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3.2. İkinci Bölüm Sayfa 67-139 (y 34a-70b)
Deixemos claro que esse Jesus a que nos referimos (aqui e nas análises futuras) é um personagem; mais que isso, ele é o grande protagonista de Mateus, e ao transmitir seu enunciado pela voz desse Jesus que é tão caro ao evangelho o autor esperava que o conteúdo da mensagem fosse enobrecido e legitimado pelo empréstimo das virtudes do Jesus que
existia no imaginário religioso do leitor. Claro que quando aqui falamos de leitor, nos referimos não ao leitor real, empírico, mas a um leitor modelo (ou leitor-implícito), o destinatário que é imaginado pelo próprio autor, aquele a quem ele pensa atingir enquanto escreve. Esse leitor ideal de Mateus é alguém que antes de chegar ao capítulo 6, que logo vamos estudar, leu o evangelho desde o começo e pela primeira vez; alguém que aceitou o sistema de crenças e valores defendidos até então e que agora é capaz de ler o presente discurso tendo em mente todas as informações precedentes, como por exemplo, a de que Jesus é um/o Filho de Deus, o “deus conosco” conforme Mateus 1.18-23 (Powell, 2009, p. 65). Não é necessário, portanto, criar distinções entre as opiniões do autor e as de Jesus, já que este último é o personagem que o autor criou (a partir de imaginários pré-existentes, é claro) e elegeu para protagonizar sua narrativa, e é por meio dele que busca convencer seu leitor.
Já que falamos de Jesus como interlocutor (aquele que profere o discurso quando o narrador decide lhe conceder o direito de falar) e de sua relação com o autor, também devemos tratar brevemente dos receptores desse discurso de Mateus 5-7, quer dizer, daqueles personagens que ouviam as palavras de Jesus na história e de sua relação com os leitores realmente desejados. Aqui temos que considerar novamente aquele leitor ideal como o alvo da mensagem, embora ele não apareça no texto. No nível explícito, Jesus está discursando para seus discípulos e para uma multidão (Mt 5.1), porém, esses personagens passivos, que neste caso apenas ouvem as instrução de Jesus sem interromper, questionar, opinar..., recebem caracterizações complexas que na verdade lhes estão sendo impostas a partir da perspectiva que o autor tem de seu leitor implícito e dos supostos seguidores históricos de Jesus. O objetivo de Mateus 5-7 é fazer dos discípulos ficcionais um grupo genérico de seguidores de Jesus com os quais os leitores (implícitos) se identificariam. Assim, a instrução dada aos discípulos no texto poderia ser simultaneamente recebida como instrução dada ao leitor do evangelho. Ou seja, no nível textual o discurso se dirige a personagens coletivos que são apresentados apenas superficialmente, mas é evidente que toda a argumentação tem por objetivo convencer um leitor, que deveria tanto aceitar a autoridade legada ao personagem de Jesus e às suas palavras, como se colocar no lugar dos discípulos e daquela multidão como receptor da mensagem. Poderíamos dizer, então, que o evangelho é um texto cujos objetivos vão muito além do desejo de informar ou entreter; ele está dentro de uma tradição literária que tem por característica seu poder de manipulação, que acima de tudo quer convencer seu leitor
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a aceitar seus valores, ideologias, visões de mundo.47 Em meio à história contada o autor fala através de Jesus e espera que o leitor aprenda através dos discípulos, fazendo o que ele propõe. Assim, os erros, dúvidas e crises dos discípulos e da multidão, quando resolvidos, possuem, ao menos hipoteticamente, o potencial de solucionar crises croncretas no mundo do leitor.
Além dos personagens já citados aparecerão nas narrativas mateanas direta ou indiretamente os “inimigos” de Jesus e de seus discípulos. Encontraremos ao longo de todo o evangelho severas críticas a algumas práticas religiosas consideradas rivais, cujos praticantes, neste caso específico de Mateus 6.1-18, são chamados de “hipócritas” (6.2). Há ainda uma vinculação entre esses oponentes e as “sinagogas” que frequentam e aparentemente controlam, de onde já podemos abstrair a ideia de que os adversários que estão no horizonte imaginário de Mateus são adeptos de formas religiosas judaicas da diáspora de fins do primeiro século, ou indo direto ao ponto, são os fariseus que assumem a função de anti-heróis em todo o evangelho.
Este bloco narrativo de dezoito versículos que vamos comentar (Mt 6.1-18) possui uma introdução mais geral no versículo 1, que traz o princípio ético que guia as instruções posteriores. Literalmente, o imperativo que traz este princípio ético diz: “Guardai-vos de não fazer a vossa justiça diante dos homens para serem vistos por eles, pois se não, certamente não tendes recompensa junto ao vosso pai (o que está) no céu”. Aparentemente, todos os sujeitos envolvidos na comunicação já estão convencidos da necessidade de se fazer justiça, seja lá o que isso for, mas ainda parece haver certa confusão em relação ao modo de fazê-la. O texto, portanto, é produzido para resolver essa questão, para instruir os fazedores de justiça sobre o modo correto de proceder. Em resumo, o modo ideal de se fazer justiça é aquele que se desenvolve no nível do segredo, onde a ação justa é ocultada, onde o que é parece não ser.48
47 Erich Auerbach demonstrou essa característica dominadora das narrativas bíblicas na década de 1940, ao
comparar uma narrativa bíblica com um canto homérico. Citamos algumas palavras do autor:
A pretensão de verdade da Bíblia é não só muito mais urgente que a de Homero, mas chega a ser tirânica; exclui qualquer outra pretensão. O mundo dos relatos das Sagradas Escrituras não se contenta com a pretensão de ser uma realidade historicamente verdadeira – pretende ser o único mundo verdadeiro, destinado ao domínio exclusivo. (2011, p. 11)
Os relatos das Sagradas Escrituras não procuram nosso favor, como os de Homero, não nos lisonjeiam para nos agradar e encantar – o que querem é nos dominar. (2011, p. 12)
48 Estamos aproveitando conceitos desenvolvidos pela Semiótica Discursiva, que tratando da modalização do ser
no nível narrativo do discurso a partir das combinações entre as categorias de ser e parecer, distinguiu as seguintes maneiras de se construir a veracidade de um enunciado: A Verdade se caracteriza pelo ser e pelo parecer, ou seja, é verdadeiro aos olhos de um intérprete a mensagem que parece ser o que é. A Mentira, por sua
Depois do primeiro versículo temos instruções práticas e sucessivas que aplicam este princípio da justiça secreta a diferentes momentos e formas de relacionamento social e religioso: primeiro à caridade (v. 2-4), depois à oração (v. 5-15), e por fim, também ao jejum (v. 16-18). De acordo com o comentarista Sandro Gallazzi (2012, p. 386-387), o jejum, a oração e a esmola eram as três grandes “obras de piedade” que eram estimuladas pelos líderes da religiosidade judaica da diáspora, e para exemplificar como o judaísmo já elegera estas três ações como pilares capazes de garantir a vida eterna, dando destaque, sobretudo, à esmola, ele cita esta passagem do livro de Tobias:
Toma dos teus bens para fazer esmola. Não desvie teu rosto de um pobre, e Deus não desviará seu rosto de ti. Mede tua esmola pela tua abundância: se tu tens muito, dá muito; se tu tens pouco, dá menos, mas não hesite em fazer esmola. Terás assim um bom tesouro para o dia da necessidade. Porque a esmola livra da morte e evita que tu andes nas trevas. A esmola é uma oferta de valor para todos que a fazem na presença de Deus (Tb 4.7-11)
O discurso de Jesus em Mateus parece estar perfeitamente integrado às discussões da religiosidade pré-rabínica da diáspora. Todo o texto parece condizer com este contexto específico, onde estavam em pauta discussões sobre a normatividade do judaísmo pós-70.
É importante notar também que em Mateus 6.1-18 há uma espécie de refrão, um padrão reincidente de linguagem, um recurso retórico que produz ênfase a partir da repetição e que marca cada uma de suas subunidades tornando mais clara a estrutura do texto. As aplicações práticas a que nos referimos (sobre esmola, oração e jejum) são sempre encerradas com uma espécie de sentença contra os hipócritas: “Verdadeiramente vos digo: eles recebem a recompensa deles” (avmh.n le,gw u`mi/n( avpe,cousin to.n misqo.n auvtw/n). Essa sentença se repete nos versículos 2, 5 e 16, que é quando lemos sobre a esmola, sobre a oração e sobre o jejum. A recompensa desses outros é exatamente a retribuição pela boa obra feita diante dos homens, ou seja, na ótica mateana, eles oferecem sua caridade ou outras demonstrações de piedade religiosa explicitamente (onde o ser está ligado ao parecer), e em retribuição recebem a honra, o prestígio social, ou o benefício que esperavam. Lembremos que mesmo as ofertas religiosas pretensamente praticadas por conta
vez, se caracteriza pelo não ser imanente, mascarado pelo parecer manifesto. Temos ainda a Falsidade que une o não ser ao não parecer, e a categoria do Secreto, que une o ser com o não parecer (Barros, 2011, p. 45). No texto mateano que estamos lendo os “hipócritas” agem no nível da mentira, da falsidade, pois parecem religiosos, piedosos, caridosos, mas não são. O texto então idealiza a condição do segredo, em que as boas ações são praticadas com sinceridade, mas não podem ser vistas.
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de imperativos religiosos, quando feitas diante dos homens, resultam, segundo a norma ética corrente no Mundo Mediterrâneo da época, na necessidade de algum tipo de retribuição por parte dos beneficiados, e o exercício religioso com vistas à retribuição humana é o que o Evangelho de Mateus chama de hipocrisia. Podemos dizer que as boas obras dos hipócritas são rejeitadas nos textos mateanos por criarem vínculos sociais regidos pela lógica da reciprocidade.
É aqui que o evangelho, não se limitando às acusações, diz qual é a atitude que considera ideal, e ensina a fazer caridade, orações e jejuns secretamente, para que os homens beneficiados não os vejam praticando tais coisas e assim não tenham como retribuir. Aí o texto nos oferece um segundo tipo de refrão, que agora poderíamos entender como uma promessa de recompensa religiosa, que obviamente tem por objetivo manipular o discípulo e levá-lo à obediência através de uma espécie de tentação:49 “E o teu pai que vê em secreto te recompensará” (kai. o` path,r sou o` ble,pwn evn tw/| kruptw/| avpodw,sei soi). Este novo refrão também se repete três vezes (v. 4, 6 e 18).
Tanto os hipócritas quanto os discípulos estão convencidos de que devem praticar suas boas obras, fazer caridade, orar e jejuar. Também é verdade que ambos esperam por recompensas, ou seja, fazem o que fazem porque acreditam que tais ações resultarão em benefícios. Porém, ao ver como os seus rivais praticam suas boas obras de maneira manifesta, Jesus os acusa de buscarem recompensas terrenas. Isso é condenável aos seus olhos porque ele acredita que há um contrato estabelecido entre Deus e os judeus, onde o primeiro os encarregou de fazer certas coisas prometendo recompensas; todavia, se alguns aceitam as recompensas terrenas e se comprometem seres humanos, eles estariam descumprindo o contrato original com Deus e quebrando os vínculos com o senhor divino. Noutras palavras, nossa intuição a partir dessas leituras foi a de que tais passagens pretendem invalidar a
49 A Semiótica Discursiva identificou quatro formas de manipulação e a primeira delas é a tentação. Nela, o
manipulador tenta convencer o destinatário a fazer algo por meio de uma espécie de suborno, pela oferta de valores que este destinatário deseja. Para que a manipulação seja eficaz, é preciso que o manipulador pareça confiável e que a oferta seja interessante, desejável. O sujeito é levado a fazer o que o outro deseja, ou a crer no manipulador, para que venha a adquirir o valor oferecido. A segunda forma de manipulação é a chamada intimidação. Ao contrário da primeira, em vez de oferecer valores desejáveis o manipulador ameaça retirar do seu destinatário algum(s) valor(es) que ele possui, ou lhe acrescentar valores que ele não deseja. A terceira forma de manipulação é a sedução, onde já não se trata de promessas e ameaças, mas de exaltações sinceras ou não, que o manipulador faz em relação às características do destinatário. O sedutor é aquele que tenta convencer o outro por meio de elogios, mencionando suas virtudes. Esse ato aparentemente benévolo indiretamente leva o destinatário a agir para confirmar a imagem que o outro faz dele. Enfim, também se pode manipular alguém por meio da provocação. Nesse caso, em vez de exaltar as características do outro o manipulador as deprecia, e da mesma forma o destinatário se sente forçado a agir para alterar a ideia negativa que o outro faz dele (Barros, 2011, p. 28-33; Fiorin, 2005, p. 29-30).
religiosidade rival por vê-la como uma forma de obter benefícios terrenos, o que é reprovável segundo o quadro de valores aceito pelo evangelho. A religiosidade dos hipócritas é clientelista, é praticada na expectativa de retribuição, todavia, não é isso o que os faz condenáveis. A diferença entre estas duas formas de religiosidade é que Mateus espera apenas de Deus a retribuição pelas boas obras ou, melhor ainda, só aprova a relação clientelista quando Deus é o patrono.
Fazendo questão de opor as duas formas de se praticar as obras de justiça o texto quer convencer seu leitor a seguir o seu modelo, o das boas obras secretas, o que, ao nosso ver, é o modo encontrado no texto para que não exista entre benfeitores e beneficiados humanos qualquer tipo de troca, e consequentemente, qualquer ligação clientelista. O texto desenha um mundo em que os homens vivem sob contínua supervisão divina, e assim, afirma que aquela boa ação feita secretamente será devidamente retribuída por um Deus que também lida com os homens sob critérios clientelistas. Isto é, praticando boas obras secretamente, o sujeito caridoso evita qualquer possibilidade de retribuição humana, impedindo a criação de vínculos clientelistas entre sujeitos humanos. Mas como Deus vê todas as coisas em todos os lugares, entende que tal boa obra foi praticada para ele mesmo, segundo o contrato pressuposto, e se torna o único responsável pela retribuição merecida. É a partir dessas impressões que vamos estudar Mateus como um documento que emerge daquele complexo mundo de judaísmos em formação no Mundo Mediterrâneo.
A seguir veremos com detalhes a mais econômica das instruções práticas deste bloco textual, a que se refere à caridade/esmola (6.2-4). A escolha, é claro, se deve ao caráter marcantemente econômico dessa instrução, e esta primeira leitura servirá de base para todas as demais que faremos nos capítulos subsequentes.