Contrário a qualquer intervenção estatal que implicasse o estabelecimento de limites ao livre funcionamento do mercado econômico, Friedrich Hayek (1946) afirmava que a instituição de uma política econômica planejada e regulada pelo Estado constituía um dos maiores pecados cometidos pela sociedade capitalista. Uma traição imperdoável ao liberalismo clássico, sobretudo por parte daqueles que costumavam defender o desenvolvimento econômico com base na propriedade privada e na liberdade concorrencial.
O intervencionismo estatal significava para Hayek, o retorno às restrições e imposições, características das sociedades pré-capitalistas em que predominaram as relações servis e escravistas. De acordo com o autor, é neste sentido, que deve ser ressaltado o papel e a importância das liberdades individuais para o desenvolvimento econômico capitalista, pois:
[...] A constatação consciente de que os esforços espontâneos e não dirigidos dos indivíduos eram capazes de produzir uma complexa ordem de atividades econômicas só poderia ocorrer depois que o desenvolvimento técnico tivesse feito algum progresso. A consequente elaboração de sólidos argumentos em favor da liberdade econômica foi o resultado de um livre desenvolvimento das atividades econômicas que tinham sido o produto não previsto nem buscado da liberdade política. O maior resultado da libertação das energias individuais foi o maravilhoso desenvolvimento da ciência que acompanhou a marcha da liberdade individual (HAYEK, 1946, p. 40).
Às justificativas de Friedrich Hayek, seguem-se afirmações de que qualquer forma de coletivismo (socialismo, comunismo, totalitarismo, keynesianismo) não comporta a
democracia104; aliás, as proposições para a edificação de sociedades contrárias ao liberalismo
econômico encontram a igualdade na justaposição do constrangimento e da servidão, ao passo
104 A democracia para Hayek representa uma das várias formas de governo em que o poder não está concentrado
que a democracia, na sociedade capitalista, procura incansavelmente defender a igualdade, por meio da liberdade econômica e política.
O planejamento econômico estatal na interpretação hayekiana representa uma
séria oposição à liberdade, uma vez que não é possível planejar a democracia105 restringindo
as liberdades individuais. O coletivismo é inconcebível, independente de sua forma e/ou modelo (planejamento econômico capitalista, socialismo stalinista, nacional-socialismo alemão, comunismo marxiano), pois não constitui um caminho para assegurar liberdade individual aos sujeitos ou às instituições, visto que:
[...] o coletivismo, realizado e mantido por meios democráticos parece pertencer definitivamente ao mundo das utopias, pois na medida em que aumenta a direção organizada, a variedade de objetivos deve ceder lugar à uniformidade [...] Esta é a Nêmesis da sociedade planejada e do princípio autoritário na direção de assuntos humanos (HAYEK, 1946, p. 56-57).
Hayek, na medida em que lhe convém, expressa a sua compreensão e aponta os distintos modelos políticos vigentes em sua época. Ele argumenta que a própria impossibilidade de assegurar a igualdade e a liberdade, por meio do marxismo, levou a Rússia ao estabelecimento de uma sociedade não econômica, totalitária e puramente negativa, optando por tomar o mesmo caminho seguido pela Alemanha. No entanto:
[...] isto não quer dizer que o comunismo e o fascismo sejam essencialmente a mesma coisa. O fascismo é o estágio atingido depois que o comunismo mostrou ser uma ilusão, e ilusão se mostrou ele tanto na Rússia Stalinista como na Alemanha Pré-Hitlerista [...] A Alemanha não adotou o socialismo marxiano, assim como a Rússia Stalinista também não viveu sob tal regime. Para ambos, o verdadeiro inimigo, o homem com o qual nada tinham em comum e ao qual não esperavam convencer, era e é o liberal da velha formação (HAYEK, 1946, p. 57-58).
A política econômica alemã, praticada a partir de 1933, inegavelmente, afastou-se dos princípios econômicos liberais, acompanhando a tendência mundial. O seu sucesso posterior, denominado primeiro milagre econômico alemão, dever ser creditado às proposições econômicas de John Maynard Keynes, na própria medida em que garantiu o pleno emprego, por meio de um eficiente planejamento econômico para a geração de recursos, expandindo o investimento e o crédito voltado para o consumo popular, sobretudo para o
segmento da construção civil – infraestrutura, casas, escolas, hospitais, parques industriais e
105 Um Estado Liberal pode não ser necessariamente democrático. Um governo democrático não dá
necessariamente vida a um Estado Liberal, pelo contrário, o Estado Liberal Clássico entrou em crise em decorrência do progressivo processo de democratização produzido pela ampliação gradual do sufrágio em si.
afins. Em momento algum, a política econômica nazista se aproximou do socialismo marxista (FEIJÓ, 2009).
O socialismo para Hayek não é apenas uma importante espécie de coletivismo ou de planejamento econômico, mas sim a doutrina que submeteu uma grande quantidade de pessoas de tendências liberais a uma nova organização da vida econômica, na qual a liberdade se tornou uma verdadeira utopia, uma vez que:
[...] coloca os governos em tal situação que, para se manterem, são obrigados a tornarem-se opressivos e tirânicos. As dificuldades causadas pelas ambiguidades dos termos políticos comuns não ficam desfeitas com o uso da palavra coletivismo a fim de incluir todos os tipos de economia planejada, seja qual for a finalidade do planejamento. A significação desta palavra tornar-se-á mais definida se deixarmos claro que com ela designamos a espécie de planejamento necessária para a realização de quaisquer ideais distributivos (HAYEK, 1946, p. 64).
Friedrich Hayek considerava que a pessoa que admite o planejamento econômico em sua existência, se não for necessariamente fatalista, é, indubitavelmente, um especialista da economia planejada. Para ele, a ação política, ao considerar os princípios democráticos, não pode limitar-se às meras ações planejadas, pois é preciso enxergar as
diferenças existentes entre o bom e o mau planejamento106, entre o que é racional e previdente
e o que é irracional, irrelevante e insensato.
Do ponto de vista hayekiano, um especialista em economia que se propõe a estudar as razões que levam os homens a planejarem as suas atividades, ou de que maneira deveriam planejá-las, não podem, em situação alguma, voltar-se contra o planejamento em sentido amplo. Entretanto, não é nessa a concepção “que os entusiastas de uma sociedade planejada empregam este termo, nem apenas neste sentido que devemos planejar se desejamos
a distribuição do rendimento ou riqueza, de acordo com um padrão determinado” (HAYEK,
1946, p. 65).
A oposição do liberalismo econômico à economia planejada concentra a sua defesa nos pressupostos de que a competição é superior a qualquer forma de coletivismo, não apenas por constituir o regime mais eficiente, mas também por representar o meio pelo qual as atividades humanas podem ser compatibilizadas com a ação coercitiva e arbitrária da autoridade, sem que haja prejuízo à livre iniciativa e à propriedade privada (HAYEK, 1946).
106 Para Hayek, o bom planejamento não interfere nas relações de mercado, não prejudica a livre iniciativa ou a
Na apreensão de Friedrich Hayek (1946, p. 67), a concorrência não requer um controle social consciente, isto é, não necessita da intervenção de um órgão centralizado, e proporciona ao homem a total liberdade de escolha para “decidir se as perspectivas de uma determinada ocupação são suficientes para compensar as desvantagens e riscos que dela podem resultar”.
Para o autor, a utilização racional da competição, como fundamento da organização social, elimina alguns tipos de intervenção e admite outros tipos no campo econômico, desde que possam auxiliar consideravelmente em seu desenvolvimento e, não só permite como também requer certas formas de ação da autoridade governamental. Hayek afirma ainda, que, em nenhum sistema racional, sobretudo no liberalismo econômico, o Estado fica sem função definida quanto ao auxílio e em defesa da livre concorrência, pois é essa a instituição que garante ao sistema a sua aceitação na conformidade da legalidade jurídica, inteligentemente designada e permanentemente reajustada.
Hayek argumenta que a concorrência precisa estar completamente liberta para comprar e vender no mercado econômico, a qualquer preço e a qualquer pessoa que, por sua vez, deve ser livre para produzir, comprar e vender qualquer mercadoria que bem lhe convier, desde que possa ser produzida, comprada e vendida, pois:
[...] é essencial que o acesso às diferentes atividades comerciais seja facultado a todos em igualdade de condições e que a lei não tolere quaisquer tentativas de indivíduos ou grupos para restringir este acesso por força manifesta ou oculta [...] Qualquer tentativa de controlar os preços ou quantidades dessa ou daquela mercadoria priva a concorrência da sua capacidade de proporcionar uma efetiva coordenação dos esforços individuais e as alterações de preço deixam de registrar todas as alterações importantes das circunstâncias e não mais fornecem uma orientação segura para as decisões do indivíduo (HAYEK, 1946, p. 67-68).
Para ele, a concorrência e o planejamento só podem coexistir com o propósito único de planejar os interesses da própria concorrência, jamais contra ela. É impossível reconhecer todos os detalhes das transformações econômicas que influenciam na concorrência, em decorrência da própria instabilidade existente na relação oferta-procura, do mesmo modo que não é possível reunir e difundir com rapidez e eficiência todas as informações (HAYEK, 1946, p. 85).
De acordo com a concepção hayekiana, a complexa dinâmica teia de relações do trabalho nas condições modernas de sua divisão permite à concorrência constituir o único meio, em condições concretas, para coordenar a vida na sociedade capitalista. Portanto, “o problema de um planejamento ou controle eficiente não apresentaria dificuldade, se as
condições fossem tão simples que uma única pessoa pudesse exercer fiscalização sobre todos os fatos importantes” (HAYEK, 1946, p. 84).
Neste sentido, torna-se impreterível a descentralização em razão da impossibilidade de se ter uma visão panorâmica do conjunto de fatores que envolvem o
problema da coordenação – uma coordenação capaz de fornecer os recursos que podem
proporcionar ao âmbito privado a liberdade para realizar os ajustes de suas atividades aos acontecimentos que são de seu conhecimento exclusivo, adequando respectivamente o seu planejamento individual.
Para Hayek, a descentralização é necessária, pois absolutamente ninguém é capaz de reunir todos os meios para avaliar de forma consciente as condições que interferem nas decisões dos sujeitos. Portanto, a coordenação não pode ser realizada por um controle conscientemente racional, somente por meio de um conjunto de dispositivos e informações para que cada pessoa possa adequar eficientemente suas decisões às do todo.
Friedrich Hayek (1946, p. 86) argumenta que o único aparelho capaz de coordenar tais relações e que nenhum outro sistema se propõe a realizar é o sistema de preços sob o regime da concorrência. Para o autor, esse meio descentralizado, complementado pela coordenação automática, é incrivelmente superior, ilimitado e eficaz em suas aplicações e alcance para resolver os problemas da economia, sobretudo se comparado aos meios mais intuitivos da direção central (economia planejada interventora).
Segundo Friedrich Hayek, o sistema de preços expressa as relações de troca –
compra e venda – realizadas no mercado em um único número, e permite a existência da
comparação entre o custo dos bens (produtos) oferecidos no mercado e a disponibilidade de recursos individuais para a sua aquisição. Em outras palavras, a ação econômica acontece por meio da relação existente entre o preço do produto “A” ao preço do produto “B” e a quantidade de dinheiro de que a pessoa pode dispor para comprá-lo. Somente pela subjetividade da análise desses três elementos é que uma decisão econômica pode ser realizada, pois, sem dinheiro, não pode haver preços, e preços não existem sem a propriedade privada, fundamental para a ocorrência da análise subjetiva.
A sociedade capitalista economicamente planejada, por sua natureza, interfere em alguns setores da vida social que, necessariamente, requerem o controle do Estado para que as metas definidas sejam alcançadas. As liberdades individuais vinculam-se às medidas regulatórias governamentais na própria medida em que as carências da sociedade são
suprimidas e fortalecem, consequentemente, as bases de sustentação do sistema capitalista em si.
Hayek afirmava que o sistema econômico planejado, fatalmente se dirigiria para uma ditadura plebiscitária (aludindo aos regimes totalitários capitalistas) na qual o governante era periodicamente confirmado no cargo por meio do voto popular. Max Weber costumava advertir que o capitalismo não comporta a democracia, ou melhor, a burocracia do Estado era contrária à democracia. Friedrich Hayek, em contrapartida, afirmava que a democracia representava em si, o sistema de competição baseado no direito da livre disposição da propriedade privada. Somente a política econômica liberal permite e assegura a existência da democracia, pois ela é:
[...] essencialmente um meio, uma invenção utilitária para salvaguardar a paz interna e a liberdade individual. Não devemos esquecer que muitas vezes tem havido mais liberdade cultural e espiritual sob os regimes autocráticos do que em certas democracias – e é pelo menos concebível que, sob o governo de uma maioria muito homogênea e doutrinária, que o governo democrático pode ser tão opressor quanto a pior das ditaduras. O ponto por nós defendido não é, contudo, que a ditadura deva inevitavelmente extirpar a liberdade, mas sim que o planejamento conduz à ditadura porque esta é o instrumento mais eficaz de coerção e de imposição de ideias, e como tal, de importância essencial para que o planejamento em larga escala se torne possível. O conflito entre o planejamento e a democracia surge, simplesmente, do fato de constituir essa um obstáculo à supressão da liberdade exigida pela direção das atividades econômicas (HAYEK, 1946, p. 113-114).
O controle exercido pelo intervencionismo do planejamento estatal na economia, no entendimento hayekiano, deveria restringir-se ao estabelecimento de regras para situações específicas, sem interferir na vontade e ação individuais, diretamente associadas às condições naturais de espaço e tempo. Apenas as pessoas dispostas a realizar determinadas atividades produtivas e/ou comerciais, por sua própria experiência, são conhecedoras das circunstâncias a que estão submetidas. Para empregar de sujeito precisa prever as ações que
serão realizadas pelo Estado, para que não interfiram em seus planos localmente – reitera
Hayek.
Considerado o âmbito político, no qual o Estado tem condições de antever os possíveis efeitos de suas ações sobre as pessoas, indubitavelmente definirá quais serão as suas finalidades, argumenta Friedrich Hayek. Nesse sentido, as pessoas não poderão prever os resultados de suas ações, pois não conhecem as possibilidades de ação do Estado em si, isto é, “as regras gerais, as verdadeiras leis em contraposição às ordens específicas, devem ter por objetivo operar em circunstâncias que podem ser previstas e, por conseguinte, não se pode
conhecer de antemão o seu efeito sobre objetivos ou pessoas particulares” (HAYEK, 1946, p. 120).
O autor infere que quanto mais se estende e se expande o planejamento estatal, mais urgente se torna o estabelecimento de princípios e fundamentos legais para definir o que, de fato, é justo ou razoável. A concentração da tomada de decisão no sistema de planejamento conduz à destruição do Regime de Lei (Estado de Direito), que deve ser apreendido em razão da supremacia absoluta do direito normal, completamente contrário às influências e/ou interferências do poder arbitrário, visto que a arbitrariedade extingue a prerrogativa da autoridade discricionária governamental.
Para ele, não existem motivos econômicos que possam condicionar os esforços do sujeito para realizar a compra de uma mercadoria específica, durável ou não durável, pois se o homem se dedica “a ganhar dinheiro é porque o dinheiro proporciona a mais ampla escolha no gozo dos frutos dos esforços individuais. É pela limitação da renda pecuniária que se faz sentir as restrições ainda impostas pela pobreza relativa” e o dinheiro é o único meio no interior da sociedade capitalista, capaz de possibilitar uma extraordinária variedade de escolhas à classe pobre (HAYEK, 1946, p. 137).
Na análise hayekiana, não existe qualquer aspecto que limite ou restrinja a evolução do sistema. Não há regras rígidas, inflexíveis ou imutáveis, determinadas de forma permanente, que possam interferir nas questões individuais para movimentar a utilização das forças produtivas da sociedade. Praticamente, inexiste a necessidade de recorrer às forças coercitivas, visto que há uma diferença tênue entre construir e preservar um sistema em que a competição produz os maiores benefícios possíveis, e aceitar de forma passiva as instituições em seu estado natural.
Hayek (1946, p. 44) afirma que a postura na qual se coloca o liberalismo em si e para com a sociedade capitalista é semelhante à de um agricultor que prepara a terra, tendo em vista criar as condições ideais para o plantio e colheita da cultura escolhida. Ele argumenta que o agricultor precisa conhecer tudo sobre a terra e sobre o produto que cultiva, para que evite resultados indesejáveis e alcance o máximo lucro possível, com a venda de sua produção. O liberalismo, por sua vez, deve conhecer as condições do mercado, prever as possíveis ações das instâncias governamentais que interferem ou influenciam no campo econômico para que atinja os seus propósitos, assim como o agricultor. Prossegue Hayek em sua obstinada defesa:
Nenhuma pessoa sensata devia ter duvidado de que as regras rudes em que se expressavam os princípios da política econômica do século XIX eram apenas um começo, de que ainda tínhamos muito por aprender e de que ainda havia imensas possibilidades de progresso dentro das linhas que vínhamos trilhando. Mas este progresso seria atingido somente à medida que conquistássemos um crescente domínio intelectual sobre as forças que tínhamos que empregar. Muitas eram as tarefas de necessidade imediata, como o funcionamento do nosso sistema monetário e o impedimento ou controle do monopólio, e ainda um maior número de tarefas de necessidade imediata (de importância menos evidente, mas nem por isso menor) em outros setores onde não se podia duvidar que o governo possuía enormes poderes para o bem e para o mal; e havia todos os motivos para que, com uma melhor compreensão dos problemas, ficássemos algum dia habilitados a empregar com bom êxito esses poderes (HAYEK, 1946, p. 44).
Num sistema de livre iniciativa é bastante difícil prever quais pessoas
conseguirão atingir os seus objetivos e quais fracassarão – de acordo com o autor –, pois a
concorrência assim como a justiça, é “cega”. A concorrência possibilita as oportunidades, mas não define as habilidades e competências, bem como não distribui recompensas ou aplica penalidades que possam determinar a sorte de cada um. Entretanto, ressalta Hayek (1946, p. 153), “no regime de concorrência, o acaso e a sorte muitas vezes são extremamente importantes na determinação do destino individual”.
Na concepção de Hayek, a desigualdade de oportunidades no sistema de livre iniciativa é natural, pois as diferenças de oportunidades decorrem da propriedade privada; os ricos, portanto, têm um acesso e uma perspectiva de sucesso muito maior que os pobres. A retórica hayekiana pressupõe que a liberdade dos pobres, num regime de concorrência, é muito maior do que qualquer conforto material desfrutado por uma pessoa em qualquer tipo de sociedade coletivista. Para ele, o sistema de propriedade privada representa a mais importante garantia da liberdade:
[...] não só para os proprietários, mas, também, em escala quase igual, para os que não os são, visto que todo aquele que compreende o que isso significa preferiria limitar o planejamento à produção e usá-lo apenas para garantir uma ‘organização racional da indústria’, deixando a distribuição dos rendimentos entregues tanto quanto possível a forças impessoais [...] Sempre haverá desigualdades que parecerão injustas aos que sofrem em consequência delas, decepções e infortúnios imerecidos, mas essas coisas acontecem (HAYEK, 1946, p. 156 e 158).
O autor reitera que, um pequeno senso de humanidade também precisa existir nas relações no interior da sociedade capitalista para que o proletário tenha a possibilidade de acessar a um mínimo de alimentos, roupas e moradia, fundamentais para que possa preservar a sua saúde e a sua capacidade produtiva. É nesse sentido que a assistência do Estado se revela importante, com vistas a satisfazer as eventualidades comuns, às quais a maior parte da classe trabalhadora está exposta.
Certamente que reclamações por parte do proletariado sempre existiram e sempre existirão, para que as instâncias governamentais interfiram nas relações em sociedade, tendo em vista assegurar-lhe o mínimo para a alimentação, vestimenta e moradia, salvaguardando-lhe as esperanças de dias melhores. É o Estado o responsável direto por amparar-lhe em situação de dificuldade e de privação, antes:
- De assegurar-lhe os direitos fundamentais à vida, à liberdade e à segurança, pressupostos pelo liberalismo clássico, uma vez que o Regime de Lei (Estado de Direito) representa não apenas a submissão e obediência do governo às leis, mas também a subordinação das leis às restrições materiais ao reconhecimento dos direitos fundamentais considerados invioláveis (LOCKE, 2006).
No acometimento de doenças ou na eventualidade de um acidente no exercício das atividades produtivas, os trabalhadores podem prescindir da provisão de assistência, pois são muito fortes as razões para que o Estado auxilie efetivamente o mercado na organização
de um sistema de seguros sociais – o sistema previdenciário. Para Friedrich Hayek (1946, p.
179-180) não existe incompatibilidade alguma entre a “criação e manutenção de um sistema