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Para falar de atividade e da complexidade epistemológica da categoria trabalho, recorremos à metáfora utilizada pelo ergonomista François Daniellou, na introdução de seu livro A ergonomia em busca de seus princípios. O autor representa a história humana como um tecer, ou seja, a trama e a urdidura:

Em suas atividades de trabalho, homens e mulheres, no trabalho, tecem. A trama seriam os fios que os ligam a um processo técnico, a propriedades da matéria, a ferramentas ou a clientes, a políticas econômicas [...], a regras formais, ao controle de outras pessoas. No caso da urdira, ei-la ligada a sua própria história, a seu corpo que aprende e envelhece; a uma multidão de experiências de trabalho e de vida; os diversos grupos sociais que lhes oferecem saberes, valores, regras com os quais compõem dia após dia, aos próximos também fontes de energia e de preocupação, a projetos, desejos, angústias, sonhos [...] (DANIELLOU, 2004, p.2).

Deve-se entender que o primordial do trabalho pode estar na dialética entre a trama e a urdidura, auxiliando na reflexão a respeito do visível e do invisível do trabalho. A trama, o visível do trabalho, é aquilo que o trabalhador transforma e converte em memória: objetos, técnicas, o cotidiano, na busca de gerir a atividade. A trama é irracional e indiferente, uma vez que é criada pelos especialistas, e não pelos trabalhadores que realizam a atividade. A urdidura, o invisível do trabalho, são as vivências das técnicas, das normas, dos procedimentos escritos. Assim, é nesse tecer entre a trama e a urdidura que o trabalhador realiza arbitragens, na busca de soluções mais adequadas para dar conta do seu cotidiano de trabalho. Portanto, é nesse movimento da atividade que o trabalhador lança mão de sua criatividade e diz “faço do meu jeito”, conforme relatam as entrevistadas da pesquisa, para dar conta de seu cotidiano de trabalho.

Para o sujeito executar o seu trabalho, existe uma prescrição com objetivos, regras e procedimentos relacionados aos resultados desejados e como fazer para alcançá-los. A prescrição é fornecida pela sociedade, pelas organizações e pelo trabalhador e também por sua equipe de trabalho. A prescrição não é somente as orientações dadas pela empresa, mas também como os trabalhadores se mobilizam para realizar ou não o que está prescrito. O trabalho real representa a atividade realizada e também o que é avaliado hipoteticamente, retirado com pesar ou sofrimento, através do debate de normas sempre presente.

A atividade de trabalho “é sempre uma dramática do uso de si” (SCHWARTZ, 1998). Nessa dialética do uso de si, o trabalhador faz uso de si mesmo tendo em vista o que os outros lhe solicitam e do que ele próprio solicita, fazendo uso dos demais. Essa dinâmica expressa o coletivo de trabalho.

Ouso de si por si e uso de si pelos outros revela as dimensões de realização e de subjetividade, o trabalhador parcialmente se impõe normas, se autolegisla e recria saberes, valores e novas normas, comprometendo a gestão (SCHWARTZ apud SCHERER, 2009).

Portanto, entendemos ser complexo estabelecer competências adequadas para o trabalho, a exemplo do trabalho doméstico, em que o objeto é de significativa complexidade e o cotidiano de trabalho é difícil de padronizar. Isso ocorre em grande parte porque o processo de organizar e cuidar engloba uma união sempre singular entre sujeitos.

Nessa linhagem a perspectiva ergológica pode nos auxiliar na compreensão das dinâmicas das relações de trabalho e vida. Para tanto, recorremos aos aportes das normas antecedentes e renormatizações, em que as normas antecedentes são construções históricas e indicam valores. A Ergologia entende que a atividade não significa somente ação, mas também convocação permanente da subjetividade, sendo o imprevisto, o seu fio condutor, em que o trabalho e a técnica são utilizados para renormatizar o meio. Ou seja, a Ergologia procura descobrir em cada situação de atividade uma forma de renormatização, o que significa dizer que cada indivíduo no dia a dia de seu trabalho pode encontrar a si mesmo e perceber os demais colegas, não como meros executantes de uma instrução e de procedimentos, mas como indivíduos de um fazer singular, de uma renormalização (SCHWARTZ, 2000a, p.13).

Trabalhar, para a Ergologia, é atividade dos seres humanos, conectados no tempo e no espaço e que se dá no acontecendo da vida. As atividades são complexas e possuem uma dimensão enigmática. Dessa forma, a atividade de trabalho é a maneira como os trabalhadores se empenham na execução dos objetivos do trabalho, em um lugar e tempo fixados, utilizando-se dos meios colocados à sua disposição. Sendo assim, para manejar as variabilidades que surgem no seu cotidiano, o trabalhador se engaja por completo, a todo momento, com seu corpo biológico, inteligência, afetividade, psiquismo, sua história de vida e suas relações com os outros indivíduos. A Ergologia assume a hipótese de que é impossível que não exista atividade.

É necessário incorporar o pensamento da atividade humana a partir do acesso a valores, saberes e competências que são postos em ação na realização do trabalho num debate renovado entre normas antecedentes e ensaios de renormalizações através dos trabalhadores.

O trabalho é compreendido como unidade enigmática entre a atividade humana, as condições reais de realização e os resultados obtidos. As situações de trabalho resumem as marcas da história humana do trabalho, tendo em vista os conhecimentos processados, os sistemas produtivos, as tecnologias, os modelos organizacionais, os procedimentos

escolhidos, os valores de uso distinguidos e, como pano de fundo, as relações sociais que tecem e opõem os indivíduos entre si, portanto, toda atividade de trabalho contém saberes reunidos nas suas técnicas, instrumentos e dispositivos coletivos, bem como toda situação de trabalho está impregnada de normas da vida, de formas de exploração da natureza e dos homens uns pelos outros (SCHWARTZ apud CUNHA, 2010).

Parte-se do princípio de que o trabalho tem sempre uma dimensão do prescrito, portanto ele também apresenta uma dimensão histórica, repercutindo a uma prática do ‘uso de si’ realizada pelos trabalhadores, de acordo com suas próprias normas, valores e saberes. Assim, podemos mencionar a “produção e retrabalho dos saberes e valores presentes no trabalho prescrito em nível local” (CUNHA, 2010), tendo em vista as exigências inscritas nas posições heterogêneas das situações de trabalho.

Desde a existência da atividade humana há uma dimensão de ressingularização e histórica. Discutir o trabalho observando as diversas dimensões humanas no seu funcionamento é um desafio em termos de produção e conhecimentos, uma vez que os aspectos políticos, biológicos, psicológicos, socioculturais, econômicos e jurídicos devem ser considerados, bem como sua realidade no tempo e no espaço, pois o trabalho é sempre um exercício situado (CUNHA, 2010).

3 TRABALHO INFORMAL: O CONTEXTO DO EMPREGO DOMÉSTICO

As constantes transformações na lógica de acumulação capitalista estão atingindo profundamente o mundo do trabalho no capitalismo contemporâneo. O debate em torno de temas centrais como a perda ou não da centralidade do trabalho, bem como as análises dos reflexos da reestruturação produtiva e a influência das políticas neoliberais na organização do trabalho estão sendo cada vez mais alvo de pesquisas nas duas últimas décadas. Mas independente da questão a ser abordada, existe um consenso na literatura econômica com relação aos aspectos dessas transformações: o crescimento da informalidade no mercado de trabalho nas últimas décadas.

A informalidade apresenta-se como condição de uma parcela significativa da população brasileira, quando levamos em consideração a situação de desproteção social, no que diz respeito à cobertura da legislação trabalhista e previdenciária e à negociação coletiva. Esse fenômeno não pode ser compreendido sem considerarmos o processo histórico de desenvolvimento do mercado de trabalho brasileiro e as tendências recentes da estrutura produtiva e das relações de trabalho no Brasil.

O processo de industrialização, em que se construiu o mercado de trabalho brasileiro, evidenciou-se pelo desenvolvimento de uma estrutura produtiva constituída de setores que apresentam diferenciais de rendimento, produtividade e acesso às novas tecnologias, por um lado, e ampla oferta de mão de obra, por outro, o que resultou em diversas formas de ocupação, com diferentes níveis de qualificação, remuneração e acesso à proteção social (DEPARTAMENTO INTERSINDICAL DE ESTATÍSTICA E ESTUDOS SÓCIO- ECONÔMICOS, 2012a).

Os dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego – Sistema PED/DIEESE indicam que, atualmente, há um contingente significativo de trabalhadores regidos por relações salariais, que atinge 71,5% das ocupações salariais. Porém, o emprego protegido,que corresponde a 51,8% do total, convive com o emprego ilegal (11,4%)e o emprego

subcontratado (8,3%), ambos desprovidostotal ou parcialmentede proteção

social,consequência da legislação trabalhista e previdenciáriae/ou da negociação coletiva. Essa condição de ausência ou insuficiência de proteção social pode ser observada ainda nos trabalhadores que atuam em atividades que se inserem não diretamente no mercado de trabalho, compreendido como compra e venda de força de trabalho. Essa é a situação de um número de trabalhadores que se encontra no mercado de produtos e serviços de forma independente, são considerados trabalhadores por conta própria /autônomos.