4. Pasif Kitleden Bireyin Aktifliğine ve Kültürel Çalışmalar
4.1. Düşman Medya Etkisi Teorisi
Josimey Costa da Silva
Professora da UFRN, escritora, videomaker jcostadasilva@hotmail. com
Pinóquio (Pinocchio), 1940, Ben Sharpsteen (animação), EUA; As Aventuras de Pinóquio – O Filme (The Adventures of Pinocchio), 1996, Steve Barron (animação), EUA; Pinóquio e a Fada Azul (Pinocchio), 2002, Roberto Benigni, Itália/EUA.
Os Estúdios Walt Disney produziram a primeira versão de Pinóquio (Pinocchio) em 1940 para contar a história de Gepeto e seu boneco de madeira, Pinóquio, que se anima e busca tornar-se humano. Em meio a tentações e decepções, o boneco descobre o certo e o errado e, assim, acaba realizando o seu desejo. Essa filmagem, ganhadora do Oscar em 1941 (melhor trilha sonora e melhor canção), trouxe a consciência externalizada de Pinóquio na forma de um grilo falante, e a sua redenção possível encarnada em uma fada. As versões seguintes, As Aventuras de Pinóquio – O Filme (The Adventures of Pinocchio), de 1996, e Pinóquio e a Fada Azul (Pinocchio), de 2002, mantiveram esse roteiro básico, fiéis ao livro homônimo de Carlo Collodi.
A
os cinco ou seis anos de idade, eu assistia pela primeira vez emminha vida a um filme numa verdadeira sala de cinema. O filme era Pinóquio, uma animação da Disney, e meu coração quase pulava pelos olhos arregalados para não perder nada daquele sonho que se realizava fora da minha cabeça e que, estranhamente, também emergia de dentro de mim. Mesmo fascinada, eu não estava muito contente com o que via. Só não entendia o porquê, já que as imagens eram belíssimas; a música, primorosa; a animação, irrepreensível.
A história de Pinóquio era contada pelo personagem Grilo Falante, a consciência exterior do protagonista, por meio de figuras que saltavam do livro de Carlo Collodi, mágicas em seu movimento, imponderáveis e, ao mesmo tempo, tão verdadeiras quanto a angústia que o filme, cheio de conflitos e lições de moral, causou em mim na década de 1960. A impressão opressiva daquela primeira vez perdurou até mesmo quando o filme, nunca esquecido, foi visto pela segunda vez em 2002, com meus olhos de adulta que se esforçava para entender a conquista dessa estranha condição: a humanidade.
Carlo Collodi (1826-1890) era o pseudônimo de Carlo Lorenzin, escritor e jornalista italiano imortalizado não somente pela história de ficção que escreveu, mas principalmente pelas adaptações feitas a partir da sua obra para o cinema. Filho de pais humildes, ele iniciou sua carreira no jornalismo aos 22 anos, trabalhando para periódicos de teor político e outros de cunho satírico. Editou revistas, escreveu comédias e traduziu contos infantis de Charles Perrault, para logo começar a escrever suas próprias histórias para crianças.
Embora, para Collodi, a história de Pinóquio não passasse de tagarelice juvenil, a complexa rede de questões morais que a compõe marcou todas as versões cinematográficas da obra, bem como as incontáveis animações que só foram exibidas pela TV ou estão disponíveis apenas em lojas e locadoras de vídeo. Em 2009, o clássico da Disney foi relançado em formato blu-ray, o que permite comparações com as adaptações cinematográficas posteriores.
Um dos filmes mais tristes da Disney, o Pinóquio de 1940 tem ambiência europeia, ritmo lento e metáforas delicadas. O boneco de madeira nasceu de um anseio de Gepetto, que mesmo já velho, desejava um filho. Uma fada anima o boneco, que anda, fala, mas segue sendo de madeira. Pinóquio desobedece as recomendações da fada – e esse é o plot do enredo. Ele mente e vê seu nariz crescer; ele bebe e fuma, já pré-adolescente, e ganha orelhas de burro. Não cumpre as promessas feitas ao pai humano e, por isso, ambos são engolidos
por uma baleia, como o Jonas bíblico. De nada adiantaram os conselhos do Grilo Falante; Pinóquio precisava aprender com os próprios erros.
Ainda que sombrio, o filme da Disney é belo; os cenários, os personagens, os movimentos são repletos de cores, detalhes minuciosos, cadência harmoniosa. Um verdadeiro idílio campestre na representação da natureza e na naturalização dos movimentos dos personagens, animais fabulosos.
As músicas são pueris e não há contextualização política ou social. A inocência do filme não encontra fundamento na obra de Collodi, que apresenta um Pinóquio mais egoísta e agressivo que o boneco da Disney. Em versões
atuais, como a de Shrek 21, o personagem tem mais textura: veste calcinha e é
afeminado, ridicularizando o universo de personagens da Disney. A referência satírica ao personagem, as constantes refilmagens, as continuações, tudo isso é prova de que a obra, seja em livro ou em filme, é um clássico, com matizes de narrativa mítica, constantemente reatualizada, modelar.
Além da densidade de seu conteúdo, perceptível mesmo através da diluição característica da marca Disney, o filme representa um marco de evolução técnica e estrutura narrativa, seguida desde então pelos desenhos animados em longa-metragem. O Grilo Falante, personagem inexistente no conto original italiano, é responsável pela empatia com a plateia, o que a minha experiência de criança numa sala de cinema em São Paulo comprovou. Ele não aponta apenas o certo e o errado para Pinóquio; ele ensina à plateia, dirigindo-se diretamente para ela, o que era uma inovação à época, assim como a câmera subjetiva e os elementos fora de quadro (personagens, ruídos). Há a ilusão de profundidade de campo, dando mais realismo aos cenários desenhados em lâminas de vidro, e o roteiro e a montagem competentes fazem a história fluir, mesmo em meio às angústias dos dilemas morais do 1 Shrek 2, 2004, dir. de Andrew Adamson, Kelly Asbury, Conrad Vernon, EUA (ani-
personagem principal. A canção de abertura do filme, que ganhou o Oscar em 1941, When You Wish Upon a Star, de Ned Washington e Leigh Harline, foi regravada por Renato Russo, do Legião Urbana, e por Gene Simmons, do Kiss. Mais uma demonstração da longevidade de filme clássico.
Considerado como o melhor filme da Disney, pela própria empresa, que escolheu Pinóquio para inaugurar sua venda de DVDs, inspira obras
como A. I. – Inteligência Artificial2, sobre um menino robô que reivindica
tratamento humano, ou, mais recentemente, Síndrome de Pinocchio –Refluxo3,
apropriação nacional da história arquetípica. O filme participou da 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2009, e conta a vida de Achim Aaron Adoniram, que é um funcionário público oprimido pelo chefe, apaixonado pela irmã e que acredita viver em um universo paralelo com pessoas que falam em inglês de forma antinatural.
Em meio às diversas versões da história de Pinóquio que lotam o site
Youtube, uma desperta curiosidade: o animêAs Aventuras de Pinóquio4,
produzido pela Tatsunoko Studio em parceria com a norte-americana Saban Entertainmente exibido pelas redes de TV Tupi, Record, SBT e Globo. Soturna, a série de mais de 50 episódios enfatizava o sofrimento do boneco de madeira, que teve até seus pés e parte da sua perna consumidos pelo fogo. No cinema, uma refilmagem controversa é a animação Pinochio and the Emperor of the
Night,5 pouco conhecida no Brasil. Fracasso comercial, acusado de ser cópia
da animação da Disney, teve também críticas positivas e ganhou até uma aura cult por sua estranheza, tons escuros e surrealistas, com cenas consideradas pouco apropriadas para criança por insinuarem abuso sexual infantil e consumo de drogas.
2 2001, dir. de Steven Spielberg, EUA.
3 2008, dir. de Thiago Moyses, Brasil.
4 Mock, the Oak Tree, 1972, dir. de Kashinoki Mokku, Japão/EUA.
As Aventuras de Pinocchio – O Filme (The Adventures of Pinocchio), de 1996, mistura animação e atuação de atores, com destaque para Martin Landau no papel de Gepetto. Pinóquio é uma complexa criação animatrônica, que usa eletrônica e robótica na animação de bonecos e fantoches; o grilo é animado por computador; a música conta com Stevie Wonder. Landau tem atuação marcante e o Pinóquio-menino (o ator-mirim Jonathan Taylor Thomas) materializa bem a metáfora da condição humana adquirida. A superprodução, com uso de alta tecnologia cinematográfica para a época, é mais sombria que o desenho da Disney, criando ambiguidade no que se refere a sua destinação de público e repercutindo negativamente junto a considerável parte da crítica. Ainda que fiel ao clássico de Collodi, ela teve uma continuação: As Aventuras
de Pinocchio 26, que manteve grande parte do elenco da primeira filmagem,
inclusive Martin Landau como Gepetto. Na sequência, Gepetto e Pinóquio são enfeitiçados e se transformam em bonecos de madeira, que só podem ser salvos dessa condição por Pinóquio, que consegue se livrar das armadilhas dos seus perseguidores no filme, mas não das críticas negativas dos especialistas fora da tela.
A última refilmagem é Pinóquio e a Fada Azul (Pinocchio), de 2002, dirigido e protagonizado por Roberto Benigni, que contracena com sua mulher, Nicoletta Braschi. Benigni é Pinóquio, Braschi é a Fada Azul do título. A crítica especializada foi impiedosa com o filme, mesmo na Itália, ainda que tenha conseguido também elogios por lá, e a comunidade norte-americana de cinéfilos respondeu indicando o filme ao prêmio Framboesa de Ouro, paródia do Oscar que premia os piores filmes de cada ano. O Pinóquio de Benigni ganhou o prêmio indesejado na categoria de Pior Ator, recebendo indicações também para Pior Diretor, Pior Dupla (Benigni e Braschi), Pior Filme, Pior Remake ou Sequência e Pior Roteiro.
Nessa versão, por pena, a fada azul transforma Pinóquio em uma criança matriculada em uma escola, que deixa de frequentá-la para ir à Terra dos Prazeres, onde todas as crianças ganham orelhas de burro. Pinóquio procura a fada azul, mas conta-lhe mentiras e isso faz com que seu nariz cresça. Seguem-se os atropelos da história de Collodi até o final já conhecido. Em toda a duração da película, a atuação de Benigni está risível, a começar pela sua evidente maturidade, expressa nas linhas abundantes do rosto que deveria ser infantil para fazer jus à personagem. Por autocomplacência, o ator/diretor erra a mão, e feio.
Na Itália, Benigni é bastante popular e mobiliza todo um comércio de franquias em torno das suas produções. Este, que foi um filme bastante caro para os padrões italianos (US$ 45 milhões) atraiu outros milhões de espectadores, e ocupou percentual alto de salas de cinema na Itália; foi lançado no natal nos Estados Unidos como filme para as famílias e, no Brasil, foi exibido um mês depois nos grandes centros metropolitanos.
A película possui méritos: mesmo tendo sido considerado uma fracassada tentativa de reproduzir a atmosfera lírica dos filmes de Federico Fellini, há beleza no cenário construído em uma cidade medieval italiana (Papigno) e o figurino é notável, mesmo o do Pinóquio que Benigni encarna. A caracterização da fada azul é teatral, mas a carruagem de ratos é encantadora, mágica, com centenas de ratinhos puxando o imenso veículo. A maquiagem dos malfeitores-animais (raposa, gato) é soberba. Só que nada disso inibe o tom de farsa de toda a produção, que não reproduz o clima atormentado de conto moral do livro. Assim, essa refilmagem perde por comparação com as versões anteriores, especialmente com a da Disney, que permanece inabalável em seu lugar de honra.
De qualquer modo, todas as versões que respeitaram o fio condutor de Collodi mantiveram a virtude da crítica ao mundo instituído dos adultos humanos onde Pinóquio deveria ingressar. A consciência externa
representada pelo animal de fábula (grilo, em interação com outros animais como raposa, gato, coruja), permite que Pinóquio, egoísta, ingênuo, desobediente, inconsequente, passe do princípio do prazer ao princípio da realidade. A madeira de que Pinóquio é feito remete à nossa própria natureza humana, moldável pela cultura. Mas chegar a ela é uma conquista que requer o reconhecimento de que, para haver luz, tem que haver sombra. E é disso que os bons filmes são feitos.
Pinóquio. 1940. Direção: Ben Sharpsteen e Hamilton Luske; Roteiro: Carlo Collodi (história), Ted Sears (adaptação), Otto Englander (adaptação), Webb Smith (adaptação), William Cottrell (adaptação), Joseph Sabo (adaptação), Erdman Penner (adaptação); Estúdio: Walt Disney Company; Elenco: Dickie Jones (Pinóquio/Alexander, voz), Mel Blanc (Cleo/Figaro/Gideon/outros, voz) Walter Catlett (João Honesto,voz) Don Brodie (Barker, voz) Christian Rub (Gepeto, voz) Evelyn Venable (Fada azul, voz) Cliff Edwards (Grilo Falante, voz) Frankie Darro (Espoleta, voz); Animação, 88 minutos, cor.
As Aventuras de Pinocchio. 1996. Direção: Steve Barron; Roteiro: Sherry Mills, Steve Barron, Tom Benedek, Barry Berman; Produção: Heinz Bibo, Raju Patel, Jeffrey M. Sneller; Fotografia: Juan Ruiz Anchía; Estúdio: New Line Cinema, Savoy Productions, Allied Pinocchio Productions Ltda. ; Trilha Sonora: David Goldsmith, Lee Holdridge, Stevie Wonder, Craig Taubman; Elenco: Jonathan Taylor Thomas, Martin Landau, Rob Schneider, Corey Carrier, John Sessions, Steve Barron; Animação, 95 minutos, cor.
Pinóquio e a Fada Azul. 2002. Direção: Roberto Benigni; Roteiro: Roberto Begnini e Vincenzo Cerami; Produção: Gianluigi Braschi, Nicoletta Braschi, Mario Cotone, Elda Ferri; Música original: Nicola Piovani; Cenografia: Diego Maria Giorgetti; Figurino: Danilo Donati; Direção de arte: Maurizio Sabatini; Estúdio: Miramax; Elenco: Roberto Benigni, Nicoletta Brashi, Carlo Giuffré, Kim Rossi Stuart, Peppe Barra; Fantasia, 108 minutos, cor.
Saiba mais
BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise dos Contos de Fada. Trad. Arlene Caetano. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.
COLODI, Carlo. Le Avventure di Pinocchio. Fireze: Libreria Editrice Felice, 1883. COLODI, Carlo. Pinocchio. Trad. Monteiro Lobato. São Paulo: Melhoramentos, 1962.
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