A etnografia Tupi nunca se preocupou muito com os padrões de assentamento dos grupos estudados. Ainda assim, é sempre possível destacar dos diversos estudos alguns aspectos relevantes.
Foram separados cinco grupos etnográficos Tupi para estabelecer um diálogo com os dados arqueológicos. Todos são grupos de habitantes de floresta tropical (como é praxe entre os Tupi), mas de uma floresta tropical periférica, nunca muito distante de áreas de cerrado. Estes grupos são: os Araweté, os Asuriní, os Parakanã , os Tapirapé e os Ka’apor. Os três primeiros encontram-se hoje no sudeste paraense, entre as bacias dos rios Tocantis e Xingu. Os Ka´apor são encontrados não muito distante, no oeste maranhense, no alto Gurupí, próximo à divisa com o Pará. Segundo Balée (1994), são
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Na verdade, são certas, sim, trata-se da metodologia do PRONAPABA.
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antigos moradores da bacia do baixo Tocantins. Por fim, os Tapirapé situam-se no rio com o mesmo nome, que deságua no rio Araguaia, em área pertencente ao atual Estado do Mato Grosso.
O ponto inicial é uma aparente dissonância em relação ao modelo apresentado por Assis para os Tupinambá, que não difere quanto ao complexo que se forma em torno da aldeia, mas ao funcionamento desse complexo.
Os Araweté, estudados por Viveiros de Castro (1986, pp. 267-273), apresentam um padrão de assentamento ligado à sazonalidade. No período de chuva, a aldeia se fragmenta em diversos acampamentos, com pequenos grupos nucleares se dispersando pela mata, realizando atividades de trekking,30 ou seja, ligadas à caça e coleta de animais. Findas as chuvas, ocorre um reagrupamento dentro do espaço da aldeia. Mesmo no período de seca, são produzidas algumas estruturas que não pertencem à aldeia, acampamentos de mata para abrigar caçadores ou famílias em curtas expedições.
Outro dado interessante do estudo feito por Viveiros de Castro é o fato de que todas as aldeias Araweté localizam-se em áreas de antigas roças31 (ibid., p. 312). Ou seja: o complexo de estruturas em torno de uma aldeia influencia no momento em que esta é transferida de lugar.
Os Tapirapé, estudados por Baldus (1970) e Wagley (1977) também sazonalmente fragmentam a aldeia em grupos familiares que se deslocam para a savana e passam um período caçando, coletando e pescando, erguendo um abrigo temporário em um local considerado mais propício.
Os Parakanã são um caso à parte. A cisão interna, no fim do século XIX, criou um grupo mais sedentário (os Parakanã orientais) e um grupo praticamente nômade (os Parakanã ocidentais).
Quando Fausto (2001, p. 59) indica que os Parakanã ocidentais foram aumentando o período de trekking e perdendo a agricultura, lê-se nas entrelinhas que o grupo, quando uno, praticava sazonalmente essa atividade. Dessa forma, temos um curioso exemplo de
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Balée (1994, p. 210) define grupos trekkers como os que passam seis meses por ano longe da aldeia, para a qual acabam voltando. Os trekkers fariam parte de um grande grupo “agrário”, no qual também estariam inseridos os cacicados e os semi-sedentários.
um grupo, os Parakanã ocidentais, sem praticas agrícolas, mas que se une na aldeia no período seco e se separa no período de chuva.
Os Asurini do Xingu também erguiam abrigos na mata: as Tapyia. Müller (1990, p. 74) as descreve como sendo de pequena dimensão, sem paredes e construídas a partir da folha de palmeiras. A antropóloga indica que as Tapyia, além de abrigo para o período em que os índios deixam a aldeia para caçar e coletar, também são utilizadas em áreas de roça.
Por fim, encontramos os Urubu-Ka’apor, estudados por Balée (1994). Esse grupo, dentro dos escolhidos para dialogar com os dados arqueológicos, é o mais sedentário. Os Ka’apor possuiriam um sistema ecológico mais próximo do indicado para os Tupinambá (ASSIS, 1996), no qual o “núcleo” da aldeia era abandonado somente quando a aldeia era transferida para um outro lugar: a fragmentação nunca era total. Ribeiro (2006, p. 86), que esteve entre os Ka’apor quase meio século antes de Balée, teve a oportunidade de descreve abrigos de roça desses índios “de 2,5m de comprimento por 1,1 de largura e 2
de altura (...). Enquanto a roça cresce na mata, eles ficam a colher o que plantaram o ano passado no alto Coracy, onde também há mais caça do que peixe. Assim somente daqui a uns quatro ou cinco meses voltarão àquele pouso”.
Ao visitar outra aldeia Ka’apor, Ribeiro também encontrou roças longínquas (da aldeia), que “(...) os obriga a torrar a farinha na roça mesmo, onde têm vários xipás e
uns fornos que quase lhe dão um aspecto de pequena aldeia” (ibid., p. 400; grifo nosso).
O pesquisador relata a tendência ao afastamento das roças à medida que as terras próximas à aldeia iam empobrecendo, até que em determinado momento a aldeia se muda para uma dessas roças. Sem dúvida, trata-se de algo muito mais complexo do que uma simples divisão aldeia-acampamento. Existe um contexto de grupos “aparentados”, mas que possuem diferenças em diversos campos.
Como os estudos dos sítios Tupi (tanto do Cavalo Branco quanto dos demais) não forneceram dados que permitissem inferências sobre a morfologia das casas, decidiu-se por não trabalhar diretamente com o assunto. O complexo de estruturas (e.g. aldeia, abrigo de roça, casa dos homens, acampamento de caça etc.) e a possibilidade de sobreposição cronológica dessas estruturas exigem cautela para tratar desse tópico.