No início do século o principal motivo para se efetuar a troca de auditores independentes era a busca, pelas companhias, de mais valor em vez de foco em seus custos. Porém, Chew (apud Oliveira e Santos, 2007), destaca que em 1939 veio a público o primeiro caso de fraude que levantou críticas às práticas de auditoria. A ausência de dois procedimentos de auditoria, que naquela época não eram requeridos, contagem de estoque e circularização de contas a receber, impediu que o auditor percebesse que os US$ 19 milhões registrados em estoques e os US$ 18 milhões em vendas eram fictícios. A partir deste fato, o rodízio de firmas de auditoria passou a ser discutido, mas o resultado da discussão foi que estes dois procedimentos, inventário físico de estoques e confirmação de créditos, passaram a ser obrigatórios em trabalhos de auditoria.
Na década de 70 o rodízio de firmas de auditoria voltou a ser discutido e por duas vezes sua adoção foi sugerida por iniciativa do senado americano. O senador Lee Metcalf apontou a ocorrência de fraudes corporativas e dificuldades financeiras que as grandes auditorias não
informavam ao mercado. A proposta foi contestada pelo AICPA que abordou a possibilidade do aumento de custos para as companhias e sugeriu que o rodízio entre auditores da mesma firma e a implantação de um comitê de auditoria seriam suficientes.
Nem mesmo os grandes escândalos corporativos americanos, que motivaram a aprovação da Lei Sarbanes-Oxley, foram suficientes para se decidir pela adoção do rodízio de firmas nas companhias americanas. O GAO, a pedido do Congresso americano, vem, desde 1996, realizando estudos para avaliar se o rodízio de firmas de auditoria seria uma medida eficaz para evitar fraudes contábeis. Como resultado o GAO tem reiteradamente recomendando a não adoção deste procedimento por entender que seria muito difícil de se quantificar os benefícios, ao passo que certamente os custos decorrentes deste procedimento aumentariam.
Mason (2004) ressalta que o congresso americano deixou escapar uma grande oportunidade quando, na ocasião da discussão da Lei Sarbanes-Oxley, que será melhor discutida adiante, considerou o rodízio obrigatório de auditoria mas desviou-se de fazer a reforma necessária, deixando-a a cargo do GAO, que é considerado um braço independente do senado americano. O problema, segundo o autor, é que o controlador geral do GAO à época era um CPA e antigo sócio da Arthur Andersen. O GAO enviou questionários para 92 membros do AICPA que constitui quase todas as firmas de auditoria e para gerentes financeiros de companhias de capital aberto, com o objetivo de saber se eles eram ou não favoráveis ao rodízio obrigatório de auditoria. Segundo Mason (2004) o resultado não poderia ser diferente, o relatório recomendou que o rodízio obrigatório de firmas de auditoria não fosse adotado. Mason (2004) defende o rodízio de auditores como forma de democratizar a profissão, tendo em vista que 97% das 2.341 companhias com ações na bolsa de valores de New York são auditadas por uma das Big 47
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Em 2002, após o escândalo da americana Enron, a Arthur Andersen encerrou suas atividades, assim As Big 4 passaram a ser as quatro maiores empresas de Auditoria Independente em todo o mundo: Delloite Touche Tohmatsu, Pricewaterhous & Coopers, Ernst & Young, KPMG, nesta ordem.
, como se não bastasse essa concentração, há ainda as situações em que as firmas de auditoria mantêm contratos praticamente vitalícios como é o caso da KPMG que é a firma de auditoria da General Electric há mais de 100 anos e da Deloitte & Touche que audita a General Motors há mais de 85 anos. Um relacionamento tão longo entre auditor e cliente compromete a independência do auditor, este é um ponto de vista defendido por diversos autores (BAZERMAN; MORGAN; LOEWENSTEIN, 1997; MASON, 2004; GATES; LOWE; RECKERS, 2007).
Das 23 razões para mudar de auditoria identificadas por Beattie e Fearnley (1998) entre as empresas do Reino Unido, nove eram devidas às mudanças internas nas empresas clientes e as 14 restantes tinham relação com problemas na firma de auditoria. Duas diziam respeito à excessiva rotatividade de auditores, duas eram referentes aos honorários e 10 questionavam a qualidade dos serviços prestados. Ou seja, as autoras defendem que as empresas clientes buscam por si só a melhora da qualidade de seus auditores. Estão, portanto, interessadas no que os auditores podem acrescentar de melhoria aos seus negócios e isso se dá através de relacionamento duradouro, para tanto é necessário tempo. Os auditores pesquisados no GAO 2003 estabeleceram que é necessário um prazo de dois a três anos para obter o conhecimento da estrutura operacional e dos processos do cliente, para então se ter uma auditoria mais eficaz.
Em estudo para medir os efeitos do rodízio de firmas de auditoria e do rodízio de auditores sobre a confiança nas demonstrações contábeis, Gates, Lowe e Reckers (2007), concluíram que o primeiro tem mais influência positiva na confiança dos interessados. Este estudo analisou as repostas de agentes externos, com algum conhecimento jurídico ou administrativo e que tinham interesse nos pareceres de auditoria por serem ou já terem sido acionistas. A grande diferença entre este estudo e os que concluíram que o rodízio é prejudicial porque os efeitos positivos na independência do auditor não compensariam os altos custos da troca de auditoria, é que estes analisam as opiniões dos agentes internos, diretamente afetados pelos pareceres, administradores e diretores e/ou externos envolvidos na redação dos relatórios, os auditores independentes.
Greenberg (1998) diz que os auditores independentes apenas atestam se as demonstrações contábeis são preparadas segundo os GAAP, sigla em inglês para princípios contábeis generalizadamente aceitos, e que estes princípios são uma defesa padrão para as empresas cujas contabilidades estão sob investigação e que mais tarde podem ser acusadas de fraudes. Membros do AICPA reforçam que os auditores devem apenas certificar se as demonstrações financeiras estão de acordo com os princípios contábeis sem se preocuparem se são lícitas ou não.
Quando os auditores resolvem avançar mais em suas análises e decidem questionar alguns procedimentos, ainda que estejam de acordo com as normas, correm o risco de terem seus contratos rescindidos, como mostra Greenberg (1998) em um episódio em que após apresentar relatório com uma variedade de problemas, como reconciliações não apresentadas no tempo oportuno, a firma de auditoria teve seu contrato rescindido. Este caso é uma
advertência de que a empresa auditada é também quem paga os honorários do auditor, o que evidencia um conflito óbvio (GREENBERG, 1998). Em consonância com esta conclusão, Lennox (2002) diz que as evidências mostram que as empresas costumam demitir seus auditores para evitar uma opinião desfavorável.
Apesar de muitos auditores dizerem que há várias formas de controle e equilíbrio nas relações entre as firmas de auditoria e seus clientes, Greenberg (1998) lembra que outro grupo vem propondo reformas que fortaleceriam a independência e a objetividade dos auditores, como o rodízio obrigatório de auditorias, a constituição de uma organização com um grupo de auditores pagos por um fundo sustentado pelas empresas e também que os auditores deveriam abandonar completamente a noção de que são independentes, “Deixe que o sistema regulatório pressione-os, se permitem que os clientes falsifiquem seus livros” (GREENBERG 1998, p. 2) (tradução do autor).
Quando se obriga que seja feito o rodízio de auditores a cada cinco anos, como no caso do Brasil, as firmas de auditoria acabam sendo desmotivadas a investir no aperfeiçoamento de seu pessoal, principalmente quando o cliente é parte de uma indústria muito específica. Isto ocorre porque não há a possibilidade de se recuperar o investimento em treinamentos no cliente que os motivaram. Comunale e Sexton (2005) observam que sob o rodízio obrigatório de auditorias, as firmas estarão mais focadas em atrair novos clientes que em manter os atuais e o farão reduzindo os custos da auditoria e conseqüentemente sua qualidade, ou seja, ironicamente, políticas adotadas para acentuar a qualidade das auditorias e aumentar a independência dos auditores, podem ter o efeito contrário.
Este foi o caso da Itália, segundo a SDA Universitá Bocconi (2002, apud GAO, 2003, p 83 e Oliveira e Santos, 2007, p 96) o rodízio obrigatório de firmas de auditoria tem impacto negativo na qualidade dos trabalhos no primeiro ano em função da pressão da concorrência.
Por outro lado, Bazerman, Kimberly e Loewenstein (1997) afirmam que, por força do aumento natural da competitividade, as firmas de auditoria freqüentemente oferecem seus serviços por baixos honorários no primeiro ou nos dois primeiros anos a fim de conquistar o cliente. Esses métodos baixam o custo de auditoria, em geral porque são postos assistentes de auditoria para executarem o trabalho de campo, com participação de um gerente de auditoria apenas no início e no fim dos trabalhos (OLIVEIRA e SANTOS, 2007). Como conseqüência, estes serviços perdem em qualidade (COMUNALE; SEXTON, 2005). O problema é que, aceitando o contrato com honorários muito baixos as firmas são fortemente motivadas a manter o cliente por vários anos e tendem, inconscientemente, segundo Bazerman, Kimberly e
Loewenstein (1997), a serem menos rigorosas em suas análises por conta da “tendência pelo interesse próprio” (tradução do autor). Estes autores defendem ainda, que, por razões psicológicas, não é possível haver a independência do auditor.
O Quadro 6 mostra os países que adotaram o rodízio obrigatório de auditores e/ou de firmas de auditoria.
Quadro 6: Rodízio de auditores e de auditorias – experiências internacionais
País Rodízio de profissionais Rodízio de Firmas
Estados Unidos Sim Não
Reino Unido Sim Não
Itália Não Sim
Brasil Sim Sim
Cingapura Sim Sim
Áustria Não Sim
França Sim Não
Espanha Sim Abandonou
Holanda Sim Não
Japão Sim Não
Canadá Sim Abandonou
Alemanha Sim Não
Catar Não Sim
Grécia Sim Abandonou
Índia Não Sim
Lituânia Não Sim
Republica Checa Sim Abandonou
Turquia Sim Abandonou
Eslováquia Sim Abandonou
Fonte: Oliveira e Santos (2007, p 97)
Dos 19 países listados, 12 não adotaram ou abandonaram a prática do rodízio de auditoria e segundo o GAO (2003) isso é devido ao fato de não ter sido possível, no caso dos que abandonaram, comprovar que o rodízio obrigatório de fato contribui para aumentar a independência do auditor, ou, no caso dos que não aderiram, ao fato de terem percebido através de pesquisas que era certo o aumento dos custos tanto para as firmas de auditoria quanto para as empresas clientes, além de haver dúvidas quanto à eficácia do rodízio obrigatório.
O Brasil, apesar de estar nesta lista como um dos países que aderiram ao rodízio de auditores e de firmas de auditoria, suspendeu desde 2005 a obrigatoriedade do rodízio para as instituições financeiras (BACEN, 2005; 2007).
Assim sendo, nos 11 anos analisados neste trabalho, 1997 a 2007, devido à série de mudanças na regulamentação a respeito das auditorias independentes de instituições financeiras, somente em três anos, 2001, 2002 e 2004 houve a obrigatoriedade do rodízio, logo, nenhuma empresa trocou de auditor mais de uma vez por força da legislação. O Quadro
7 apresenta graficamente o momento em que as empresas tiveram que trocar seus auditores para atender as normas do BACEN.
Quadro 7: Troca de auditoria por força de obrigação legal
1997 1998 1999 2000 1997a 1998 1999 2000 2001 Troca 2002 Troca 2003b 2004 Troca 2005c 2006
Fonte: Diversas resoluções do CMN, elaboração do autor
a. Resolução CMN n.º 2.276/96 - 4 anos para a troca de auditoria a partir de 1997 b. Resolução CMN n.º 3.069/03, alterou prazo de 4 anos para 5 anos para troca c. Resolução CMN n.º 3.332/05 suspensão do rodízio até 2007
Contrato de auditoria com início em
4 anos
4 anos
5 anos
Se o rodízio obrigatório de auditoria aumenta a independência do auditor, podemos inferir que no período em que as trocas de auditorias ocorreram por causa da obrigatoriedade, os pareceres do primeiro ano de contrato da nova firma de auditoria apresentaram mais ressalvas que os pareceres do ano anterior. Assim, a segunda questão de pesquisa tem o seguinte enunciado.
Q2: O rodízio obrigatório de auditorias propicia a emissão de pareceres não limpos?
Para investigar esta questão serão testadas quatro hipóteses, a primeira verificará a relação entre o parecer no ano em que ocorreu o rodízio de auditoria e a troca obrigatória da auditoria independente, logo a primeira hipótese nula desta questão é.
H02.1: A emissão de parecer modificado relevante no ano do rodízio não depende
da obrigatoriedade da troca das auditorias.
Diversos estudos internacionais apresentam diversos argumentos contra a adoção do rodízio obrigatório. (COMUNALE e SEXTON, 2005; OLIVEIRA e SANTOS, 2007; GAO, 2003) Sendo assim, espera-se aceitar a H02.1 de que não há relação entre o rodízio obrigatório de auditoria independente e a ocorrência de pareceres modificados relevantes, o que seria indício de maior independência dos auditores e de melhor qualidade do serviço de auditoria.
As demais hipóteses testarão a relação entre a emissão de parecer modificado relevante nos anos seguintes ao rodízio obrigatório e a troca obrigatória da auditoria independente. Então as outras hipóteses nulas desta questão são assim formuladas:
H02.2: A emissão de parecer modificado relevante um ano após o rodízio não
depende da obrigatoriedade da troca das auditorias.
H02.3: A emissão de parecer modificado relevante dois anos após o rodízio não
depende da obrigatoriedade da troca das auditorias.
H02.4: A emissão de parecer modificado relevante três anos após o rodízio não
depende da obrigatoriedade da troca das auditorias.
Vários autores defendem que a qualidade do serviço de auditoria se atinge com um relacionamento duradouro e que o rodízio obrigatório de auditoria, ao contrário do que desejam os organismos reguladores, teria efeito negativo na qualidade das auditorias (GAO, 2003; BEATTIE E FEARNLEY, 1998). Desta forma espera-se aceitar H02.2, H02.3 e H02.4, reiterando que com a troca obrigatória de auditoria perde-se o conhecimento específico acumulado pelo auditor independente nos anos em que este auditou a empresa e conseqüentemente a qualidade do serviço.