qual é realizada por uma oração finita introduzida pelo relativo “how”, dentro da qual também se encontra uma oração não finita encaixada (“required to compress the ball”). Mais uma vez, sob a perspectiva da ergatividade, têm-se formulações léxico-gramaticais que tornam implícitas e explícitas a agentividade: em

alfa, sabe-se que a força comprime a bola; porém, em beta, não fica claro se a referência é à força de compressão (força para comprimir) ou à força da compressão (força resultante da compressão). Além disso, a versão beta não realiza um correspondente para “required”, o qual sugere a presença de um participante que “requer” que seja feita a compressão; com isso, constrói-se um significado distinto daquele identificado pelo grupo nominal “compression force”, que sugere a existência de uma entidade que existe independentemente de a compressão ser ou não realizada e independentemente de haver ou não um agente externo exercendo força ou observando a ação da força. Adiciona-se a isso a observação de que, na versão mais metafórica também não fica claro o que é comprimido: seria a própria bola que é comprimida ou é a bola que comprime alguma coisa dependendo do seu tamanho?

Ponto de Manipulação 8:

alfa (!): After the crumpling of a sheet of thin aluminized Mylar, [the researchers placed it]

beta (!): The researchers crumpled a sheet of thin aluminized Mylar and then [placed it]

O significado realizado em beta como uma sequência de figuras de fazer é apresentado como uma circunstância de localização temporal em alfa, a qual, portanto, corresponde à versão mais metafórica. Em termos léxico-gramaticais, enquanto a versão alfa, mais metafórica, consiste em uma circunstância realizada por uma frase preposicionada, a versão beta, menos metafórica, é realizada por uma oração complementada pelo conectivo temporal “and then”, o qual corresponde à preposição “After” da versão beta e, na versão alfa, introduz uma oração seguinte, paratática, a qual por sua vez expande a figura de fazer construída em “The researchers crumpled a sheet of thin aluminized Mylar”. Novamente, a condensação de significados em alfa torna o agente “researchers” implícito ou a ser inferido pelo leitor / tradutor, enquanto em beta o Ator e Agente “researchers” do processo “crumpled” é explicito, assim como a Meta “a sheet of thin aluminized Mylar”. Além disso, em alfa, a compreensão de questões de aspecto e tempo fica condicionada à interpretação do processo “placed”, sem o qual não se pode identificar se a circunstância se trata de comprimir a bola no geral, comprimi-la alguma vez no passado ou comprimi-la em algum momento no futuro. Outro ponto a ser salientado é que tampouco é explícito, na versão alfa, se a bola, por algum motivo, se amassa / embola ou se sofre a ação de um agente externo.

Ponto de Manipulação 9:

alfa (!): inside a cylinder. They equipped the cylinder with a piston

beta (!): inside a cylinder equipped with a piston

O conteúdo ideacional experiencial da versão beta, mais metafórica – que consiste em uma circunstância de localização espacial realizada por uma frase preposicionada introduzida pela preposição “inside” e elaborada pela oração encaixada não finita “equipped with a piston” –, é realizado, na versão alfa, pelo elemento de uma figura de fazer – a frase preposicionada “inside a cylinder” (uma circunstância de localização espacial) – e por uma outra figura de fazer, a oração “They equipped the cylinder with a piston”, na qual o Ente “cylinder” é retomado como participante Meta do processo material “equipped”. Aqui cabe destacar que a versão menos metafórica, além de apresentar o participante Ator do processo material “equipped” (“They” = os pesquisadores), o qual não é realizado na versão mais metafórica, também apresenta uma instância de coesão lexical por repetição entre “a cylinder” e “the cylinder”. Ademais, observa-se que, na versão beta, não se sabe se a qualidade “equipped” é intrínseca ao cilindro (i.e., o cilindro já vem equipado com o pistão) ou se esse instrumento foi colocado / acrescentado posteriormente por algum agente, que pode corresponder tanto aos pesquisadores como a qualquer outro indivíduo.

Ponto de Manipulação 10:

alfa (!): even three weeks after the application of weight

beta (!): even three weeks after the researchers had applied the weight

De um lado, a versão mais metafórica consiste em uma circunstância realizada por grupo adverbial. De outro lado, a versão menos metafórica é uma figura de fazer realizada por uma oração hipotática finita (de tempo), na qual, ao contrário da versão alfa, está explícito o participante Ator, “the researchers”, do processo material “had applied”. Em outras palavras, enquanto em beta é possível identificar “quem faz o quê”; em alfa, o agenciamento tem que ser decidido / interpretado pelo leitor / tradutor com base na sua compreensão.

Como mostrado nesse último ponto de manipulação e também evidenciado na análise dos demais pontos de manipulação, a compreensão exerce um papel significativo para a interpretação do leitor / tradutor. Trata-se, como apontado no Capítulo 2, do terceiro

condicionamento apresentado por Steiner (2001a, 2001b) como fator para o fenômeno da (des)metaforização (os outros dois são as diferenças tipológicas e de registro entre as línguas envolvidas).