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Conforme Bauman, “as fontes da insegurança estão ocultas e não aparecem nos mapas, de modo que não podemos situá-las com precisão. Mas as ameaças, essas substâncias estranhas, são bem visíveis.”123 A ansiedade está seguramente no cerne dos conflitos entre suas diversas orientações. O relacionamento interpessoal, isento de ansiedade, estaria na contramão do sistema contemporâneo. A proposta do mercado não parece atender a necessidade real, pois cria e recria necessidades ilusórias.

Em sua definição de práxis pastoral Cassiano Floristan faz uso de termos que em seu sentido literal poderiam deixar de contemplar os relacionamentos interpessoais. Ele diz que “a ação pastoral é uma prática que atualiza a práxis de Jesus Cristo através da ação da igreja e dos cristãos.”124 Afirma também que a

teoria crítica é a autoconsciência de uma práxis.125 Ela deve ser então, reflexiva, teórica e crítica. O julgamento para ser correto teria que perguntar: “reflexiva em que sentido”? Social, emocional, teológico?

De certa forma o sentido do termo reflexiva, que define a práxis pastoral, remete a um sentido maior que sua área de concentração, se social, emocional ou teológica. O termo “reflexiva” teria relação com coerência, consistência e integralidade. Considerando este particular, poderia se aplicar a definição de Florestan na direção de uma práxis religiosa que não aceite interpessoalidade incoerente, inconsistente e não integrativa.

Uma práxis pastoral efetiva deveria também considerar a reflexão interpessoal. E para se obter êxito, deveria ponderar dois fatores fundamentais.

123 Zygmunt BAUMAN, Comunidade à busca por segurança no mundo atual, p. 130. 124 Cassiano FLORISTAN, Teologia prática : teoria y práxis de la acción pastoral, p.187. 125 Ibid., p. 177.

Primeiro, o discernimento de relações interpessoais, a influência pessoal que leva o outro a tomar decisões saudáveis ou nocivas a uma relação, o espaço e valor da harmonia como base para uma interpessoalidade produtiva e instrumentos para a superação de conflitos. E segundo, a pastoral ensinada deve ser experienciada por seus interlocutores. Qualquer ajuda que uma pastoral considere, deve ser vivida por quem a ensina. Isto valida a ajuda e reflete que o objetivo a ser alcançado na vida do outro é real e possível.

Se uma pessoa deseja estabelecer um ambiente moral e social saudável, a mesma deve iniciar por refletir sobre seus próprios relacionamentos com os outros. Refletir sobre sua história de vida e a maneira que suas decisões são tomadas no cotidiano. Entender o que é benéfico a ela e ao outro, assim como o que é prejudicial a ela e ao outro, bem como ao grupo a que pertence. Neste sentido o alvo desta construção interpessoal passa pelo viés da consciência interpessoal e pelo entendimento da dinâmica da intrapessoal.

Como afirma Morin, dissertando sobre o processo necessário para que haja compreensão: “A prática mental do auto-exame permanente é necessária, já que a compreensão de nossas fraquezas ou faltas é a via para a compreensão das do outro. Se descobrirmos que somos todos seres falíveis, então podemos descobrir que todos necessitamos de mútua compreensão.”126

Morin ainda fala de duas compreensões, uma intelectual objetiva, e a outra humana. A compreensão intelectual requer explicação e inteligibilidade, a humana requer conhecimento de sujeito a sujeito. Compreender inclui necessariamente um processo de empatia, de identificação e de projeção. É o colocar-se no lugar do outro e adquirir sua perspectiva.127

126 Edgard MORIN, Os sete saberes necessários à educação do futuro, p.100. 127 Ibid., p. 94.

De fato, a incompreensão de si é fonte muito importante da incompreensão do outro, esta, mascara nossas próprias incompreensões e fraquezas que nos tornam implacáveis com as carências e fraquezas do outro.128 É necessário conhecer a si mesmo para entender o que motiva as ações e reações, porém, é necessário também conhecer a respeito do ser humano em geral.

O entendimento dos níveis de compreensão interpessoal de Selman, pode levar alguém rapidamente a reconhecer estratégias de negociação e experiências compartilhadas quando um indivíduo está sendo impulsivo, unilateral ou cooperativo. Pode-se identificar em que nível a pessoa estacionou e identificar as causas da não utilização do nível em que está. Pode perceber os caminhos do seu raciocínio, o que passa pela compreensão do outro, o que o desequilibra, o que gera conflitos e o que propicia artifícios adequados para agir na busca do equilíbrio.129 Em todas essas situações geralmente serão encontrados fatores associados a experiências passadas e produtores de ansiedade.

Esta valorização do conhecimento no processo da interpessoalidade considera o discernimento advindo dele, como princípio pastoral importante no contexto cristão. Ou seja, se faz necessário entender esta dinâmica relacional para discerni-la e julgá-la adequadamente. Desta forma, se expressa à importância do conhecimento interpessoal, sem o qual o discernimento será errado ou não acontecerá.

Este conhecimento passa a ser algo importante e necessário em qualquer área da vida, especialmente na vida cristã. O apóstolo João, em seu livro cita que é por meio do conhecimento que se obtém a libertação, “e conhecereis a verdade e a

128 Edgard MORIN, Os sete saberes necessários à educação do futuro, p.97.

verdade vos libertará”...130 O primeiro passo para qualquer mudança interpessoal

deve passar pela linha do conhecimento, ele antecede a conscientização e a prática de qualquer ação.

O conhecimento em si, ou em seu sentido literal é essencialmente teórico, acessa ao cognitivo e pode não afetar em nada na direção a mudanças de condutas ou atitudes. Por esta razão também o diferenciamos da sabedoria, ou seja, conhecer algo não significa que de fato isto foi aprendido, é o exercício do que foi ensinado que define a assimilação, e, se de fato o conhecimento faz diferença.

Podemos chamar de sabedoria, o exercício do conhecimento de forma madura, ou seja, o ensino que exerce influência e transformação efetiva. Também podemos considerar como mero conhecimento, aquilo que não é exercido na prática. Tendo este conhecimento em mãos, um indivíduo estará capacitado a mediar os conflitos em seu cotidiano de forma pedagógica. Aproveitando a situação para intervir, quando necessário, no sentido de desafiar o outro através de sua conduta reflexiva e galgar em direção a níveis mais elevados de relacionamentos interpessoais, nos quais, o equilíbrio e a harmonia possam substituir o lugar da tensão e da ansiedade. Desta forma se estará promovendo um ambiente de cooperação o qual estimula a interação entre as partes.

Porém, o conhecimento e a ciência acerca da dinâmica interpessoal são apenas um passo na direção de se adquirir ferramentas para atuar numa pastoral que facilite a resolução de conflitos e a diminuição da ansiedade.

130 Bíblia SAGRADA, versão revista e atualizada no Brasil, São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil,