Dado o quadro geral, procede-se a um exame das primeiras soluções à luz do seu nível de metaforicidade em relação ao nível de metaforicidade dos pontos de manipulação do texto de partida e, quando aplicável, a um exame das soluções definitivas em relação às soluções intermediárias. Como explicado no Capítulo 3, foram classificadas como “análogas” as ocorrências de soluções cuja escrita na língua de chegada envolvesse significados construídos através de relações com nível de implicitude e explicitude semelhante ao das relações estabelecidas nos significados da escrita na língua de partida. Foram classificadas como “não análogas” as ocorrências de soluções cuja escrita na língua de chegada envolvesse significados com maior nível de implicitude ou explicitude que aqueles da escrita na língua de partida. Novamente, como mostra a TABELA 11 a seguir, os dados são inicialmente analisados de forma global, sem a separação pelo perfil dos sujeitos, a qual será introduzida a partir do GRÁFICO 5.
TABELA 11 - Número absoluto e frequência relativa, por versão, das primeiras soluções dos pontos de manipulação no que diz respeito ao nível de metaforicidade em relação ao texto de partida
Nível de
metaforicidade em relação ao texto de partida
Brasileiros Alemães
alfa beta alfa beta
n % n % n % n %
Análogo 57 71,25 67 83,75 58 72,50 65 81,25
Não análogo 23 28,75 13 16,25 22 27,50 15 18,75
Total 80 100,00 80 100,00 80 100,00 80 100,00
Como mostra a TABELA 11, a tendência tanto para a versão alfa como para a versão beta é que a primeira solução tenha grau de metaforicidade semelhante ao do texto de partida (superior a 70%). O teste de Fisher indica que a diferença de 12,5 pontos percentuais é significativa para os brasileiros (p = 0,044), mas a diferença de 9,25 pontos percentuais não é significativa para os alemães (p = 0,130). A razão para tal será discutida após a interpretação da TABELA 12 e da TABELA 13 a seguir, que apresentam os mesmos dados distribuídos por versão e ponto de manipulação.
TABELA 12 - Número absoluto de ocorrências por versão, ponto de manipulação e tendência da metaforicidade da primeira solução em relação ao texto de partida (sujeitos brasileiros)
Versão Ponto de manipulação Tendência da primeira solução Total
análoga não análoga
alfa 1 6 2 8 2 8 0 8 3 5 3 8 4 8 0 8 5 2 6 8 6 7 1 8 7 6 2 8 8 0 8 8 9 8 0 8 10 7 1 8 Total 57 23 80 beta 1 7 1 8 2 8 0 8 3 6 2 8 4 7 1 8 5 8 0 8 6 4 4 8 7 5 3 8 8 7 1 8 9 8 0 8 10 7 1 8 Total 67 13 80
TABELA 13 - Número absoluto de ocorrências por versão, ponto de manipulação e tendência da metaforicidade da primeira solução em relação ao texto de partida (sujeitos alemães)
Versão Ponto de manipulação Tendência da primeira solução Total
análoga não análoga
alfa 1 7 1 8 2 8 0 8 3 5 3 8 4 6 2 8 5 5 3 8 6 8 0 8 7 7 1 8 8 1 7 8 9 6 2 8 10 5 3 8 Total 58 22 80 beta 1 5 3 8 2 7 1 8 3 6 2 8 4 7 1 8 5 7 0 8 6 8 2 8 7 6 1 8 8 7 1 8 9 7 3 8 10 5 1 8 Total 65 15 80
Destaca-se na TABELA 11 que a diferença no total de ocorrências de soluções análogas e não análogas entre as versões alfa e beta pode ser atribuída aos desempenhos dos sujeitos brasileiros nas manipulações 5 e 8 da versão alfa e aos desempenhos dos sujeitos alemães no ponto de manipulação 8 da versão alfa. Ao contrário das demais manipulações, que apresentam uma distribuição das ocorrências mais concentrada no nível de metaforicidade análogo (no mínimo a metade das ocorrências, isto é, 4), essas duas manipulações dispõem de um número bastante reduzido de ocorrências de soluções análogas na versão alfa dos brasileiros (2 e 0, respectivamente), além de uma única ocorrência de solução análoga na versão alfa do ponto de manipulação 8 traduzido pelos alemães. Conforme a análise apresentada no capítulo anterior, esses dois pontos implicam, no par inglês-português, que os tradutores lidam, respectivamente, com diferenças tipológicas e de registro. Embora a análise do Capítulo 4 não tenha apontado para particularidades entre os sistemas linguísticos inglês e alemão, o comportamento observado para a tradução do ponto 8 entre os sujeitos alemães provavelmente está relacionado a diferenças de registro. Essas questões serão retomadas no Capítulo 6.
Excluindo-se os pontos de manipulação 5 e 8 tanto da versão alfa como da versão beta (cf. TABELA 14 a seguir), verifica-se que a diferença entre as versões em termos de tendência da primeira solução em relação ao nível de metaforicidade do texto de partida não é significativa (p = 0,317 e 0,413 pelo teste de Fisher, respectivamente para os sujeitos brasileiros e os alemães). Em outras palavras, a tendência é que a primeira solução apresente níveis de implicitude e explicitude análogos aos do texto de partida, sendo as únicas exceções os pontos de manipulação 5 e 8 (mais metafóricos da versão alfa), que se destacam dos demais por apresentarem tendência inicial de tradução não análoga. Trata-se de um aspecto que será investigado com maior profundidade no Capítulo 6, por estar associado a problemas gerados pela não adequação ou não possibilidade de escolhas que mantenham a ordem (rank) encontrada no texto de partida. Nos termos de Catford (1965), trata-se da não adequação de correspondentes formais na língua de chegada enquanto equivalentes textuais, ou seja, trata-se de significados que demandam a seleção de equivalentes textuais na língua de chegada não necessariamente alinhados aos correspondentes formais das realizações na língua de partida (i.e., mudança de unidade ou unit shift). No caso específico deste estudo da metáfora gramatical, o que se observa são casos em que características tipológicas e de registro impedem os sujeitos de manterem o procedimento padrão de tomadas de decisão pautadas em escolhas léxico-gramaticais na língua de chegada com nível de metaforicidade análogo àquele encontrado no texto de partida.
TABELA 14 - Número absoluto e frequência relativa, por versão, das primeiras soluções no que diz respeito ao nível de metaforicidade em relação ao texto de partida*
Brasileiros Alemães
Nível de metaforicidade em relação ao respectivo ponto de manipulação
alfa beta alfa beta
n % n % n % n %
Análogo 55 86,00 52 81,75 52 81,75 50 78,13
Não análogo 09 14,75 12 18,25 12 18,25 14 21,87
Total 64 100,00 64 100,00 64 100,00 64 100,00
* Dados excluem os pontos de manipulação 5 e 8 de ambas as versões.
Como mostra a TABELA 14, com a exclusão das manipulações 5 e 8, a diferença entre o número absoluto de ocorrências de soluções análogas de alfa e beta passa a ser de apenas 4,25 pontos percentuais para os brasileiros e 3,62 para os alemães.
Analisando-se a questão por nível de metaforicidade do ponto de manipulação (i.e., mais ou menos metafórico), também se verifica a mesma necessidade de atenção aos dados referentes aos pontos 5 e 8. O GRÁFICO 3 (incluindo-se todos os pontos) e o GRÁFICO 4 (excluindo- se os pontos 5 e 8) mostram a questão em termos ilustrativos. Na parte superior de cada quadrante, interligadas por linhas pontilhadas, estão as ocorrências e percentagens de primeiras tentativas análogas ao texto de partida em termos de metaforicidade; na parte inferior, interligados por linhas contínuas, estão os mesmos dados para primeiras tentativas que não são análogas. Veja-se ainda que os dados perfazem 100% quando se consideram quadrantes ou colunas.
GRÁFICO 3 – Tendências de opção por escritas com nível de metaforicidade análogo e não análogo ao do ponto de manipulação na primeira solução, por versão, nível de metaforicidade do texto de partida e nacionalidade
Nota: linhas pontilhadas: tendência análoga; linhas contínuas: tendência não análoga.
Considerando-se todos os pontos de manipulação, o número de retextualizações análogas é menor para os pontos de partida menos metafóricos do texto alfa (70% contra 72,5% entre os
sujeitos brasileiros e 67,5% contra 77,5% entre os sujeitos alemães)42, enquanto no texto beta a quantidade de retextualizações análogas é maior para os pontos de partida com menor nível de metaforicidade.
GRÁFICO 4 - Tendências de opção por escritas com nível de metaforicidade análogo e não análogo ao do ponto de manipulação na primeira solução, por versão, nível de metaforicidade do texto de partida e nacionalidade*
Nota: linhas pontilhadas: tendência análoga; linhas contínuas: tendência não análoga. * Dados excluem pontos de manipulação 5 e 8 de todas as versões.
Desconsiderando-se, contudo, os pontos 5 e 8, verifica-se que os dados são bastante similares entre versões e nacionalidades, independentemente do nível de metaforicidade do texto de partida: uma média de 80% das primeiras versões apresenta nível de metaforicidade análogo ao do texto de partida. Para os quadrantes dos sujeitos alemães, como os valores das soluções
42 Os valores são obtidos multiplicando-se as porcentagens por 2. A representação gráfica considera como 100% os quadrantes, ou seja, o total referente aos pontos mais e menos metafóricos. Como o argumento do texto se refere a esses pontos separadamente e as quantidades de pontos mais e menos metafóricas são idênticas, é possível realizar essa operação matemática. Essa observação é válida para todos os demais gráficos desse tipo.
referentes aos pontos de manipulação mais metafóricos são idênticos àqueles referentes às escritas menos metafóricas, os dados pertinentes aparecem apenas uma vez.
Sendo assim, apresentam-se no GRÁFICO 5 os dados por perfil considerando-se exclusivamente o nível de metaforicidade do texto de partida (i.e., independentemente da versão em que estavam) e desprezando-se os dados referentes aos pontos 5 e 8.
GRÁFICO 5 - Tendências de opção por escritas com nível de metaforicidade análogo e não análogo ao do ponto de manipulação na primeira solução, por sujeito, nível de metaforicidade do texto de partida e nacionalidade*
Nota: linhas pontilhadas: tendência análoga; linhas contínuas: tendência não análoga. * Dados excluem pontos de manipulação 5 e 8 de todas as versões.
Pelo que se pode observar no GRÁFICO 5, todos os perfis de sujeitos tendem a apresentar a primeira solução com nível de metaforicidade análogo ao do texto de partida (no mínimo 75% entre os tradutores e no mínimo 84% entre os físicos43). Os pesquisadores também são o perfil
43
para os quais as instâncias menos metafóricas do texto de partida tendem a levar a retextualizações com nível de metaforicidade análogo no texto de chegada, enquanto a tendência é contrária entre os tradutores. As diferenças, contudo, não são significativas (teste de Fisher: p > 0,05), ou seja, não se pode afirmar que a primeira solução tem nível de metaforicidade análogo ou não análogo em função de o ponto de manipulação do texto de partida ser mais ou menos metafórico, seja entre os físicos, seja entre os tradutores.