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Os dados coletados durante o estudo foram investigados segundo análise de conteúdo de Bardin. As transcrições das entrevistas, consideradas dados principais, subsidiaram a análise do conteúdo e foram averiguadas, tendo como referência o método proposto por Bardin:

Um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando a obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens. (BARDIN, 1994, p. 42).

Para Bardin (1994), não existe uma receita para fazer análise de conteúdo, porém existem algumas referências que devem se adequar ao conteúdo que se pretende analisar e a exploração do material e tratamento dos resultados, uma vez que a pré-análise é uma fase que permite uma maior abertura, em que é realizada a leitura “flutuante” dos dados. Selecionam- se os documentos que serão analisados fazendo os devidos recortes do texto em unidades de registros por analogia, a partir dos critérios (semântico, sintático, dentre outros), estabelecendo as categorias de análise. O tratamento dos dados é realizado a partir da inferência do pesquisador, que interpreta os resultados, deduzindo as causas das situações.

A análise de conteúdo fundamenta-se em identificar a essência do sentido que compreende a interlocução, cuja presença represente alguma coisa para o objetivo analítico pretendido. Portanto, ela pode ser vista como um conjunto de procedimentos de análise que busca alcançar, através de procedimentos ordenados e concretos de especificação do conteúdo das mensagens, indicadores quantitativos e qualitativos que possibilitam a inferência de conhecimentos relacionados às condições de produção e recepção dessas mensagens.

Portanto, podemos inferir e entender as questões relacionadas à mudança de valores, atitudes, dentre outros, pelo conteúdo da comunicação em suas mais diversas maneiras de manifestação. Buscamos realizar uma análise do significado e do sentido que as diaristas atribuem ao trabalho e dos processos de autoidentificação a partir dele. A partir disso é que desenvolvemos categorias que possibilitaram uma compreensão dos usos de si e dos usos de si pelo outro nas trajetórias familiar e profissional.

Assim, o que fizemos foi encontrar um entendimento da relação que o sujeito mantém com o seu trabalho, ou seja, com o cotidiano de trabalho, com o significado que dele retira, a sua relação com seus empregadores e com as diversas dimensões da vida, isto é, relações e atividades fora do local de trabalho.

Bardin (1994) sugere um roteiro básico que se fundamenta em: preparação dos dados para análise, transcrição das narrativas obtidas, organização dos dados adquiridos a partir da definição antecipada das categorias, categorização dos dados a partir dos elementos os quais

se pretende analisar o conteúdo e análise de acordo com os núcleos temáticos ou categorias de análise1.

Todas as informações coletadas nas entrevistas foram ordenadas em categorias analíticas, observando a frequência dos enunciados constantes em cada uma das diferentes narrativas. Ao todo foram quatro categorias e dentro delas algumas subcategorias, como segue:

a) Aspectos da trajetória familiar e profissional: formação e origem familiar, as relações familiares e com os parceiros, a escolha profissional, o aprendizado e os saberes da profissional, o início da profissão e as perspectivas profissionais;

b) Organização do trabalho: cotidiano de trabalho, características de trabalho realizado, as regras e normas no trabalho, as obrigações e responsabilidades, a gestão da atividade e os saberes investidos, o planejamento do trabalho e as variabilidades no cotidiano de trabalho;

c) Servidão no trabalho: a cultura da servidão, as experiências de reconhecimento e as relações de servidão, humilhação e invisibilidade, as relações diarista x empregador e os valores sem dimensão; e

d) Saberes investidos na atividade: investimento do sujeito na atividade e a experiência investida no trabalho.

Foram entrevistadas seis mulheres, todas trabalhando atualmente como diaristas. A idade das entrevistadas variou entre 29 e 65 anos, sendo que duas estavam na faixa dos 29 anos e as demais com mais de 60 anos. Quanto ao estado civil, apenas uma era casada, duas eram viúvas e as demais solteiras. Todas as entrevistadas possuem filhos. Quanto ao nível de escolaridade, duas possuem o ensino médio, sendo que uma delas completou recentemente o EJA e as demais possuem curso primário.

O tempo de trabalho como diarista variou entre oito e mais de 30 anos, sendo que. estes anos foram intercalados, para algumas delas, com trabalho fixo em uma única residência com carteira assinada ou com trabalhos em outros setores.

Todas trabalham atualmente sem carteira assinada. Três das entrevistadas já recebem aposentadoria, mas continuam trabalhando para complementar a renda. Uma delas tem

1 Bardin (1994) destaca dois itens essenciais: a unidade de registro, que corresponde aos elementos alcançados através da decomposição dos elementos , e a unidade de contexto, querepresenta decomposição do texto; permite compreender o significado dos itens obtidos, colocando -os no seu contexto.

contribuído para o INSS como autônoma a fim de se aposentar nos próximos anos, e as demais, duas, não contribuem ao INSS, dizendo faltar muito tempo para se aposentarem, não se preocupando com isso.

Com relação à remuneração recebida, todas as entrevistadas declararam receber seus salários diariamente. O valor, na maioria das vezes, é negociado com o empregador, variando entre R$60,00 e R$80,00 mais o valor da passagem de ônibus. A média salarial recebida por mês é de R$950,00.

Para melhor compreender como acontece a relação dessas mulheres com o trabalho, num cotidiano marcado pelos usos de si e pela invisibilidade do seu trabalho, destacamos que o cotidiano de trabalho da diarista tem uma conotação negativa (limpar, cozinhar, arrumar, passar), visto que o resultado do seu trabalho não se constitui num produto concreto.

Mas não se trata apenas de conhecer o cotidiano de trabalho dessas mulheres, mas, antes, compreender como essas trabalhadoras articulam os saberes e valores no uso de si, desvelando as estratégias de visibilidade e as resistências para os enfrentamentos adotadas por elas no cotidiano do trabalho.

As questões que fundamentam este estudo não são os serviços domésticos propriamente, mas os aspectos da experiência enquanto “dramas de uso de si” incluídos no modus operandi no cotidiano de trabalho, nas estratégias de gestão dos próprios interesses, nos sentidos e significados atribuídos ao trabalho e nas formas de sentir e pensar a vida e o trabalho, ou seja, como o trabalho da diarista mobiliza quem dele se ocupa.

Para melhor compreender a discussão do problema aqui proposto, estruturamos o trabalho em cinco diferentes etapas.

No segundo capítulo intitulado “Gestão dos usos de si no espaço tripolar”, aprofundamos a discussão dos conceitos da démarche ergológica, tais como usos de si, atividade, normas, valores e vida, na busca de uma melhor compreensão do trabalho como atividade humana. Promovemos uma discussão a partir dos conceitos de dispositivos de três polos, relacionando o polo do mercado informal, conforme definido no esquema tripolar de Schwartz. Essa descrição se estabelece tendo em vista a classificação por parte da economia informal. Já no capítulo 3 “Trabalho informal: o contexto do emprego doméstico”, buscamos compreender o conceito de trabalho informal no Brasil, sua evolução e as particularidades do setor informal e o trabalho doméstico remunerado. Nesse capítulo o leitor poderá compreender como o trabalho da diarista é realizado no espaço privado produzindo valores de uso e valores de mercado. O capítulo 4, intitulado “Trabalho doméstico: alguns estudos de referência”, apresentamos alguns estudos (clássicos e também contemporâneos) que nos

auxiliaram a compreender as características do trabalho doméstico remunerado, na busca de aproximar ainda mais a trabalhadora diarista como sujeito das relações de trabalho e a experiência dos “usos de si”, sujeito na produção de saberes e valores no trabalho, mesmo que em dimensões ínfimas e invisíveis, fortalecendo o nosso propósito de investigação. Além disso, destacamos por quais teorias em relação ao estigma, trabalho sujo, reconhecimentoem que esta pesquisa se fudamenta. Portanto, identificamos elementos analíticos que me permitiram compreender algumas características encontradas no contexto das trabalhadoras domésticas diaristas. No capítulo 5“Trabalho doméstico raízes históricas e atualidade”, investigamos a história do trabalho doméstico no Brasil, a contribuição dos estudos feministas para o trabalho doméstico remunerado. Analisamos quantitativamente o contexto do trabalho doméstico remunerado do Brasil e da Região Metropolitana de Belo Horizonte, através dosdados disponibilizados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad). A partir de dados quantitativos, apresentamos a contextualização desta categoria profissional na busca de um melhor entendimento das variabilidades que estão associadas a ela. Tratamos também da discussão jurídica com relação ao trabalho doméstico remunerado da aprovação da Proposta de Emenda Constitucional nº 66, a chamada PEC das Domésticas. Por último, no capítulo 6, nomeado “Usos diários de si no dia a dia do trabalho doméstico”, para demonstrar o trabalho da diarista como lugar de servidão, de invisibilidade e da falta de reconhecimento, analisamos as narrativas a partir das categorias apontadas. Nossa preocupação no momento foi a de apresentar a relação do trabalho doméstico com a servidão, o motivo da permanência na profissão, as condições e organização do trabalho e as relações de trabalho nos dias atuais. Destacamos o polo político como lugar de produção das normas e suas limitações, e a ausência de uma regulamentação legal para a categoria de trabalho e o polo da atividade, espaço de excelência na busca de evidenciar os três polos, lugar onde o enigma do trabalho acontece e declara sua dimensão gestionária, o que, para Schwartz, dá sentido à História da humanidade.

2 GESTÃO DOS USOS DE SI NO ESPAÇO TRIPOLAR

Considerando que esta pesquisa procura abordar a relação dos indivíduos com o trabalho, a partir das narrativas dos trabalhadores, e acreditando que o trabalho não é um evento com início e fim determinados, específicos de uma ação orientada apenas pela razão, mas que compreende um indivíduo de corpo e espírito que atravessa o imposto e o desejado, o individual e o coletivo (SCHWARTZ, 2008), escolhemos a abordagem ergológica como referencial teórico desta pesquisa.

A abordagem ergológica desenvolve um cenário favorável para agregar aportes de diversas disciplinas que debatem o trabalho e desenvolvem uma abordagem transdisciplinar, resgatando o trabalho em toda a sua complexidade e levando em consideração a sua realização como matéria para a interlocução entre as diversas disciplinas. O conceito de “dramáticas de usos de si” na vida e no trabalho nos permite compreender que a atividade integra as diversas dimensões do indivíduo, propiciando compreender o trabalho como atividade exclusivamente humana e transformadora.

Schwartz propõe, a partir da abordagem ergológica, uma análise dialética do todo e do singular, que impõe unir permanentemente o micro e o macro, a partir do momento em que indica para o fato de que toda atividade de trabalho faz escolhas, debates de normas e, dessa forma, há encontros de valores em que a história é fundada: “não é a grande história que sobrevoa a vida modesta das pessoas que trabalham: os níveis microscópico e macroscópico da vida social se interpenetram” (SCHWARTZ; DURRIVE, 2007, p.65).

Nem sempre a estruturação do Direito e das instituições seguem essas transformações, o que causa uma espécie de divergência entre o contexto sócio-político-cultural, o mundo do trabalho e a teoria do Direito (OLIVEIRA; ALVAREZ; BRITO, 2013, p.3). Podemos verificar a situação dos trabalhos informais e a precarização do trabalho, com a redução das representações sindicais como espaço representativo de reivindicação de direitos. Mesmo nessa circunstância, supostamente obscura, ainda existe uma participação do trabalhador que atua como operador na interlocução entre o que acontece na esfera socioeconômica- macroscópica e na esfera singular-microscópica. Admitir a dialética micro e macro nos induz a descobrir o valor dos sujeitos, uma vez que se verifica a dimensão gestionária do trabalho. O que nos faz conceber esse lugar de interlocução como um espaço tripolar.

Neste capítulo apresentaremos os principais conceitos utilizados e articulados da démarche ergológica, tais como usos de si, atividade, normas, valores e vida, termos que são particulares da Ergologia, para compreensão do trabalho como atividade humana.