Fig. 16 Transects onde foram realizadas coletas para análise do solo.
Para a observação do comportamento químico na vertical das quadras foram realizadas coletas em todos os níveis artificiais de quadras com solo antrópico e da área adjacente. As análises foram realizadas pela equipe da Dra. Dirse Kern, do Museu Paraense Emílio Goeldi, durante os anos de 2006 e 2007. No Anexo 7, pode-se ver mais detalhes gráficos dessa análise.
Características morfológicas do solo no sítio Cavalo Branco: No sítio Cavalo
Branco, os horizontes de solo no perfil do interior do sítio, denominados de solo antrópico (SA) neste trabalho, apresentam, nos horizontes superficiais, algumas características morfológicas distintas do perfil de solos da área adjacente (AD), principalmente em relação à espessura e à cor. O perfil de solo antrópico foi subdividido na seguinte seqüência de horizontes: A1, A2, AB, BA, B1 e B2, enquanto o da área
adjacente foi subdividido em A1, AB, BA, B1, B2, B3 e B4.
Os horizontes A do SA, que correspondem à camada de ocupação humana, são de aproximadamente 30cm. A coloração do solo quando úmido é cinzento muito escuro (10YR 3/1). Na AD, a espessura do horizonte A é de 11cm, e a coloração do solo quando úmido é bruno acinzentado escuro(10YR 4/2). Em ambos os perfis, a textura é arenosa e, quando o solo está molhado, a sua consistência é não-pegajosa e não-plástica. A estrutura apresenta-se forte, que se desfaz em blocos subangulares e grumos. Nos
com a profundidade até desaparecerem, na AD.
A espessura dos horizontes de transição AB e BA tanto no SA quanto na AD é de aproximadamente 20cm. A coloração, para o solo úmido, no SA é um pouco mais escurecida, bruno acinzentado escuro (10YR 4/2), enquanto que na AD varia de bruno acinzentado escuro (10YR 4/2), no horizonte AB, a bruno (10YR 5/3), no BA. Nesses horizontes, a quantidade de argila aumenta, conferindo-lhes textura de areia franca, com exceção do horizonte BA da área adjacente, que apresenta textura franco-arenosa. Quando o solo está molhado, a sua consistência, embora mais argilosa, continua sendo não-pegajosa e não-plástica. A estrutura, nos horizontes AB do AS e da AD, apresenta- se forte, com médios a grandes blocos subangular que se desfazem em grãos simples, enquanto nos horizontes BA, têm aspecto maciço.
Os horizontes B nos perfis de solos das SA e AD em geral não apresentam grandes variações nas características morfológicas. Possuem normalmente coloração variando de bruno amarelado claro (10YR 6/4) a amarelo brunado (10YR 6/6). A textura nestes horizontes varia de franco argilosa a muito argilosa. A consistência do solo quando molhado varia de ligeiramente pegajoso a pegajoso e de ligeiramente plástico a plástico, em decorrência do aumento significativo da argila. A estrutura tem aspecto maciço.
Características químicas do solo no sítio Cavalo Branco: Comparando os perfis de
solos no sítio Cavalo Branco com os da sua respectiva área adjacente, verifica-se que, em geral, os primeiros apresentam teores de Ca, Mg, P, (Tabela 1). Esse mesmo comportamento nos teores dos elementos foi verificado em sítios arqueológicos e adjacências localizados nas regiões de Cachoeira-Porteira, Oriximiná-Pa e de Caxiuanã (KERN, 1988).
Tabela 2.3.1. Análises químicas no perfil de solo antrópico (quadra 40R-100D) do sítio Cavalo Branco.
H o r i z . P r o f . ( c m ) M g C a Z n C u M n F e P t o t a l C m o l c / k g m g / k g A 1 0 - 1 5 0 , 4 9 3 , 4 2 1 , 9 4 1 , 6 2 1 2 6 , 9 2 3 2 , 6 4 A 2 1 5 - 2 7 0 , 2 8 2 , 3 7 0 , 9 6 2 , 1 7 5 9 , 3 2 2 3 , 1 2 A B 2 7 - 3 6 0 , 1 4 1 , 2 0 0 , 5 5 1 , 9 8 3 2 , 3 0 2 4 , 2 5 B A 3 6 - 4 7 0 , 1 3 0 , 8 8 N D 1 , 7 5 2 7 , 0 4 3 4 , 5 5 B1 4 7 - 6 9 0 , 2 2 0 , 8 6 N D 1 , 6 2 1 7 , 4 3 6 4 , 8 6 B2 6 9 - 1 0 0 0 , 5 7 0 , 9 6 N D 1 , 6 8 9 , 0 0 5 5 , 3 0 H o r i z . p H p H C M O P N a K N A l C / N ( H 2 0 ) ( K C l ) % m g / k g A 1 6 , 1 9 5 , 1 7 1 , 3 9 2 , 4 0 9 , 9 0 2 4 , 9 2 4 4 , 0 8 0 , 1 6 0 0 , 3 5 8 . 6 9 A 2 6 , 2 6 5 , 0 6 0 , 9 0 1 , 5 5 5 , 7 5 2 3 , 1 0 4 0 , 3 1 0 , 0 9 8 0 , 1 7 9 . 1 8 A B 6 , 2 5 4 , 9 8 0 , 6 8 1 , 1 7 3 , 9 2 1 0 , 3 8 1 7 , 6 8 0 , 0 4 9 0 , 2 6 1 3 . 8 8 B A 6 , 1 8 4 , 8 6 0 , 4 9 0 , 8 4 4 , 4 6 5 4 , 0 0 9 5 , 0 0 0 , 0 4 5 0 , 2 6 1 0 . 8 9 B1 6 , 1 3 4 , 7 2 0 , 4 1 0 , 7 1 6 , 3 0 8 , 5 6 1 5 , 7 9 0 , 0 4 3 0 , 5 2 9 . 5 3 B2 6 , 0 1 4 , 7 1 0 , 3 8 0 , 6 5 1 5 , 6 1 1 7 , 6 5 3 2 , 7 7 0 , 3 5
Tabela 2.3.2. Análises químicas no perfil de solo da área adjacente (quadra 160V-180D) ao sítio Cavalo Branco. H o r i z . P r o f . ( c m ) M g C a Z n C u M n F e P t o t a l C m o l c / k g m g / k g A1 0 - 1 1 0 , 2 5 0 , 7 5 0 , 5 4 1 , 1 3 5 5 , 1 4 1 3 5 , 3 2 A B 1 1 - 2 1 0 , 1 4 0 , 5 7 N D N D 4 4 , 1 6 1 4 7 , 9 1 B A 2 1 - 3 2 0 , 1 1 0 , 4 9 N D N D 1 5 , 3 1 2 0 7 , 7 0 B1 3 2 - 5 2 0 , 1 4 0 , 4 6 N D 1 , 1 8 4 , 6 0 2 9 1 , 7 7 B2 5 2 - 6 9 0 , 1 1 0 , 4 1 N D 1 , 0 6 2 , 9 2 2 1 9 , 6 0 B3 6 9 - 1 0 8 0 , 1 3 0 , 4 8 N D N D 0 , 5 5 6 3 , 0 2 B4 1 0 8 - 1 6 0 0 , 0 8 0 , 0 7 N D N D N D 2 4 , 5 4 H o r i z . p H p H C M O P N a K N A l C / N ( H 2 0 ) ( K C l ) % m g / k g A1 5 , 7 1 4 , 4 6 0 , 8 6 1 , 4 3 5 , 2 3 2 6 , 7 4 4 5 , 9 7 0 , 0 9 8 0 , 4 4 8 , 7 8 A B 5 , 8 1 4 , 5 2 0 , 6 0 1 , 0 3 3 , 8 5 1 3 , 1 0 2 3 , 3 4 0 , 0 7 4 0 , 4 4 8 . 1 1 B A 5 , 7 3 4 , 4 5 0 , 2 6 0 , 4 5 2 , 2 2 6 , 7 4 1 2 , 0 2 0 , 0 4 9 0 , 3 5 5 . 3 1 B1 5 , 4 3 4 , 2 8 0 , 4 5 0 , 7 7 1 , 6 1 4 4 , 9 1 7 6 , 1 4 0 , 0 3 7 0 , 5 2 1 2 . 1 6 B2 5 , 3 6 4 , 2 1 0 , 4 5 0 , 7 7 1 , 2 7 4 8 , 5 5 8 3 , 6 9 0 , 0 5 5 0 , 6 1 8 . 1 8 B3 5 , 5 3 4 , 2 6 0 , 3 8 0 , 6 5 0 , 9 9 4 , 9 2 6 , 3 6 0 , 0 3 7 1 , 0 5 1 0 . 2 7 B4 5 , 2 1 4 , 2 5 0 , 2 6 0 , 4 5 0 , 9 9 4 , 9 2 8 , 2 5 0 , 0 2 5 0 , 7 0 1 0 . 4 0
Na área adjacente, foi observada uma baixa densidade de material. Nas quadras em que foram identificados solo antrópico e de transição, dificilmente havia uma predominância dos mesmos em uma profundidade superior aos 30cm.
O sedimento denominado “de transição” foi o segundo mais encontrado no sítio. Em geral, o sedimento de transição foi encontrado no entorno da área com solo antrópico, com uma densidade de material intermediária entre a desse solo e o da área adjacente.
Um local interessante com a presença do sedimento de transição foi o entorno da quadra 80V-40D, onde foram encontrados cerca 265 fragmentos líticos. Esse número é bastante elevado em comparação com o restante das quadras do sítio, cuja média de fragmentos líticos raramente ultrapassou os 100 fragmentos. Foi esse o indicativo para a abertura da área de escavação 90V-60D, uma unidade de 2m²: acreditou-se que a área poderia ser um local específico de fabricação de utensílios líticos.
As terras pretas da Amazônia e o solo antrópico do sítio Cavalo Branco: Pode-se
notar que houve o cuidado de não designar o solo antrópico do sítio Cavalo Branco de “terra preta”. Essa, foco de inúmeros estudos pedológicos e arqueológicos na Amazônia (e.g. KERN, 1988, 1996; PETERSEN et al., 2001; NEVES et al., 2003; KÄMPF e KERN, 2005; GRAHAM, 2006) tem características ou gradações diferentes das do solo antrópico do sítio Cavalo Branco. As áreas com terra preta são, geralmente, associadas a sítios de várzea, cujas manchas de terra preta atingem até alguns quilômetros de comprimento (PETERSEN et al., 2001) e até, em casos extremos, dois metros de profundidade (KERN, 1996). A cor da terra preta desses sítios tende a ser ainda mais escura (se comparada ao sítio Cavalo Branco), atingido até a cor 10YR3/2. Os elementos químicos ligados à ocupação humana, como o Cálcio (Ca), Fósforo (P) e Manganês (Mg) também aparecem em maior quantidade do que no sítio Cavalo Branco. Neste, por fim, o Ph é mais ácido do que tendem a ser as terras pretas amazônicas.
No entanto, tanto nos casos clássicos de terra preta amazônica quanto no sítio Cavalo Branco, o solo escuro está ligado a uma grande quantidade de material arqueológico, e a variação química da área com solo escuro para a área de entorno é expressiva. Sem dúvida, os processos de formação desses solos são semelhantes. Autores como Kämpf e Kern (op. cit., p. 285) acreditam que a formação do sedimento escuro vem de “sítios assentamento (onde) são encontrados grandes volumes de
materiais orgânicos resultantes de atividades humanas. Esses materiais podem ser de origem animal, como ossos, conchas, sangue, carapaças, fezes etc., ou de origem vegetal, como as palmeiras”.
Denevan relata ter encontrado diversos sítios com terra preta em áreas de floresta de terra firme, mas com menor dimensão e profundidade do que os sítios em terraços (com média de 1,4 ha), “talvez indicando períodos de ocupação mais curtos” (2001, apud KÄMPF e KERN, op. cit., p. 289; grifo nosso).
Tudo indica que o Cavalo Branco se encaixa bem nessa categoria de sítios com solo antrópico com menor dimensão e profundidade. No entanto, os dados cronológicos (especialmente as datações) têm de ser inseridos nesse contexto para haver base para uma inferência mais segura quanto à duração dos períodos de ocupação.