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1.6. Kişilik Özellikleri

1.6.2. Kişilik Özelliklerinin Parasosyal Etkileşim İle İlişkisi

Para muitas pessoas, quando se fala em acessibilidade, vem logo à mente o espaço físico. Já pensam em um usuário de cadeira de rodas e em uma rampa, ou até mesmo na vaga para estacionar o veículo em um estabelecimento que está sinalizada com o Símbolo Internacional de Acesso69, indicando que há algum tipo de

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Tomamos como base o valor do salário mínimo de R$ 622,00. De acordo com o Decreto 7.655 de 23 de Dezembro de 2011.

69 Lei federal no 7.405, de 12 de novembro de 1985, torna obrigatória a colocação do Símbolo Internacional de Acesso em todos os locais e serviços que permitam sua utilização por pessoas com deficiência. Na cidade de São Paulo, o Decreto Municipal no 45.552, de 29 de novembro de 2004, dispõe sobre o Selo de Acessibilidade, que é instituído pelo Decreto Municipal no 37.648, de 25 de setembro de 1998, tornando obrigatória sua fixação nas edificações que menciona.

acessibilidade no local para a pessoa com deficiência. De fato, são providências importantes, mas se trata apenas de um pontinho no oceano. A acessibilidade ao meio físico é muito mais abrangente e se torna complexa quando se refere à pessoa com deficiência visual.

Quando saímos nas ruas, é muito comum nos depararmos com buracos, calçadas irregulares e outras barreiras urbanísticas, que muitas vezes, por descuido, nos fazem tropeçar. Agora imaginemos uma pessoa com deficiência visual, saindo de sua residência para chegar até um ponto de ônibus e/ou um posto de saúde, uma farmácia, uma escola, uma padaria... é quase impossível que consiga chegar sozinha, ou, se conseguir, corre sério risco de se acidentar. Para uma pessoa que não enxerga, andar desacompanhada é um desafio, por isso desenvolve referências próprias, para garantir alguma segurança entre o ir e vir. Como afirma Flávio em entrevista:

Quando você vê em compensação como eles têm dificuldades de se locomover nas ruas, aí a coisa fica mais complicada. A gente tem desde obstruções das calçadas, placas de trânsito em uma altura incompatível, galhos de árvore cortados que não são podados numa altura acima de 2 metros, então provocam ferimentos e provocam problemas para eles, as próprias calçadas que são muito ruins para todas as pessoas. (Flávio A. W. Scavasin, coordenador de Desenvolvimento de Programas. Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência).

Há recursos específicos para proporcionar a mobilidade da pessoa com deficiência visual e mesmo tendo sua maioria estabelecida por meio da Lei da Acessibilidade, ainda há um vazio dos serviços necessários.

Um recurso fundamental é o piso tátil70, que representa uma linha-guia perceptível à sensibilidade da pessoa com deficiência visual. É um piso diferenciado, que serve de direcionamento para as pessoas com deficiência visual total e baixa visão e é fundamental para a autonomia de PcDV. As cores são diferentes do piso que estiver ao redor. O artigo 15 da Lei da Acessibilidade prevê que, no planejamento de urbanização de vias, devem ser consideradas as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT)71 e o item III do mesmo artigo dispõe sobre: ―a instalação de piso tátil direcional e de alerta‖.

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70 O metro quadrado corresponde cerca de 16% do salário mínimo (R$ 99,20)

71 Fundada em 1940, a ABNT é o órgão responsável pela normalização técnica no País, fornecendo a base necessária ao desenvolvimento tecnológico brasileiro. É uma entidade privada, sem fins lucrativos, reconhecida como único Foro Nacional de Normalização através da Resolução no 7 do

O piso tátil direcional tem o objetivo de orientar e direcionar o trajeto, e o piso tátil de alerta, como o próprio nome indica, tem o objetivo de alertar e é colocado em início e término de escadas, rampas, em frente às portas de elevadores, no final das calçadas, sinalizando que se inicia a rua e em muitos outros locais nos quais a PcDV não consiga rastrear somente com a bengala. Assim sendo, a adequação da cidade de São Paulo ainda está muito aquém do necessário para tornar a acessibilidade realidade para essa população.

A história interviu em muito na contemporaneidade da pessoa com deficiência e também teve seu papel fundamental na criação de instrumentais que auxiliam a PcDV. A bengala72 é usada desde a antiguidade, mas chamada de bastão ou vara.

Há registros de que foi utilizada por Isaac73 e por Tirésias74, no entanto, somente no século XX é que foi registrada como alternativa concreta para ajudar na locomoção de pessoas com deficiência.

Em 1931, o Lions Club Peoria Illinois (EUA), instituiu, por meio de lei, o Dia Mundial da Bengala Branca, que dava prioridade no trânsito para travessia de pessoas com deficiência visual que portassem uma bengala branca. Em 1945, Richard Hoover, oftalmologista e tenente do exército americano, comprometido com o estudo dos problemas da cegueira, criou um método de locomoção, no qual era utilizado o toque da ponta da bengala.

Trata-se de um recurso importante para a mobilidade de pessoas com deficiência visual e deve ser entendida como a extensão do corpo de quem a utiliza como orientação. Ao contrário da muleta, que serve de apoio, a bengala tem a finalidade de permitir que a pessoa com deficiência visual perceba os obstáculos.

Existem diversos tipos de bengalas disponíveis no mercado, da mais simples às mais sofisticadas. Há bengala inteiriça (não é possível dobrar) e dobrável, de alumínio, que, após ser utilizada, pode facilmente ser guardada na bolsa ou colocada no pulso por meio de uma alça elástica. A ponteira pode ser fixa ou ter

Conselho Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Conmetro), de 24 de agosto de 1992.

72 Foram encontrados valores de R$ 45,00 a R$ 250,00. Varia em até 40% do valor do Salário Mínimo.

73 Considerado o filho da promessa, Isaac é filho de Abraão com Sara.

74 Tirésias era cego e considerado um dos mais notáveis adivinhos da mitologia grega. Filho de Everes e da ninfa Cariclo, conhecia o passado, presente e o futuro, além de interpretar o voo e a linguagem dos pássaros. (BRANDÃO 1994).

rotação, para facilitar o deslizamento em pisos. Há também a bengala telescópica, cuja ponteira tem sensor que apita quando algum obstáculo está próximo.

Muitos experimentos foram feitos – e ainda são feitos - fora75 e dentro do

País76 para dar mais mobilidade e/ou substituir a bengala convencional, mas, até o momento, ou são inacessíveis (produto importado custa cerca de US$ 1,4 mil) ou ainda não foram totalmente testadas. Entretanto, a velha e tradicional bengala ainda é a melhor aliada para facilitar a locomoção de pessoas com deficiência visual.

Além da bengala, outro recurso de locomoção é o cão-guia. As escolas de treinamento para esses cães surgiram após a I Guerra Mundial, pois os animais eram utilizados para amenizar os efeitos da guerra em pessoas que ficaram cegas. Os primeiros centros de adestramento surgiram na Alemanha, em 1915, e depois na França, espalhando-se pela Europa.

É um recurso que dá autonomia de mobilidade, garantindo o direito de ir e vir, tratado e estabelecido por lei. Trata-se da Lei federal no 11.126, de 27 de junho de 2005, regulamentada pelo Decreto federal no 5.904, de 21 de setembro de 2006, que

foi assinado em ato solene no Dia Nacional de Luta da Pessoa Portadora de Deficiência. Está contemplado também em lei estadual já citada neste estudo, que tem uma seção (XIII) específica a respeito do cão-guia, assunto disposto em dois artigos.

O decreto estabelece a permissão de que pessoas com deficiência ou baixa visão frequentem locais públicos, como escolas, cinemas, bares, hospitais, restaurantes, órgãos públicos e muitos outros, acompanhadas de seus cães-guias. Inclusive a todas as modalidades de transportes públicos, interestadual e internacional, com origem no território brasileiro. É constituído como discriminação, qualquer ato que vier a dificultar o dispositivo da lei, sob pena de multa e interdição.

No artigo 61 da Lei da Acessibilidade, o cão-guia é considerado como ajuda técnica. Esse artigo define como ajudas técnicas: ―...produtos, instrumentos,

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75 Bengala com etiqueta eletrônica para ajudar cegos - Cinco alunos e um professor da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, desenvolveram bengala com tecnologia capaz de ajudar os deficientes visuais a evitarem os obstáculos comumente encontrados pelo caminho. A smart cane, como é chamada, foi criada por uma equipe do curso de Engenharia.

76 Um professor da Universidade do Vale do Itajaí(Univali), de Santa Catarina, desenvolveu a bengala eletrônica voltada para deficientes visuais. Equipada com sensores semelhantes a um sonar, o dispositivo avisa ao usuário, por meio de vibrações no próprio cabo, sobre a existência e a localização de obstáculos. (Disponível em: <http://www.htmlstaff.org/ver.php?id=16995>).

equipamentos ou tecnologia adaptados ou especialmente projetados para melhorar a funcionalidade da pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida...‖.

No Brasil, há algumas iniciativas privadas77 para o adestramento de cães- guias e todas garantem que o número de cães treinados é muito reduzido em relação ao número de pessoas que necessitam desse recurso. Segundo as iniciativas privadas78, há cerca de 60 cães-guias treinados no País, para todo o universo de pessoas com deficiência visual, e o investimento para treinar cada animal é de R$ 25 mil79.

No Estado de São Paulo, em 20 de setembro de 2011, foi lançado o decreto que cria o Centro de Referência para o Cão-Guia, parceria da Secretaria dos Direitos das Pessoas com Deficiência com a Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP). O projeto prevê a construção, no

campus da USP, em São Paulo, de um espaço no qual, além de criar e treinar os

cães-guias, também serão estabelecidos os parâmetros para uso do cão-guia e normas de treinamento.

O cão será entregue, a partir dos dois meses de vida, para uma família acolhedora, e será acompanhado por técnicos do centro durante um ano. Depois, será encaminhado ao Centro e iniciará o treinamento, que levará em média de quatro a seis meses. De acordo com a Secretaria dos Direitos das Pessoas com Deficiência, todo o processo será gratuito para pessoas com deficiência visual e sua família. Como se verifica, em São Paulo, o atendimento de pessoas com deficiência visual, disponibilizando cão-guia, ainda deve demorar para ser concretizado, visto que o processo para treinamento exige tempo.

O semáforo sonoro é outro equipamento importante para a locomoção e autonomia da pessoa com deficiência. A Lei da Acessibilidade nada traz de específico sobre esse recurso. Somente no artigo 23 da Lei estadual 12.907 há orientações para a instalação. Diz que os semáforos devem estar equipados com sinal sonoro, e que o mesmo deve ser leve e não estridente. Ou deve-se ter algum outro mecanismo com o qual a pessoa com deficiência visual seja orientada durante

___________________ 77 Projeto Cão-Guia

– Rio de Janeiro (RJ). Disponível em: <http://www.caoguiabrasil.org/page>. Escola de Cães-Guias Heler Keller – Balneário Camburiú (SC). Disponível em: <

http://www.caoguia.org.br>. Projeto Cão-Guia ONG Integra – Brasília (DF).

78 Entrevista disponível em: <http://g1.globo.com/brasil/noticia/2010/04/brasil-tem-cerca-de-60-caes- guia-para-14-milhao-de-cegos-segundo-ongs.html>. Acesso em:

a travessia, se a intensidade do fluxo de veículos e a periculosidade da via

assim determinarem. O final do artigo nos faz pensar em quais casos não há

periculosidade durante a travessia de uma pessoa com deficiência visual sem enxergar a rua, haja vista que é raro estar disponível um semáforo com tal mecanismo.

Em pesquisa realizada sobre o semáforo sonoro, encontramos uma nota técnica da Companhia da Engenharia de Tráfego (CET), de 198880, assinada pelos engenheiros Paulo Ferreira Gomes e Virgílio dos Santos. Dizia-se que, na época, 70% das mortes decorrentes de acidentes de trânsito eram motivadas por atropelamento de pedestres. A nota tinha como objetivo geral desenvolver equipamento sonoro para reforçar a sinalização já existente. Os objetivos específicos eram variados: desde chamar a atenção de uma pessoa que enxerga, mas que poderia estar distraída, até avisar uma pessoa com deficiência visual. Indicava também que a mesma deveria ser treinada para identificar o que o som representava e saber se era necessário parar ou continuar. Ao final da nota, diz que foi colocado um semáforo sonoro próximo à Fundação Dorina Nowill e que o teste fora positivo.

A nota é importante para demonstrar que o assunto não é novo, mas que, atualmente, a cidade de São Paulo possui apenas quatro semáforos sonoros. Um está localizado em frente à Laramara, e o outro, que estava próximo à Fundação Dorina Nowill, foi retirado e não o recolocaram.

Quando perguntada sobre a acessibilidade para se chegar até a Fundação Dorina Nowill, Helena relata que a prefeitura faz pequenas tentativas de melhorar, colocando piso tátil e inclinando algumas calçadas, no entanto, somente bem em volta da Fundação.

Imagina uma pessoa que vem lá do metrô, ou desce em um ponto de ônibus, as calçadas são bem irregulares. Você vem andando pela Borges Lagoa, que é bem próxima daqui, enxergando já é difícil não cair, então, você percebe que os pisos são irregulares e há muitos buracos (...) Tem orelhão mal colocado, sem proteção nenhuma, as pessoas despejam areia na calçada e invadem todo o espaço. Não tem como ter referência, pela manhã, você passa, e está tranquilo, à tarde corre o risco de cair por terem colocado algum obstáculo. Isso dificulta a autonomia da pessoa com deficiência. Em São Paulo não existe nenhum tipo de ação focada para isto. (Helena, Fundação Dorina Nowill).

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Os itens importantes para a acessibilidade ao meio físico citados devem conduzir em segurança a pessoa com deficiência visual para explorar o espaço e até onde quer chegar. Quando precisa de transporte público, outro debate é gerado. Heloisa diz que a plataforma elevatória é muito importante para a pessoa com deficiência física, e não se pensa nas demais pessoas com mobilidade reduzida, mas é preciso dar atenção a esse segmento da população. Ela ainda levanta outra questão de dificuldade de acesso nos locais de paradas do transporte público, como explana a seguir:

A questão do transporte para pessoa com deficiência visual e todas as outras deficiências é uma luta, uma discussão que está tendo na Secretaria de Estado da Pessoa com Deficiência de SP e surge muito nas reuniões do Núcleo. A parada dos ônibus, em locais acessíveis é fundamental, não somente para pessoa cadeirante, ou pessoa com deficiência física, mas aquele deficiente que tem outras dificuldades. Cito um caso, por exemplo, a criança agitada, ela tem uma deficiência e junto com a deficiência ela tem uma agitação, um baixo nível de limite de tolerância, então muitas vezes o transporte coletivo parar em locais mais próximos ou da casa, ou da escola onde ela tem que descer, isso facilita muito ela estar nos locais. Porque se ela parar muito longe, muitas vezes a mãe ou a pessoa que a acompanha não consegue mais sair com essa criança. (Heloísa, presidente do Núcleo Regional da Pessoa com Deficiência II).

Em 2011, Carlos Ferrari, atual presidente do CNAS, lançou o livro Visões81, em que relata, de forma descontraída, acontecimentos da vida diária dele, experiências vividas e adquiridas em seu cotidiano de pessoa com deficiência visual. Ferrari (2011) conta um episódio em que estava à espera de um ônibus no ponto de parada. Ele declara que tal espera, para uma pessoa com deficiência visual, é, no mínimo, constrangedora. É preciso utilizar todos os sentidos para certificar-se se há uma pessoa presente no mesmo lugar. Quando percebe que sim, o problema está quase resolvido, pois basta perguntar-lhe se pode avisar quando o ônibus X chegar. É muito comum que a pessoa aceite ajudar. No entanto, também é comum que a pessoa que se comprometeu vá embora antes de você, e, o pior, sem avisar. Ele ainda relata que o desconhecimento de como ajudar e a falta de campanhas educativas dificultam tal acesso.

Voltemos mais uma vez para a questão do direito. O artigo 8o da Lei Federal de Acessibilidade não detalha o que seriam barreiras nos transportes, pois as define simplesmente como “as existentes nos serviços de transportes”. A Lei 12.907 do

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Estado de São Paulo, no artigo 14, item c, as especifica um pouco mais e, por esse motivo, as restringe, pois utiliza barreiras arquitetônicas, definindo-as como “as

existentes nos meios de transportes”. No parágrafo único do artigo 8o, é colocado

como responsabilidade do Estado o acesso adequado, especialmente ao transporte coletivo.