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Kaynaklara Göre Apostolos Konstas’ın Hayatı

THE THEORETICAL BOOK OF CONSTAS

2. KONSTAS VE ESERİ

2.1. Kaynaklara Göre Apostolos Konstas’ın Hayatı

Além das importantes contribuições que atestam outra leitura sobre a formação do Brasil, no campo da Antropologia, Darcy nos oferece uma lente singular em nível religioso que nos permite deslindar a dinâmica espiritual do povo brasileiro.

O propósito deste capítulo é o de visitar sua obra capital, O Povo Brasileiro, selecionando as pérolas sobre o aspecto religioso, evidenciando uma leitura diferenciada dessa obra. Pela natureza desse tipo de interpretação, torna-se indispensável uma aproximação com outros autores que corroboram com a ampliação da temática religião e cultura brasileira. O objetivo final é desenvolver uma tessitura da aventura religiosa que aconteceu Brasil sob o olhar de Darcy Ribeiro.

A formação religiosa brasileira é fruto de muitos encontros e desencontros, reunindo os elementos antagônicos podendo ser entendida também como uma harmonização de contrastes – embora o Brasil tenha recebido em seu início colonial a alcunha de País Católico Apostólico Romano, diversos outros movimentos oriundos dos povos indígenas que aqui viviam, bem como dos africanos e outras etnias, fomentaram o surgimento de um tipo religioso novo, ou seja, subversivo e que não cabe numa pura lógica ou sistematização técnica. De fato, os emblemas expostos nas narrativas nos dão uma ideia de que as movimentações que ocorreram na Ypy-marã-iy são melhores interpretadas por intermédio da metáfora da bricolagem. Em nossa concepção, essa metáfora ajuda a interpretar o movimento de encontros e desencontros da religião tal como sempre ocorreu e ainda ocorre no Brasil. Logicamente, essa metáfora aplica-se bem aos diversos holofotes que presenciamos na reflexão de Darcy, e cabe, a nosso ver ainda, perfeitamente na percepção hermenêutica de Ricoeur.

Darcy, ao iniciar a elaboração da sua teoria sobre o “fazimento” do Brasil, expressa o movimento de entrechoques amplamente complicado que aqui se deu:

Nosso enigma é muitíssimo mais complicado. Começa com a tenebrosa invasão civilizadora. Mil povos únicos, saídos virgens da mão do Criador, com suas mil caras e falas próprias, são dissolvidos no tacho com milhões de pituns, para fundar a Nova Roma multidinária. Uma Galíbia Neolatina tão grande como assombrada de si mesma. Inexplicável. Aqueles tantos povos singelos que aqui eram já intrigaram demais ao descobridor e seus teólogos:

– Gentes são ou são bichos racionais? Têm alma capaz de culpa? Podem comungar? O enxame de mestiços que deles devieram na mais prodigiosa misturação de raças intriga ainda mais. – Quem somos nós? Nós mesmos? Eles? Ninguém? Acordando como nações no meio desta balbúrdia, nos perguntamos com o Libertador: – Quem somos nós, se não somos europeus, nem somos índios, senão uma espécie intermédia, entre aborígenes e espanhóis? Somos os que fomos desfeitos no que éramos, sem jamais chegar a ser o que formos ou quiséramos. Não sabendo quem éramos quando demorávamos inocentes de nós, menos sabemos quem seremos. Recentemente se começou a ver que, no encontro histórico do Anticristo cristão com Cristo pagão, o que se deu foi um desencontro fatal. Os povos sem história que cá éramos gente aos façanhudos que de lá vieram naquela hora sumiram ou confluíram e trocaram de ser (RIBEIRO, 1992, p. 32).

Apresente citação agrega, de forma indelével, nossa busca pela identidade religiosa dos brasileiros, pois demonstra os posicionamentos críticos a respeito do paradoxo existente entre os movimentos de encontros e desencontros. Mais do que isso, apresenta-nos o desencontro fatal entre o Anticristo cristão – designação que determina o ponto de vista crítico de Darcy – e o Cristo pagão – uma clara alusão confessional de que existia na dinâmica de vida indígena algo idílico e marcado pela simplicidade de um Cristo para além da religião oficial, trazida pelos europeus.

De qualquer forma, no processo de formação do povo brasileiro, Darcy vai aludir o fato de que o paradoxo deu lugar a um povo novo com uma nova estrutura societária.

Surgimos da confluência, do entrechoque e do caldeamento do invasor português com índios silvícolas e campineiros e com negros africanos, uns e outros aliciados como escravos. Nossa confluência se dá sob a regência dos portugueses, matrizes raciais díspares, tradições culturais distintas, formações sociais defasadas se enfrentam e se fundem para dar lugar a um povo novo [...], num novo modelo de estruturação societária. (RIBEIRO, 2006, p. 17).

A partir do encontro ou desencontro histórico, aliado à troca de ser sempre em evidência, nos deparamos com as interessantes narrativas da aventura religiosa no Brasil, sob o enfoque de Darcy Ribeiro, que por sua vez, favorecem novas possibilidades interpretativas. Nesse inusitado percurso que estamos propondo, podemos parafrasear Bastide: o cientista da religião que quiser compreender o Brasil não raro transforma-se em poeta (BASTIDE, 1979, p. 15).72

3. 1. Primeiro ato

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: o Deus de Roma se impõe sobre Maíra

Múltiplos povos indígenas ocupavam, ao longo de milênios, toda a costa atlântica da ilha Brasil. Não eram uma nação, mas uma miríade de tribos oriundas de um mesmo tronco linguístico, que, no processo de bipartição, se diferenciavam, se desconheciam e, posteriormente, se hostilizavam. Não se sabe o que teria acontecido se o tempo desse a estes povos a oportunidade de liberdade e autonomia. Possivelmente, chefaturas territoriais e uniformizações culturais poderiam desencadear uma nova história na atualidade.

Na terra destes povos, terra de Maíra – divindade solar, tradicional do imaginário mítico indígena –outro elemento étnico se introduziu gerando conflitos bióticos, ecológicos e econômicos-social (RIBEIRO, 2006, p. 27).

No plano étnico-cultural, essa transfiguração se dá pela gestação de uma etnia nova, que foi unificando, na língua e nos costumes, os índios desengajados do seu viver gentílico, os negros trazidos da África, e os europeus aqui querenciados. Era o brasileiro que surgia, construído com os tijolos dessas matrizes à medida que elas iam sendo desfeitas. (RIBEIRO, 2006, p. 27)

No arcabouço desses conflitos entre matrizes, do encontro da espada com a cruz, aliado ao apetite expansionista do Deus de Roma, se deslinda a narrativa da aventura Brasil. Na epopeia naval dos portugueses que, por sua vez, conheciam bem as rotas do mar Oceano, como eles chamavam o Atlântico, e a consequente tomada de “posse” da terra, efetivada por Pedro Álvares Cabral, o Deus de Roma adentra formalmente a terra de Maíra, por intermédio de uma missa celebrada na Baía Cabrália, o Ilhéu de Coroa Vermelha. Foi o Frei Henrique Soares de Coimbra, em 26 de abril de 1500 que a celebrou. A carta de Caminha assim a registra:

Ao domingo de Páscoa, pela manhã, determinou o Capitão de ir ouvir missa e pregação naquele ilhéu. Mandou a todos os capitães que se aprestassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou naquele ilhéu armar um esperavel, e dentro dele um altar mui bem corregido. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual foi dita pelo padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes, que todos eram ali. A qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção. Ali era com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saiu de Belém, a qual esteve sempre levantada, da parte do Evangelho. Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa

pregação da história do Evangelho, ao fim da qual tratou da nossa vinda e do achamento desta terra, conformando-se com o sinal da Cruz, sob cuja obediência viemos, o que foi muito a propósito e fez muita devoção.74

A narrativa de Caminha dá forma à configuração histórica e registra ações e personagens emblemáticas que constituíram o Brasil. Das ações, das personagens e principalmente das narrativas, podemos intuir a noção de identidade que, em Darcy é, primeiramente, étnica. Em nosso olhar hermenêutico, é também religiosa. Assim, esta aventura não pode ser contada somente a partir dos monumentos narrativos, mas também pelas personagens que compuseram o Brasil. Aliás, Ramos e Morais fazem questão de frisar que a presença do humano não pode desaparecer da tônica dos relatos que consideram a formação da colônia portuguesa, depois de 1500. Assim, estes autores empreendem uma jornada, com base em fontes narrativas, evidenciando personagens que representam e simbolizam momentos significativos do mundo colonial brasileiro.75 Ao longo de nosso texto, destacaremos alguns, pois suas narrativas e vivências dão uma tonalidade especial ao colorido religioso que aqui se plasmou (RAMOS e MORAIS, 2010, p. 10-11).76

3.1.1. Os primeiros conflitos e a hecatombe dos povos indígenas

O acaso não permitiu aos povos indígenas, principalmente de tronco Tupi, a autonomia e a liberdade para a uniformização de um povo em expansão. Na contramão, ocorreu a introdução de um protagonista português no seu mundo. “Embora minúsculo, o grupelho recém-chegado de além-mar era superagressivo e capaz de atuar destrutivamente de múltiplas formas. Principalmente como uma infecção mortal sobre a população preexistente, debilitando-a até a morte” (RIBEIRO, 2006, p. 26-27).

Os tupis, particularmente, estavam então aglomerados no litoral atlântico, de onde foram expulsos pelos portugueses recém-chegados. Em face do invasor, os tupis só

74 Carta de Pero Vaz de Caminha.

75 As personagens que estes autores destacam são: Caramuru, Bartira, Nóbrega, Raposo Tavares, Branca Dias, Fernão Cabral Taíde, Manuel Beckman, Maurício de Nassau, Gregório de Matos, Felipe dos Santos, Chica da Silva e Marquês de Lavradio.

76 Por exemplo, a narrativa inerente ao adolescente de 17 anos Diogo Alvarez Correa, o Caramuru. Diogo, por certo um aventureiro, foi abandonado na Bahia por uma nau e adaptou-se à cultura dos índios Tupinambá, dominando-a, enfim, como se tivesse nascido nela. Assim, quando Martim Afonso de Souza e seus homens chegaram ao Brasil, Diogo prestou importante auxílio à missão colonizadora, mesmo porque os primeiros colonizadores, jovens como Diogo, queriam construir uma sociedade à semelhança da europeia, aliando moldes medievais com certa mobilidade social, “que permitisse a um camponês, por exemplo, tornar-se senhor, cheio de privilégios e com plenos poderes para escravizar indígenas e sujeitá-los à fé em Cristo”. (RAMOS e MORAIS, 2010, p. 14-15).

conseguiram estruturar pequenas confederações que logo foram dizimadas. Outros povos indígenas tiveram papel na formação do povo brasileiro, como os Bororós, os Xavantes, os Kayapós, os Kaingangs e os Tapuias, dentre outros. Essas tribos autônomas, autárquicas e não estratificadas em classes, foram confrontadas pelas decisões do Conselho Ultramarino e pela Igreja Católica com seu braço repressivo, o Santo Ofício.

Sobre esses índios assombrados com o que lhes sucedia é que caiu a pregação missionária, como um flagelo. Com ela, os índios souberam que era por culpa sua, de sua iniquidade, de seu pecado que o bom deus do céu caíra sobre eles, como um cão selvagem, ameaçando lançá-los para sempre nos infernos. O bem e o mal, a virtude e o pecado, o valor e a covardia, tudo se confundia, transtrocando o belo com o feio, o ruim com o bom. Nada valia, agora e doravante, o que para eles mais valia: a bravura gratuita, a vontade de beleza, a criatividade, a solidariedade. A cristandade surgia a seus olhos como o mundo de pecados, das enfermidades dolorosas e mortais, da covardia, que se adonava do mundo índio, tudo conspurcando, tudo apodrecendo (RIBEIRO, 2006, p. 39).

Por outro lado, para os lusitanos que aqui chegaram:

O mundo [...] era a arena dos seus ganhos, em ouros e glórias, ainda que estas fossem principalmente espirituais ou parecessem ser, como ocorria com os missionários. Para alcançá-los, tudo lhes era concedido, uma vez que sua ação além-mar, por mais abjeta e brutal que chegasse a ser, estava previamente sacramentada pelas bulas e falas do papa e do rei. Eles eram, ou se viam, como novos cruzados destinados a assaltar e saquear túmulos e templos de hereges indianos. Mas aqui, o que viam, assombrados, era o que parecia ser uma humanidade edênica, anterior à que havia sido expulsa do Paraíso. Abre-se com esse encontro um tempo novo, em que nenhuma inocência abrandaria sequer a sanha com que os invasores se lançavam sobre o gentio, prontos a subjugá-los pela honra de Deus e pela prosperidade cristã. Só hoje, na esfera intelectual, repensando esse desencontro, se pode alcançar seu real significado (RIBEIRO, 2006, p. 40).

Atualmente, pelas lentes acadêmicas, podemos ver mais nitidamente os encontros e desencontros dessas duas visões de mundo. A imposição laboriosa dos portugueses acaba fazendo ruir o mundo mítico indígena, principalmente no que concerne à sua concepção sábia e singela da vida como uma dádiva dos deuses bons. O Deus de Roma se impôs, demonstrando aos indígenas suas culpas oriundas do pecado de Adão. De fato, paradoxalmente, a religião missionária fez ruir o recém-descoberto Paraíso perdido. No período incipiente da colonização brasileira, estavam imbricados o expansionismo econômico e a religião. Darcy, nas primeiras linhas de O Povo Brasileiro, faz questão de evidenciar esse binômio. O europeu, com os olhos em si mesmo e em suas próprias possibilidades, buscou a

dominação do povo autóctone. Um caso emblemático é o da índia Bartira, símbolo de miscigenação. Ora, a índia de nome M’bicy, nome que em Tupi significa “flor de árvore”, filha do cacique Tibiriçá, foi dada a João Ramalho nas cercanias do atual Fórum João Mendes Júnior na cidade de São Paulo. Depois do casamento, M’bicy ficou conhecida como Bartira, sendo que alguns a chamavam de Potira.

Por buscar reconhecimento social por parte dos colonizadores europeus, ela adotou, ainda, um nome cristão: Isabel Dias. Batizada, a índia assumiu uma postura extremamente católica, a exemplo do marido. Mãe de 12 filhos com o português, Bartira esteve por trás da fundação de importantes vilas que originaram cidades como Santo André, São Bernardo do Campo e São Paulo. (RAMOS e MORAIS, 2010, p. 34)

Quem oficiou o casamento de Bartira com João Ramalho foi o padre jesuíta Manuel da Nóbrega. Para ele, “a oficialização serviria de exemplo a outros portugueses amancebados com nativas e mostraria aos ameríndios o caminho correto: um casamento cristão e a formação de uma família nuclear composta por pai, mãe e filhos” (RAMOS e MORAIS, 2010, p. 47). Eis um exemplo da imposição do Deus de Roma sobre os povos de Maíra.

As diversas tribos indígenas que aqui se configuraram partiram de um mesmo tronco Tupi, se diluindo em diversas outras etnias, com língua própria, mitos e ritos diversificados. Entretanto, certo é que havia ainda um nicho simbólico ou reservas de sentido comum, que foram agredidos com a chegada dos europeus e todas as suas configurações culturais e religiosas. O estranho era também o inimigo. Embora a primeira impressão de aproximação do povo além-mar tenha sido positiva, os conflitos posteriores ficaram evidentes. Por exemplo,

Quando se estabeleceu o conflito aberto, os Tupis só conseguiram estruturar efêmeras confederações regionais que, logo desapareceram. A mais importante delas, conhecida como Confederação dos Tamoios, foi ensejada pela aliança com os franceses instalados na baía de Guanabara. Reuniu, de 1563 a 1567, os Tupinambás do Rio de Janeiro e os Carijós do planalto paulista – ajudados pelos Goitacás e pelos Aimorés da Serra do Mar, que eram de língua jê – para fazerem a guerra aos portugueses e aos outros grupos indígenas que os apoiavam. (RIBEIRO, 2006, p. 29).

Não se tratava, tão somente, neste caso, de uma guerra entre indígenas e portugueses, mas também uma batalha entre Reforma e Contrarreforma, de calvinistas contra os católicos. Ao final, como a própria história narra, a Confederação foi vencida pelos indígenas aliciados pelos jesuítas.

3.1.2. Decisões religiosas sobre a imprensa missionária

Duas agências foram fundamentais para a expansão missionária no Brasil. A primeira, cujo centro de decisão estava em Lisboa, era o Conselho Ultramarino, que tudo previa, planificava, ordenava, provia. A segunda era o Santo Ofício da Igreja Católica, que ouvindo denúncias e calúnias, “julgava, condenava, encarcerava e até queimava vivos os mais ousados” (RIBEIRO, 2006, p. 34). Tudo era respaldado pelo Vaticano, por intermédio da bula ROMANUS PONTIFEX, de 8 de janeiro de 1454, do papa Nicolau V, que assim reza:

Não sem grande alegria chegou ao nosso conhecimento que nosso dileto filho infante d. Henrique, incendido no ardor da fé e zelo da salvação das almas, se esforça por fazer conhecer e venerar em todo o orbe o nome gloriosíssimo de Deus, reduzindo à sua fé não só os sarracenos, inimigos dela, como também quaisquer outros infiéis. Guinéus e negors tomados pela força, outros legitimamente adquiridos foram trazidos ao reino, o que esperamos progrida até a conversão do povo ou ao menos de muitos mais. Por isso nós, tudo pensando com devida ponderação, concedemos ao dito rei Afonso a plena e livre faculdade, entre outras, de invadir, conquistar, subjugar a quaisquer sarracenos e pagãos, inimigos de Cristo, suas terras e bens, a todos reduzir à servidão e tudo praticar em utilidade própria e dos seus descendentes. Tudo declaramos pertencer de direito in perpetuum aos mesmos d. Afonso e seus sucessores, e ao infante. Se alguém, indivíduo ou coletividade, infringir essas determinações, seja excomungado [...]. (RIBEIRO, 2006, p. 35-36).77

De fato, a missão portuguesa para além-mar fora amplamente resguardada por documentos e bulas. E os indígenas, que a princípio acharam que o povo novo seria boa gente de Maíra, não sabia que aqueles “visitantes” possuíam desígnios amistosos ou ferozes. O que ocorreu foi que a visão idílica dos filhos de Maíra logo se dissipou, dando lugar à hecatombe. No entrechoque cultural e religioso e na plasmação “bricolada” de uma coisa nova, o brilho de uma realidade dantes pujante perdeu o viço. A religião letrada e cheia de mitos influenciou de forma profunda múltiplas comunidades indígenas. Nos Apontamentos de

Coisas do Brasil, escrito em 8 de maio de 1558, o padre jesuíta Manoel da Nóbrega assim

expressa:

Se S. A. os quer ver todos convertidos, mande-os sujeitar e deve fazer estender aos cristãos por a terra dentro e repartir-lhes os serviços dos índios àqueles que os ajudarem a conquistar e senhoriar como se faz em outras partes de terras novas [...]. Sujeitando-se o gentio, cessarão muitas maneiras de haver escravos legítimos, tomados em guerra justa e terão serviços de vassalagem dos índios e a terra se povoará e Nosso Senhor ganhará muitas

almas e S. A. terá muita renda nesta terra porque haverá muitas criações e muitos engenhos, já eu não haja muito ouro e prata [...]. Esse parece também o melhor meio para a terra se povoar de cristãos e seria melhor que mandar povoadores pobres, como vieram alguns, e por não trazerem com que mercassem um escravo, com que começassem sua vida, não se puderam manter, e assim foram forçados a se tornar ou morrerem bichos; e parece melhor mandar essa gente que senhoreie a terra e folgue de aceitar nela qualquer boa maneira de viver, como fizeram alguns dos que vieram com Tomé de Souza [...]. Devia de haver um protetor dos índios para os fazer castigar, quando o houvesse mister, e defender dos agravos que lhes fizessem. Este deveria ser bem salariado, escolhido pelos padres e aprovado pelo governador. Se o governador fosse zeloso, bastaria o presente. A lei que eles hão de dar é defender-lhes comer carne humana e guerrear sem licença do governador, fazer-lhes ter uma só mulher, vestirem-se, pois tem muito algodão, ao menos depois de cristãos, tirar-lhes os feiticeiros, mantê-los em justiça entre si e para com os cristãos; fazê-los viver quietos sem se mudarem para outra parte, se não for para entre cristãos, tendo terras repartidas que lhes bastem e com esses padres da Companhia para os doutrinar. (RIBEIRO, 2006, p. 46-47)78

Assim, sem qualquer escrúpulo, o projeto missionário era legitimado de forma afrontosa. O projeto jesuítico seguia a forma e embrenhou mata adentro um cristianismo pio e desconectado da vivência indígena. Os primeiros jesuítas chegaram ao Brasil em março de 1549, juntamente com o primeiro governador geral da colônia Tomé de Souza.

Tendo como principal propósito “a propagação da fé e o progresso das almas na vida e doutrinas cristãs”, a ordem dos jesuítas, fundada em setembro de 1540 por Inácio de Loyola, inicialmente baseava suas atividades no ministério de Jesus e de seus discípulos, ou seja, o ideal apostólico (vita