B. Đşkolunda Yüzde On Baraj Koşulu
2. Koşulun Saptanması
O seqüestro de padre Adur não foi uma exceção. O Terrorismo de Estado Argentino – “cruel e sádico”, na avaliação de Duhalde – assassinou inclusive autoridades da Igreja Católica, e sem a militância política do capelão dos Montos, mas que ousaram contestar os métodos da ditadura. Já antes do golpe, mataram o padre Carlos Mujica (citado no Capítulo II). No total, segundo levantamento de 17 instituições cristãs da Argentina, foram mortos: 19 padres, dois bispos, 11 seminaristas, cinco religiosos, duas freiras, 47 católicos laicos, cinco protestantes e um metodista.14
Não houve contemplação. Na madrugada de 4 de julho de 1976, domingo de missa, um comando policial invadiu a comunidade de San Patricio, no bairro Belgrano, em Buenos Aires, matando a tiros nada menos do que cinco sacerdotes palotinos.15 Foram executados os padres Alfredo Leaden, Pedro Duffau e Alfredo Kelly, mais os seminaristas Salvador Barbeito e Emilio Barletti. Não eram ligados aos Montoneros ou a grupos extremistas, concentravam-se no trabalho pastoral. Duffau tinha 67 anos.
Os corpos dos palotinos ficaram no chão, com marcas de tiros no peito e na cabeça. Os padres Kelly e Leaden estavam de pijamas. O seminarista Barletti sofreu 23 disparos. Na parede da paróquia, ficou gravada a inscrição: “Estos zurdos murieron por ser adoctrinadores de mentes vírgenes y son M. S. T. M.”16
A gíria zurdo significava esquerdista (o que usa a mão canhota). A sigla M. S. T. M. designava o Movimento de Sacerdotes do Terceiro Mundo, criado em 1968, no mesmo ano da Conferência de Medellín (Colômbia), que direcionou a chamada ala progressista da Igreja Católica na opção pelos pobres.
Altos prelados também não tiveram clemência, mas os matadores foram mais dissimulados. Em agosto de 1976, o bispo da província La Rioja, Enrique Angelelli, foi morto em um acidente automobilístico provocado, quando teve a camioneta Fiat em que viajava abalroada por um veículo da repressão. O corpo ficou estendido na
14 Documento La Iglesia cómplice y la Iglesia del pueblo. p. 33 a 38. 15 KIMEL, 1995.
rodovia, a nuca destroçada. Houve a suspeita de que tenha sido tirado da Fiat, semiconsciente, e golpeado.17
O monsenhor Angelelli dirigia-se a Buenos Aires, com uma pasta de documentos contendo denúncias sobre o assassinato de dois sacerdotes de sua diocese, Gabriel Longueville e Carlos de Dios Murias, igualmente vítimas da ditadura. A pasta sumiu do carro.
Em julho do ano seguinte, foi morto outro bispo, Carlos Ponce de Léon, de San Nicolás de los Arroyos, nas mesmas circunstâncias. O prelado viajava de automóvel a Buenos Aires levando documentos à Nunciatura Católica, os quais acusavam o comandante do I Corpo do Exército, general Carlos Suárez Mason, de seqüestros, torturas e mortes. Sua pasta também não chegou ao destino.18
O mais covarde dos assassinatos envolvendo religiosos, segundo relatório da Conadep, ocorreu na ESMA por obra do tenente-de-fragata Alfredo Astiz, que atendia pelos codinomes de Corvo, Anjo loiro ou Eduardo, o escudeiro.19 Em dezembro de 1977, ele matou as monjas francesas Alice Domon, então com 40 anos, e Léonie Renée Duquet, de 61 anos. As duas auxiliavam as Mães da Praça de Maio, argumentavam que não podiam ficar indiferentes ao sofrimento e à coragem daquelas que procuravam os filhos desaparecidos em pleno furor ditatorial.20
Elas foram seqüestradas na Igreja de Santa Cruz (local de reunião das mães), em Buenos Aires, levadas para a ESMA e martirizadas. A idosa Léonie teve o rosto ferido, quase não podia caminhar. Alice, além dos suplícios, foi ultrajada, conforme o prisioneiro Horacio Maggio testemunhou à Conadep: “[...] la habían atado a una cama totalmente desnuda y le habían aplicado la picana por todo el cuerpo [...]”21
As duas religiosas sofreram o traslado do Terrorismo de Estado Argentino, seus corpos desapareceram. Alfredo Astiz ficou impune na Argentina, mas foi condenado à prisão perpétua pela Justiça da França, julgado à revelia, em 1990. Simbolicamente, o Corvo foi encarcerado no território de seu país, se viajasse ao
17 NUNCA MÁS, 1995, p. 357-358. 18 Ibidem. 359-360. 19 GOÑI, 1996, 219 p. 20 BOUSQUET, 1983. 21 NUNCA MÁS, 1995, p. 351.
Exterior enfrentaria uma ordem internacional de captura. Dezenas de outros torturadores, da Argentina e do Chile, estavam em igual situação, processados pelos judiciários da Itália, Suécia, Espanha e Alemanha, que investigavam a morte de compatriotas seus no Cone Sul. Por ironia, esses réus corriam o risco de ser detidos nos postos de fronteira e nos aeroportos, exatamente como acontecia às vítimas da Operação Condor.
Para melhor entender o assassinato de duas freiras convém fazer uma digressão, recordar quem foi Alfredo Astiz – em si uma amostra do que eram oficiais das forças armadas argentinas recrutados para a tortura. No início de 1977, ele se infiltrou na Associação das Mães da Praça de Maio, simulando ser irmão de um desaparecido. Ganhou a confiança das madres, especialmente de uma das fundadoras, Azucena Villaflor. Na verdade, dedicava-se a identificar as organizadoras, que depois foram seqüestradas e mortas, aí incluindo Azucena e as duas monjas da França. Cinco anos depois, o carrasco de mulheres mostrou-se incapaz de seguir a honra militar na Guerra das Malvinas (1982), quando a Argentina tentou reconquistar a ilha perdida para a Inglaterra. A guarnição de Astiz rendeu-se às tropas britânicas sem disparar um único tiro. O Corvo não fora preparado para defender a pátria, mas para eliminar opositores políticos.
Se a ditadura matou freiras de caridade e perseguiu até padres além das fronteiras, pode-se projetar como era a ferocidade contra outros grupos sociais. Para o presidente da Conadep, Ernesto Sabato,22 houve uma “repressão demencialmente generalizada”, protagonizada “por forças do mal” fanatizadas. Depois de analisar 50 mil páginas de documentos, com 7.380 testemunhos de vítimas, Sabato declarou que seria impossível identificar e quantificar a totalidade dos mortos e desaparecidos, em função da amplitude do extermínio: “[...] tenemos la certidumbre de que la dictadura militar produjo la más grande tragedia de nuestra historia, y la más salvaje.”23
22 Nascido em 1911, o doutor em Física, escritor e ensaísta argentino foi um dos que cunhou a
expressão Montos para designar os Montoneros. Sabato presenciou como o Terrorismo de Estado destruiu famílias, incluindo os que sobreviveram. Exemplificou com o drama de um velho amigo, Miguel Itzigson, que se dedicou a buscar a filha desaparecida, enfrentando um horror “feito da crueldade de uns e da indiferença de outros”. Sabato constatou que o amigo “deixou-se morrer de tristeza”.
Em um livro de memórias, Sabato confessou-se abalado por ter inventariado os oito anos da ditadura: “O horror que íamos descobrindo dia após dia deixou-nos, a todos os que integramos a Conadep, a obscura sensação de que nenhum de nós voltaria a ser o mesmo, como costuma acontecer quando se desce aos infernos.”24