3. Türkiye’de Siyasi Hareketler ve İdeolojiler
3.2. Kemalizm ve Ulusalcılık
Nelson Marques, biólogo
nmarquesnel@gmail. com
Viagem Fantástica (Fantastic Voyage,ou Microscopia,ou Strange Journey),1966, Richard Fleischer, EUA; Viagem Insólita (Innerspace),1987, Joe Dante, EUA.
Equipe de médicos e cientistas decide colocar em prática um procedimento inédito e muito arriscado para salvar a vida de um político, na primeira versão, ou apenas como experimentação científica no segundo caso. Usando uma técnica inovadora de miniaturização, os médicos e cientistas são injetados no interior do corpo de um homem para que façam a microcirurgia necessária. Mas, uma vez lá dentro, eles terão de enfrentar vários desafios. Um clássico da ficção científica que ganhou vários prêmios em 1966 e 1967 e refilmado vinte anos depois, em 1987, por Joe Dante.
A
h! Que saudades dos filmes da Sessão da tarde das nossas TVs,ou das sessões de cinema nas madrugadas. . . Os anos 70 e 80 do século passado deixaram muitas lembranças boas, se pensarmos nos filmes apresentados e vistos. Graças a elas tivemos oportunidade de ver uma penca de filmes clássicos e os, hoje, famosos filmes “B”, e muitas outras raridades do cinema de ficção científica, um dos gêneros escolhidos pelos estúdios para as suas produções de segunda categoria.
Dentre eles, destaca-se uma produção de 1956, a Viagem Fantástica (Microscopia ou Strange Journey, do título original), de Richard Fleischer (1916-2006). Fleischer realizou ainda outros filmes que se destacaram ao longo do tempo, tanto na ficção científica, quanto em outros gêneros: Vinte Mil Léguas Submarinas (20000 Leagues Under the Sea), de 1954, com Kirk Douglas; Os Vikings (The Vikings), 1958, com Kirk Douglas e Tony Curtis; Tora! Tora! Tora! (idem), 1970, com Martin Balsam e Joseph Cotten; Terror Cego (Blind Terror), 1971, com Mia Farrow; No Mundo de 2020 (Soylent Green), 1973, com Charlton Heston; Conan, o Destruidor (Conan,the Destroyer), de 1984, com Arnold Schwarzeneger; e Amityville 3 –o Demônio (Amityville 3-D), em 1983, com John Baxter e Nancy Baxter.
Viagem Fantástica, feito em plena época da Guerra Fria, a disputa política das duas superpotências da época – EUA e União Soviética – pelo domínio hegemônico do mundo, é uma deliciosa história sobre uma equipe de médicos, cientistas e militares, que tentam salvar a vida de um diplomata, obviamente pró-mundo ocidental (leia-se, EUA), que tem um problema no cérebro. Através de uma técnica inovadora de miniaturização, a equipe médico-militar é injetada dentro do corpo do diplomata, todos dentro de um submarino, também miniaturizado.
É aqui que se inicia uma fantástica e criativa viagem dentro do corpo humano. Tentando chegar ao cérebro doente, grandes desafios serão enfrentados ao longo do filme, de certa maneira refletindo os embates políticos e militares externos que aconteciam entre as duas superpotências, os EUA e a União Soviética e os países associados da, então, chamada “Cortina de Ferro”. Obviamente, até por questões políticas, só aparecem referências indiretas a essa situação, nunca se assumindo explicitamente a situação política e diplomática vigente.
O diplomata e cientista Dr. Jan Benes, interpretado por Jean Del Val, uma vez decidido a ficar do lado do “bem”, dando apoio aos americanos tão “bem”
intencionados, é recepcionado pelo Governo Americano num cuidadoso esquema de segurança; mesmo assim, não consegue evitar um atentado terrorista perpetrado pelos agentes do “mal” (ou seja, a União Soviética). Esse atentado fere gravemente o diplomata-cientista, deixando-o com um perigoso coágulo de sangue numa das artérias do cérebro.
A ideia “simples” de levar médicos e cientistas dentro de um submarino, todos miniaturizados, através da corrente sanguínea, para destruir o coágulo com armas de raio laser, é sempre uma solução armamentista. Desta vez, com armas de raio laser, para a solução de problemas, forma emblemática, desde os primeiros filmes de faroeste, e parte formativa da cultura americana, é dificultada, no entanto. Esta dificuldade é que propicia a ação necessária ao filme e se baseia numa restrição fundamental ao possível êxito da missão. Se toda a parte técnica de miniaturização foi resolvida a contento, ela esbarra numa dificuldade técnica não resolvida, ou seja, a reversão automática ao estado normal num intervalo máximo de 60 minutos!
Sem dúvida, algo que poderia parecer um limite mais do que razoável para a ação, é dificultado por todos os percalços biológicos e fisiológicos que a jornada irá enfrentar e, mais ainda, pelo fato da reversão ser um processo automático, incontrolável e irreversível. . . Mas as coisas não param aí, como veremos mais à frente. . .
A equipe de salvamentoé liderada, na Base de Operações, por oficiais de alta patente: o General Alan Carter (Edmond O’Brien) e o Coronel Donald Reid (Arthur O’Connell). No submarino, pelo Dr. Michaels (Donald Pleasence) como navegador que, se já não bastassem os problemas naturais de qualquer missão, ainda sofre de claustrofobia! Parece que Hollywood nunca se pergunta, ou se preocupa, com a ação desenvolvida dentro de um submarino (mesmo que não miniaturizado): como é possível colocar um tripulante essencial ao sucesso da missão com problemas médicos de tal porte? Enfim, isso é Hollywood. . . !
Completando a equipe, dentro do submarino, temos, enfim, a presença de um neurocirurgião, Dr. Peter Duval (Arthur Kennedy) e seu assistente. No caso, “o” assistente é Rachel Welch (Cora Peterson), a 1ª figura feminina a aparecer no filme. Todos eles serão os responsáveis pela remoção do coágulo alojado no cérebro do diplomata-cientista.
Além deles, há o projetista e piloto do submarino Proteus, Capitão Bill Owens (William Redfield) e o Dr. Grant (Stephen Boyd), agente do Serviço Secreto Americano, perito em comunicações e exímio mergulhador – tudo isso para garantir o sucesso e a segurança da missão.
Este é o cenário inicial onde submarino, tripulação, equipes médica e militar iniciam a viagem fantástica do título do filme em português pelo interior do corpo humano. Nessa viagem, eles enfrentam uma infinidade de desafios e mistérios através da corrente sanguínea do diplomata, com direito a excelentes efeitos especiais nas passagens pelo coração, pulmão e ouvido. Enfrentam ataques naturais ao submarino – “corpo estranho” dentro do organismo –, realizados pelos componentes do sistema imunológico e, também, tentativas de sabotagem. Ao lado de tudo isso, e como não poderia faltar numa produção americana, a sofisticada base secreta militar, as salas de computadores, com máquinas enormes e múltiplas luzes piscando – pois era assim que eles “funcionavam”, pelo menos na visão de Hollywood –, a paranoia nuclear, os conflitos da guerra fria, os atentados terroristas, são frutos, todos eles, de uma época aterrorizante e ameaçadora de apenas algumas décadas atrás!
Se no filme de 1966 havia uma premissa básica, extraordinária mesmo para os filmes do gênero ficção científica, em que filmes de temática de viagens espaciais e invasões alienígenas eram comuns, o “mergulho” dentro do corpo humano surpreendeu a todos! Se as fronteiras do espaço exterior estavam já sendo “desbravadas”, nada se sabia das “fronteiras” de nosso espaço interior. O rigor técnico, a seriedade e correção das informações científicas deram ao
filme uma aura de credibilidade e seriedade que não foi seguida pela segunda versão da mesma história.
Nessa Viagem Insólita (Innerspace), o humor, completamente ausente na primeira versão, passa a ser o tom dominante do diretor Joe Dante, um dos protegidos de Steven Spielberg, também produtor do filme. Mesmo sendo a ideia básica a mesma, a adaptação de Joe Dante é livre, pois nem menciona a história original de Jerome Bixby e Otto Klement. No caso, o foco da história passa a ser a história do personagem Jack (Martin Short), um hipocondríaco de “carteirinha” que recebe acidentalmente a “carga” miniaturizada destinada a um experimento científico de miniaturização no qual o “paciente” seria um coelho. Como contraponto, o único voluntário que se candidatou àquele experimento foi um arredio e displicente piloto, o tenente Tuck Pendleton (Dennis Quaid).
Aparecem também alguns “terrorristas” no pedaço que são, na verdade, traficantes de tecnologia que pretendem roubar o resultado do experimento. É nesse “quiproquó” que o acidente acontece, e Jack entra na história. Juntos, os dois farão de tudo para perseguir os vilões, recuperar o chip de aumento de tamanho para recuperar a estatura normal. Mas, é lógico, tudo isso tem que acontecer antes que se acabe o oxigênio dos “miniaturizados”. A propósito, a figura feminina aqui é a namorada de Tuck, Lydia Maxwell, interpretada por Meg Ryan. Ambos, no entanto, são eclipsados pelo desempenho histriônico de Martin Short no seu papel de hipocondríaco. É interessante observar a transformação de Jack que, tolhido por problemas e traumas envolvendo a sua saúde, passa por uma hilária e forçada transformação, surgindo quase que como um novo “homem” no final do filme. Apesar disso, o filme tem “pecados” em demasia para o meu gosto. São piadas muito forçadas, roteiro com muitos furos, história sem controle e exagerada, que compromete o seu final. Apesar da boa safra de filmes de ficção científica, produzidas nesse mesmo ano, em geral, sempre com o dedo de Steven Spielberg – De Volta para o Futuro (Back
to the Future), 1985, de Robert Zemeckis, Cocoon (idem), 1985, Ron Howard, Viagem ao Mundo dos Sonhos (Explorers), 1985, do mesmo Joe Dante–, eu não colocaria este filme no mesmo pacote.
Como sempre acontece nas obras em que Steven Spielberg está envolvido, os efeitos especiais são excelentes e renderam o Oscar à equipe técnica.
Viagem Fantástica (Fantastic Voyage ou Microscopia, ou Strange Journey), 1966. Direção: Richard Fleischer; Roteiro: Harry Kleiner, a partir da adaptação de David Duncan para a história de Jerome Bixby e Otto Klement; Produção:
Saul David; Estúdio: 20th Century Fox; Distribuição: 20th Century Fox; Música
original: Leonard Rosenman; Fotografia: Ernest Laszlo; Direção de Arte: Dale Hennsy e Jack Martin Smith; Edição: William B. Murphy; Elenco: Stephen Boyd (Dr. Grant), Raquel Welch (Cora Peterson), Edmond O’Brien (General Alan Carter), Donald Pleasence (Dr. Michaels), Arthur O’Connell (Coronel Donald Reid), William Redfield (Capitão Bill Owens), Arthur Kennedy (Dr. Peter Duval), Jean Del Val (Dr. Jan Benes), Barry Coe, Ken Scott Shelby Grant, James Brolin, Brendan Fitzgerald, Brendan Boone, Christopher Riordan; Ficção/Ficção Científica, 100 minutos, cor.
Prêmios
Oscar: 1967, Melhor Direção de Arte, para Jack Martin Smith, Dale Hennesy, Walter M. Scott e Stuart A. Reis.
Viagem Insólita (Innerspace), 1987. Direção: Joe Dante; Roteiro: Chip Proser e Jeffrey Boam, baseado em história de Chip Proser; Produtor: Michael Finnell; Estúdio: Amblin Entertainment,The Guber-Peters Company e Warner Bros. Pictures; Distribuição: Warner Bros. Pictures e Warner Home Video; Música original: Jerry Goldsmith; Fotografia: Andrew Laszlo; Direção de Arte: William F. Matthews; Figurino: Rosanna Norton; Edição: Kent Beyda; Efeitos Especiais: Industrial Light & Magic; Elenco: Dennis Quaid (Tenente Tuck Pendleton), Martin Short (Jack Putter), Meg Ryan (Lydia Maxwell),
Kevin McCarthy (Victor Scrimshaw), Fiona Lewis (Dra. Margaret Canker), Vernon Wells (Sr. Iago), Robert Picardo (Cowboy), Wendy Schaal (Wendy), Harold Sylvester (Pete Blanchard), William Schallert (Dr. Greenbush), Henry Gibson (Sr. Wormwood), John Hora (Ozzie Wexler); Ação/Aventura/Ficção Científica, 120 minutos, cor.
Prêmios
Oscar 1988, Melhores Efeitos Especiais para Dennis Muren, Bill George, Harley Jessup e Kenneth Smith.
Curiosidades
1. Isaac Asimov (1920-1992) escreveu a novelização do filme Viagem
Fantástica em 1966. Mais tarde, em 1987, desenvolveu a mesma história em Viagem Fantástica II – Rumo ao Cérebro (Fantastic Voyage II – Destination Brain) que se pretendia também transformar em filme, mas que não se concretizou. O primeiro livro, novelizado a partir do roteiro do filme, não agradou ao escritor. Ele próprio explicitou na nota introdutória do segundo livro, em que diz que se sentiu amarrado ao manter-se fiel ao enredo do filme, “mudando apenas as incoerências científicas mais insuportáveis”. Ele, no entanto, se responsabiliza totalmente pelo conteúdo do segundo (“[. . . ] para melhor ou para pior, este romance é meu [. . . ]”). A história desse segundo livro é semelhante à contada no filme de 1966. Porém, desta vez os cientistas são miniaturizados ao tamanho de uma molécula de glicose e enviados, a bordo de uma nave, ao cérebro de um paciente em coma, percorrendo, para isso, sua corrente sanguínea. Não é uma sequência da história original. O livro, no entanto, mantém o clima da Guerra Fria, em que soviéticos e norte-americanos, apesar de viverem um período menos tenso em seus relacionamentos, competem agora pela dianteira do conhecimento científico. Uma característica interessante do livro é que cada passo da discussão sobre técnicas científicas empregadas pela equipe é acompanhada por uma explicação fundamentada de Asimov.
2. O escritor Jerome Bixby, autor da história original, na qual o filme foi baseado, faleceu aos 73 anos em 1998 (1923-1998). Além de muitas histórias curtas, incluindo faroestes escritos com pseudônimo, fez muitos roteiros para séries de TV de cunho fantástico e ficção científica como, por exemplo, Além da Imaginação (Twilight Zone, 1959/1964. Episódio It’s a Good Life, 1961) e Jornada nas Estrelas (Star Trek, 1966/1969. Episódios: Requiem for Methuselah, 1969, Day of the Dove, 1968, By Any Other Name, 1968, Mirror, Mirror, 1967).
3. Donald Pleasence, o Doutor Michaels, faleceu em 1995 (1919-1995).
Foi o incansável psiquiatra Dr. Sam Loomis nos cinco filmes da franquia do psicopata Michael Myers, criada em 1978 por John Carpenter, com Halloween – A Noite do Terror (Halloween). Com uma carreira de quase 200 filmes, destacam-se entre os seus trabalhos: A Carne e o Diabo (The Battle of Sex), 1959, de Charles Crichton; Circo dos Horrores (Circus of Horrors), 1960, de Sidney Hayers; THX 1138 (idem), 1971, de George Lucas; Vozes do Além (Tales That Witness Madness), 1973, de Freddie Francis; Drácula, (Dracula), 1979, de John Badham; Fuga de New York (Escape from New York), 1981, de John Carpenter; Príncipe das Sombras (Prince of Darkness), 1987, também de John Carpenter, e Enterrado Vivo (Buried Alive), 1989, filme feito para a TV por Frank Darabont.
4. Raquel Welch nasceu em 1940. É uma atriz com uma carreira irregular,
com filmes importantes, como o comentado aqui e A Mais Velha Profissão do Mundo (Le Plux Vieux Métier Du Monde), 1967, de Claude Autant-Lara e Mauro Bolognini, Myra Breckinridge (idem), 1970, de Michael Sarne e Os Três Mosqueteiros (The Three Musketeers), 1973, de Richard Leister. Por este filme ela ganhou o Globo de Ouro 1975 como Melhor Atriz de Musical/ Comédia. Por outro lado, muitos outros são inclassificáveis e perfeitamente esquecíveis, como 1. 000 Séculos A. C. (One Million Years B. C.), 1966, de Don Chaffey, produção da Hammer, Bandolero! (idem), 1968, de Andrew
V. McLaglen, 100 Rifles (idem), 1969, de Tom Grils, ou o Chairman of the Board, 1998, de Alex Zanim, pelo qual ganhou a indicação para o prêmio Framboesa de Ouro (Razzie Awards) como Pior Atriz Coadjuvante.