Nos finais de semana, a música alta oriunda da barraquinha próxima ao campo de futebol (onde funciona um bar), dos carros e dos bares localizados na Avenida Artur Bernardes, entre o Parque e o Morro, invadiam o espaço. Black music, hip-hop, pagode, funk e a música evangélica eram os estilos musicais presentes. Rapazes moradores do Morro transformavam seus automóveis em verdadeiras boates ambulantes, em que a música preferida era do estilo funk, em volume tão alto que tomava a Barragem e dava o tom “provocativo” ao ambiente, ao escolher esse estilo musical, caracterizado, na sua maioria, por letras de forte apelo sexual.
Além do futebol no campo, a caminhada na pista e as atividades físicas nas barras, as bicicletas, o velocípedes e os carrinhos de bebês eram muito presentes nesse local, nesses dias da semana (FI G. 43). Alguns dos principais locais apropriados pelas crianças nesses dias eram a “biquinha”, a quadra pequena e o parquinho (as crianças dos bairros apenas em situações pontuais), as barraquinhas de coco, açaí e as barras de ginástica (ambos os grupos).
I nteressante estabelecer comparação dos usos da Barragem Santa Lúcia com os usos do Parque JK, observados nesta investigação a título de contraponto. Nesse local, onde a desigualdade entre os grupos sociais era tão grande quanto nos arredores da Barragem Santa Lúcia, ocorria um apelo maior ao consumo infantil. Era possível encontrar alimentos associados às crianças (picolés, balas, pipoca e algodão doce), comprar brinquedos em barraquinha instalada sob plástico no piso (bolas, papagaios e demais brinquedos chineses, etc.) e alugar pequenos carros elétricos para circular pelo espaço (FI G. 44). Esse fenômeno não acontecia na Barragem. Além disso, crianças foram observadas jogando “pau no litro” num gramado daquele Parque, tal como na Praça Jerimum e na Barragem Santa Lúcia. Esse jogo foi adaptado pelas
próprias crianças do tradicional “bente-altas”, que, ao utilizarem materiais descartados e construírem o equipamento necessário, o reinventavam.
Figura 43 – Bicicletas na Barragem. Foto do autor.
Os usos do Parque nos finais de semana se estendiam à “pracinha” (FI G. 45). Aos sábados, nos horários da feira, moradores do Morro, incluindo as crianças, eram observadas em situações de busca pelo recurso monetário ou por comida. Elas se ofereciam para tomar conta de carros estacionados e carregar compras, principalmente para as mulheres. Era quando o Clube da Troca atraía mais pessoas - o único espaço da Barragem Santa Lúcia em que foi possível observar crianças de diversos grupos sociais. Local onde meninos e meninas moradoras do Morro, dos bairros próximos, distantes e de outros municípios se faziam presentes. Essas cenas de interação são retomadas a seguir.
Figura 45 – Praça República do Líbano e os usos. Croquis realizado pelo pesquisador com a colaboração de João Paulo Fontoura de Souza com base no programa Google Earth, acesso em 23
setembro de 2011.
Ainda nesse local, moradores dos bairros aproveitavam o tempo livre, principalmente aos sábados, para lavar seus carros. Os “flanelinhas” localizavam-se em pontos estratégicos e ofereciam os serviços. Homens e rapazes estabeleciam território apropriado para a atividade informal, fator que gerava tensão naqueles que estacionavam nas ruas. Nesse momento, ocorria interação entre pessoas de grupos
sociais distintos e, entre o medo, o constrangimento e a necessidade, alguns aceitavam os serviços. Tal fenômeno é recorrente em diversos outros locais da cidade e em diversas outras cidades do País.
Aos sábados a atividade era muito presente não somente nesse local, mas em muitos outros pontos dos arredores, onde se verificava a presença de carros estacionados temporariamente nos locais e, principalmente, de pontos de água públicos, instalados com objetivos de irrigação dos jardins. Na esquina, como em todos os outros pontos de lavagem de carros dos arredores, a presença de “flanelinhas” dava expressão à desigualdade étnico-racial: todos apresentavam traços negros e moravam no Morro e, apesar de conviverem e partilharem o mesmo espaço social com outros grupos, seja em atividades de lazer, seja do cotidiano, seja do trabalho, somente homens com essas características físicas prestavam esse serviço nas ruas (FI G. 46).
Diante dos diversos usos que as pessoas faziam do espaço – tanto para atividades em torno do lazer quanto em torno do trabalho – e da justaposição de elementos que criavam a possibilidade de encontro com elementos que geravam conflito, é possível considerar que
o clima descontraído que o espaço suscitava era, de
modo simultâneo, permeado pela tensão
. Diante das diversas dimensões queessas tensões tomavam nos arredores da Barragem Santa Lúcia (pelo, com e no espaço), é possível ainda considerar que a violência que geravam era multifacetada e multidirecional. No capítulo seguinte, abordo os temas do jogo e da violência com crianças na Barragem Santa Lúcia.
Capítulo 14
NOS ESPAÇOS
COM
CRI ANÇAS
As crianças eram bastante presentes e deixavam suas marcas nos arredores da Barragem Santa Lúcia. Especialmente a “esplanada” (entre o coco e a “biquinha”), a “quadra poliesportiva” e o playground’ (quadra pequena e “parquinho”), a Praça República do Líbano (a “pracinha”24) e em frente a diversos estabelecimentos comercias foram apropriados pelas crianças de distintos modos e para distintos tipos de atividade. Ao considerar algumas das cenas emblemáticas, descrevo a seguir algumas delas, mediante um recorte espaciotemporal e da maior densidade de ocorrência de cenas observadas: Clube de Troca aos sábados; entre o coco e a “biquinha” pelas manhãs e em outros horários; em frente às padarias, à farmácia e ao centro comercial; e na quadra/ parquinho.
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